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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


21.10.14

Do término dia entra em mim o morro da paixão,


ele, vestido de negro, começa a voar sobre os socalcos imaginados por uma louca,


desiste,


e deita-se...


descem as cinzas do sofrimento que dizimam toda a claridade reflectida no espelho da insónia,


aparece o sonho disfarçado de lâmina de xisto,


ouvem-se das encostas húmidas da pele o silêncio emagrecido de uma gaivota,


desiste, e deita-se,


como um corvo sobre a sua presa apodrecida,


há navios esquecidos nos meus lábios,


e do término dia...


nada, só o sangue triste de uma viagem sem regresso,


há um mapa que não me ajuda a regressar,


um clandestino beijo enforcado nas sílabas da noite,


e do término dia...


o amor,


em forma de carrasco,


uma carta escrita na algibeira,


um cigarro inseminado numa qualquer rua de uma cidade sem nome,


e um qualquer húmus redopia junto ao rio,


tenho fome, tenho medo deste amor sem marinheiros,


tenho medo das palavras invisíveis que aportam nos teus seios...


sento-me e finjo caminhar sobre uma fogueira habitada por gajas nuas...


… e nuas flores com um lencinho ao peito,


há espingardas suspensas na bandoleira da manhã,


peço um café,


e adormeço no sisal Outono,


e deixei de perceber o mar,


os rochedos enamorados que desenham no meu peito a solidão,


e esta casa funde-se como se fundem todos os metais...


quando o alicerce do abismo encerra nele o livro proibido,


não tenho janelas no meu olhar,


sinto-te entranhada nos confins de uma ilha inabitada,


sem uma cabana, sem um cão para conversar...


e adormeço no sisal Outono,


e deixei de perceber o mar,


do término dia entra em mim o morro da paixão,


ele, vestido de negro, começa a voar sobre os socalcos imaginados por uma louca,


desiste,


e deita-se...


até que o tempo se transforma em estátua e todas as lâmpadas se apagam,


o meu corpo evapora-se numa amoreira...


e tu perceberás que sou filho da noite,


e tu perceberás que sou a própria noite... só.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

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