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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.05.22

Dos beijos ensonados

Às sílabas envergonhadas,

Dos pássaros cansados

Às tristes madrugadas,

Dos montes mimados

Às tardes revoltadas…

Da triste saudade

À misera esperança sem nome;

Do vinho martelado

Às poucas cartas que enviei,

 

À verdade,

À fome,

Ao poema que assassinei…

Do meu corpo enforcado

Às lágrimas que chorei,

Do vento,

Da solidão

E de todo o sofrimento…

E de todo o pão.

À chuva miudinha de Luanda,

 

Aos cheiros do amanhecer,

À fogueira…

Às espingardas sem coração.

Ao samba,

Ao prazer,

Ao uísque a bebedeira

Quando a noite parece esquecer,

Quando a noite parece morrer…

E o poeta dos beijos ensonados

Acredita em versos de dizer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 03/05/2022


13.01.22

Deixei de escrever

Nos lábios da floresta.

Dos pássaros,

Regressam a mim

Os uivos apitos da saudade,

Como se eu fosse uma rocha indomável,

 

Disperso na manhã deserta das gaivotas.

Sei que há nas palavras

Verdadeiras equações de sono,

Versos invisíveis

Que durante a noite se transformam em sílabas,

No poema envenenado.

 

Deixei de escrever

Nos lábios amargos da floresta,

Os beijos nocturnos da insónia;

- Adoráveis submundos nas engrenagens da vida,

Ama-se. Mata-se.

Como se a vaidade fosse um pressuposto

 

Infinito do homem.

Ama-se e inverte-se a claridade lunar,

(e caso seja possível)

Ergue-se na humidade do silêncio,

Entre beijos

E abraços aprisionados.

 

Almoça o sono

Uma sanduiche de medo,

Na companhia dos beijos alicerçados à montanha do Adeus…

Ergue-se de mim e, deita-se na sombra tristeza da cidade,

Todos os automóveis e todas as rodas dentadas do passado,

Morrem de tédio; quantos aos pássaros,

 

Construídos em papel,

Dançam as cantigas desta triste caligrafia,

Que sublime e infinita,

Foge em direcção ao rio.

Deixei de escrever

Nos lábios da floresta,

 

E começo a guardar retractos de sombras,

Que a memória vai apagando,

Dia após dia,

Noite após noite;

E assim, vivo neste habitáculo de espuma,

Esperando que dos pássaros regressem a mim os uivos apitos da saudade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 13/01/2022


12.08.17

Palavras!


Enigmas suspensos na madrugada,


O farol avariado, os barcos cerram os olhos, e escondem-se na neblina,


Palavras a arder,


Palavras escritas no fogo da paixão,


Quando a saudade morre devagarinho…


Os poemas despem-se das palavras,


Os livros adormecem sem os poemas,


E o papel amarrotado da tua pele… sedução encantada,


Palavras!


Tristes versos abraçados a tristes noites de Verão,


Sentidos pêsames, a partida para o outro lado do Universo,


E as estrelas amarguradas em fuga para o Infinito,


Verbo,


Os latidos desorganizados dos teus gemidos… quando o rio se suicida nos rochedos,


Em transe,


A ausência delas quando eu sentado espero pela alegria,


Ressequida,


Mortas todas,


As pedras que te atiro…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12 de Agosto de 2017


16.12.14



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


há versos felizes


versos sem nome


há versos cansados


versos esfomeados quando cai a noite


há versos esqueléticos


que nem o corpo em decomposição sabe ler


versos com fome


versos vestidos de rio


cidade


e paixão


há versos desempregados


versos enlatados


(nesta cidade em combustão)


há versos conservados em papel sibilado


versos rasgados


versos…


(nesta cidade em combustão)


há versos felizes


versos sem nome


há versos cansados


que nem o tempo consegue apagar


versos de amar


revolta


versos travestidos de soldado


de espingarda na mão


à espera que se abra uma porta


às vezes sem saída


às vezes… versos em vão…


que só o vício desembrulha quando nasce a madrugada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014



01.11.14

Tristes versos


estes


barcos esfarrapados que se afundam nos teus olhos


carcaças de ossos


gente aos molhos...


tristes versos dos mendigos sem solução


habitantes de uma cidade em alvoroço


dia sem almoço


carcaças


ventos e marés em confusão


estes


versos


sem nome


estes


estes barcos enferrujados lapidando calçadas e transversais loucas


mulheres cansadas


mulheres acariciando a madrugada


tristes


versos


os corpos em migalhas


em direcção ao rio da amargura


tristes


tristes tardes de literatura


que alimentam os mendigos sem solução


estes


versos


e ossos


este vazio dentro do meu peito incendiado


embriagados livros cambaleando na atmosfera


os círculos do coração... em espera


estes nomes


versos


e crianças...


procurando as árvores da infância


tanto medo... meu Deus...


medo da esperança.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 1 de Novembro de 2014


11.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


As dízimas lâmpadas da paixão dançando nas ruas húmidas do silêncio,


um verso que chora, triste, adormece,


um verso cansado da noite, sonha, foge...


as dízimas lâmpadas..., sentem-se nos longínquos livros com desenhos para pintar,


e tu criança, e eu menino,


sós esperando o regresso da velha estrada...


