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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.01.23

Dos braços desta ribeira

Recebo a voz do silêncio,

Nos braços desta ribeira

Vêm a mim as semeadas palavras

Que na voz do silêncio

Acordam as madrugadas,

 

Dos braços desta ribeira,

Ribeira que corre nas minhas veias,

 

Dos braços desta ribeira

Que em círculos brinca na minha mão,

Vou procurar a manhã que acorda,

Na manhã que mergulha na montanha…

Nos braços desta ribeira,

Ribeira das noites em luar,

Regressam a mim os sonhos,

Os sonhos de sonhar.

 

 

 

 

Alijó, 19/01/2023

Francisco Luís Fontinha


16.01.23

Uma criança pode ser tudo o que quiser; basta sonhar.

Eu menino

Eu criança

Eu sonhava

Sonhava com coisas

Coisas esquisitas

Coisas sem nexo

Sonhos invisíveis

Sonhos sonhados

Sonhos,

 

Coisas sonhadas

Coisas

Sons que me entravam pelas frestas da manhã

E cheiros que eu coleccionava nas mãos,

 

Sonhos

Malditos sonhos de sonhar

Que eu

Eu criança

Eu menino

Eu sonhava

Sonhava com sonhos que sendo sonhos não eram sonhos,

 

Sonhava com merdas

Merdas que hoje são os meus sonhos

Sonhos de merda

Coisas esquisitas,

 

Coisas de merda

Os sonhos

A vida de um sonhador

Sonhar que vive

Dentro da morte de um sonho,

 

O frio

A chuva dentro do frio

Em cio

As tardes junto à Torre,

 

O rio

Naquele maldito rio

Onde habitam esqueletos

Onde brincavam as crianças

As crianças que sonhavam,

 

Por isso

Eu menino

Eu criança

Eu sem sonhos,

 

Sonhava

Gritava

Sonhava com barcos em papel

Sonhava ser pedra

Alicate

Martelo

(para foder a cabeça a alguns)

Sonhos

Que sonhava

E morreram

Nos sonhos

De uma madrugada,

 

Os apitos

O clitóris disfarçado de sombra

Entre um sonho

O outro sonho

E a vindima,

 

Mais um dia

Mais um ano

Com sonhos

Sem sonhos

Destes tristes sonhos de menino,

 

(Uma criança pode ser tudo o que quiser; basta sonhar.)

 

Sonhar o quê?

 

Sonhos

Sem sonhos neste taxímetro a que apelidam de vida

Vida de sonho

Ou o sonho da vida,

 

Feliz aquele que não sonha

Feliz o menino que nunca sonhou

Sonhou feliz no sonho

Quando do sonho

Uma árvore se levantou

E gritou;

Que se fodam os sonhos

E que se fodam os sonhos de sonhar,

 

Há quem sonhe em morrer

E não consegue matar-se,

Mata-se uma

Duas

Mata-se três…

Três horas da madrugada,

E no final

Está vivo,

Está a sonhar

Que morto

Sonhou

De morto se levantou,

 

E ajoelha-se no altar

Não sonha

Mas reza

Ergue as mãos a Deus

Pelo sonho sonhado

Estar morto

Assassinado

Estar vivo

Escrevendo poemas…

 

Escrevendo poemas enquanto a vida me deixar

Por aqui

Por ali

Por aí,

 

Sonhar.

 

 

 

 

Alijó, 16/01/2023

Francisco Luís Fontinha


23.09.22

Os sonhos são pedacinhos de rocha

Suspensos num rio sem nome,

São pequenas janelas gradeadas

Com fotografia para o inferno,

Os sonhos são papel

 

Amarrotado,

Os sonhos são silêncios,

São… rios sem nome,

Os sonhos são enxadas em revolta,

São um calendário de equações diferencias,

 

Os sonhos são papel-higiénico,

São a flor parvalhona que um parvalhão aprisiona na lapela,

São cordas de nylon,

São corpos mutilados pela guerra,

Os sonhos são janelas gradeadas,

 

São sótãos,

Filhos, filhas, mar, ar, nada…

Os sonhos são solidão,

São madrugadas,

São noites sem destino,

 

Os sonhos são as crianças,

Uns tem-nas, outros…

Inventam o sono na alvorada,

Os sonhos são as abelhas,

Porque os sonhos são pedacinhos de rocha…

 

 

 

Alijó, 23/09/2022

Francisco Luís Fontinha


06.04.22

Não desistas,

Enquanto o vento te leva para o mar,

Não desistas e,

Não te deixes ofuscar pelo luar,

Não desistas de voar,

Amar,

Brincar,

Beijar…

 

Não desistas das palavras

Que escreves no céu nocturno do sonho,

Não desistas das canções de embalar e,

Que os teus pais te ensinaram…

Não desistas das tardes límpidas junto ao rio,

Não desistas de observar as montanhas e,

Todas as pedras.

Não desistas, não desistas de sonhar.

 

 

Alijó, 06/04/2022

Francisco Luís Fontinha


16.02.21

Via-te dançar

Na sanzala dos beijos,

Via-te brincar

Na sombra dos desejos,

Via-te abraçar

As palmeiras distantes da baía,

Via.

Via-te encostada à planície da solidão,

Depois da tarde se recolher,

Via-te a correr,

Quando apressadamente te encostavas ao corrimão

Da escada de acesso ao mar.

Via-te caminhar

Sob a ténue escuridão,

Via-te escrever e,

Pegares na minha mão.

Via-te perdida

Na cidade.

Via-te quando te escondias na idade

Depois da partida.

Via-te na esplanada da fotografia,

Via.

Via-te nos lábios a saudade

Do frio que ontem fazia,

Via.

Via-te em mim depois do acordar

Sabendo que dançavas na sanzala dos beijos;

Via-te sentar,

Via.

Via-te desejar

Todas as sílabas entre parêntesis e ensejos,

Via-te sabendo que ver-te me causa saudade,

Via-te na areia fina de uma página aberta,

Via-te quando olhavas sem vaidade

A rua deserta.

Via-te saltitando as pedras da calçada,

Via-te quando me batias à porta do silêncio matinal,

Com a paixão de um livro agasalhado,

Via-te embrulhada ao jornal,

O mesmo, de sempre, que eu tinha comprado.

Via-te sem saber que te via,

Na sanzala dos beijos.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 16/02/2021

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