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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.07.23

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Suicido-me nos braços deste poema

Cravo-o no peito,

Suicido-me com este poema inacabado,

Neste poema sem destino

Marcado,

Quando as primeiras lágrimas de sono

Descem sobre o teu peito,

 

Suicido-me nos teus lábios

Doce madrugada florida,

Pertinho do mar…

 

Suicido-me nos teus olhos

Depois de eu cerrar os meus…

E escrever na tábua da paixão,

Desejo-te,

 

Suicido-me nas tuas mãos,

Enquanto afagas o meu cabelo,

Suicido-me na tua boca,

Doce canção de Primavera,

Que me traz o prometido abraço,

 

Suicido-me no perfume da tua pele

Quando te banhas nos sais do silêncio

E a tua insónia…

É a minha insónia,

Suicido-me nos braços deste poema,

Sem nome,

Deste poema com fome

Um tiro nos miolos…

Com esta caneta que nunca pára de escrever…

O teu nome,

 

Suicido-me no pôr-do-sol

Junto ao mar,

Procurando abraços,

Vendendo almas ao Diabo…

Suicido-me na espuma dos teus dias,

Suicido-me dentro deste livro,

Que não me canso de escrever…

E que nunca terminarei de escrever,

 

Suicido-me na Lua,

Quando a Lua me quiser,

Se alguma vez a Lua me querer,

Suicido-me neste relógio parvo,

Ignorante,

Que pensa,

Que pensa,

Que pensa…

 

Suicido-me na chuva

Quando mergulha no teu cabelo…

E um silêncio de espuma,

Poisa nos teus seios,

 

Suicido-me por volta da meia-noite,

Dizem que fica a metade do preço,

Suicido-me nas palavras que escrevo

E nas palavras que não devo…

Escrever,

Palavras,

 

Suicido no teu sorriso,

Cânfora manhã sem destino…

Suicido-me dentro deste laminado de sonhos,

De sonhos…

Nenhum cumprido,

 

Suicido-me porquê,

Dentro deste poema,

Sem nome…

Sem sexo,

Sem idade…

Suicido-me nos teus seios,

Antes que uma manhã qualquer…

Tos roube,

 

Suicido-me nestas palavras parvas,

Que às vezes,

Sinto VERGONHA DE AS ESCREVER…

Suicido-me contra o silêncio,

Suicido-me contra as estrelas em papel,

E também…

Contra aqueles malditos papagaios em papel…

Colorido,

 

Suicido-me nos braços deste poema

Cravo-o no peito,

Suicido-me com este poema inacabado,

Neste poema sem destino

Marcado,

Quando a luz me vier buscar.

 

 

 

08/07/2023

Francisco


03.07.17

Uma criança de luz adormece no teu sorriso prateado,


Oiço o rosnar do fumo dos teus cigarros envenenados pela escuridão,


E o teu corpo é apenas um amontoado de ossos,


Morres-me nas mãos,


Suicidas-te com as palavras perdidas na Calçada do Adeus,


Pobre criança sem Pai,


Pobre luz sem Mãe,


E do mar regressam as cordas do teu sofrimento,


Alicerças-te a mim,


Pareço um rochedo ingrime perfurando o intestino do suicidado…


Nada mais posso desejar,


Que partas em breve….


E sejas feliz assim,


 


Assinado,


 


O homem suicidado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 3 de Julho de 2017


12.12.15

Sinto os lençóis do teu rosto


Na Cárcere dos meus tímidos lábios


Sinto o infinito solitário


Descendo a rua


De cigarro em punho


Uma espingarda para a morte


Morrer


A morte só faz sentido quando o corpo desiste da paixão


E o amor deita-se sobre os rochedos da insónia


Sinto os teus braços no meu cabelo


Sinto a tua mão cegando a minha barba


(pareço um bandido)


Pareço um sem-abrigo abrigado nos teus beijos


Um homem desiludido… desiludido do luar


E das nuvens de algodão


Negoceio em gado


Sou agricultor diplomado


Aprumado


Nas letras nos números e nos traços


Roça-se no seu corpo


Acredita na morte


E tem medo da guerra


A carta não regressa


Um par de cornos


E uma foice… a seara do cansaço


Dorme


E sente


Como eu


Sinto


Na Cárcere dos meus tímidos lábios


Sinto o infinito solitário


Um homem corpulento


Bom amante


Falante


Suicidando-se…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 12 de Dezembro de 2015


30.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Ofereceu a bala inseminada com as impressões digitais do poema em construção, poisou os cotovelos sobre a iluminada folha de papel com meia dúzia de palavras, leu e releu e puxou o gatilho da caneta de tinta permanente sobre a secretária em pinho, voaram sobre a biblioteca todas as gaivotas de porcelana que permaneciam entre os livros e outras bugigangas, aos poucos, como silêncios de um pêndulo cansado, foram cessando as agonias do homem poeta da caneta de prata, uma bala silenciada adormecia-se como flores numa jarra, dentro dele apenas se ouviam as esquina de luz do espelho prateado,


A saudade submergiu do corpo caído sobre a secretária, ouvias as minhas preces como quem escreve um livro infinito, uma estória que só termina quando duas rectas tristes e sós se encontram


No infinito,


Dizem-me, eles,


A saudade é filha da balda da caneta de prata, as palavras morreram como morreram os teus sorrisos e como morreram as tuas caricias e como morreram as tuas mãos sobre o meu peito em feitiço... e como morreram


Quem quem morreu?


