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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


16.01.20

A fragilidade do corpo embrulhada no sono,


O cansaço das palavras, inertes, mortas,


Nas páginas sonâmbulas da tristeza,


O vento chora,


Traz a chuva,


Vai embora.


 


Todo o silêncio é pouco,


Quando os farrapos da saudade,


Envelhecem na escuridão,


 


A metáfora,


O sorriso das plantas,


Junto ao mar,


 


E inventam-se rosas em papel,


Comestíveis, às vezes, quando a fome é invisível,


Descendo o rio,


Saltando a ponte metálica,


Em direcção ao Sol,


Em direcção ao abismo.


 


Não quero pertencer a este conflito de interesses,


Caixas em cartão,


Revoltadas contra a geada,


A chuva, miudinha, perde-se na calçada.


E, no entanto,


Estou aqui,


Esperando o regresso das lâminas lágrimas,


Como se fossem balas de raiva, contra as paredes de xisto.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16/01/2020


10.06.17

No desastre dos meus braços naufraga uma barcaça imperfeita,


Um número esquisito suspenso na ardósia da tarde,


O mar está calmo, meu amor,


Tão calmo que podia suicidar-me nele sem ser percebido pelos seus lábios,


Dormir até à próxima maré de solidão que se enrola no meu corpo,


Um ninho de pássaros nunca visto por mim


Vive no meu jardim,


Cantam, brincam… e cagam todo o pavimento…


Mas gosto deles como gosto do teu sorriso na mácula presença de “Deus”,


Um abraço, o desenlace florido dos canteiros, sabes, meu amor, amanhã não haverá flores nos teus cabelos,


E a Madame sem nome entre gritos histéricos ao pôr-do-sol…


 


Salva-me, salva-me meu amor deste cansaço provisório que escreve nas minhas mãos os “poemas perdidos”, os poemas que ninguém lê e não gosta.


No desastre dos meus braços naufraga uma barcaça imperfeita,


E não saberei se estarás cá quando eu partir,


Detesto despedidas, meu amor, junto ao Tejo…


 


O cheiro dos barcos.


 


O perfume das gaivotas em revolta,


Que dormem junto à minha janela,


Quando nos espelhos do corredor acordam os esqueletos do sofrimento,


As estrelas são o teu olhar camuflado na escuridão da feira da vaidade,


Remeto-me ao silêncio, sabes meus amor, os jardins debruçam-se nas tuas coxas de xisto, e do rio regressa a ti a hipnotizante palavra do “Adeus” …


 


O cheiro dos barcos.


 


Junto ao tejo, meu amor… junto ao tejo…


 


O feitiço da Madame sem nome.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 10 de Junho de 2017


11.04.17

O dia vai longo, meu amor,


É quase noite e vejo-me enrodilhado de palavras órfãs que se masturbam junto à paragem do eléctrico,


Dos poucos livros que me restam apena o “fugitivo” ficou a acompanhar-me,


Dizem todos que sou louco, meu amor,


Porque gosto mais de brincar com as palavras do que jogar futebol na areia da parai, onde em criança, esquecia-me das tardes no Mussulo,


O destino vingou, das minhas mãos deixou de haver areia húmida e pedrinhas… que deitava escrupulosamente para um balde em plástico e depois enchia os bolsos de recordações,


O teu olhar, meu amor, na ausência das pálpebras incendiadas pela escuridão,


Ao longe um comboio recheado de crianças e palavras,


Barulhentas, brincalhonas como são as árvores no Outono, diariamente sinto no corpo o dardo envenenado dos teus lábios, quando sei perfeitamente que o amanhã não existirá mais…


Hoje pertenço-te…, hoje pertenço-te e pertenço-me, somos dois catetos galgando as tristes paredes de xisto da tua boca, vim de longe, segredei-te sem perceberes que eu te mentia, nem à hipotenusa consegues chegar… quanto mais a cateto…


Ou a triângulo rectângulo…


O dia vai longo, meu amor,


É quase noite nos meus olhos, e lá fora uma velha cancela geme, os pregos enferrujados, as ripas entrelaçadas num emaranhado de sombras regressadas do Além…


Roço-me no teu corpo e morro.


Abraço-te.


Sem dizer ou escrever que te amo…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Abril de 2017


16.03.17

Saboreei a paixão convexa do desejo
Percorri os caminhos esconderijos do sofrimento
Como os livros que escrevi
E os que não quero escrever…
Saltei a ponte do esquecimento
Num voo frenético nunca antes alcançado
Em direcção ao mar
Em direcção ao abismo
Senti no corpo o peso do amanhecer
Senti nas mãos a enxada da vergonha
Descendo socalcos
Saltando montanhas desenhadas…
E as palavras
As palavras do sono inventando pálpebras de xisto
Como se inventam os rios
Quando cai a noite sobre a escuridão.


