Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


26.11.22

Escondo-me nos ossos frios do meu corpo

Que vivem entre silêncios e poeira.

As janelas que transporto desde a infância

Fecham-se na minha mão.

 

Escondo-me nestes pobres ossos

Que a noite bebe

Que eu bebo

Até que a morte nos separe.

 

Revolta-se a paixão dos meus pássaros em papel

Revoltam-se os pássaros tristes que a manhã esconde

Dentro da algibeira onde se esconde a insónia

Gritam

E revoltam-se

Erguem-se até às nuvens

Que transportam as pequenas gotículas que poisam na tua pele

A insónia traz as palavras encurraladas pela tempestade

E enquanto me escondo nos ossos frios do meu corpo

Invento as pedras onde me sento.

 

Neste rio morro

Neste rio lavo os meus ossos

E a minha vida é um aborto na penumbra da manhã.

Visto este casaco de chapa zincada

Que o secreto silêncio faz de mim um coitadinho

Um pobrezinho camuflado nas estrelas nocturnos do desejo.

 

Escondo-me das estrelas

Escondo-me da lua

Escondo-me da poesia

Que semeio ao meio-dia.

 

E sento-me nesta carícia desejada

Uma fome em carícia

Um pequeno cadáver deitado na lama.

 

Um dia

O amor vai ouvir as minhas palavras

Vai olhar os meus desenhos

E vai pensar o quão louco fui

Porque amei

Porque chorei

Porque morri

E me escondo nos ossos frios do meu corpo.

 

Tão triste

Quando me olho no espelho

E vejo no meu peito

A imagem do meu pai

E vejo no meu peito

O silêncio da minha mãe.

 

Tão tristes

As palavras de ninguém que escrevo na minha mão

Torno-me invisível

Transparente

E desapareço debaixo do luar.

 

Serei um vagabundo

Porque detesto ver televisão?

Serei um vagabundo

Porque detesto futebol?

 

Serei um vagabundo

Por gostar de ouvir poesia

Enquanto a noite se suicida dentro de mim?

 

E os meus ossos?

E enquanto bebo uísque

E fumo merdas

Escondo-me no frio e triste silêncio do meu corpo.

 

Converso com os peixes

Que desenhei em criança.

 

No meu casaco de chapa zincada

Telhado da sanzala onde brinco

As portas se fecham na penumbra dos cinzentos olhos

E este meu cadáver se despede do teu poema

Que dorme nos teus lábios.

 

Olho todos estes quadros

Olho-os e penso como destruí-los

Quero ser o assassino dos meus quadros

Quero ser o assassino de todos os meus papeis

De todas as minhas palavras.

 

Escondo-me nos ossos frios do meu corpo

Que vivem entre silêncios e poeira.

 

Levem-me.

 

Escondo-me nos ossos

Frios

Do meu corpo.

 

Escondo-me na sombra das árvores do meu jardim

Deixei de comer

Detesto comer

Prefiro ouvir poesia

Fumar

E beber.

 

Detesto comer.

 

Neste momento

Oiço o vento

Apenas me apetece comer poesia

Beber os uivos gritos do teu clitóris.

 

Os meus versos são uma merda

Os meus quadros

Merda são

No fundo

Um pedaço de esperma de merda do meu pai

Fecundou um óvulo de merda da minha mãe;

Assim, nasci eu.

 

O eterno artista de merda

Da merda

E da fome.

 

Roubaram-me a noite.

 

(Escondo-me nos ossos frios do meu corpo

Que vivem entre silêncios e poeira.

As janelas que transporto desde a infância

Fecham-se na minha mão)

 

Roubaram-me tudo.

 

Até as lágrimas me roubaram.

 

Se algum dia me visitarem

Tragam-me os retractos que deixei na minha secretária

Veleiro dos meus sonhos

Nos meus sonhos

Os teus sonhos.

 

Pequena manhã do meu inferno

Floresta que assombra o meu passado

E enquanto Deus me abandona

Uma flor de esperança sobe a calçada

Liberta-me

E oferece-me as espingardas que disparam beijos e sonhos.

