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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


18.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Poderia perceber a tua ausência, e mesmo assim, acredito nas planícies do teu olhar mergulhado em espuma e corações amarrotados, que vivem, que fingem viver dentro de algibeiras com janelas de porcelana, opacas, tristes muralhas para que me seja proibido


Olhares-me,


Habito num castelo sem escadas, muros, flechas com ponta de aço, e nem gaivotas me visitam, amo e sei que sou amada, choro e percebo que sou chorada, desejo e sei que sou desejada, e das tristes muralhas para que me seja proibido sonhar, oiço as tuas palavras contra os cortinados de vento, rodopiando em redor do meu corpo, suspenso, levitando como uma espada de aço no peito de um soldado,


Olhar-te e perceber que já não és tu, olhar-te e perceber que deixaste de pertencer aos uivos gritos das sandália plastificadas, sonolentas, olhar-te e perceber que eu não sou eu


Deixas-te de existir, vives não sabendo viver, comes, bebes, e esperas o regresso do mar que nunca ninguém nos garantiu que existia, que ninguém dos nossos presente garante ter visto, e no entanto, esperamos, temos esperança que desçam das sílabas mórbidas das flores comestíveis...


Olhares-me


Apareçam os tão desejados muros com alicerces de prata, o xisto revestido e desenhado como se de um vestido se tratasse, e os pássaros, esses imbecis... comem às mãos das costureiras que travestem agulhas e dedais antes de cair a noite


Sobre mim?


Olhar-te... cansa-me!


Beijares-me?


“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto


De mim?


Não, não... chegava-me apenas a tua sombras disforme, envenenada pelos espelhos das montanhas adormecidas, na tela misturam-se cores abstractas, imagens fotográficas voam sobre um velho rio com cabelo branco, um planeta poderia chamar-se de “Uva Moscatel” e o meu próximo negócio vai ser precisamente vender lotes de terreno na Lua, assim


De mim?


Ou então


Melhor ainda,


Melhor de que lotes de terreno na Lua? Não, Não consigo deslumbrar...


Podias vender garrafas com o ar de Trás-os-montes,


Melhor ainda,


Podias vender garrafas com o ar do Douro Vinhateiro,


“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto


De mim?


De ti e das tintas acrílicas para preencher as imagens a preto-e-branco das fotografias que suicidam árvores antes de cair a noite e de se evaporar a tarde, na Feira da Ladra?


Saem três garrafas de ar de “Trás-os-Montes”,


Com certeza, minha adorada senhora, é para já... deseja factura?


Não?


Olhar-te e perceber que já não és tu, olhar-te e perceber que deixaste de pertencer aos uivos gritos das sandália plastificadas, sonolentas, olhar-te e perceber que eu não sou eu, olhares-me e entenderes que sou, fui, e serei


Esquelético?


Não, não minha querida,


Às vezes sinto-me uma mesa de uma sala de jantar, à minha volta, imensos parvalhões sentados em cadeiras forradas a pele de crocodilo, apetecia-me prender-lhes as pernas com uma corda e atirá-los pela janela, ouvia-os caírem sobre os rochedos da madrugada, partia-se uma das garrafas com ar do “Douro Vinhateiro” e


Quanto custa?


São vinte e cinco euros, vinte e cinco deslumbrantes euros, e se o desejarem


Autografadas?


Claro, não problema...


“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto


De mim?


De ti?


Claro, não problema...


 


 


(Ficção – Não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013



05.04.12

Desejo-me de barco em barco


De rocha em rocha


Desejo-me sobre a copa de uma árvore


Onde me prende uma mesa de madeira


Sobre a mesa de madeira caldo de cebola


E trigo de Favaios


Desejo-me dentro do Porto


Vinho que dá vida


Que do porto nada tem


E no douro cresce nas mãos calejadas de homens e mulheres


De rocha em rocha


De barco em barco


Desejo-me quando me aprisiona o espelho da vida


E dispo-me sobre a mesa de um bar


(já o fiz


E voltarei a fazê-lo)


Alguns de vós dizem


Coitadinho do louco


Que fumou de tudo um pouco


Coitadinho


Desempregado


Desamado


Desgraçadinho


Desejo-me sobre a copa de uma árvore


De rocha em rocha


De calhau em calhau


Desço até ao pavimento as calças esmiuçadas


Que dançam sobre a mesa de um bar


Sem lareira sem literatura


Apenas um bar com muitas gajas


E um copo de silêncio sobre o balcão


Coitadinho


Do menino


Sem tino.


30.09.11

Aqui pelo Douro os socalcos começam a descer até ao rio,


O cigarro debruçado no peitoril da janela e ao longe o latir de um canino, os risquinhos dos taludes sobressaem das margens e as palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio,


Das silabas de uva acorda a saliva do amanhecer e a manhã em pedacinhos de árvore que balança contra os desejos do sol,


O rio segura com mãos trémulas os socalcos envenenados por fios de luz, o parvo do meu irmão cisma que se subir até à copa de uma oliveira consegue acariciar as estrelas e a minha mãe acredita que a noite é uma mentira e que não existe, o parvo do meu irmão a sorrir,


- Vês consigo tocar as estrelas,


O parvo do meu irmão sentado na despensa do céu à espera que a minha mãe o chame para almoçar,


- Mãe o que é o almoço?


