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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.05.20

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

A terra é ula lágrima,

Nos lábios do mar.

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

A terra é silencio,

Que não se cansa de trabalhar.

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

A terra é amor,

É desejo no ar,

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

A terra é a cidade,

A cidade do madrugar.

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

Ai terra meu amor,

Amor de amar.

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

A terra são palavras,

Palavras de falar,

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

A terra na madrugada,

A terra do Luar,

A terra gira e volta a girar,

Corre, corre, sem parar,

A terra é ula lágrima,

Nos lábios do mar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30-05-2020


26.04.19

Sou filho da noite.


Sempre adorei a noite, onde vivem as palavras e os amores proibidos,


Ou impossíveis,


Ou amores inanimados.


 


Quando criança, brincava com aviões em papel,


Papagaios em papel,


Barcos de esferovite,


Com motor.


 


Sempre me lembro desalinhado com os momentos passados,


Tristes, alguns,


Alegres, outros,


E adorava, adoro, o circo.


 


Hoje, temos cá o circo,


Sempre foi o meu sonho fugir com um circo,


Viver de noite,


Andar de terra em terra.


 


Apaixonado pelas árvores.


Pelos palhaços,


Trapezistas


E outros malabaristas.


 


Os últimos já existem na política,


Temos malabaristas a mais,


Todos formavam uma grande companhia de circo…


O circo da merda.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


26/04/2019


16.06.17

Uma nuvem sulfúrica poisa no teu silenciado sorriso,


Agacho-me sobre a terra prometida…


Mas não tenho jeito para a aprisionar na minha mão,


Minutos depois, palavras muitas, perco o juízo,


Pego na luz magoada que ficou em ti esquecida,


À porta de entrada do meu coração,


 


As aventuras na eira


Enquanto cai a noite sobre o espigueiro,


Livros perdidos dentro de um mealheiro…


Para serem vendidos na feira,


 


A casa é pobre, pequena… e aconchegante,


O quintal recheado de poemas envenenados pela charrua,


O meu corpo embebido em clorofórmio vomitando sinalização de rua…


Que o luar se torna brilhante,


 


E a lua,


É tua.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 16 de Junho de 2017


07.06.17

Rareiam por aqui as esquinas de luz do teu corpo,


Forço um beijo de sombra que habita no meu quarto,


Desenho nele a solidão de um final de tarde…


 


E sei que não voltarei mais.


 


(a mim?)


 


A ti, a mim e a esta terra que me acorrenta e mata,


A esta terra que me aprisiona desde criança


Como se eu fosse um Tiranossauro REX descendo a montanha do “Adeus”,


E lá longe a longínqua caneta enterrada no granito abraço,


(queres cerejas?)


Não. Não gosto de cerejas…


Olha! Olha, as laranjas do nosso quintal já são comestíveis,


Tão doces, tão doces como as tuas queridas mãos enfeitadas por flores, arbustos e lábios lacrimejantes, opiáceos livros de poesia poisados na nossa janela,


Quando a rua está deserta.


Não te entendo!


Não precisas de me entender…


 


Amanhã vais dizer que sou um vagabundo cambaleando pelos plátanos com leves folhas doiradas de tristeza,


A sátira perdida que apelidava o meu transeunte corpo de chocolate…


Com o calor…


Derrete. Morre.


 


E sei que não voltarei mais.


 


(a mim?)


 


Á vida. Não voltarei mais à escrita de estórias desalojadas numa quinta-feira à tarde, quando os miúdos regressam da escola e tu estás sentada na varanda a fazer pássaros de papel,


 


Tudo.


 


Ou nada.


