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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.09.20

Sento-me.

Nesta pedra cansada, o tempo voa,

Bate, hoje, a saudade.

Sento-me. Sei que o fumo do meu cigarro

Vai em direcção ao mar, onde brincas,

Nas cinzas da saudade.

O regresso.

A viagem sem destino, partida-chegada,

Embarque de transeuntes envenenados pela saudade,

Como tu,

Como eu; ausentes.

O teu nome escrito na pedra,

Onde me sento,

Me deito,

Nas pálpebras da janela do quarto.

Horário morto,

Cadáver saqueado pelo tempo,

Cintilações de prata,

Na algibeira,

O sem-abrigo,

Na madrugada,

Suspenso pelo pescoço,

E, sem cabeça.

Deus. Vem em tua ausência,

Da boca a flor madrugada,

Sem palavra,

Sem nada.

A grava. Torta.

O casaco roto, magoado pelo silêncio adormecer,

Quando as nuvens se recolhem na tua mão,

Quando todos os alicerces da cidade,

Ardem; e o tempo nunca esquece a saudade.

A vaidade. Palavras escritas sobre a lápide de mármore,

Dizeres que só eu percebo,

Os escrevi, desenhei no teu peito

O cabelo desorganizado, triste, cansado.

No amor, a saudade.

Vive-se assim, aqui…

No ontem,

Hoje.

Amanhã. Dia triste para recordar mortos,

Cabeças,

Trapos.

Vive-se, assim, aos poucos, nesta velha cidade.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 08-09-2020


12.08.18

O tempo não passa.


O tempo é uma ameaça, um rio sem nome,


Escondido na minha infância.


 


Mãe, tenho fome,


Sinto o vento na tua lápide imaginária…


No fundeado Oceano,


De pano…


 


Mãe, me aquece antes que adormeça,


E esqueça,


O telefone,


Que não me larga,


Durante a noite,


A desgraça,


 


Os ossos envenenados pelo tédio da esplanada mal iluminada,


O empregado,


Coitado,


Cansado…


Já não me atura,


Foge,


Mistura,


O tabaco com outras substâncias, folhas mortas, ausências…


 


O tempo não passa, mãe.


 


E sinto constantemente, em mim, esta miséria,


Que me alimenta,


Mente,


Como um Planeta adormecido,


Senta,


Senta em mim as sombras das tuas lágrimas.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12/08/18


15.08.17

Porque choram as palavras, meu amor!


 


Neste silêncio cubículo guardo o meu corpo embalsamado pelo tempo,


Sinto o abraço das palavras tristes quando as lágrimas da paixão brotam do sorriso sol,


Sento-me no teu colo, beijos incandescentes nos teus lábios em flor…


Me resigno enquanto me é permitido,


Fujo de ti, escondo-me numa esquina de luz em ciúme,


E tenho na mão direita o fogo do teu peito,


A morte vem, oiço-a na montanha branca onde habitam os teus braços cansados,


E sei que as palavras choram, por ti, por mim, meu amor…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 15 de Agosto de 2017


23.06.17

Não vou ter tempo para desenhar o tempo no silêncio da noite teu corpo,


Não vou ter tempo para semear nas tuas cochas o mais belo poema de amor…


Porque não sou poeta,


Porque não sou desenhador,


 


Não vou ter tempo para ver o nosso filho escrever no pavimento térreo do quintal,


Porque nem sequer temos um filho,


Porque nem sequer temos um quintal,


 


Não vou ter tempo para acariciar a chuva miudinha que se entranha no teu cabelo,


Não vou ter tempo para ir à lua e trazer-te um beijo…


Porque sendo astronauta não tenho esse desejo,


 


Não, não vou ter tempo!


 


Não vou ter tempo para te desejar,


Não vou ter tempo para no teu corpo brincar…


E juntos, sem tempo, olharmos o mar,


 


Não vou ter tempo para muito viver,


Já muito vi sem querer…


 


Não, não vou ter tempo!