A minha mãe responde-lhe que não sabe,


O parvo do meu irmão sorri dentro da despensa do céu, eu ergo a cabeça e mal consigo ver o parvo do meu irmão, começou a diminuir e parece uma abelha à procura das nuvens,


Uma abelha que saboreia a doçura dos baguinhos de uva quase a adormecerem junto ao rio e a minha mãe que o almoço é caldo de cebola, broa de centeio e sardinha assada,


- Agora lembro-me o que é o almoço Caldo de cebola, broa de centeio e sardinha assada,


E o parvo do meu irmão começa a descer da oliveira vagarosamente e aos poucos ergue-se do corpo de abelha ainda com os lábios embebidos no açúcar,


E fica crescido e homem,


- Francisco vem almoçar, aqui pelo Douro os socalcos começam a descer até ao rio, a minha mãe responde-lhe que não sabe,


E eu pergunto-me porquê Porquê mãe,


- Francisco vem almoçar,


E quando ela me trata por Francisco sei que tenho o caldo entornado,


Sempre assim,


Desde que nasci,


Francisco para as ocasiões muito especiais,


Francisco quando me porto mal, e vejo o meu triciclo no quintal de Luanda às voltas da perna da mangueira,


- Olá menino,


O parvalhão do meu irmão que brinca na sombra do avô Domingos e sobre o portão de entrada os socalcos começam a descer até ao rio, o caracol da CP despede-se do fim de tarde e ao longe o latir de um canino, os risquinhos dos taludes sobressaem das margens e as palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio, e o rio segura com mãos trémulas os socalcos envenenados por fios de luz,


- Olá menino,


Sempre assim,


Desde que nasci,


As palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio…


 


(texto de ficção)


23.08.11

Há os socalcos do Douro


E os socalcos da vida


Há a manhã a acordar


Dentro de um corpo em despedida


 


Numa mão a mendigar


Há os socalcos do Douro


Nos socalcos da vida


Uma rua sem saída


 


Uma videira a chorar…


Há os socalcos do Douro


E um rio que corre para o mar


Um vinho feito de ouro


 


Um vinho de encantar


Há os socalcos do Douro


E os socalcos da vida


Num rabelo a passear…


17.06.11

As amarras que me prendem aos socalcos do Douro


E o meu corpo em silêncio


Afunda-se no rio


Como um pássaro martirizado no fim de tarde,


 


O xisto entranha-se nas fendas das minhas mãos


A secura nos lábios onde se escondem cigarros


E projectam a minha sombra na neblina,


Do meu peito uma voz esquisita


 


Trémula como a luz que as videiras absorvem


Espalha-se nos cachos em crescimento,


O meu corpo funde-se e fica líquido


 


Misturado com o vinho do Porto,


E nas amarras de tungsténio


Poisa a tua mão que me vai libertar…


 


 


Luís Fontinha


17 de Junho de 2011


Alijó


10.06.11

Alice embrulhava-se nos socalcos virados para o rio, o Pedro que começava a gatinhar dentro de uma grade de madeira, e no tornozelo um cordel para não se perder no xisto incandescente das manhãs de verão, olhava a paisagem, e com os dedinhos fazia desenhos nas folhas verdejantes das videiras, sussurrava em soluços, que merda de vida vai ser a minha,


 


- Os meus avós desgastaram os ossos nos socalcos do douro, os meus pais, fotocópias dos meus avós, e eu porra?


 


No bolso Alice transportava uma côdea de pão, duro como cornos, e o Pedro sonhava com refeições à beira mar, peixinho grelhado, marisco, lambia os lábios com dois dedos de conversa, e de vez em quando acenava com as mãozinhas aos barcos que subiam o rio, e as fotografias dos turistas começavam a poisar-se-lhe nos ombros tenros como ramos de oliveira, o comboio em sorrisos para o Pinhão, e notava-se no chilrear dos carris que ele já cansado,


 


- Que merda de vida vai ser a minha, focinho na terra, erguer-me à quatro da madrugada, os anos a passarem, nas mãos os calos da enxada, pesadíssima como chumbo, um casebre miserável e uma ninhada de filhos,


 


E fome. E a fome pendurada na chaminé da casa de Alice, mãe solteira, um filho de cada enxada calejada nos dias de inverno, e na noite, na noite ausentavam-se para as terras de Espanha, sempre se ganha alguma coisa, conferenciava António, e a enxada desaparecia da vida de Alice, ficando apenas os rebentos de angústia para alimentar.


 


Olhava a paisagem, e com os dedinhos fazia desenhos nas folhas verdejantes das videiras, no chão o xisto misturado com as fendas parecendo gargantas à procura de água, do corpo o suor que em pedacinhos de nada mergulhava-se-lhe na roupa e o pó pintava-lhe o cabelo de loiro, malditos socalcos, malditas pedras, Alice emagrecia com a rotação dos dias, e do Pedro apenas pequenos choros,


 


- Os meus filhos fotocópias dos meus bisavós,


 


Do Pedro apenas pequenos choros, do Pedro lágrimas; as lágrimas do vinho.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


10 de Junho de 2011


Alijó

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