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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


21.02.22

Às vezes, o sol parece uma nuvem escura,

Fria,

Às vezes, o sol parece um sonho,

Um jardim florido.

Às vezes, as palavras parecem uma tempestade,

Um dia estupidamente feio.

Às vezes, o mar é uma ilha,

Outras,

Um corpo cansado,

Às vezes, o sol parece uma fogueira,

Ou um poema recheado de nadas.

Às vezes, eu sou o sol,

Outras,

Sou a nuvem granítica da saudade…

Às vezes, temos o sol pincelado de noite.

Às vezes, temos a noite pincelada de sol…

Às vezes, o sol parece uma nuvem escura,

Fria e cinzenta.

Às vezes, o sol é um pássaro,

Uma flor esquecida na avenida.

Às vezes, temos o sol,

Às vezes, o sol tem-nos a nós.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21/02/2022


22.04.19

A tristeza em construção.


Os alicerces das palavras semeadas no vento das amarrotadas folhas de papiro,


Os teus lábios lembrando os socalcos do Douro,


Na fotografia da chuva,


O vento traz a neblina cinzenta dos teus olhos magoados,


Em todas as Primaveras,


Em todas as tempestades de areia,


Os teus beijos que vivem nos livros deitados nas prateleiras da solidão.


Há uma janela virada para o mar.


Aqui habita um rochedo chamado de paixão…


Onde aportam pela madrugada, todos os petroleiros da minha infância.


Não semeies as tuas lágrimas nesta terra queimada,


Grita, se te apetece, mas grita bem alto,


Até que as andorinhas dêem pela tua presença,


Grita,


Grita como toda a gente deveria gritar…


Esta terra queimada,


Recheada de xisto,


São os pilares do teu corpo.


São horas do jantar,


Não vou comer,


Com tanta beleza… quem precisa de se alimentar?


O povo está furioso.


Faltou o tabaco, greve da Tabaqueira, greve das máquinas de cigarros…


Greves, greves…


Fumo merda?


Maldita terra sempre a zarpar,


Âncoras à chuva,


Sandálias de couro, calções…


O moço parecia um malandro de esquina,


Mas era feliz,


Tão feliz…


Que trouxe o mar com ele.


Hoje, vive nas montanhas juntamente com o mar,


E as gaivotas são as únicas visitas nos últimos tempos…


Dizem que me trouxeram.


Porquê?


Se eu era tão feliz lá…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


22/04/2019


26.08.18

O louco sou eu.


Aquele que te acolhe nas noites de Inferno, recheadas de vento e veneno…


O louco sou eu,


Agachado nos socalcos olhando o Douro encurvado,


Pego na enxada da loucura, rezo pelo teu corpo e desespero-me em frente ao espelho envergonhado,


O louco sou eu, o teu eterno louco das tardes de poesia…


E sentia,


Dentro do meu peito, os apitos dos teus lábios afastando-se das marés de Inverno,


O sol que mergulha no xisto amarrotado pelo vento,


E as cidades que se escondem no poema…


Hiberno,


E para a semana que vem, fujo do teu sorriso,


Subo as escadas da morte,


E com um pouco de sorte,


Desprovido de juízo…


Uma caravela deita-se na minha cama,


Dispo-a,


Adormeço-a na minha mão…


Até que a tempestade nos separe.


 


 


 


Alijó, 26/08/2018


Francisco Luís Fontinha


22.04.18

Flor queimada.


Quando a enxada da saudade,


Dócil quimera da tempestade,


Mergulha na madrugada,


 


Perfume da solidão,


Rasgando a terra onde se entranha o teu cansaço,


Toco-te com a minha mão…


E sacudo a espada do abraço,


 


Nada faço,


 


A não ser escrevendo palavras ao vento.


 


Me sento.


 


Me alimento.


 


Menino da tua liberdade.