 


Não vou ter tempo para escrever,


Tempo para amar,


Tempo para ver nascer…


Nascer no tempo… no tempo de sofrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 23 de Junho de 2017


13.12.16

E se o tempo cessasse de crescer
Como cessam os sonhos em mim
O poço da escuridão quase a morrer
Num qualquer jardim
E se o tempo começasse a chorar
Como choram as minhas palavras
Quando não me apetece escrever
Certamente o poço da escuridão
Não cessava de sofrer…
As roldanas do coração
Empenadas e gastas de caminhar
Sobre a água de chover…
E se o tempo cessasse de crescer
Como cessaram as acácias de viver
O tempo é uma jangada à deriva nas pedras do ser
Um relógio cansado de bater
Horas
Minutos
Segundos…
De nada ter.


 


 


Francisco Luís Fontinha


13/12/16


16.09.16

perdido,


corredor…


não existo neste cansaço,


nem permaneço neste espaço,


sou um pássaro envenenado,


cascata Princesa da madrugada,


desisto,


prometo caminhar sobre a água salgada


onde habitas… minha amada,


sem tempo,


sem espaço,


corredor…


o cansaço,


e a dor,


sinto no corpo as tempestades do Além…


e ninguém,


e nada…


consegue sobrevoar este esqueleto de pedra,


sentado,


me esqueço no silêncio,


me esqueço da alvorada,


perdido,


achado,


querido…


cansado,


no regresso das tuas mãos.


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 16 de Setembro de 2016


17.08.15

Não tenho tempo


Para desenhar lágrimas no meu rosto cansado,


Não tenho tempo


Para folhear os álbuns de fotografias…


Esquecidos sobre uma secretária,


Que mais parecem um cemitério, umas mortas, outras perdidas,


Outras… vivas quase mortas,


Gente anónima,


Sem tempo para conversar,


Não,


Não tenho tempo


Para o amor


E esculpir a paixão na madrugada,


Não tenho tempo para construir sonhos


Que acabam sempre por ruir…


Não tenho tempo


Para imaginar-me dentro de um espelho,


Triste,


Derrotado pela força do vento,


Não tenho tempo


Para ninguém…


Apenas estou aqui,


Sentado,


A olhar o meu relógio parado…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 17 de Agosto de 2015


20.07.15

Não tenho tempo,


Cessaram os relógios de pulso no meu peito fictício,


Ambulante circo de cidade em cidade,


De montanha em montanha,


O tempo escoou-se no aéreo sonho da noite,


Morreu,


Partiu em direcção ao mar…


Olho as minhas cinzas,


Embrulham-se na maré,


E nunca mais regressarão à minha mão,


Levo um livro na algibeira,


E uma caneta na boca…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 20 de Julho de 2015


05.06.15

Quanto tempo


Tempo algum


Sobre o corpo nu,


 


O cadáver de rocha fendilhada


Descendo as escadas do tempo


Quanto tempo


Tempo algum


Sobre o corpo nu


Acorrentado na madrugada,


 


Não o sei,


Nunca o saberei,


 


Quanto tempo


Esta janela encerrada


De cortinados enfartados


Das palavras


Minhas


Que o tempo


Alimenta


Quanto tempo


Este tempo


Demora a entranhar-se na minha janela


Sem vidros


Sem ementa,


 


Quanto tempo


No tempo


Que nunca sonhei…


Quanto tempo


O tempo


Sobre o corpo nu,


 


No corpo que inventei!


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 5 de Junho de 2015


07.03.15

P1010003.JPG


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


habito dentro deste livro inacabado


existo porque gritam as palavras


e os sonhos amargurados


não tenho tempo para olhar o mar


nem percebo o cheiro deste rio envenenado pelo silêncio


um cigarro


mal-educado


apagado


sessenta anos encurralado nestes socalcos sem nome


habito


dentro


do livro inacabado...


 


os tristes sorrisos das lanternas da solidão


vendo-me


vende-se


tudo


nada


coisas estranhas


esta calçada


viva


vivo


apagado


não tenho


o tempo


 


nem a vida


de marinheiro


sou um barco enferrujado


sou o aço triturado pelas mãos de um sábado...


apenas


outras coisas


como as simples janelas de uma prisão


prisão


a prisão


do meu falar...


habito


habitar no teu peito de livro encalhado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 7 de Março de 2015


 


 


 

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