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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


21.04.16

A voz silenciosa da montanha


Montanha envergonhada


No luar.


A voz alicerçada dos mártires que o vento leva


Leva o assobio melódico da Primavera apaixonada


Nos rochedos de chorar.


Cansada.


A voz esconde-se na planície do amanhecer


Amanhecer largando a esperança


Na cidade embriagada.


A voz do meu corpo camuflado pelas roseiras


Roseiras de rosas amarelas à nascença


A voz… a voz triste da alvorada.


Cansada.


A voz silenciosa da montanha


Montanha meu leito


Que regressa à noite a chorar.


A voz maltratada pela floração do meu jardim


Jardim onde habito sem jeito


E espero pelo mar.


Cansada.


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 21 de Abril de 2016


25.12.14

Sinto-me um rouxinol sem voz,


uma árvore camuflada de silêncio


à procura da madrugada,


 


sinto-me um caixote de vidro


colorido


com mil sorrisos...


que só a noite sabe construir,


 


Sinto-me a canção abandonada,


a canção de amor,


sinto-me um rouxinol sem voz,


desanimado,


triste,


não amado,


 


sinto-me a página de um livro rasgado,


a seta que feriu o teu coração,


o arco,


a flecha...


sinto-me... sinto-me um barco sem estória.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quinta-feira, 25 de Dezembro de 2014


29.06.14

A tua voz me entristece,


quando sei que deixou de existir em mim o verbo amar,


a minha cidade, lá longe, tão longe... que nunca a conseguirei alcançar,


dormir nela,


acordar cedo, e abrir a janela,


a janela que tenho no meu peito,


há gaivotas, e há um corpo que envelhece,


a tua voz... a tua voz me enlouquece,


e no entanto, sou obrigado a viver acorrentado a este silêncio sem nome,


a esta vergonha de perder sem ser encontrado,


... não sendo habitado,


nesta sanzala de papel...


 


Este esqueleto de gesso que carrego e me deito,


sem perceber que há lábios de mel, que há lábios de desejo..., lábios consumidos pela fogueira de beijar,


esta voz me entristece,


como a água do rio que se evapora,


e levita,


e procuro-te, e procuro-te...


e me dizem... aqui ninguém mora,


aqui... aqui ninguém... chora,


 


Aqui é proibida a escrita,


 


Os tentáculos do amor,


os seios de uma flor antes de acordar,


as cordas de nylon que ancoram a tua dor...


ao cais de embarcar,


 


A tua voz me entristece,


o teu corpo vacila na tempestade de sonhar,


o calendário não cessa de correr...


e come-te em pedacinhos,


a tua voz enfraquece,


e transforma-se em versos desesperados,


versos odiados,


versos de escrever...


a tua voz me entristece,


antes de alguém desenhar no tecto das tuas pálpebras a madrugada,


ainda não zarparam os barcos da minha infância,


ainda... ainda não encontrado o verbo “AMAR”...


 


A tua voz não pode gritar!


 


A tua voz é um feitiço,


uma nuvem vagueando sobre o Tejo,


a tua voz é um marinheiro mórbido, um marinheiro embriagado na esplanada do beijo...


há cadeiras apaixonadas, há sorrisos travestidos de amanhecer,


a tua voz não pode cessar, a tua voz... não pode morrer,


a tua voz... não é o meu verbo “AMAR”...


que... que deixou de ser,


que... que deixou de sofrer...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 29 de Junho de 2014


05.10.11

Qualquer coisa de estranho na minha voz


Quando alicerço os meus olhos nos malmequeres


Que dormem junto ao cais


 


Qualquer coisa esquisita na minha mão


Um cansaço silencioso


Dentro do meu peito


Quando a coisa estranha da minha voz


Sobe ao cume da montanha


E o rio desce ruidosamente


E ninguém o a apanha


E sem jeito


Abraça-se ao mar


 


E nas estrelas um sorriso de gente


Lábios de menina nas gaivotas de amar…


Enrodilham-se os malmequeres que adormecem junto ao cais


Nos versos entalados no luar


A menina esconde-se nos lençóis de relva fresca da manhã


E dos versos acordam as silabas embebidas na maré


 


Baixo os braços


E cerro hermeticamente


Os lábios da noite


E funde-se um protão


Dentro do meu peito


E o meu corpo fica escuridão


Um buraco negro mergulhado nos malmequeres junto ao cais


Os que dormem


E sonham


E amam todos os pássaros do céu.


11.05.11

A voz poética e inspiradora, e quando ele triste, ouve incessantemente esta música, e adormece embrulhado nas palavras, agarradinho aos sons melódicos… e espera a chegada da manhã.


Sobre a mesa-de-cabeceira ele guarda os óculos que o ajudam na procura das palavras quando estas vêem até à janela e da janela voam até ao espelho pendurado numa parede triste, numa parede feia, numa parede velha, esta música ajuda-o na viagem até às galáxias mais distantes e fora do nosso universo, deus sentado no fim de tarde, juntinho ao cais, à espera das ondas que vêem de longe e vão para longe, levam bálsamos lábias no esquecimento da sombra das árvores que gemem no mostrador de um relógio de pulso,


- Ai que frio,


Balançam na tarde em termino e sacodem os pássaros irritantes que poisam nas suas costas, choram, tremem na incandescência dos minutos perdidos com uma conversa perfeitamente estúpida, perfeitamente sem nexo,


- Que importa se deus criou ou não o universo?


Ai que frio.


A voz poética e inspiradora, e quando ele triste, ouve incessantemente esta música, e adormece embrulhado nas palavras, beija-as no silêncio da noite e o som entranha-se dentro dele, e das palavras crescem flores, e nas nuvens um poema despe-se, sorri e juntamente com as palavras olham deus sentado junto ao cais…


 


 


 


(texto de ficção sobre a música, Simple Words - Fingertips)


Luís Fontinha


11 de Maio de 2011


Alijó


(http://youtu.be/1fsyeauLv7Q)

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