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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


31.01.23

Abraço-me a este rio ensonado,

Olho as montanhas do teu olhar,

Sento-me neste socalco abandonado…

À espera de que a lua me venha resgatar,

 

E se a lua me levar,

Deito fora a tristeza

E todo o silêncio do mar,

Abraço-me a este rio de enorme beleza,

 

E cruzo os braços no meu silenciar,

Acendo este cigarro invisível e inventado…

Que o meu corpo vai matar,

 

E se eu morrer nos lábios deste cigarro assassino,

Deste maldito cigarro envenenado,

Peço a Deus o perdão… que perdoe este pobre menino.

 

 

 

 

Alijó, 31/01/2023

Francisco Luís Fontinha


16.01.20

A fragilidade do corpo embrulhada no sono,


O cansaço das palavras, inertes, mortas,


Nas páginas sonâmbulas da tristeza,


O vento chora,


Traz a chuva,


Vai embora.


 


Todo o silêncio é pouco,


Quando os farrapos da saudade,


Envelhecem na escuridão,


 


A metáfora,


O sorriso das plantas,


Junto ao mar,


 


E inventam-se rosas em papel,


Comestíveis, às vezes, quando a fome é invisível,


Descendo o rio,


Saltando a ponte metálica,


Em direcção ao Sol,


Em direcção ao abismo.


 


Não quero pertencer a este conflito de interesses,


Caixas em cartão,


Revoltadas contra a geada,


A chuva, miudinha, perde-se na calçada.


E, no entanto,


Estou aqui,


Esperando o regresso das lâminas lágrimas,


Como se fossem balas de raiva, contra as paredes de xisto.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16/01/2020


10.06.17

No desastre dos meus braços naufraga uma barcaça imperfeita,


Um número esquisito suspenso na ardósia da tarde,


O mar está calmo, meu amor,


Tão calmo que podia suicidar-me nele sem ser percebido pelos seus lábios,


Dormir até à próxima maré de solidão que se enrola no meu corpo,


Um ninho de pássaros nunca visto por mim


Vive no meu jardim,


Cantam, brincam… e cagam todo o pavimento…


Mas gosto deles como gosto do teu sorriso na mácula presença de “Deus”,


Um abraço, o desenlace florido dos canteiros, sabes, meu amor, amanhã não haverá flores nos teus cabelos,


E a Madame sem nome entre gritos histéricos ao pôr-do-sol…


 


Salva-me, salva-me meu amor deste cansaço provisório que escreve nas minhas mãos os “poemas perdidos”, os poemas que ninguém lê e não gosta.


No desastre dos meus braços naufraga uma barcaça imperfeita,


E não saberei se estarás cá quando eu partir,


Detesto despedidas, meu amor, junto ao Tejo…


 


O cheiro dos barcos.


 


O perfume das gaivotas em revolta,


Que dormem junto à minha janela,


Quando nos espelhos do corredor acordam os esqueletos do sofrimento,


As estrelas são o teu olhar camuflado na escuridão da feira da vaidade,


Remeto-me ao silêncio, sabes meus amor, os jardins debruçam-se nas tuas coxas de xisto, e do rio regressa a ti a hipnotizante palavra do “Adeus” …


 


O cheiro dos barcos.


 


Junto ao tejo, meu amor… junto ao tejo…


 


O feitiço da Madame sem nome.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 10 de Junho de 2017


11.04.17

O dia vai longo, meu amor,


É quase noite e vejo-me enrodilhado de palavras órfãs que se masturbam junto à paragem do eléctrico,


Dos poucos livros que me restam apena o “fugitivo” ficou a acompanhar-me,


Dizem todos que sou louco, meu amor,


Porque gosto mais de brincar com as palavras do que jogar futebol na areia da parai, onde em criança, esquecia-me das tardes no Mussulo,


O destino vingou, das minhas mãos deixou de haver areia húmida e pedrinhas… que deitava escrupulosamente para um balde em plástico e depois enchia os bolsos de recordações,


O teu olhar, meu amor, na ausência das pálpebras incendiadas pela escuridão,


Ao longe um comboio recheado de crianças e palavras,


Barulhentas, brincalhonas como são as árvores no Outono, diariamente sinto no corpo o dardo envenenado dos teus lábios, quando sei perfeitamente que o amanhã não existirá mais…


Hoje pertenço-te…, hoje pertenço-te e pertenço-me, somos dois catetos galgando as tristes paredes de xisto da tua boca, vim de longe, segredei-te sem perceberes que eu te mentia, nem à hipotenusa consegues chegar… quanto mais a cateto…


Ou a triângulo rectângulo…


O dia vai longo, meu amor,


É quase noite nos meus olhos, e lá fora uma velha cancela geme, os pregos enferrujados, as ripas entrelaçadas num emaranhado de sombras regressadas do Além…


Roço-me no teu corpo e morro.


Abraço-te.


Sem dizer ou escrever que te amo…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Abril de 2017


16.03.17

Saboreei a paixão convexa do desejo
Percorri os caminhos esconderijos do sofrimento
Como os livros que escrevi
E os que não quero escrever…
Saltei a ponte do esquecimento
Num voo frenético nunca antes alcançado
Em direcção ao mar
Em direcção ao abismo
Senti no corpo o peso do amanhecer
Senti nas mãos a enxada da vergonha
Descendo socalcos
Saltando montanhas desenhadas…
E as palavras
As palavras do sono inventando pálpebras de xisto
Como se inventam os rios
Quando cai a noite sobre a escuridão.


Francisco Luís Fontinha
16/03/17

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