 


Flor queimada,


Que o mar semeia nos tempos de espera,


Quem me dera…


Nos soníferos da pomba assassinada.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 22 de Abril de 2018


26.08.17

Dizem que sou o homem invisível,


Sentado numa mesa invisível,


Desenhando na sombra quatro cadeiras invisíveis…


Estou numa esplanada invisível,


Num bar “Mercado” … também ele… invisível,


 


Solto-me das amarras de vento,


Liberto-me das searas perpendiculares ao quadrado da hipotenusa…


Brinco com um velho copo de uísque,


E o invisível homem cresce na praia da areia branca,


Está noite, meu amor,


Tenho nas mãos os três livros invisíveis que me ofereceste pelo Natal…


E sinto que todos os Natais são invisíveis…


 


Tenho saudades do meu pai,


Abraço a minha mãe durante a tempestade, somos fortes, e vamos resistir a este caos invisível…


 


Sabes, meu amor…


 


Nunca poderás beijar este homem invisível,


 


Filho das cavernas,


Homem dos barcos de papel navegando no Oceanos invisível da madrugada risível,


Agacho-me, sento-me no teu colo, meu amor, e tenho medo dos furacões com olhos de serpente, e tenho medo de perder-te neste bar invisível.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 26 de Agosto de 2017


07.09.16

Os cabelos negros


Poisavam na tempestade da saudade,


Uma rocha adormecia na tua mão


Vinda do longínquo oceano…


Insaciável, indiferente à liberdade


Das cidades ardidas,


Os cabelos negros…


Em réstias de silêncio


Camuflados pela madrugada das sonâmbulas palavras,


Um cigarro abandonado,


Triste como eu…


Sentado nos teus lábios de chocolate,


Ele caminha e sente


O perfume da solidão


E os candeeiros da insónia…


Mas a liberdade… nunca morrerá,


Nem desaparece…


Dos finais de tarde junto ao rio,


Os cabelos negros


Poisavam na tempestade da saudade…


E me diziam que amanhã


Nascerá um poema no teu corpo,


Em revolta,


Na lâmina fina e húmida da felicidade…


Ele morrerá,


Ele morrerá acorrentado ao estrado do sono…


E só acordará…


Nas lágrimas dos cabelos negros.


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 7 de Setembro de 2016


29.03.16

as palavras morrem dentro de mim


como carcaças em vozes famintas


saboreando o vento da noite


quando a tempestade se despede da cidade


o sem-abrigo lamenta a sua sorte


e eu confesso-me culpado


porque ajudei a matar as palavras…


… as palavras que morrem dentro de mim


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 29 de Março de 2016


15.11.15

a tempestade de silêncios que adormece no meu peito


enquanto tu, meu amor, gritas o meu nome entre os rochedos do inferno


a sombra dos teus lábios


o cansaço das tuas mãos


me adormecem


e me fazem fugir para a montanha imaginária


a fuga


a tempestade de silêncios que há em ti


e só agora percebi


a luminosidade do teu olhar


quando não cresce a noite


na minha solidão


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 15 de Novembro de 2015


21.10.15

Perdido neste sótão da saudade


Misturado nos sonhos que fervilham nas palavras inventadas


Perdido neste cubículo sonolento


Das catacumbas madrugadas


Abraçado ao vento


Sem lamento


Quando lá fora há um rio em lágrimas


Que me procura


Com ternura


E esquecendo a vaidade


Perdido neste inferno sem morada


Este sótão… este sótão que se esconde na alvorada,


 


Este sótão cansado


Como um esqueleto de húmus invisível na tempestade


Perdido, eu, nesse teu coração de migalhas


Sofrendo porque vivendo sofrendo


Não sei viver


Sofrendo porque vivendo sofrendo


Não sei amar


Escrever


Desenhar


Ser o mar


Dançando ao pôr-do-sol


Sem perceber que estou a sonhar…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 21 de Outubro de 2015


27.07.15

desenho_27-07-2015_2.png


 (desenho de Francisco Luís Fontinha - Alijó / IPO-Porto, 27/07/2015)


 


Vivo imaginando corvos poisados neste quarto cinzento,


Sinto ao longe os barcos em círculos atravessando a tempestade,


Esta cidade morre como morreram todas as flores do meu jardim,


E mesmo assim…


Não me apetece escrever neste lugar sem nome,


Não vejo as estrelas,


Perdi a noite


E os andaimes da escuridão,


Perdi a paixão,


Deixei de ter o rio nas minhas veias,


As calças cresceram,


Pertencem a outro arbusto,


 


E estou aqui… como um rochedo,


Perdido,


Vestido de medo,


 


Sentado numa cadeira invisível.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Porto, 27/07/2015

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