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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


15.04.16

Tenho medo. A noite traz os esqueletos da insónia, perfilam-se em frente ao meu quarto, e sei que brevemente haverá uma revolta.


Tenho medo,


À minha volta brincam as flores da Primavera, loucas, loucas como as serpentes bronzeadas dos dias sem escrever,


Das palavras, o silêncio da madrugada que acorda embriagada,


Tonta, alimenta-se das minhas mãos como se alimentam os pássaros dos meus sonhos, medo, tenho medo.


Tenho medo da noite,


Do sifilítico cansaço da espuma do mar,


Dos barcos encalhados junto aos esqueletos, em frente ao meu quarto,


Fujo deste esconderijo,


Fujo desta cidade amaldiçoada pelo vento…


Medo.


Sinto o peso do xisto sobre os meus ombros,


E o bolorento desejo guardado na minha algibeira,


Tenho medo,


Sim,


Sinto a maldição das Calçadas que dormem no rio,


Sim,


Sinto a solidão das manhãs a olhar para o infinito, assim, assim como olham os esqueletos em frente ao meu quarto,


O peso da lua,


O peso do medo abraçado à lua,


Do medo,


Hoje, hoje acordei desconectado das sílabas do prazer,


As flores do meu jardim, tristes,


As bananeiras do meu jardim, contentes,


E os esqueletos que habitam em frente ao meu quarto…


Ausentes,


Diminutos segundos de lentidão,


O medo.


Sinto.


A lentidão dos ossos dos esqueletos em frente ao meu quarto, homens, mulheres, crianças, plantas e alguns animais de estimação,


Um cartão de cidadão grita,


Zurra,


Pimba…


E morre de overdose,


Sei que sim,


Sei que este medo pertence à neblina da minha terra, sei que este medo pertence às desavenças cotidianas, embargadas sonolências das noites em papel,


O medo,


No medo,


Sinto.


Sinto a sombra do meu esqueleto de vidro,


Sinto a sombra do meu cabelo quando chove torrencialmente no meu olhar…


E regressa o medo,


A morte,


A morte de um esqueleto.


 


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 15 de Abril de 2016


15.07.15

Escorrem no teu rosto


Todas as sombras das montanhas inanimadas,


Pego-te docemente


Como se fosses uma criança em tardes de brincadeira,


O colorido papagaio em papel,


O avião em cartão…


Sem local onde poisar,


Um dia coloquei o meu cigarro à janela,


Ardia enquanto as nuvens do silêncio


Argamassavam-se no teu peito,


Fugi,


Cerrei os olhos,


 


Sentei-me


E esperei que regressassem as paixões de iões


Que só tu conheces,


E falas,


E conversas…


Como se eles fossem uma raiz envenenada


Pelos insectos da madrugada,


Sem vida,


Sem uma cidade para deixares o jardim da tua infância,


Um nome,


Morada…


Ou lápide com asas.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 15 de Julho de 2015


30.03.15

Pareço um sedimento


Quando acordam as abelhas


E as migalhas de gelo


Que não pareço


Sonham nas árvores do teu jardim


Sou o vagabundo transatlântico


Desgovernado


Como sempre fui


Desde que nasci


Quando abriram a janela do perfume


E lá estavam elas


Todas preenchidas


 


Empilhadas


As nuvens de um Domingo


Sem endereço


Ou… ou identidade


Sinto no teu olhar o luar de Janeiro


Porque nasci em Janeiro


Era Verão


O calor entranhava-se na minha mão


Ouvia o sorriso dos parvalhões


À minha volta


Tão pequenino


Tão…


 


(o caralho que vos foda, pensava eu)


Quem são estes gajos


E estas gajas…


Ninguém me respondeu


Ninguém


Hoje são apenas palavras


Mortas


Numa cidade


Morta


Como as ditas migalhas de gelo


Cambaleando num calendário enforcado numa parede


Havia riscos


 


Letras indecifráveis


Papéis velhos


Não amigáveis


A guerra


O silêncio das balas


Cruzando o berçário


Eu era um ranhoso


Rabugento


Sempre aos berros


E mal abri os olhos


Barcos


O meu primeiro sonho


 


Fugi


Mudei de nome


Hoje não sei onde nasci


E se essa terra ainda existe


Ou… ou é apenas uma imagem sem coração


O dia deitava-se sobre a pedra fria da morgue


Eu percebia que lá fora


Alguém


Me esperava


Para quê?