 

Para que eu quero beijos e sonhos…

 

Sento-me e pego nestas brasas de silêncio

Ai se o meu filho estivesse junto a mim…

 

Enquanto morro.

 

Ele morto.

 

Poemas sem destino

Colmeias de abelhas dentro do meu quarto

Invento o inferno

Do inferno de escrever

No inferno que é viver

Ser louco

Entre loucos

Naquele esconderijo.

 

Um dia voarei sobre o teu corpo

Que se aproxima dos ventos imaginários da tua boca

Serei louco

Beijar-te

E cruzar os braços enquanto me morro em ti.

 

Que trazes na mão, pequena?

 

Trazes lágrimas

Ou sonhos?

 

E tudo arde

Enquanto toco com a minha mão

O Céu…

 

Este inferno

Destes meus pobres ossos

Enquanto me escondo

No meu corpo doente.

 

Bebo e fumo merdas

E penso em ti

Enquanto os meus ossos

São poemas

São palavras envenenadas das tristes noites de insónia.

 

E assim dorme a noite no meu peito.

 

Um milímetro quadrado da tua pele

Nos meus lábios…

 

Em mim

Uma pequena estátua de sono que te deseja.

 

 

 

 

 

Alijó, 26/11/2022

Francisco Luís Fontinha


18.11.22

Há-de chegar a tua máscara

Com o nome do meu corpo

Há-de chegar à tua boca

A minha máscara

Com o meu nome.

 

Há-de chegar

à minha boca

Os meus lábios

As minhas palavras

Há-de chegar o Inverno.

 

Há-de chegar o poema

Um corpo vestido de poema

Em poema

O teu corpo silenciado pela minha boca

Sem espaço o vento que te ergue atá à lua.

 

Há-de chegar ao meu corpo

O teu poema

Do meu corpo

Há-de chegar

O suicídio das palavras em poema.

 

Há-de chegar a tua máscara

Com o meu nome

No meu corpo

A abelha que transportas na mão

Há-de chegar a chuva.

 

 

 

 

 

Alijó, 18/11/2022

Francisco Luís Fontinha


16.11.22

Deixei de sentir

Este corpo que me transporta

Já não sou nada

Deixei de sentir a melodia das palavras

Deixei de comer

 

E de olhar as madrugadas

Deixei de viver

Debaixo deste velho cacimbo

De palmeiras invisíveis

E de mares angustiados

 

Deixei de olhar estas velhas fotografias

De ossos

E de rostos envenenados pelo silêncio

Deixei de sentir

Sentir as cores da madrugada

 

Deixei de perceber

O segredo das pedras cinzentas

Deixei de me olhar

Quando este espelho de insónia

É a saudade que lamentas

 

Deixei de beber estas lágrimas que dormem na fogueira

Quando este poema que me assassina

Brinca nesta pobre lareira

Deixei de sentir

Sentir este corpo que me transporta

 

 

Alijó, 16/11/2022

Francisco Luís Fontinha


13.11.22

Olhas-me

Olhas-me pendurado nesse eterno silêncio

Como se eu fosse uma janela virada para a noite

Sabendo nós

Que a noite é apenas um cortinado embrulhado na timidez da alvorada

 

Olhas-me

Enquanto do outro lado de mim

Uma lâmina de ossos atravessa-me o peito

E as palavras que te escrevo

Morrem quando se esconde o sol nos teus olhos de amêndoa

 

Mesmo assim

Olhas-me nesse imenso Oceano de escuridão

Olhas-me

E sentas-te nos meus olhos invisíveis

Que transportam a luz neste enorme acelerador de partículas

 

A que chamam vida

Olhas-me

E incendeia-me quando lanças sobre mim

As primeiras chuvas da manhã

Sem que percebas que choro

 

E olhas-me

Olhas-me

Enquanto estou suspenso nesse inanimado pedaço de parede

Quando podíamos ser um barco

Perdidos em alto-mar

 

 

 

 

Alijó, 13/11/2022

Francisco Luís Fontinha


01.11.22

Escrevo-te nesta folha em branco,

Triste, frágil e só,

Nesta folha de onde oiço as tuas lágrimas,

Desta folha onde crescem as palavras…

Escrevo-te, enquanto o sol sorri

 

E a lua não cessa de chorar.

