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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Se cair a máscara que esconde os teus olhos de viro cinzento, perceberás que o tempo dança nos cortinados do cansaço, ouvem-se vozes vomitando palavras, algumas delas, são palavras em segunda mão, frágeis, vagueando nas pedras finas das calçadas em madeira estrangeira, e dos teus sonhos sonâmbulos, gritávamos pétalas de pólen abraçadas à confusão quando arde a lareira do medo, tínhamos a vontade, tínhamos o prazer de conquistar a saudade, e mesmo assim, fomos adormecendo, acomodámos-nos às prisões invisíveis da pretoriana escumalha que caía das mangueiras como pássaros comendo goiabada, havíamos de descobri a palavra


Medo?


E do medo acordavam as sandes de marmelada, o chouriço fumegava no cinzeiro entranhado em beatas e beijos de cinza voando e poisando sobre os móveis da sala de jantar, quase nunca o tínhamos, quase que pertencíamos às plantas em papel crepe que a vizinha do rés-do-chão construía durante a noite e nos vendia logo pela manhã à porta do prédio caquéctico da tia Adosinda,


Medo


Ela surda como uma porta,


O que foi, menino?


Nada, nada,


Medo de quê e de quem?


Medo


Ela surda como uma porta,


O que foi, menino?


Cinco coroas na minha mão, descia sorrateiramente as escadas graníticas e só abrandava quando encontrava a rua principal, a que me levava, acompanhava... até encontrar a velha escola que depois um parvalhão mandou destruir, e hoje


Banco de jardim, a madeira sorri, e mergulha nas nádegas das tempestades do cio encarnado, havia no recreio uma árvore onde me pendurava a imitar o Tarzan da televisão a preto-e-branco com formigas de vez em quando, ouvia os sons inconfundíveis da Chita e percebia que um dia, no futuro


Medo?


Medo de quê e de quem?


Medo


Ela surda como uma porta,


O que foi, menino?


Jane... Jane apareceria, retirava a máscara e dos seus olhos de vidro cinzento o tempo dançava nos cortinados do cansaço, ouviam-se vozes vomitando palavras, algumas delas, eram palavras em segunda mão, frágeis, vagueando nas pedras finas das calçadas em madeira estrangeira, e dos seus sonhos sonâmbulos, gritavam pétalas de pólen abraçadas à confusão quando ardia a lareira do medo, tínhamos a vontade, e


E o medo morre como uma pedra sem coração; cessam as canções dos teus lábios e brevemente acorda em nós a geada, e brevemente as flores aprendem o significado...


havíamos de descobri a palavra


Medo?


E o medo... o medo é um gajo muito “filho da puta” que não mete medo a ninguém... (E do medo acordavam as sandes de marmelada, o chouriço fumegava no cinzeiro entranhado em beatas e beijos de cinza voando e poisando sobre os móveis da sala de jantar, quase nunca o tínhamos, quase)


Quase noite em ti.


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 28 de Setembro de 2013



25.05.11


 


 


Todas as noites dou um pulinho até Angola. Sento-me no sofá, pego no comando do MEO e digito 230, zás, cá estou eu dentro da TPA – Internacional (Televisão Pública de Angola).


 


Não me questionem porque o faço, eu próprio não sei, mas faço-o instintivamente, talvez para estar ao corrente do que se passa na terra onde nasci, talvez este ritual sirva para avivar o álbum fotográfico do menino que nasceu e viveu até aos seis anos na querida Luanda. Talvez, não sei…


 


Todos os dias dou um pulinho até Angola, pela manhã mergulho no Jornal de Angola online, e à noite, à noite eu saboreio os meus olhos com as imagens que chegam até mim através da TPA – Internacional, e os ouvidos, ai os ouvidos… ai os sons…


 


Quero deixar um agradecimento especial, dar um abraço e os parabéns a todos os homens e mulheres da Televisão Pública de Angola, que diariamente trazem até mim os sons e as imagens da terra onde nasci e que nunca vou esquecer.


 


 


Luís Fontinha


25 de Maio de 2011


Alijó

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