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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


10.04.19

Suspensa nos teus lábios, a fotografia do amanhecer.


Chove no meu corpo,


Piso o deserto da saudade,


Enquanto a serpente do teu cabelo rasteja no meu olhar,


É noite, meu amor.


Suspensa nos teus lábios, a inocência da infância,


As correntes marítimas dos oceanos embriagados,


Vai,


Não regresses mais, tempestade oncológica das tardes perdidas…


Até que o vento te leve,


Para longe,


Em pequenas lâminas de aço,


Pobre.


Rico.


Sem-abrigo, é tudo o que eu sou…


Meia dúzia de ovos, um café e uma torrada,


Ao final da tarde.


Mendigo.


Perigo.


Suspensa, em ti, as palavras minhas,


Desajeitadas,


Sem nexo,


O beijo da serpente.


Abro a janela da paixão,


Finalmente há amanhecer,


Porque a tua fotografia,


Pertence aos teus lábios.


Estou alegre.


Apaixonado pelos socalcos da geada…


Mendigo.


Perigo.


Aventuras, telegramas sem remetente…


Nos braços,


O ausente,


Da morte,


Que há-de regressar ao teu peito.


 


A cidade, toda a cidade arde,


Nos teus seios,


O jardim dos gladíolos…


 


Sem nexo.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


10/04/2019


30.03.19

Os teus olhos são as cataratas do Niágara,


O cansaço do povo,


Os teus olhos são a luminosidade da saudade,


O silêncio prometido,


Alto,


Esguio…


 


Das parais encantadas.


 


Os teus olhos são a Primavera,


A mudança da hora,


Deste velho relógio,


Que adormece no meu pulso,


 


Quebrado,


Triste,


Cansado.


 


Difuso.


 


Os teus olhos, meu amor,


São a tempestade nocturna,


A cidade em chamas,


 


E das aldeias perdidas,


 


Nos teus olhos, meu amor.


 


Os teus olhos são o sorriso da madrugada,


A velha jangada,


Poisado na mão do rio…


 


Quando regressa a tarde,


Chorando,


Sem querer…


Chorando.


 


Meu amor.


 


Os teus olhos.


Saudade,


Dos beijos,


Na claridade,


Dos teus olhos,


Quando logo, mais tarde,


Eu, pegar nos teus olhos…


 


E dormir,


Com a saudade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


30-03-2019


29.03.19

Não posso, desisto.


Não posso, finjo, caminhar em tua direcção,


Descalço,


Não posso,


Fingir que te amo.


Se te amasse, amava-te,


Se te escreve, escrevia-te,


Mas, não, não posso,


Fingir,


Escrever,


Se pudesse, lia-te, todas as palavras começadas por A…


Não posso,


Fingir,


Que te lia todas as palavras começadas por A.


Amar.


Começar,


Caminhar,


Não posso.


Fingir.


Que sou o mar.


Lanço no poço da saudade o beijo desenhado,


Na alvorada,


Na eira,


O beijo embalsamado,


Fingido,


Doente,


Caminhando, caminhar,


O fogo do prazer,


Quando o teu corpo adormece,


Arde,


Tudo arde,


Mesmo o entardecer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/03/2019


03.06.15

A tarde vaiada no silêncio do adeus,


Há sempre uma partida,


Sem despedida,


Alguma,


Ou… ou nenhuma


Canção de embalar,


Há sempre uma palavra


Amiga,


Amarga,


Desempregada…


Sem… sem desenhos para desenhar,


A tarde,


 


Só,


Entre as paredes dos plátanos envelhecidos,


E gritam,


Às vezes…


Enfurecidos,


As pálpebras cinzentas da madrugada,


 


Mas da tarde vaiada…


Não sobra nada,


 


Nada.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 3 de Junho de 2015


15.03.15

o engate suspenso nos anzóis da tarde


à mão


regressa a caneta da solidão


e há nuvens de papel nos olhos do poema


és livre


de voar


sobre os corações de xisto


que habitam as imagens a preto e branco


do Douro


navegar


subir ao luar


e,


 


e abraçar-se aos vulcões de areia


dos homens


e das mulheres


de sombra,


 


imaginar


desenhar nas entranhas pálpebras de amar


o silêncio do beijo


à janela


o mar avança e nos leva


somos dois


talvez...


três


o engate


à mão


suspenso nos anzóis da tarde


a tarde... a tarde dos farrapos de vidro...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 15 de Março de 2015


28.12.14

Os poemas ao fim da tarde


este mesquinho silêncio


quando entra pela janela


e lá fora


um barco em espera


esquelético


cansado


farto do mar...


os poemas ao fim da tarde


com fome de matar


a voz do teu clitóris em tristes soluços na madrugada


os poemas ao fim da tarde... são poemas de nada,


poemas... poemas de amar


o estranho invisível quadrado com sorriso de vidro


há nas palavras a força da revolta


o corpo em lágrimas


que só a cidade...


que só a cidade consegue absorver


os poemas ao fim da tarde


o vento de sémen contra uma árvore


e os pássaros dos teus cabelos


brincando na seara


entre pedras e enxadas


sempre... sempre, sempre que um relógio acorda... e ninguém sabes onde habitam “os poemas ao fim da tarde”.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 28 de Dezembro de 2014


28.11.14

Os teus olhos pincelados de verniz


camuflados no sombreado silêncio de uma ardósia


a tarde sem destino


e o menino...


embrulhado nas palavras adormecidas pelo giz


que só o luar consegue apagar


e destruir


o barco vai partir


sem conhecer a direcção...


ou... ou o cais para ancorar


e há uma corda suspensa nos lábios da solidão


que transcende o homem que deseja mergulhar no Oceano,


o desengano


do desassossego vestido de beijo enfeitiçado


a menina dança?


os teus olhos que só os pássaros percebem


o teu corpo de esferovite à deriva na planície das lágrimas incendiadas pelo areal...


um grito de revolta


alicerçado ao magnetismo esconderijo das geadas envenenadas


a embriaguez estonteante das madrugadas


quando o relógio de pulso se suicida num abraço de cartão canelado


e o homem responsável pelos teus olhos pincelados de verniz...


