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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


05.02.23

Poiso os meus braços

Nos teus braços,

 

Viajo nos teus lábios,

Pequena flor da madrugada,

Enquanto as árvores do meu jardim

Brincam nos teus olhos de mar,

 

Beijo o teu corpo,

Acendo a lareira do teu desejo,

 

Viajo nos teus lábios,

Incêndio das nocturnas noites de luar,

Presépio impresso em papeis de areia…

Poiso os meus braços,

Nos teus doces braços,

E a manhã é um cortinado colorido

Sem tristeza,

Sem nuvens…

Sem alarido.

 

 

 

 

Alijó, 05/02/2023

Francisco Luís Fontinha


17.12.22

Não morras no meu corpo,

Não suportaria mais mortes no meu corpo,

Não morras enquanto o dia é dia,

Enquanto o dia é um tapete de sombra.

 

Não morras no meu corpo,

Porque a morte é uma viagem sem destino,

E acredita que não me apetece viajar…

 

E tão pouco sei o que é o destino.

 

Não me morras,

Não me morras como morreram as minhas árvores,

Os meus pássaros,

E todos os meus barcos,

Não me morras neste corpo em silêncio,

Que o granito que transporto nos ombros

É tão pesado,

Tão pesado…

Que mal consigo voar.

 

E se um dia morreres no meu corpo,

Avisa-me; para que eu saiba que vais morrer.

 

Não. Não morras no meu corpo.

 

 

 

 

 

Alijó, 17/12/2022

Francisco Luís Fontinha


29.03.20

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São horas.


Trago nos pulsos a terminante esperança de caminhar junto ao rio. As luzes das palavras são a caminhada para o futuro, já não tenho medo de caminhar, Paris é lindo, são os poetas, como eu, são os pintores, como eu e, os livros, como eu.


Também eu sou um livro, talvez a poesia tenha acordado em mim, já cá estava, sempre esteve, e agora, voltou a acordar. São horas são horas de caminhar em direcção ao caminho que sempre quis percorrer.


Tenho saudades, mãe, muitas saudades das tuas mãos, quando a colocavas no meu rosto, cinzento, fumegante dos cigarros envenenados e, o pai inventava lágrimas no meu olhar. As ruas estão recheadas de gente, bonita, nova, sempre a correr em direcção ao nada, com fome de escreverem na palma da mão o cansaço olhar da melancolia madrugada, já não tenho medo, mãe, já não tenho medo de amar, sorrir e, correr.


No entanto, às vezes, o poço que existia, deixou de existir, cansou-se de mim, morreu. Paris, mãe, Paris é linda, subi à torre Eiffel, quase que te encontrei, mas não estavas lá, ontem fui visitar uma igreja, coloquei uma vela por ti e pelo pai, sei que tu sabes que eu, o teu querido filho, não acredita em Deus, mas tu acreditas, mas o pai acredita, espero que gostes.


São 20:00 horas.


Comprei alguns livros, sobre o Louvre e sobre a cidade de Paris. Sabes, mãe, sou louco por livros, sabes, mãe, gosto de escrever, e escrevo-te deste sítio belo e encantado, todas as noites, e tu vais ajudar-me a vender os meus livros, os quadros e, no entanto, as palavras são o bálsamo da minha estória.


São 20:00 horas, a caneta expressa-se, vinga-se nas minhas mãos e, as palavras soltam-se como uma bala disparada por um canhão de espuma. Desenho-te no meu peito, escrevo-te, sinto as ruas desertas e não consigo adormecer com o silêncio das lâmpadas do desejo, oiço a voz das tristes alegrias e, por vezes, oiço a tempestade, e todos os livros dormem.


Que saudades do Pacheco. Meu querido Pacheco! Que saudades…


São horas. São horas de dormir, de comer, de passear em todos os caminhos, sempre em desespero de conseguir acompanhar o sofrimento da minha alma. Os pássaros, mãe, os pássaros que habitam na minha mão e, talvez estas palavras sejam o princípio de uma história, um velho poema amarrotado, um silêncio disperso na madrugada ou, nada.


