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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.12.22

Hei-de levantar-me

Desta pedra cinzenta

Onde me sento e morro

E espero

E invento

E desejo

Que acordem as estrelas dos teus olhos

 

Fumo o cigarro que há-de matar-me

Fumo as palavras

Que também elas

Me vão matar

 

E se eu quisesse

Voava para os teus braços de árvore envenenada

 

Acordam os pássaros que a manhã há-de matar

 

E num ápice

 

Olho-te como me olham as abelhas

Junto à colmeia do sono

 

E a noite

Despe-se na tua mão

 

Hei-de levantar-me

Desta pedra cinzenta

Onde habita a tua boca

 

E dos doces lábios da paixão

 

O poema que se alicerça ao meu peito

Bebo o veneno que lanças sobre o mar

Bebo a insónia que morre no mar

E hei-de levantar-me

Desta triste cinzenta pedra

 

Até que a noite se suicide dentro de mim.

 

 

 

 

Alijó, 03/12/2022

Francisco Luís Fontinha


15.10.22

São estas as palavras que te vou deixar,

São estas as cinzas das palavras incendiadas

Que te vou deixar, quando partir.

Também te vou enviar

As cinzas dos quadros que vou queimar,

E depois de encaixotar,

Enviar,

Ao destinatário,

 

São estas as palavras que te vou deixar,

Depois de lhes retirar o veneno,

São estas as palavras,

As minhas palavras…

São estas as palavras de matar,

Matar o fogo que se liberta destas mãos,

Que escrevem,

As palavras que te vou deixar,

 

E enviar.

São estas as palavras que te vou deixar,

E semear,

Na terra que nunca foi minha,

Que nunca será minha. São estas as palavras,

As minhas tristes palavras,

Em pedacinhos de cinza,

E orar; amém.

 

 

 

Alijó, 15/10/2022

Francisco Luís Fontinha


02.10.22

Não bebas o veneno das palavras,

E quando as palavras

Deixarem de ser palavras,

Esconde-te nas acácias que choram,

 

Finge que a noite é tua,

Quando percebes que nunca tiveste uma noite dentro de ti,

E do veneno,

As imagens do silêncio

 

Que transportam a tristeza,

E tens uma janela

Que se esconde na insónia…

Como se esconde em ti a saudade.

 

 

Alijó, 2/10/2022

Francisco Luís Fontinha


19.12.20

Um louco será sempre um louco.

Cerram-se todas as janelas da poesia,

Morrem todos os pássaros da minha aldeia,

De tanto, o pouco,

Das flores donzelas que eu queria…

Antes do horário da ceia.

Caem sobre ti as loucas fotografias,

Escrevem-se as palavras sobre a ria,

Depois, vem a fantasia,

E, o amor e, a alegria.

Escrevo-te, meu amor,

Todas as tardes em beleza,

Sinto, sento-me, nas heteras mãos de Deus,

Sabes? O palhaço está doente,

A flor,

Tua doce boca, só, na clareira,

E, todas as sanzalas, e, todos os musseques,

Doentes

Como Deus nos apetece.

Esqueço,

Durmo nesta cama azada,

Entre um cobertor de pano

E, uma nova namorada.

Entre palavras parvas

Que assombram as minhas mãos;

Sabes, meu amor!

A vizinha está encharcada de veneno,

Trouxe a morte,

A vaidade…

E, escreveu seu nome,

Nas amplas matrizes de poder,

Olho-a,

Vejo-a,

E, loucamente te beijo,

E, loucamente,

Eu, este louco que te quer.

Um louco será sempre um louco,

No destino de viver.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó/19-12-2020


26.08.18

O louco sou eu.


Aquele que te acolhe nas noites de Inferno, recheadas de vento e veneno…


O louco sou eu,


Agachado nos socalcos olhando o Douro encurvado,


Pego na enxada da loucura, rezo pelo teu corpo e desespero-me em frente ao espelho envergonhado,


O louco sou eu, o teu eterno louco das tardes de poesia…


E sentia,


Dentro do meu peito, os apitos dos teus lábios afastando-se das marés de Inverno,


O sol que mergulha no xisto amarrotado pelo vento,


E as cidades que se escondem no poema…


Hiberno,


E para a semana que vem, fujo do teu sorriso,


Subo as escadas da morte,


E com um pouco de sorte,


Desprovido de juízo…


Uma caravela deita-se na minha cama,


Dispo-a,


Adormeço-a na minha mão…


Até que a tempestade nos separe.


 


 


 


Alijó, 26/08/2018


Francisco Luís Fontinha


13.07.13



foto: A&M ART and Photos


 


salivas-me às gotículas meninas da árvore da tempestade


sabia-te mergulhada nas fantasias mistas dos vidros das portas ensonadas


como mentiras envenenadas


pelos fotões invisíveis da pele sílaba que rompem dos teus grossos lábios


de simples tiras finas de cascatas em vibração até terminarem no rio do desejo criança...


envenenas-me com o teu olhar mesmo sabendo eu que sou uma pedra


uma rocha mingua nua e contígua à claridade da cidade adormecida


e dos livros de chocolate adivinham-se-me tentáculos de silício entre raízes nocturnas,


 


Ruas com cérebro de teias de aranha


“putas” descabidas nas profundidades da carne apodrecida


velhos rezando o terço enquanto uma flor se masturba nos infinitos versos sem sentido


porque diz-se hoje aquilo que amanhã deixa de existir


escrevem-se palavras vindo depois desdizer-se como não escritas


e os olhos testemunham os silêncios do pedestal


onde habitas como estátua


e choras porque hoje é sábado e todos as horas morrem depois da tarde entrar em ti,


 


Os teus orgasmos descem da lisa pele de uma imagem a preto-e-branco


como ontem dizias-me que a loucura entrava-nos depois de rolarmos calçada abaixo


e o Tejo abraçava-nos e o Tejo ouvia-nos na escuridão dos veleiros ensanguentados


a enrolarmos charros de areia e sentávamos-nos sobre as pernas de um vulto à procura


de pálpebras e corações apaixonados...


um petroleiro entrava em ti e de mim... e de mim fios de sémen suicidando-se


na árvore da insónia


como panos de chita à volta das tuas coxas de menina perdida no rio da noite...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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