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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


06.04.22

Não desistas,

Enquanto o vento te leva para o mar,

Não desistas e,

Não te deixes ofuscar pelo luar,

Não desistas de voar,

Amar,

Brincar,

Beijar…

 

Não desistas das palavras

Que escreves no céu nocturno do sonho,

Não desistas das canções de embalar e,

Que os teus pais te ensinaram…

Não desistas das tardes límpidas junto ao rio,

Não desistas de observar as montanhas e,

Todas as pedras.

Não desistas, não desistas de sonhar.

 

 

Alijó, 06/04/2022

Francisco Luís Fontinha


16.02.21

Via-te dançar

Na sanzala dos beijos,

Via-te brincar

Na sombra dos desejos,

Via-te abraçar

As palmeiras distantes da baía,

Via.

Via-te encostada à planície da solidão,

Depois da tarde se recolher,

Via-te a correr,

Quando apressadamente te encostavas ao corrimão

Da escada de acesso ao mar.

Via-te caminhar

Sob a ténue escuridão,

Via-te escrever e,

Pegares na minha mão.

Via-te perdida

Na cidade.

Via-te quando te escondias na idade

Depois da partida.

Via-te na esplanada da fotografia,

Via.

Via-te nos lábios a saudade

Do frio que ontem fazia,

Via.

Via-te em mim depois do acordar

Sabendo que dançavas na sanzala dos beijos;

Via-te sentar,

Via.

Via-te desejar

Todas as sílabas entre parêntesis e ensejos,

Via-te sabendo que ver-te me causa saudade,

Via-te na areia fina de uma página aberta,

Via-te quando olhavas sem vaidade

A rua deserta.

Via-te saltitando as pedras da calçada,

Via-te quando me batias à porta do silêncio matinal,

Com a paixão de um livro agasalhado,

Via-te embrulhada ao jornal,

O mesmo, de sempre, que eu tinha comprado.

Via-te sem saber que te via,

Na sanzala dos beijos.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 16/02/2021


29.11.19

A fome de pensar.


O sorriso loucamente apaixonado pelo silêncio.


Os cigarros embriagados,


Loucos,


Descendo as escadas da doença.


A liberdade.


Quando se apaga a madrugada em ti.


Canso-me das palavras de escrever,


Dos sonhos,


E dos livros de morrer.


A insónia deitada na cadeira da preguiça.


As camufladas lâmpadas de néon suspensas nos teus seios de alumínio…


Quando lá fora, a tempestade de desejos, dorme nos meus braços.


A fome de correr.


Saltar.


Brincar…


Na tua boca de sofrer.


A fome de vencer.


O medo de morrer…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/11/2019


25.12.17

A chuva. As noites recheadas de literatura, lá fora, pedacinhos de sonhos voando sobre o meu corpo ensonado, a poesia entranhada no silêncio da noite, acorrentadas as mãos ao corrimão da saudade, sempre que possível, uma sombra na minha mão,


A chuva.


Recordo os teus lábios quando te sentavas no meu colo, dentro de mim uma corrente em aço pronta a disparar a bala da cegueira, as palavras embriagadas no teu peito, a chuva, enraizada no teu cabelo, frágil, mórbido, e, sempre que adormeço tenho em mim todos os sonhos, o desenho dos sonhos, a vaidade de nada ter, a não ser, alguns livros, nada mais, alguns livros e a chuva para recordar o teu sorriso.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 25 de Dezembro de 2017


05.12.17

Bebo o veneno da insónia.
Desamarro as cordas da solidão, logo pela manhã,
Tenho na mão a magia do sono, desprovido de sonhos,
Na lentidão, o adeus, como as flores em despedida.
Desenho nuvens no teu triste olhar, uma desgraça…
Pois eu nunca soube desenhar,
Escrevo palavras, bebo livros de poesia, e assim passo o dia,
Cansado das árvores, cansado das casas envelhecidas,
Cansado da vida.
Bebo o veneno da insónia.
É madrugada, acendo o interruptor da desgraça, sou livre,
Aprendi a voar no teu cabelo,
Sou astronauta reformado,
Carpinteiro no activo,
Sou jardineiro sem-abrigo…
Nos teus lábios de trigo.
Bebo a poesia dos mortos, e percebo a tua dor, quando acorda a noite,
Puxo de um cobertor,
Fico à lareira,
Até que as estrelas me levem para longe.