Que saudades, meu querido Luiz Pacheco, que saudades das tuas palavras, palavras que absorvo com a saudade, com o medo, da noite, e é na noite que me perco nestas ruas esfomeadas de luz.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Paris, 07/03/2020


11.03.20

O tempo silencia os teus lábios de cereja adormecida,


Quando a nuvem da manhã,


Poisa docemente no teu sorriso;


Há palavras na tua boca,


Que absorvo com saudade,


E, nada me diz, que amanhã será uma manhã enfurecida pela tempestade.


Subo à sombra do teu olhar,


E, meu amor,


O cansaço da solidão deixou de acordar todas as manhãs.


Fumamos cigarros à janela,


Dentro de nós um volante de desejo,


Virado para a clarabóia entre muitas janelas,


Portas de entrada,


Escadas de acesso ao céu,


E, no entanto, o fumo alimenta-nos a saudade,


Porque lá longe,


Um barco de sofrimento, ruma em direcção ao mar.


É tarde,


A noite desce,


O holofote do silêncio, quase imparável, minúsculo, visto lá de cima,


Ruas, caminhos sem transeuntes, mendigos apressados,


Vagueando na memória.


STOP. O encarnado semáforo, cansado dos automóveis em fúria,


Correm apressadamente para Leste,


Nós, caminhamos para Oeste,


E, nunca percebemos as palavras que as gaivotas pronunciam,


Em voz baixa,


Com os filhos ao colo,


Sabes, meu amor?


Não.


Amanhã há palavras com mel para o almoço,


Dieta para o jantar,


E beijos ao pequeno-almoço;


Gostas?


Das nuvens da manhã?


Ou… dos pilares de areia que assombram a clarabóia?


Nunca percebi o silêncio quando passeia de mão dada com a ternura,


De uma tarde junto ao rio,


Ele, folheia um livro,


Ela, tira retractos aos pássaros,


E, porque te amo,


Também vagueio,


Junto ao rio,


Sem perceber o meu nome,


Que a noite me apelidou,


Depois do jantar,


Numa esplanada de gelo.


O ácido come-me, a mim, às palavras, como a Primavera,


Num pequeno quarto de hote,


Entre vidros,


Livros,


Palavras,


E, desenhos.


(aos depois)


Nada.


Brutal.


Os comprimidos ao pequeno-almoço.


Fim.


Amanhã, novo dia, nova morada, beijos,


Cansaços,


Abraços,


E, portas de entrada.


O amor é luz.


O amor são flores, árvores e, pássaros.


E pássaros disfarçados de beijos.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


11/03/2020


30.11.19

O sono traz o sonho.


O sonho, o meu, alimenta-se das teias de aranha da madrugada.


O sonho, encarcerado.


Menino.


Drogado.


O sono dentro de um cubo de vidro.


Quando o sonho, da parte de fora, fode o xisto cansado da viagem.


O sonho é um travesti.


Travestido de sono.


Deita-se na calçada.


Come cigarros de vento.


O sono é um veneno.


Como o sonho.


Um engano.


O sono traz o sonho.


O sonho, meu amigo, é o prazer das prostitutas em delírio…


Zangam-se.


Comem-se.


E nada faz querer que a noite tenha culpa da constipação dos proxenetas da alvorada.


O sono.


No sonho.


O relógio das pedras enamoradas.


Cansadas.


Das tuas garras.


O sonho encarcerado.


Dentro da casa abandonada.


Fria.


Cansada.


O sono é um filho da puta.


Às vezes, aparece.


Outras,


Muitas,


De mim se esquece.


Não o si.


Quando sonho, quando avida, se aquece.


O sonho, no sono, embriagada mulher.


A tristeza, do sono, quando o sonho, emagrece.


Pum. morre o sonho.


Morre a saudade.


De sonhar.


Da vaidade.


Da verdade.


De cansar.


O sonho.


O sono.


Dentro de quarto incompleto.


Entre lágrimas.


Entre linhas.


Entre ossos.


Esqueletos vendidos na feira.


O sonho.


O sono.


Não regressam além-fronteira.


Triste, aquele que sonha.


Alegre, aquele, que desiste.


De dormir.


De se vestir.


E resiste.


Ao temporal do sonho.


Não ao sonho.


Sim ao sono.


Sim ao sono.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


30/11/2019

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