… morre lentamente na fogueira da paixão


como a perdiz


nas garras do amanhecer


e nesta vida de viver...


os teus olhos são cerejas de sofrer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014


13.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


o espaço exíguo do meu sonho perde-se na neblina de prata


sei que uma língua de fogo jaz nas profundezas da tristeza


que de um bairro em chapa


acordou a madrugada cinzenta em pétalas de ciume sem beleza


chata


a miúda da perfumaria a tentar impingir-me livros pornográficos


cinzeiros


lanternas mágicas com anéis de poesia...


a miúda diz amar-me sem saber o que é o amor


como eu desconhecia as lágrimas dos bravios pinheiros


das tardes fotográficas


que o recreio da escola inventava entre serpentinas e muros de fantasia


 


alegria


sorria...


dizem-me que estou a ser filmado


 


porcaria


com a autorização de quem pergunto eu ao primeiro vagabundo das amendoeiras em flor


alegria


sorria...


lanço-me do telhado e debruço-me sobre as veias mágoas dos cristais envenenados


uma flor em papel é como um jardim desenhado pela mão de um pintor


aberrantes lábios que seguram as florestas da montanha na ponta do lápis de cor


sinto-me exíguo dentro do espaço nas neblinas de prata


és tu tão chata


sou eu... eu um rochedo recheado de pontos pigmentados nas manhãs dos quadriculados


uma rosa à janela do desassossego milagre que a liberdade adensa depois das tempestades...


e o espaço exíguo... sou eu... o homem desiludido com os barcos de veludo em negras tardes


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2013



08.05.12

Desapareceram as escadas


de acesso à noite


fugiram todos os papeis


e todos os livros


 


na parede do quarto


a janela transformou-se em azevinho


com pássaros suspensos nos seus braços


e palavras que voam dentro das asas


 


(uma sílaba estonteada


procura-me no caixote do lixo)


 


e uma mimosa em flor


cresce nos meus olhos sem cor


sem desenhos para pintar


sem palavras para assassinar


 


sou o quê EU?


 


uma sílaba estonteada


procura-me no caixote do lixo


onde restos de sémen


e pingos de seda


se escondem no azevinho


(pássaros suspensos nos seus braços


e palavras que voam dentro das asas)


ao cair da tarde.


04.05.12

Conheci um diário com o coração partido, pequeníssima fenda, mas para um coração dois milímetros é gravíssimo, desastroso,


Ouvia-lhe o ruído das engrenagens junto à fechadura, ouvia-lhe o tilintar de suspiros na tempestade da tarde, ouvia-lhe


 


as palavras derramadas no papel de parede, desenhos abstractos misturados com pedacinhos de poeira, e fumo de cigarro que embaciavam as lentes dos óculos do diário com o coração partido,


 


Hoje acordei cedo, abri a janela e a madrugada tinha desaparecido, evaporou-se no interior da alvorada antes da iluminação pública cerrar-se hermeticamente na chávena de café com leite, as torradas sonâmbulas dentro da minha boca recusaram-se à destruição maciça por parte dos meus dentes e o comprimido para deixar de fumar entrou garganta abaixo e possivelmente em sorrisos parvos, e possivelmente, sentou-se junto ao mar,


 


dois milímetros de uma janela no coração do meu diário, 4 de Maio de 2012, sete horas e trinta minutos,


 


Chove torrencialmente no meu quintal, um casal de melros a todo o custo protege as crias que adormecem no ninho pendurado na cerejeira sobre a casota do meu cão, pais e filhos estão felizes e o meu cão que detesta chuva está melancólico, triste, ausente, chove torrencialmente no meu quintal e pergunto-me ao olhar a janela de dois milímetros no meu coração se amanhã é sexta-feira ou quinta-feira ou domingo, é que com tanta chuva deixei de perceber os dias, as horas, os minutos e os segundos,


 


dois milímetros de uma janela no meu coração sem vista para o mar, chove torrencialmente no meu diário e lá fora, e lá fora o coração partido aos pulos como se fosse um pugilista ou um canguru nas margens de um qualquer rio encalhado na Austrália, talvez no Tua, talvez no Douro, talvez no jardim onde brincam plátanos e barcos de papel, talvez na minha mão


 


Conto os segundos, e oiço através da pequeníssima ranhura do coração do meu diário que hoje é sexta-feira, e se hoje é sexta-feira amanhã é sábado, dia de Antologia de Poesia Moçambicana, finalmente, finalmente as palavras do meu diário a boiarem dentro da chávena de café com leite, finalmente posso terminar o dia porque hoje, porque hoje recuso-me a escrever mais palavras nas suas páginas, nem que o coração me implore,


 


nunca mais vi o mar, e junto à fechadura o tilintar de suspiros na tempestade da tarde, ouvia-lhes as sílabas assassinas da noite antes de chegar a noite, ouvia-lhes as vogais embriagadas das estrelas antes de a noite ser noite e muito antes de encerrar o meu diário, muitos antes de saber o significado de mar,


 


Nem que o coração me implore.


 


(texto de ficção não revisto)

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