Escrevo-te nesta pobre folha em papel cansado,

Nesta folha lapidada pelo silêncio da madrugada,

Escrevo-te, sabendo que no teu peito de menina

Dormem as flores das noites de insónia,

 

E brincam todas as pedras cinzentas da alvorada.

Escrevo-te, enquanto as sanzalas da minha infância

Ardem nas mãos de um louco,

Enquanto as sanzalas da minha infância são apenas

A saudade de um menino suspenso nos calcões de uma tarde de chuva.

 

Escrevo, nesta frágil folha,

Escrevo-te sabendo que jamais irás ler estas rasuradas palavras

Que deixei morrer junto ao mar;

E junto ao mar

Acredito que ressuscitarás,

 

Como um qualquer Jesus Cristo.

Escrevo-te, hoje, porque apenas tinha esta pobre folha

Que andava esquecida na minha algibeira,

Nesta pobre algibeira

Onde dormem os cigarros que me irão matar.

 

 

 

Alijó, 1/11/2022

Francisco Luís Fontinha


23.10.22

Sou um artista de merda

E não desfazendo em ninguém

Um poeta atolado na merda

Fui um filho de merda

Um pai de merda

 

E sou um grande filho da puta de merda

Para os meus irmãos

No entanto

Sou um gajo muito feliz

De merda

 

Fui um amante de merda

Escrevedor de cartas nas horas vagas

Fui picheleiro

Ainda não fui barbeiro

Mas talvez um dia

 

Seja um barbeiro de merda

Como fui um pedreiro

De merda

Conceituado

Diplomado

 

Fui cantoneiro

Fui ferrador

Fui motorista de madrugadas

Todas elas

Madrugadas de merda

 

Fui puta

Fui controle remoto

Televisão

Caixote de mercadorias

Fui tudo em merda

 

Da merda da minha vida

Fui mercadoria em transacção

Maconha

Pão

E sou agora este alegre caixão

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

23/10/2022


18.10.22

Procuro nos teus lábios

As cerejas da Primavera,

Procuro no teu olhar

As palavras da Primavera,

E o que seria de mim…

Sem as cerejas,

Sem as palavras,

Da Primavera.

Procuro em ti

Todos os silêncios da Primavera,

Das andorinhas da Primavera

Roubo os teus lábios,

Roubo os teus olhos

Que apenas a Primavera…

Sabe escrever sobre o mar.

Tenho em ti,

Todos os pincelados desejos da Primavera…

E percebo que este mar que só habita na Primavera,

Procura incessantemente as tuas mãos,

Também elas, filhas da Primavera;

E enquanto procuro nos teus lábios

As cerejas da Primavera…

Vem a mim a alegria da Primavera,

E traz-me todas as palavras da Primavera.

 

 

Alijó, 18/10/2022

Francisco Luís Fontinha


17.10.22

Este longínquo silêncio a que chamam de mar e que poucos o olham enquanto este dorme dentro de um pequeno livro de poesia, o mar está revoltado (as palavras fluem e o poema cresce como crescem as algas dos teus cabelos), ouve-o e deita-te sobre ele, veneno da madrugada que aos poucos semeia nos teus lábios o beijo,

E nos lábios da maré habitam as primeiras nuvens da manhã, dos tristes barcos que brincam nos cadernos quadriculados da noite, e como sabes, nem todas as estrelas são em papel, e como sabes, nem todas as estrelas são estrelas,

E todos os beijos, são beijos?

Nem todos os beijos são beijos, nem todas as estrelas são em papel, mas o longínquo mar sabe que dos teus olhos saem todas as madrugadas as palavras que o poema ao longo do dia vai mastigando, depois a fome

Das palavras?

Do vento que transporta as palavras.

