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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


02.10.15

Meu amor,


Quando os teus seios dormem suspensos nos socalcos do Douro


E o Rio se perde na última curva do anoitecer,


Invento-te,


Escrevo-te…


Faço-o sem o saber,


Ou querer…


Sentir em mim as tuas mãos de xisto lacrimejante,


Sentir em mim os teus lábios de uva mendigando os meus lábios de luar…


Meu amor,


Quando o teu olhar se esconde no Pôr-do-sol,


E uma gaivota alicerça-se ao meu peito,


Sinto o teu perfume vaiado sobrevoando todos os cadeados do teu corpo…


Ai… ai meu amor,


Este sol,


Este Rio…


E estes barcos em papel,


Inventando sorrisos nas lâminas da paixão.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 2 de Outubro de 2015


21.07.15

A velha estrada em direcção à morte,


Os plátanos das tuas pálpebras,


Cansados,


Tristes,


Revoltados de tanta geada


E tempestades de noite,


Inventas o sono


Nas paredes escuras do sofrimento,


Dormes,


Habitas neste cubículo como se fosses uma sombra envenenada pelo silêncio,


Lá fora,


Pássaros à tua espera,


E da velha estrada


Chegam a ti os Oceanos de prata


Que ofuscam o teu olhar,


Um soldado perde-se nas margens do Tejo,


O caderno acorrentado à mão


Vagueia sobre os cinzentos espelhos da dor,


E todas as palavras voam sobre os esqueletos de papel


Que brincam no teu peito,


A janela do teu quarto encerrada,


A porta dos vinhedos descendo o Douro,


Também ela…


Encerrada,


Não há um número nos seus braços,


Incógnitas manhãs sobre um lençol de linho,


As flores queixam-se da tua alegria,


Cessou,


Como cessaram as pontes para a outra margem…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 21 de Julho de 2015


03.01.15



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


estas mãos se cruzam no Oceano tua pele


mergulhando nas tuas pálpebras de madrugada


estas mãos te amam


e acariciam


nas tardes envenenadas pelo desejo


estas mãos de ninguém


com todos os cheiros da sanzala


estas mãos de ninguém


com todos os sons do amanhecer


que só o perfume de uma rosa consegue desenhar


e... e escrever


nas sombras do mar


estas mãos se cruzam no Oceano tua pele


que o barco do meu amor suavemente desliza...


como todas as palavras soltas


como todos os vinhedos suspensos no sorriso de uma enxada


estas mãos te amam


e acariciam


estas mãos de ninguém


que o tempo come


e despoja as suas cinzas no cemitério nocturno das gaivotas sem nome...


estas mãos


estas mãos se cruzam


quando todas as luzes se apagam e todos os corpos morrem...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 3 de Janeiro de 2015



03.12.14

Inventei-te numa noite de solidão,


escrevi o teu nome fictício numa muralha de xisto


que a tempestade tombou,


havia no teu olhar socalcos cansados


e vinhedos sombreados


de... paixão...


 


Havia na tua mão


uma carta por escrever,


e lá dentro...


um beijo,


um beijo desenhado no meu sorriso


com lágrimas de sofrer,


 


Inventei-te numa noite de solidão,


abri os cortinados e olhámos as estrelas de papel crepe...


havia luar nos teus cabelos


e neblina cinzenta nas tuas pálpebras de adormecidos rochedos,


e quando me abraçaste... a cidade morreu,


como morreram todas as cidades onde habitámos,


 


hoje, somos dois esqueletos vadios...


vagueando pela embriagada poesia de um louco,


dois pássaros sem árvores para poisar...


hoje, somos dois esqueletos vadios... sem Oceano para navegar,


e esperamos,


impacientemente que acorde a madrugada.


 


(e hoje... nada me apetece escrever...)


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014


07.07.11

A podridão da chuva nas tardes de domingo,


Automóveis que circulam na azia do almoço quando do estômago se levanta o cansaço da digestão, o peixe pregado à parede da casa sorri como ventoinhas abraçadas aos círculos das horas, o vinho a granel saltita de mesa em mesa, o taberneiro de cigarro suspenso nos lábios enrolado nos pêlos invisíveis da barba semeada numa tarde de vento, a gordura peganhosa das mãos salientes como pincéis calcinados na tela do relento, cospe para o chão, mergulha os dentes em bolos de bacalhau e sandes de presunto, ovos cozidos que salpicam latas de atum, e no pavimento as beatas de cigarro deixadas pelos marinheiros, o peixe do rio assado uma delícia, recordo-me eu da tarde que sentado à mesa não percebia o boneco de barro sobre o balcão e pintado de palavras,


- Queres fiado toma,


O rádio engasgado no terço da tarde, “Ave-Maria, cheia de graça, o senhor é convosco”, e confirma que foi o senhor que roubou os perus do meu quintal, sim excelência fui eu, respondo-lhe pausadamente, “Pai nosso que estais no céu”, condeno-o a três meses de trabalhos forçados e em seis meses sem contacto com livros ou a possibilidade de escrever, está bem assim?, perguntam-me, e eu respondo que sim, que posso eu responder, o boneco de barro olha-me ,


- Abre o olho pá, sussurra-me o taberneiro enquanto me debato com as espinhas do peixe,


Seis meses sem livros?, Seis meses sem escrever?,


- Que alivio para nós, os leitores do meu blog,


Eu em luta de pinguins com as rodelas de cebola, furo-lhes os olhos com o garfo inclinado, o braço que segura o garfo em rotação, a rodela de cebola em círculos concêntricos, e pimba contra as teias de aranha do soalho do primeiro andar,


- Queres fiado toma,


Desisto,


Não sou capaz, não sou capaz de olhar as rodelas de cebola, o cheiro revolta-se-me no estômago e vomito pedacinhos de letras, a diarreia de vogais e as sílabas em esguicho do nariz embriagado,


Caio para o lado, tombo da cadeira e estatelo-me no soalho nauseabundo de saliva, a podridão da chuva nas tardes de domingo, e quando acordo eu sentado no cimo de uma montanha, e ao fundo, ao fundo bem lá longe, o Douro curvilíneo a contornar os socalcos.

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