Francisco Luís Fontinha
Alijó, 5 de Dezembro de 2017


02.12.17

O silêncio de espuma que embrulha o teu jardim, o banho imaginário nas traseiras da casa onde habita o teu jardim, o teu corpo é um esqueleto de veludo, fossilizado nos fantasmas da noite, regressa o mar, traz na algibeira as flores da madrugada, simples, magoadas, como as sentinelas da morte,


O ausentado menino dos socalcos de xisto, que brinca nas margens do rio envenenado pelas enxadas da insónia, tenho medo, tenho medo dos alicerces da dor quando do teu corpo apenas consigo observar estrelas e fumo…


Ao amanhecer,


A trovoada que abraça a parede granítica do sonho, o miúdo complexo em círculos no quintal infestado de Mangueiras e Mangas, e quando ele percebe, tem um papagaio em papel brincando entre os finos dedos, não chove, deixou de chover nesta terra, deixei de ouvir o cheiro da terra queimada, e o poço é cada vez mais fundo, observo-o, alimento-o, e sinto o peso das plumas nocturnas dos bares de Lisboa,


Ao amanhecer, os vidros das janelas rangem de frio, a lareira morta na esperança de acordar de madrugada, e o silêncio de espuma que embrulha o teu jardim, o banho imaginário nas traseiras da casa onde habita o teu jardim, cobertos por um finíssimo cobertor de geada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 2 de Dezembro de 2017


02.08.17

Perguntei ao flamingo se reconhecia a minha voz,


Escrevi-lhe bilhetes de infância sonorizados com nuvens envergonhadas,


Senti nele a tristeza das horas junto ao rio,


Permiti-me abraçá-lo, permiti-me acariciá-lo…


E daí nasceu um poema, palavras dispersas na madrugada por nascer,


Morreram os poemas, morreram as palavras…


Morreram os flamingos amigos do flamingo,


E, e eu fiquei só,


Tão só como as noites de Inverno.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 2 de Agosto de 2017


28.05.17

As cordas da saudade são invisíveis nos meus braços,


Oiço o apito dos barcos apedrejados pela maré quando o meu corpo envelhece no teu peito,


Sou fraco, sou fraco como uma simples folha amarrotada de papel encharcado de lágrimas,


E lá longe, os livros entranham-se no meu olhar,


Dançam nas minhas mãos as cansadas palavras da vaidade,


Oiço, oiço a pobreza das ruas em flor,


Me mato, parto em direcção ao rio subterrâneo da solidão.


Desço ao poço do sofrimento como uma gaivota envenenada…


Bebe, bebe sem a noção do tempo embriagado pelo sangue,


E escreve uma carta de despedida,


Sinto o desejo enjoado pela ondulação das nuvens prateadas,


E esqueço-me da tua ausência…


Adormeço em ti,


Adormeço como um sonâmbulo ruivo construído de barro nauseabundo do silêncio,


Ergo-me diante do espelho,


Vejo um cadáver sem nome,


Perdi-me,


Envelheci nos olhos das flores abraçadas pela noite,


Envelheci nos olhos das pedras dos alicerces da penumbra,


Os barcos nas minhas veias encostados ao coração…


Eu criança,


E brinco com as algemas de alvenaria da brincadeira,


Como um puto deambulando pelas ruas, livre como um pássaro,


Lindo como o pôr-do-sol,


Quando os amigos se despedem da minha sombra,


Sinto no meu caixão o mar da saudade invisível nos meus braços…


E caminho sobre a areia adormecida da limpidez dos beijos que um caderno quadriculado guarda na algibeira do remoto silêncio das ruinas…


E o medo envelhece a tristeza da partida,


Sempre se perde nos sonhos escoriados das palavras deitadas na fogueira,


Há na tua morte um sentimento de esquecimento,


Uma palavra estonteante que se alicerça às tuas coxas…


E no caixão dorme o meu olhar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 28 de Maio de 2017


15.12.16

Os desejos da morte quando acordava


A visibilidade da madrugada,


Os silêncios da sorte, os medos da alvorada


Nos espelhos cansados da manhã sonhada,


E ele chorava,


E ele não sabia


Que um dia,


Cessavam as lágrimas sobre a calçada.


 


 


Francisco Luís Fontinha


15/12/16


11.09.16

O sonho morre nas mãos do luar,


A insónia do meu peito, arde nos teus olhos,


E do sonho, pequenos panfletos de areia… voam em direcção ao abismo,


O papel onde escrevo alicerça-se aos teus lábios,


Fico sem palavras, também morro nas pétalas do sonho…


Fixando no olhar a tristeza do mar,


Assassino os meus dias com as pedras da solidão,


Cravo espadas na sombra da noite, como um pedestal apaixonado,


Louco,


O sonho morre,


Como eu…, aos poucos dentro da tempestade,


Sinto nas tuas mãos o poema em sofrimento,


Rodeado de finas lâminas de desassossego,


Nas mãos do luar,


Arde nos teus olhos,


Como um Deus desvairado…


Suspenso na madrugada,


Galgo as rochas do infinito adeus,


Percorro pirâmides de luz como uma espada queimada no meu peito,


E choro a ausência do esquecimento,


Da vida,


Da vida camuflada pelas marés de Inverno,


Os barcos cercados pelos anzóis da pobreza,


Marinheiros escorregadios…, saltam até ao próximo bar,


Bebem desenfreadamente os copos da alegria,


Sentindo no olhar a Cinderela manhã de inferno,


Escoa-se o tempo nas janelas do sofrimento,


Há nas pálpebras da doença o sentido proibido da morte,


As nuvens vão levar-me,


E a cidade desaparece no caderno onde desenho os teus beijos,


Como desapareceram todos os fantasmas do meu secreto olhar…


 


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 11 de Setembro de 2016

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