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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.07.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Esquilos, nozes em vozes, mamilos denegridos, absortos, lábios lânguidos, corpos absolutamente sós, como eles, e como nós, os vizinhos quando lhe batiam à porta em maciça madeira, ele, ainda embriagado pela poesia não escrita, escondia-se, fazia-se... morria, não percebendo depois, que tudo era a fingir, acordava, voltava a dormir, deixou de sorrir, deixou de viver, não queria passear-se pelas cansadas margens de um doente rio, vivia-se, e ia-se vivendo, não sabendo, nunca, o horário penumbro das amendoeiras em flor,


Descia-se,


Subia-se,


E chorava-se,


Esquilos vaidosos roendo nozes de brincar, fantasia, histórias ao almoçar, sobre uma pequena mesa, de pedra, no quintal, uma árvore e um pássaro, preto, bico amarelo,


Melro?


Melro, talvez, porque não?


Inchados, os pilares de areia que seguram as amarras das tristes varandas com murchas flores, ao longe, a praia, o silêncio, o corredio de machimbombos vomitando sonhos adormecidos entre o Baleizão e o Mussulo, batiam-me à maciça madeira porta, eu, eu escondia-me, ou simplesmente berrava


Não estou em casa, hoje,


E eles, elas, acreditavam..., tão parvos, e continuava fingindo dormir, quando na verdade, eu, eu estava morto, desde criança, morri, recordo-me vagamente, tinha alguns poucos, não muitos, seis anos de vida, lembro-me como se fosse hoje, era Setembro, brevemente começavam as vindimas


O que são vindimas, pai?


É o apanhar das uvas...


Uvas, o que vão uvas, pai?


Não percebia que as videiras


Pai, sim filho, o que são videiras?


Não percebia que as videiras davam uvas, que existiam cachos, e lembro-me como se fosse hoje, era Setembro, quase, quase começavam as vindimas, e lembro-me, morri, depois, embrulharam-me num lençol de água salgada, permaneci assim cerca de vinte e oito dias, era Outubro, caiam as folhas das árvores, e eu, eu perguntava-me porque caiam as folhas das árvores,


O que são vindimas, pai?


É o apanhar das uvas...


Uvas, o que vão uvas, pai?


Não percebia que as videiras


Pai, sim filho, o que são videiras?


E pela primeira e última vez, eu, eu tive vergonha de perguntar ao meu pai


Pai, porque caem as folhas das árvores?


Eu tive vergonha de perguntar ao meu pai se esta terra era para sempre ou apenas para eu brincar, e começaram as chuvas, e o frio, a geada e a neve, e eu, eu morto, fui ficando, fui ficando... embrulhado num lençol de água salgada.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó



29.09.11

Oiço a voz cansada do fim de tarde


Nas entranhas dos socalcos mastigados


Oiço o levitar agitado da manhã


Enquanto me sento e levanto


 


E corro entre o xisto magoado


Prendo-me ao monitor do computador


E da janela oiço a voz cansada do João


Do Manuel do Zé do Carlos e das nuvens em solidão…


 


E do António agarrado a uma flor


Sonâmbulo sobre quatro rodas do trator


Oiço oiço o Manuel a gritar…


- Doze e dezoito


 


Impossível penso eu


Deve ser das ondas do mar


Olho o céu


E oiço o Manuel a cantar


 


Enrolado nos braços do Rui


Oiço as pedras sobre o pôr-do-sol


E o Manuel a ateimar


- Doze e dezoito


 


Impossível de dar


Não há uva que resista


A tanto chorar…


 


Cerro a janela


E desligo-me do douro adormecido


Deixo a uva bela


Na cuba a fermentar


E amanhã do meu corpo dorido


Vão crescer sonhos de sonhar…


 


E oiço oiço um cão a ladrar


Na paisagem ente o rio e a montanha


Socalcos mastigados


Na garganta de uma aranha


 


Oiço a voz cansada do fim de tarde


Nas entranhas dos socalcos mastigados


 


E das lâmpadas do céu-da-boca


Acordam os meus lábios apaixonados…

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