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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Dir-me-ás que a vida é um número de magia, conheci um ilusionista (confesso que não é ficção, conheci e conheço e tenho amizade por ele – Didier Ferreira – e quanto mais olhava os seus números de magia, confesso, confesso que mais dúvidas ficavam em mim, e menos percebia do que se passava à minha volta), e a vida não é mais do que um lindo e belo número de ilusionismo, um espelho gigante, olho-a e percebo que é tudo uma mentira, a imagens é ma mentira, os olhos, os olhos... são uma pegada mentira vestida com tecidos verdes, e os braços, e os braços também eles, eles


Mentiras,


Caixotes vindo de lá, trazíamos o muito que tínhamos, que era nada,


Mentiras,


(muitas das vezes servi de cobaia dele na preparação de alguns dos seus números, e parecendo aos olhos que quem nos via, eu, eu um parvalhão nas mãos de um verdadeiro artista, confesso que nunca me senti como tal, mas que me irritava o facto de eu não perceber como aconteciam as coisas... lá isso era verdade)


Os caixotes magoados, desdentados, meio adoentados, e vertendo um líquido esquisito, que mais tarde fomos informados que era o líquido da saudade


E coisa eu nunca tinha ouvido na minha curta vida,


“Líquido da saudade?”


És parvalhão, ouvia-o. E hoje percebo que ele tinha razão,


Eu era mesmo um verdadeiro parvalhão aos olhos do meu pai, porque como era possível existir um líquido chamado... “Líquido da Saudade”...


Eu, negro, nasci e cresci negro, eu uma árvore a que chamavam de mangueira, que às vezes sentia-a chorar, que às vezes... também eu chorava, quando da sua sombra renasciam os palhaços do circo, o ilusionista fazia com que as cartas de um baralho aparecessem na


“Líquido da saudade?”


Os palhaços do circo, o ilusionista fazia com que as cartas de um baralho aparecessem na minha algibeira, ela sempre, ou quase sempre, vazia, e lá estava ela, assinada por mim


Pode lá isso ser possível, menino?


Verdade verdadinha... Senhor Anacleto, verdade....


Acredito mesmo, menino Francisco, “Líquido da Saudade”..., e ainda por cima aparecer na sua algibeira e assinada por si, consegue prová-lo?


Claro que sim, claro que sim Senhor Anacleto... ainda a guardo na prateleira juntamente com os meus livros, os caixotes babavam-se como se fossem caracóis acabados de confeccionar, e afinal não eram caracóis, e afinal


Quitetas,


E o molho, Senhor Anacleto, Ai nem me fale no molho... menino Francisco, que saudades..., e um líquido estranho pingava dos três tristes caixotes que trouxemos, pouca coisa, coisa nenhuma, e afinal, afinal era mesmo o “Líquido da Saudade”,


Em finas fatias sobre o pão quente de Favaios, e que coisa, que coisa... Senhor Anacleto, um Líquido verde com sabor a manga..., talvez pedaços de sombra, talvez... as chuvas quando adormeciam a terra queimada e ressequida pelo abrasador Sol... e sabe, sabe Senhor Anacleto?


Não, não o sei menino Francisco, não o sei,


As cartas, as cartas voavam durante a noite e de manhã apareciam na minha algibeira, vazia, ou... quase vazia, como sempre, ou com quase nada,


Quitetas.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Terça-feira, 20 de Agosto de 2013



05.04.12

Desejo-me de barco em barco


De rocha em rocha


Desejo-me sobre a copa de uma árvore


Onde me prende uma mesa de madeira


Sobre a mesa de madeira caldo de cebola


E trigo de Favaios


Desejo-me dentro do Porto


Vinho que dá vida


Que do porto nada tem


E no douro cresce nas mãos calejadas de homens e mulheres


De rocha em rocha


De barco em barco


Desejo-me quando me aprisiona o espelho da vida


E dispo-me sobre a mesa de um bar


(já o fiz


E voltarei a fazê-lo)


Alguns de vós dizem


Coitadinho do louco


Que fumou de tudo um pouco


Coitadinho


Desempregado


Desamado


Desgraçadinho


Desejo-me sobre a copa de uma árvore


De rocha em rocha


De calhau em calhau


Desço até ao pavimento as calças esmiuçadas


Que dançam sobre a mesa de um bar


Sem lareira sem literatura


Apenas um bar com muitas gajas


E um copo de silêncio sobre o balcão


Coitadinho


Do menino


Sem tino.

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