Como morreram os fantasmas dos roseirais de Luanda, e há uma filme escondido nas paredes de um casebre, na parede traseira uma placa com a inscrição de “FIM” aparece


Desaparece


E morreram os teus lábios nos meus lábios quando entrelaçados nos meus cabelos as lições de piano, o som melódico das teclas borbulham nos alicerces da madrugada, ofereceu a bala e suicidou-se com a caneta de prata


Sentia o cheiro intenso da tinta derramada nas alvenarias como desenhos abstractos que os teus olhos inventaram nas prateleiras velhas, nas prateleiras caducas, morreram os teu seios nos meus lábios, morreram as tuas cintilantes pálpebras nos cadeados de estanho, e ouvia-te das lágrimas os aplausos nas cantigas dos rabugentos e enferrujados barcos,


O aço é um corpo só, velho, flácido... o aço vive cambaleando suaves beijos em desleais palavras em mendigas sílabas de verdes olhos procurando a noite reconstruída e morreram os teus dedos que procuravam em mim


Quem quem morreu?


A bala, procuravam em mim a caneta de prata o suicídio fictício das palavras,


Quem quem morreu?


A bala, procuravam em mim as sombras desnorteadas das tardes de Segunda-feira, e eu, eu sabia-o, admitia-o... que um dia, tu, a bala e a caneta de prata... invadiriam o meu silêncio, um dia, tu, eu, que um dia, tu, a bala e a caneta de prata... invadiriam o meu sofrimento de lírio apaixonado, deitado sobre a secretária da


Saudade?


Que morreram as tuas peugadas absorvidas pelo meu pesadíssimo corpo em aço, só, velho, flácido... o aço vive cambaleando suaves beijos em desleais palavras em mendigas sílabas de verdes olhos procurando a noite reconstruída e morreram os teus dedos que procuravam em mim


Quem quem morreu?


A saudade,


(só, velho, flácido... o aço vive cambaleando suaves beijos em desleais palavras em mendigas sílabas de verdes olhos procurando a noite reconstruída e morreram os teus dedos que procuravam em mim)


Quem quem morreu?


Quem quem morreu?


O amor das pedras cinzentas...


FIM.


 


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 30 de Novembro de 2013



24.03.11

Ele entra em modo de suspensão, fecha a tampinha e sai porta fora. Sobe apressadamente as escadas, bate à porta do 8º D, espera, espera e abre-se a porta, cabelos loiros, olhos azuis como quando o céu límpido de uma manhã de primavera acaba de acordar, mãos meigas e macias, ele frente a frente com um corpo esculpido na madrugada, pede licença, entra, dirige-se à janela, abre a janela, e, e vai ele experimentando a lei da gravidade até chegar ao pavimento, ele todo em pedacinhos,


- made in china,


O meu portátil Toshiba Portégé M800 com quatro GB de memória RAM acaba de se suicidar, e nada que me surpreenda, há muito que eu notava nele fragilidades de cansaço, e às vezes parecia-me distante, ausente, e na noite ouvia-o,


- os malmequeres? Não vejo os malmequeres junto ao rio…


A vizinha aos gritos, e da janela do 8º D apenas conseguia distinguir,


- made in china,


E os malmequeres suspensos na faixa de rodagem, ora inclinados para a direita, ora inclinados para a esquerda, ora tombados no chão, e eles não mede in china, eles,


- eles filhos de um deus arrogante, malcriado,


Eles à espera do acordar do sol, e o sol escondido nas nuvens, eles tombados na faixa de rodagem a olharem o made in china que em pedacinhos esperava pacientemente a vinda da policia, delegado de saúde, ministério publico, e causa de more,


- queda do 8º andar direito, suicídio ou homicídio, ou simplesmente o desespero, interrogar a vizinha, e a vizinha,


Ele entra em modo de suspensão, fecha a tampinha e sai porta fora. Sobe apressadamente as escadas, bate à porta do 8º D, oferece um ramo de flores à madame, e a madame em suspiros de desejo,


- bateram-me à porta e quando abro, abro e deparo-me com um portátil que me oferece um ramo de flores, abraça-me, beija-me, começa a despir-me e quando dou conta está a encabar-me por trás, e,


E violou-a?


- Não. Eu também queria e foi bom…


E depois,


- e depois foi à janela, abriu a janela, e vai ele experimentando a lei da gravidade até chegar ao pavimento, ele todo em pedacinhos,


Made in china…


E foi bom.


- os malmequeres? Não vejo os malmequeres junto ao rio…


 


 


 


(texto ficção)


Luís Fontinha


24 de Março de 2011


Alijó

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