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014



18.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


não oiço a tua voz desde que terminaram as manhãs de orvalho


abríamos a janela do sonho


e víamos as acrobacias tontas dos pássaros embriagados pelas nuvens de cerâmica encarnada


havia na nossa mão pedaços de desejo


beijos


e réstias dentadas no teu pescoço deliciosamente belo e doce


como as cerejas


não oiço a tua voz fotocopiada desde que percebi ser um ultraleve magoado


uma jangada envidraçada


uma porta mal fechada


não te oiço desde que tínhamos pequenos sons melódicos em vasos de cristal


e brincávamos como crianças à volta de uma lareira esfomeada


 


dizíamos que o Sol era nosso depois de fazermos amor debaixo do candeeiro abandonado


beijos


como as cerejas


os vidros


e as paredes


caquécticas


e às vezes


lá tínhamos de correr em direcção ao mar


 


versos ancorados


quando no cais de desembarque o murcho sexo do marinheiro escapulia-se pelas frestas da madrugada doentia


em cio


corríamos como loucos vestidos de versos


e palavras sobrepostas como posições de embarque


fodíamos sem saber que o fazíamos


em cio


versos camuflados depois das tempestades de areia


tombarem sobre o teu corpo húmido de alvorada


e beijos


e caquécticas amêndoas brilhavam no teu púbis de Segunda-feira à noite...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013



26.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


palavras sem rosto


quando sorrisos poucos


habitam no cansaço do transeunte doente


palavras sem gosto


que os barcos loucos


escrevem no caderno infame


sobre as algas de Agosto


palavras em fome


palavras sem nome


que as lágrimas do livro ausente


voam sobre a cidade dos candeeiros de papel


palavras sem nome


palavras que a morte come


e uma límpida gota de suor alimenta


como espelhos esmigalhados pelo pincel


que o pinto inventa


numa tela


numa parede


em gesso


o berço


da criança com sede


palavras sem rosto


palavras de orvalho e palavras do … e palavras nos lábios dela


dos versos verdes das plantas apaixonadas


palavras cansadas


esbeltas


tristes


magoadas


palavras sem rosto


sem gosto


sem madrugada


quando a noite é a noite drogada


palavras


palavras


palavras... de uma mulher desalmada...


 


 


(não revisto9


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 26 de Outubro de 2013



13.07.13



foto: A&M ART and Photos


 


salivas-me às gotículas meninas da árvore da tempestade


sabia-te mergulhada nas fantasias mistas dos vidros das portas ensonadas


como mentiras envenenadas


pelos fotões invisíveis da pele sílaba que rompem dos teus grossos lábios


de simples tiras finas de cascatas em vibração até terminarem no rio do desejo criança...


envenenas-me com o teu olhar mesmo sabendo eu que sou uma pedra


uma rocha mingua nua e contígua à claridade da cidade adormecida


e dos livros de chocolate adivinham-se-me tentáculos de silício entre raízes nocturnas,


 


Ruas com cérebro de teias de aranha


“putas” descabidas nas profundidades da carne apodrecida


velhos rezando o terço enquanto uma flor se masturba nos infinitos versos sem sentido


porque diz-se hoje aquilo que amanhã deixa de existir


escrevem-se palavras vindo depois desdizer-se como não escritas


e os olhos testemunham os silêncios do pedestal


onde habitas como estátua


e choras porque hoje é sábado e todos as horas morrem depois da tarde entrar em ti,


 


Os teus orgasmos descem da lisa pele de uma imagem a preto-e-branco


como ontem dizias-me que a loucura entrava-nos depois de rolarmos calçada abaixo


e o Tejo abraçava-nos e o Tejo ouvia-nos na escuridão dos veleiros ensanguentados


a enrolarmos charros de areia e sentávamos-nos sobre as pernas de um vulto à procura


de pálpebras e corações apaixonados...


um petroleiro entrava em ti e de mim... e de mim fios de sémen suicidando-se


na árvore da insónia


como panos de chita à volta das tuas coxas de menina perdida no rio da noite...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



30.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Acreditava que voavam os pássaros


como voavam as tuas mãos nas janelas do meu peito


fingia-me de morto


apenas para perceber a cor das tuas lágrimas


acreditava que voavam as flores


como voavam os teus lábios nos meus lábios


acreditar


acreditando que as noites são pedacinhos de pano


com beijos em papel...


acreditava que voavam seios teus


em minhas mãos de sílaba adormecida


eu, eu acreditava,


 


Acreditando


acreditar que todas as manhãs acordavam as minha antigas sandálias em couro


esquecidas debaixo das mangueiras


acreditava que dormias em pé e te enrolavas no cacimbo


acreditava que voavam os pássaros


como voavam as tuas coxas sobre o trapézio da madrugada...


 


acreditar eu acreditava


mas não te amo como amo o voo dos pássaros


mas não te amo como amo as minhas pobres sandálias em couro


acreditava que voando como os pássaros


eu poderia voar como o amor sobre o mar ao cair a noite


acreditava que vias nas minhas palavras as fotografias de ontem


enquanto brincávamos sobre as bananeiras do teu quintal...


acreditava que voavam os pássaros


como voavam as palavras em versos esfomeados


distorcidos


infelizes como eu por acreditar nos pássaros voando não voando como nós


eu, eu acreditava.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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