Um dia este mar há-de morrer. Deus queira que sim; oiço os apitos dos petroleiros que pé ante pé, um passo para a direita, outro, agora para a esquerda, masturbam-se na esplanada de um bar, o velho desenha shots de uísque na âncora tarde de Cais do Sodré, e sempre que chovia, uma puta de cigarro na mão suplicava por lume, que depois de cigarro aceso, em frente ao comboio para Belém, destroçava,

E sabíamos que o jantar era peixe no forno porque depois de sentados em volta da quadriculada mesa, nunca mais voltávamos a Belém, portanto, a última Ceia, peixe no forno com linguiça, batata assada, sumo de laranja e pão saloio,

Um cigarro de intervalo, da algibeira os tristes gemidos das ratazanas que sabíamos que habitavam dentro dos muros amarelos, mas que nunca tinham sido observadas, apenas sabíamos porque diziam que ouviram dizer…

Ontem, viste-as?

Às palavras?

Nas janelas as laranjas que sobejaram do desejo, e nas laranjas tínhamos sempre o maldito mar revoltado (as palavras fluem e o poema cresce como crescem as algas dos teus cabelos),

Viste-as?

Viste-os?

O perfume, tínhamos o perfume que um deles tinha palmado a um qualquer gajo na feiro do relógio,

Fotografia, amor?

Livro, moço, compre-me este livro…

Que raio, nunca tive sorte com as laranjas, e, no entanto, o perfume recordava-me uma sombra que deixei há muito tempo dentro de um pequena caixa de sapatos,

Ontem ou hoje?

Amanhã, amanhã o sol brilhará,

E a lua, meu amor?

Um barco que se afunda, um marinheiro que morre enquanto fuma o cachimbo e da corda suspensa no machimbombo, uma pequena lâmina de luz é lançada contra o pôr-do-sol, escrevem-me cartas

Pedaços de um livro.

Somos nuvens, somos sombras que cambaleiam na parada do inferno, o sol fazia com que o alcatrão se revoltasse contra nós e depois das chuvas, regressavam as laranjas que outrora tinham sido esquecidas numa qualquer janela de um qualquer sótão,

Suspenso nas frestas da paixão,

Um velho crucifixo que nos olhava.

Olhas-me porquê?

Enquanto o dia ainda não cresceu dentro de ti,

Somos,

E ontem tínhamos o vento que transporta as palavras; hoje só temos as fotografias das laranjas que alguém deixou ficar nas vidraças da noite,

No entanto,

O amor inventa nos teus olhos os poemas das estrelas de papel, e ontem tínhamos o vento, mas hoje, hoje temos este longínquo silêncio a que chamam de mar e que poucos o olham enquanto este dorme dentro de um pequeno livro de poesia…

 

 

Alijó, 17/10/2022

Francisco Luís Fontinha


17.10.22

Quando abres a janela

Do teu olhar,

E um lençol de lágrimas

Poisa na vidraça da manhã,

Não te apoquentes,

 

Há dias de chuva

Onde um lindo sol está a brilhar,

Há dias frios,

Dias quentes…

Quando abres a janela

 

Do teu olhar,

E num lindo dia de sol,

Trazes contigo as lágrimas

Que poisam na vidraça da manhã,

Lembra-te do mar…

 

Sempre em movimento,

Sempre acorrentado às marés…

e… amado por todos,

e sempre a sonhar.

E se um lençol de lágrimas

 

Poisa na vidraça da manhã,

Fica tranquilo, porque há sempre um poema

Na tua mão,

Um poema proibido,

Um poema de um lindo dia de sol…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

17/10/2022


10.10.22

Não tenho flores no meu jardim,

Não tenho árvores no meu jardim,

Só tenho pedras no meu jardim,

Só tenho palavras no meu jardim.

 

O meu jardim é um poejardim,

Tem cabeça,

Tem mãos,

E as ditas pedras

 

Que lanço contra as palavras,

As palavras que o meu jardim dá…

Também tenho no meu jardim lágrimas

E sombras envenenadas.

 

No meu poejardim,

Brincam crianças invisíveis, crianças mimadas,

Sentam-se fotografias prateadas…

Não tenho flores no meu jardim,

 

Mas tenho no meu jardim, almas penadas.

No meu triste poejardim,

Onde aprendi a chorar…

É sem dúvida um poejardim com janela para o mar.

 

 

Alijó, 10/10/2022

Francisco Luís Fontinha

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub