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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


23.02.22

Se és o vento,

Leva-me.

Se és um abraço,

Abraça-me.

Se és um beijo,

Beija-me.

 

Se és um livro,

Deixa-me escrever em ti,

Desenhar os teus lábios

Na manhã quando acorda.

Se és a lua,

Semeia a luz no meu corpo cansado,

 

Quando chora.

Se és uma tela,

Deixa-me pintar em ti a Primavera,

Como fazem os pássaros,

Ou as flores,

Como fazem as palavras,

 

Se és uma lágrima,

Diz-me que o poema não morreu,

Diz-me que as palavras

São fertilizante para as tuas tristes noites;

Se és sol…

Não te canses de me iluminar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23/02/2022


25.07.20

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Suicídio. Acrílico s/tela 50x70. Francisco Luís Fontinha

 

Sem tempo, esta escuridão de azoto,

Descendo nas borbulhas do sono,

E, meu amor, a tristeza quando a partida,

Às vezes complexa, de um olhar, talvez cansado,

Começa a desenhar-se no sorriso de uma esfera.

Uma caixa de vidro, uma janela em pedra,

Uma lágrima entre sorrisos e nuvens,

Vem a nós o corpo circunflexo da insónia,

E, nos teus seios, a alvorada envenenada pela escuridão.

Desenham em traços de água, o sono dos justos,

Os emagrecidos amanheceres da palavra escrita.

Sem tempo, meu amor,

Para dormir debaixo das árvores,

E dos silêncios da morte;

É tão triste, a morte, meu amor,

Quando morre o livro,

Quando é assassinada a palavra,

E uma nuvem de fumo educada,

Deita-se solenemente na manhã a despertar.

Sei que há dias tristes, muito tristes e, aqueles, menos tristes, mas felizes,

Onde brincam criancinhas vestidas de pano,

Amarrotado,

Pequena folha em papel que arde na sanzala,

Basta um sorriso,

Uma pequena lágrima,

Para nascer em ti o poema prometido.

Sem tempo, amor,

Sem tempo neste corredor de sonhos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

25/07/2020


29.01.20

Todas as coisas, possíveis, impossíveis,


Acontecem quando nasce em mim a noite.


O corpo range de sono, perco-me nas palavras da saudade,


Quando regressa a madrugada,


E, todos os pássaros voam em direcção ao mar.


Um barco chilreia, voa sobre o jardim das cantarias,


Flores dispersas, como mendigos apressados,


Brincando na eira,


Olham o cereal,


Deitam-se no chão,


E, sonham com o luar.


Todas as coisas,


Infinitas, finitas, nas mãos de Deus.


Um esqueleto de silêncio vagueia nas pálpebras da insónia,


Morrem as pedras do meu pobre jardim,


Levantam-se as migalhas da fome,


Quando um carnívoro de sombra, às vezes cansado, levita na escuridão da solidão.


Tenho fome;


Tive pai, mãe, e, nada mais…


Agora, tenho a floresta,


Os papagaios em papel, de três cores,


E, num pequeno caderno quadriculado, invento o sonho,


Imaculado, distante, ausente,


Como todas as coisas,


Possíveis, impossíveis.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/01/2020


03.12.19

Não o sei.


Foram pedras da calçada que arranquei.


Foram lágrimas que chorei.


Não o sei.


Esta terra que semeei,


E depois me cansei,


E depois me sentei,


Não. Não o sei.


 


 


Não o sei.


Porque morrem, aos poucos, as palavras que plantei,


Na folha de papel que rasguei.


 


Não.


Não o sei.


 


Não o sei.


Porque brotam lágrimas esta lareira que amei.


Esta fogueira que incendiei,


Na madrugada que pintei.


 


 


Não.


Não o sei.


 


 


Não o sei.


Porque sinto os combóis que nunca sonhei.


Não o sei,


Porque brincam meninos na seara que pisei…


 


 


Mas uma coisa eu sei.


 


Que o Sol que bilha, não fui eu que o pintei.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


03/12/2019


30.11.19

O sono traz o sonho.


O sonho, o meu, alimenta-se das teias de aranha da madrugada.


O sonho, encarcerado.


Menino.


Drogado.


O sono dentro de um cubo de vidro.


Quando o sonho, da parte de fora, fode o xisto cansado da viagem.


O sonho é um travesti.


Travestido de sono.


Deita-se na calçada.


Come cigarros de vento.


O sono é um veneno.


Como o sonho.


Um engano.


O sono traz o sonho.


O sonho, meu amigo, é o prazer das prostitutas em delírio…


Zangam-se.


Comem-se.


E nada faz querer que a noite tenha culpa da constipação dos proxenetas da alvorada.


O sono.


No sonho.


O relógio das pedras enamoradas.


Cansadas.


Das tuas garras.


O sonho encarcerado.


Dentro da casa abandonada.


Fria.


Cansada.


O sono é um filho da puta.


Às vezes, aparece.


Outras,


Muitas,


De mim se esquece.


Não o si.


Quando sonho, quando avida, se aquece.


O sonho, no sono, embriagada mulher.


A tristeza, do sono, quando o sonho, emagrece.


Pum. morre o sonho.


Morre a saudade.


De sonhar.


Da vaidade.


Da verdade.


De cansar.


O sonho.


O sono.


Dentro de quarto incompleto.


Entre lágrimas.


Entre linhas.


Entre ossos.


Esqueletos vendidos na feira.


O sonho.


O sono.


Não regressam além-fronteira.


Triste, aquele que sonha.


Alegre, aquele, que desiste.


De dormir.


De se vestir.


E resiste.


Ao temporal do sonho.


Não ao sonho.


Sim ao sono.


Sim ao sono.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


30/11/2019

Sou


12.06.19

Sou,


Sou tudo aquilo que tu não querias que eu fosse,


Sou a escuridão,


Pássaro,


Avião,


Sou,


Sou a pétala de rosa que trazes nos lábios,


O poema cansado que beijam os teus seios…


Sou,


Sou pedreiro,


Carpinteiro,


E coveiro dos textos imperfeitos.


Sou,


Sou os socalcos que iluminam o teu olhar,


Sou a penumbra madrugada quando vais trabalhar,


Sou,


Sou a esperança de viver,


E deitar-me na tua mão esfomeada.


Sou a roseira do teu quintal,


Sou a melodia do teu corpo,


Quando iluminado pelo Sol…


Sou,


Sou tudo aquilo que tu não queres que eu fosse.


Sou,


Sou o amanhecer,


O charco embriagado da tua boca,


Sou,


Sou o poeta do inferno,


O camuflado sem-abrigo,


Apaixonado,


Sem trigo.


Sou…


Sou tudo aquilo que eu quero ser;


Um sonhador,


Lenhador…


Poeta candado…


Das noites em flor!


 


 


 


Alijó, 12-06-2019


Francisco Luís Fontinha – Alijó


12.03.19

O cachimbo suicida-se nas mãos do poeta.


Era noite, caminhava pelos trilhos que a geada tinha desenhado, e na mão, o caderno embalsamado pelas palavras da morte, tinha medo do escuro, tinha medo dos versos envenenados pelo luar, e mesmo assim, caminhava, caminhava,


O cachimbo embrulhado em metástases desesperadas pela fadiga do corpo, do fígado saía o camuflado texto das palavras inventadas pelas crianças da aldeia, às vezes, poucas, tinha fome, e


Fumas?


E, fumava desalmadamente até o nascer do Sol, poisava a caneta sobre a mesa-de-cabeceira, atirava o caderno contra o espelho, sonhava;


Sonhava!


O cabelo que outrora lhe tinha pertencido, fugiu para a praia mais distante, ficando ele, apenas com o usufruto do rio, uma enxada, rangia lá longe, nos socalcos, e, o cachimbo


Sonhava!


E, o cachimbo de mão dada com o caderno, como o amor de duas flores, uma roseira e um craveiro, uma sombra de luz poisava na boquilha, marinheiro agreste dos oceanos enlouquecidos, o falso milagre,


Sonhava…


E, suicidou-se na minha mão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12/03/2019


12.05.18

Gostava que as tuas mãos fossem palavras,


Sonhos encantados nas páginas de um livro embriagado,


Gostava que as tuas mãos fossem fósseis,


Pedaços de ossos,


Adormecidos no lençol da madrugada.


 


Gostava que as tuas mãos fossem um sorriso,


Um rio envergonhado correndo para o mar,


Gostava que as tuas mãos tivessem nos dedos pequenos dardos de sangue…


Quando acorda a lua.


 


Gostava que as tuas mãos fossem papéis,


Pedacinhos de jornal,


 


Entre parêntesis,


 


Em cada final de tarde.


 


Gostava que as tuas mãos fossem um carrossel,


Com crianças de sombra,


Gostava que as tuas mãos fossem um poema,


Cantado pelo silêncio,


Nos lábios de uma pomba.


 


Gostava que as tuas mãos fossem a Primavera,


Flores,


Jarras envenenadas por flores…


Das flores desencontradas.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12 de Maio de 2018


24.07.17

Parto feliz.


Deixo tudo nas tuas mãos, os velhos papeis, os livros… e a minha sombra.


Para onde vou, nada disso necessito…, apenas preciso de paz.


A fuga, depois da alvorada… para além do rio,


Uma caravela com velas de sonho,


Um pedacinho de solidão…


E lá vou eu, eu, feliz…


Parto feliz.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Julho de 2017


18.03.17

Um beijo que o silêncio madrugada


Afaga na escuridão da ausência,


As silabas estonteantes do sono


Que adormecem nas velhas esplanadas junto aos rochedos,


Vive-se acreditando na miséria do sonho


Quando lá fora, uma árvore se despede da manhã,


Um beijo simples,


Simplificado livro na mão de uma criança,


Um beijo,


No desejo,


Sempre que a alvorada se aprisiona às metáforas da paixão,


Sinto,


Sinto este peso obscuro no meu coração,


Sinto o alimento supérfluo da memória


Quando as ardósias do amanhecer acordam junto ao rio…


E na fogueira,


Debaixo das mangueiras…


Os teus lábios me acorrentam ao cacimbo,


Sou um esqueleto tríptico,


Um ausente sem memória nas montanhas do adeus,


Um beijo que o silêncio madrugada


Afaga na escuridão da ausência,


A uniformidade das palavras


Que escrevo na tua boca,


Sempre que nasce o sol


Sempre que acordam as nuvens dos teus seios…


E um barco se afunda nas tuas coxas,


Oiço o mar,


Oiço os teus gemidos na noite de Lisboa…


Sem perceber que és construída em papel navegante…


Que embrulham os livros da aflição,


Um beijo, meu amor,


Um beijo em silêncio


Galgando os socalcos da insónia…


Vivo,


Vive-se…


Encostado a uma parede de vidro


Como leguminosas no prato do cárcere…


Alimento desperdiçado por mim.


Desamo.


Fujo.


Alcanço o inalcançado…


E morro.


 


 


Francisco Luís Fontinha


18/03/17

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