Se eu nunca quis ninguém…


Ao meu lado para me esperar


 


Eu só queria partir


E voar…


Pegar numa faca


E cortar todos os segredos


E todas as sombras


De um quintal


Com mangueiras


E um papagaio em papel


Desenhos


Desenhos no meu peito


Que hoje escorregam quando me levanto


E se transformam em lixo…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 30 de Março de 2015


13.01.15




(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


A cidade camuflada pela espingarda das palavras,


o homem vestido de madrugada


esconde-se entre os candeeiros sem nome,


no cais,


encontra a solidão


e alguns cigarros de triste olhar,


há sobre ele o cheiro da saudade


e dos machimbombos puxados pelo cordel invisível do capim,


ouvem-se canções no musseque,


e dançam


e dançam


e dançam...


dançam em redor dos mabecos em fúria,


dançam imaginando pequenos charcos de água


como se o dia não tivesse acordado,


a cidade,


acorrentada,


o homem,


sufocado,


ele,


ela...


e não há poesia nos triciclos de madeira apodrecida, e não há poesia nos papagaios de papel,


esta cidade está infestada de sombras


e de lágrimas cor-de-rosa...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015




25.12.14

Os orgasmos poéticos


quando do chão esfomeado


se levanta


a matriz


ouvem-se as vozes disformes das andorinhas em flor...


ouvem-se... as sombras de aço nos lábios de uma abelha!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2014


15.07.14

O cansaço adensa-se nos teus lábios,


murmúrios de odores invisíveis alicerçam-se aos teus pulsos,


pareces uma árvore em papel, uma flor indefinida, ainda por descobrir...


 


O cansaço dilata-te as pálpebras de xisto,


ouves a voz do livro poisado na mesa-de-cabeceira, e dormes, e dormes...


 


És prisioneira da manhã acabada de nascer,


embrulhas-te no lençol da preguiça, e estendes os braços até tocares o Sol,


uma fina película de insónia brinca nos teus seios de mar,


uma fragata pronta a disparar... não o consegue,


fica ofuscada pelo teu olhar, desassossegada, ela, suicida-se no rio da saudade,


amas e não amas,


finges partilhar os segredos da madrugada,


e o cansaço, desfigura-te o cabelo de pergaminho, e evapora-se nas frestas do beijo,


 


Cerras os lábios cometidos pelo cansaço,


sentas-te em frente à esplanada de areia branca, e ela, a barcaça, grita o teu nome,


regressam os homens dos canhões de pele embalsamada, és linda, és amada...


 


A maldita mordaça,


que te proíbe as palavras do amor,


 


O cansaço adensa-se...


a amizade cai sobre um telhado de vidro, fica sem vida,


fica... fica enraizada na escuridão de um bar,


o cansaço não espera, e o coração não resiste às sílabas que sobejaram da lareira da poesia,


há uma lágrima,


morta,


há a prisão disfarçada de jardim soberbo...


com flores alienadas que inventam amor onde apenas habita a amizade...


 


O livro,


o livro sem medo, levita nos teus sargaços de alecrim,


o livro das vozes, deixa de ser o livro das vozes...


e do livro, e do livro sem medo,


sai um menino a brincar com um triciclo,


colorido,


que... que faz o cansaço dilatar-te as pálpebras de xisto...


… e uma multidão de sombras, saídas do livro sem medo,


 


Desejam uma carícia tua... um gesto de giesta florida, desejam-te!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 15 de Julho de 2014


24.06.14

Este caixote que me enforca,


estas lâminas invisíveis consumidas pelo fogo,


a entranharem-se neste corpo amorfo,


e sinto os espelhos que habitam no meu cabelo a comerem as vozes da noite,


este caixote é uma prisão com grades de granito,


e dentro de mim, solta-se o grito,


uma revolta a alicerçar-se no luar,


antes da insónia abrir a janela dos sonhos,


 


Este caixote disfarçado de beijo,


estes tentáculos enrolados no meu pescoço,


que... que não me deixam respirar,


comer...


ou fumar,


 


Este caixote construído de sombras,


esta garganta iluminada pelos sons das melódicas cigarras,


este estúpido caixote, este parvalhão sorriso a escorrer calçada abaixo...


 


E... e acaba por morrer no mar,


este caixote de amar,


que me enforca, que me seduz... e ao mesmo tempo... e ao mesmo tempo me enlouquece,


como uma criança sem pátria,


como uma árvore sem terra,


sol...


este caixote que me enforca,


e escreve no meu corpo...


 


ADEUS, ADEUS... ADEUS!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 24 de Junho de 2014

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