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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.08.12

Sou um desgraçado


desengraçado


uma árvore apoteótica


que alça a pata para mijar contra a parede dos sonhos


 


não vou falar do amor


e odeio a poesia


nem tão pouco irei escrever à mulher do rés-do-chão esquerdo


que finge enviar telegramas a Deus


quando este dorme profundamente nos alicerces da morte


 


a parvoíce dos pássaros com bilhete para a viagem até ao infinito


check-in sobre a copa das árvores


que de longe observam a loucura dos barcos


e dos cristais de iodo


 


lábios de sede perdidos nas páginas de um jornal


que embrulham as pernas do vagabundo


(Sou um desgraçado


desengraçado


uma árvore apoteótica


que alça a pata para mijar contra a parede dos sonhos)


com a dentadura de marfim


e os olhos de vidro


made ln-China


das noites os sargaços adormecidos


 


odeio as borboletas e as abelhas que enviam telegramas para Deus


e odeio a poesia


fingida de amor


nas janelas da noite


 


(odeio o rés-do-chão esquerdo).


29.05.11

Sou prisioneiro da miséria


Engomado pelas nuvens em revolta


Sou mendigo revoltado


Nas montras de café à minha volta,


 


Sou presente envenenado


E distribuído pela manhã às árvores vagabundas


Milhares de pássaros suspensos nos meus olhos


Nas minhas mãos sujas nas minhas mãos imundas,


 


Quem quer um desempregado


Quem quer um monstro escondido numa folha de papel…


Quem quer palavras comer


Palavras cansadas palavras amarradas por um cordel


 


À minha espera no portão de Luanda,


Quem me quer quem me quer


Folha de plátano nos meus lábios sedados


E envenenados por sílabas de aluguer,


 


Canso-me nas ruas da cidade


Farto-me da prisão Portugal


Sou prisioneiro da miséria…


Sou homem ou sou animal?


 


 


Luís Fontinha


29 de Maio de 2011


Alijó


24.04.11

Quem ajuda


Este pobre e velho cansado


Que aos poucos se afunda no oceano


De mãos atadas ao peito


 


De calhau prisioneiro aos pés


Até à mais profunda escuridão


Quem ajuda


Este pobre e velho cansado


 


Quem?


Quem ajuda


Este vagabundo do infinito…


Quem lhe dá a mão


 


Quem ajuda


Este pobre e velho cansado


 


Quem o salva da escuridão?


 


 


FLRF


24 de Abril de 2011

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