Francisco Luís Fontinha
16/03/17


30.07.16

As pedras


Onde nos sentamos e descansamos


Onde alicerçamos as mãos


E escrevamos


As palavras de sofrer…


 


As pedras


Do xisto madrugar


Que o príncipe depois de se deitar


Sonha com as pedras de amar,


 


As pedras


De ler…


 


As pedras de morrer


Sufocadas pelos beijos


As pedras


Meu amor


Dançando desejos


Nas janelas de acordar,


 


As pedras


De fumar


Nas searas cansadas pelos vento…


Não sentindo o mar


Nas pedras do pensamento,


 


(As pedras


Onde nos sentamos e descansamos


Onde alicerçamos as mãos


E escrevamos


As palavras de sofrer…)


 


Das pedras do saber…


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 30 de Julho de 2016


04.06.15

Invento desenhos


Nas paredes negras do sonho,


Acorrento o sono aos socalcos inanimados da minha vida,


Procuro a cidade prometida,


E apenas encontro lápides em xisto


E ruas esverdeadas


Com sabor a lágrimas,


Invento desenhos


Nas paredes cinzentas dos teus lábios,


Escrevo palavras na tua pele artificial


Enquanto ainda há luar


E estrelas no céu para pintar,


 


Depois,


Olho-me no espelho da solidão,


Sou feliz sem ninguém…


Porque as pessoas à minha volta,


Irritam-me,


E sinto saudades do meu velho cão,


Sempre sorridente,


Sempre… em silêncio,


Olhava-me


E percebia nele as palavras que te escrevo,


Porque ele,


Nada me perguntava,


 


Apenas me olhava


E nada mais do que isso,


 


E nada mais do que isso…


 


Apenas me amava sem o saber.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 4 de Junho de 2015


20.03.15

Esta casa em alvorada sinfonia


o som das palavras contra os cubos de xisto


que habitam as montanhas da insónia


o sono


em suspenso


GREVE


hoje


em alvorada sinfonia


esta casa


velha


desabitada


triste e cansada...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 20 de Março de 2015


08.03.15

Não consigo encontrar os alicerces do dia


das crateras da tua voz oiço o salivar ciúme da solidão


viver dentro de uma caixa em cartão


e a noite desaparece na carlinga do beijo


descem sobre os teus ombros os rochedos da paixão


as palavras emigram como sementes de vento


contra as ruínas do teu peito


ausente


as pessoas


os dias


as viagens sem regresso


na ponte metálica das marés de vidro


 


há na tua voz um círculo de luz


que vagueia entre o luar


e a sofrida canção da madrugada


o xisto poisa na tua mão


como se ele fosse uma rosa embalsamada


folhear os joelhos dos livros enganados


o rio em suicídio contra a montra do sofrimento


e dos teus seios


oiço...


o salivar ciúme da solidão


na cárcere


doido


 


perdi-me neste emaranhado complexo de equações


sem solução


o quadriculado papel em chamas


ardente dos lábios em fuga


e não suporto as lâminas de aço do medo


perdi-me


doido


na cárcere das ardósias clandestinas e vaidosas da tarde


a tarde...


é tarde meu amor


é tarde


quando adormeço nos teus braços.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 8 de Março de 2015


20.12.14



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


O peso do sono quando a noite se suicida no olhar das palavras,


a metáfora inventada


que as imagens alicerçam à construção da fantasia,


regressar... nunca,


o peso do sono suspenso nos oiros plátanos da ínfima melancolia,


o sono morre como morrem as ervas daninhas das minhas veias,


em silêncio,


o peso do sono voando sobre as esplanadas de vidro,


o cansaço das fotografias entre quatro paredes de xisto,


cintilam as calamidades do infinito orgasmo de papel...


e ninguém percebe que na tua mão...


que na tua mão habitam os finíssimos cabelos do poema,


o corpo vacila no pêndulo da saudade como um círculo de luz,


esquecido nas masmorras da infância,


o peso do sono mensurável nas avenidas acabadas de projectar,


sem automóveis para conversar,


pessoas,


sombras...


casas em sonolência despedida,


eu,


transeunte iluminado pelos vapores de iodo,


mergulhado em vulcões de alegria


e... e alguns pedaços de fogo,


e o peso do sono em constante tortura... quando me visto de noite inseminada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 20 de Dezembro de 2014



14.12.14



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


Sinto as tuas finíssimas lâminas de agonia


sobre os meus ombros de xisto


tenho nos versos a enxada do silêncio


e no peito a espada do cansaço


sinto as tuas lágrimas de estanho


descendo a calçada


como uma fotografia


morta


rasgada


e a noite constrói-se no teu cabelo


sempre que um relógio engasgado


adormece no pulso da insónia,


não existem imagens nas minhas mãos


tenho medo da cidade depois de se erguer a madrugada


sinto as tuas finíssimas lâminas de agonia


sinto as tuas lágrimas de estanho


nesta triste parede embriagada


pelo medo


pelo tédio...


morta


rasgada


uma algibeira sem nome


perdida na estrada


sem nome... esquecida na perpétua estátua da liberdade.


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 14 de Dezembro de 2014


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