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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


05.02.22

Quando o corpo se deita na tela, uma voz em pequenos murmúrios e gemidos abraça-se às pinceladas manhãs de Primavera. A tinta, as tintas, o pincel, todos são o coração ensonado da imagem sombreada das lâminas do desejo. A fotografia ergue-se como se erguem todas as crianças quando ouvem a voz da mãe; o filho perfeito, esse espaço entre a noite e o dia, não existe. As cores são a saudade, quando a mão do artista acaricia esse corpo de luz e sombra, quando o artista os olha

E nada como um pequeno beijo junto ao mar.

Todos os barcos, todas as cores, dançam agora sobre a tela inanimada, quase a desfalecer; a morte ocorre quando o artista dá por concluída a sua obra; mas será que a obra fica assim, tão simplesmente, concluída? A obra é como um filho, só fica concluído quando morrer e, transforma-se em pó.

As mãos, alicerçam-se aos lábios da tela, o cavalete espreita pela janela e percebe que a tempestade se aproxima, que os barcos estão a regressar rapidamente a terra, neste caso, à tela. O artista, chora. O corpo, suspenso na tela, vacila e, percebe-se que existem pequeníssimas gotículas de suor; a pele absorve as cores primárias, cerras os olhos e liberta um uivo de silêncio.

Assim, a tela entre pequenos gemidos e outros tantos sons inaudíveis, encosta-se às mãos do artista, rodopia em sentido anti-horário e, desce até às profundezas do abraço. Alguém me sabe dizer o que fazem as mãos do artista quando a obra termina? Nada. São os olhos da arte.

Sentem-se as fugazes candeias, quando dentro do atelier uma parcela de luar ilumina o corpo terminado, pronto a ser vendido. O artista constrói corpos para venda e, quem comprar os corpos construídos pelo artista, através das mãos, olha-os. O submundo das profundezas mais esguias, carrega no peito o cansaço do dia, carrega nas mãos, os olhos do amanhecer, quando ainda todos dormem, mesmo os corpos mais preguiçosos deitados na tela.

A tela é um monstro que se alimenta do corpo, pequenas cores misturadas numa tarde de Inverno e, sabendo que todos os corpos são desprovidos de lábios, aqui podemos dizer que o beijo é proibido. O sagrado desejo, quando a mão, um dos olhos da tela, desliza até encontrar as coxas envenenadas numa tarde de silêncio, assim, percebe-se que os dias, que as noites, que tudo, que nada, fazem sentido nesta tela imaginária que é a vida.

Se a vida são cores em movimento numa tela nua, branca, suspensa num cavalete, o exercito de pinceis e espátulas são o criador Deus quando acordou ao terceiro dia. Os mandarins da insónia poisam sobre a minha sombra desejada por uma sombra de medo, ao fundo, lá longe, um pequeno cardume de peixes em papel colorido, aproximam-se e, todos, devoram-me, restando depois, uma tela nua e vazia.

Como sempre, existe dentro de nós uma tela nua, vazia, recheada de medo. E este pedaço de mundo submerso, alimenta-se das palavras que o poeta vomita sobre os corpos deitados na tela; ninguém percebe o desejo do artista, quando com um punhado de pinceis e algumas espátulas, transforma o branco em corpos, com asas, que voam em direcção ao mar, e o mar nunca será um filho de Deus.

As mais belas canções de uma infância entre lápis de cor e bolas de plasticina, e depois do lanche, um papagaio colorido mergulhava no cacimbo solidão de mais uma tarde junto às mangueiras.

E este pedaço de mundo submerso, ergue-se entre os rochedos e os corpos pincelados na tela.

 

 

 

Alijó, 05/02/2022

Francisco Luís Fontinha


05.04.15

Não sei a quem pertencem os teus olhos


Esboçando sombreadas canções nos meus braços


A luz incendeia a noite em despedida


Não sei a quem pertencem


Os olhos


As cidades


E os distantes lugares


Dos teus lábios


Lábios


Em chamas


Sinto as nuvens nos meus ombros


E tenho nas pálpebras


As húmidas manhãs de Primavera


Os olhos


Não sei


Como às palavras roubadas


Enquanto os pigmentos da paixão


Alicerçavam as cordas da prisão


O cais


O teu corpo fundeado em mim


Respirando as sílabas do primeiro encontro


O cruzamento


A estrada da vida congestionada


E os olhos


E as palavras


Lábios


Em chamas


Esboçando…


Clarabóias de medo


Nas frestas do silêncio


O amor


A solidão vestida de amor


Lá fora


Os olhos


Numa fotografia de família


Os pais


Os irmãos


E


E os olhos


Lá fora


Nas palavras


Sempre as palavras dos teus seios


Nas rodas dentadas do desejo


A claridade das tuas coxas


Os olhos


A boca


O sémen estampado numa tela


Branca


Negra


A noite


Vens


Desces os socalcos do prazer


Despes-te e danças para o espelho da melancolia


E o amor


Vens


Despes-te


Nos olhos


Dos olhos


O poema brincando na tua pele de madrugada


Acabada de nascer


Apagam-se as personagens dos versos


Ficam na tua roupa


Como cadáveres de espuma


Fingindo orgasmos


E Domingos num parque infantil


Brincando


Nos olhos


Os olhos


Nas palavras


E nos destinos mais escondidos da tua mão…


As cidades respiram


Meu amor?


As cidades sentem no corpo


As melódicas canções do poema


Meu amor?


O papel inanimado sobre a secretária do pensamento


Os fósforos pontapeando pedaços de lágrimas


Contra o copo de uísque


Sem nome


O corpo da cidade


Dói-lhe


Menina?


Os livros acorrentados ao teu cabelo


E as serpentes do luar


Dentro de quatro paredes


As janelas onde poisas o queixo


No meu colo


A tua cabeça de diamante


Não lapidado


O sorriso


O sorriso apaixonado de uma vogal


E da cidade


As tristes âncoras da morte


És


Meu amor…


O triste silêncio das âncoras de prata…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 5 de Abril de 2015


15.01.15

Pintura_61_A1_Nova.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


A mentira dos homens


mergulhada na falsa memória,


a solidão das palavras,


escritas e semeadas,


nos longínquos corredores da insónia,


o imperfeito corpo do espelho que alimenta a paixão...


em pedaços,


tão pequeninos... como grãos de areia em pleno voo matinal,


as telas amordaçadas que habitam a minha casa, ardem,


sinto o fumo de néon quando pego numa caneta,


tenho uma carta para escrever...


mas,


 


mas mergulho na falsa memória,


sem destinatário,


sem remetente...


tão sós...


o subscrito,


e a folha de papel oferecida por um pindérico pássaro de cigarro nos lábios...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015


 

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