 


O que importa é estar vivo…


 


Desde que nasce o Sol até ser noite.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 7 de Junho de 2017


05.12.16

Esta terra entranhada nas raízes do Diabo,


Sonolenta quando acorda o Inverno,


E uma lâmina de lágrimas brota do seu coração,


Saboreia as espadas da dor


No término da tarde onde inventa o silêncio do desejo,


Uma enxada poisa na sombra da terra lavrada,


E o vulto de cigarro em cigarro,


Como uma árvore deitada


Sobre a esplanada da paixão,


Dorme docemente…


Esta terra é íngreme como as montanhas do Adeus,


Sem sorriso,


E do cansaço brilham as estrelas da noite…


A casa gélida, triste,


Murmuram os candeeiros a petróleo nas cicatrizes da incerteza,


O absoluto orgânico melancólico cilíndrico…


Que o peso da lua deixa ficar sobre os envidraçados lábios,


Esta terra de beijos e moradas,


Esta terra queimada pelo incenso do amor


Que em todas as horas desperta como uma criança de luz…


Sinto o brilho dos teus olhos


Nas almofadas do desterro,


E as palavras que semeias…


Habitam este Inferno de viver.


 


 


Francisco Luís Fontinha


05/12/16


26.01.15

A1_035.jpg


 


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


O desejo cansado do solstício envenenado


das palavras o ranger da porta sem habitantes


que a noite comeu


o desejado corpo nos pindéricos rochedos de papel


voando sobre a cidade dos machimbombos


o entardecer não regressa nunca


o viajante secreto enlatado num caixote em madeira


o homem sombreado dos alicerces de prata


afogado num pedaço de terra...


hoje


hoje não vi o mar


nem os barcos de esferovite construídos por crianças junto à ribeira...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015


27.12.14

Nunca percebi porque choravam os pássaros da minha terra,


nunca entendi porque em determinados momentos...


se abraçavam as árvores da minha terra,


 


desenhava o sol na velha parede da casa que me recebeu,


havia frestas de engano e vidros partidos,


lá fora o frio parecia um rochedo intransponível,


tão alto como a montanha da saudade,


nunca percebi porque era tão fria a minha terra,


esta...


que amo,


mas é tão fria... meu amor...!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 27 de Dezembro de 2014


24.08.14

Sou o legítimo dono da noite,


sou o candeeiro onde se esconde o mendigo,


o rio que não corre para o mar,


sou a ponte frágil em madeira que antes de ser ponte...


um caixote,


o cofre das minhas recordações,


as imagens,


os sons e os cheiros de uma terra que não existe mais...


 


Sou a videira que morreu no socalco,


sou o socalco que tombou...,


sou o cansaço legítimo e dono da noite,


a prostituta que sobe e desce a montanha dos segredos,


sou o vento de papel sobre a luz ténue da aldeia,


o sino que não se cansa de me acordar...


sou as palavras com lábios de poema,


dos sons e dos cheiros de uma terra que não existe mais...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 24 de Agosto de 2014


05.07.11

Sobre o arame dos dias


Caminho silenciosamente para a outra margem


Poiso-me como se fosse um pássaro


Quando nos lábios emagrece a aragem


 


Das horas dos dias e dos meses,


O vento balança-me e sinto-me embriagado


Pela pasmaceira de estar vivo…


E continuar firme como um calhau lançado


 


Rabina abaixo.


Que quereis vós de mim senhores da terra?


Que me ajoelhe e vos lamba as botas


E engula as rochas da serra?


 


E nem a fome vergará o meu esqueleto decrépito


Porque o meu corpo poderá vender-se, e porque não?,


Mas a minhas convicções e ideais


Jamais se venderão,


 


Vender o meu corpinho sim


Lamber botas é que não,


Irrita-me dá-me nojo


Alergia e comichão.


22.05.11

Aos poucos canso-me da terra


Onde cresci


Aos poucos como o silêncio de um relógio


Canso-me da terra onde vivi


 


Aos poucos eu engasgado nos socalcos


Desço vinhedos subo o xisto da madrugada


E olho o rio que me vai salvar…


Na sombra desgovernada


 


Aos poucos o meu corpo em pedacinhos de algodão


Aos poucos na minha mão uma flor cansada…


Aos poucos os meus lábios em movimento


Quando aos poucos em mim se dilui a alvorada.


 


 


Luís Fontinha


22 de Maio de 2011


Alijó

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