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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.01.23

Às vezes, é o sol que se esconde,

Às vezes, é o rio que fica ensonado,

Às vezes, são as nuvens que poisam sobre as árvores,

Das vezes,

Que às vezes,

O sono nos transporta,

 

Às vezes, o silêncio é alegria,

Outras,

É a alegria que se transforma em silêncio,

 

Às vezes, fico por aqui,

Outras,

Outras ando por aí…

 

E de tantas vezes,

Da minha vida,

Muitas vezes,

Por vezes…

Das vezes que caí,

 

Às vezes, tombava no pavimento,

Às vezes, tombava sobre as outras vezes,

Que às vezes,

Muitas vezes,

Me deixaram sem alimento,

 

E quantas vezes,

Meu Deus das vezes…

 

Queria o pão,

Que por vezes,

O transformava em pequenas vezes;

Nas vezes em solidão.

 

 

 

 

Bragança, 27/01/2023

Francisco Luís Fontinha


08.01.23

Um dia

Um dia morres e ninguém se vai recordar de ti

Um dia

Um dia acordas

E sobre a mesinha-de-cabeceira

Tens poisado o revolver da solidão,

 

E uma fotografia de quando era menino

Um dia quando fores à janela

O rio que olhavas

O rio que abraçavas

Deixou de estar lá

Partiu para o mar,

 

Um dia deixas de ter casa

De ser homem

De ser criança

Um dia morrerás…

E nem o coveiro que te enterrou se lembrará de ti,

 

E quando a tua última palavra escrita morrer

Um dia

Quando chegar esse dia…

 

Não querias que chegue esse dia!

 

 

 

 

Alijó, 08/01/2023

Francisco Luís Fontinha


05.01.23

Todo o Universo

Frio

Muito frio e escuro,

 

Deste meu Universo

Que me perco nas avenidas que o luar incendeia

Que me esconde

Quando quero chorar

E me penteia,

 

E tenho vergonha,

 

E tenho medo,

 

E só me apetecia voar…

 

Neste Universo

O Universo que ninguém compreende

Nem entende

Porque esta matéria escura

Fria

Muito fria

E infinita como o infinito amanhecer das tuas mãos

Lhe chamam de Universo

Quando a podiam chamar de solidão,

 

Ou de caixão

Ou de livro de anedotas

Este Universo

Com verso

Sem verso

Com a mão

Cortando-lhe a mão

Enquanto a Terra andas às voltas

Às voltas com o bosão…

Com o bosão de Higgs.

 

 

 

 

Alijó, 05/01/2023

Francisco Luís Fontinha


02.01.23

Todas as paredes

As paredes de uma sala

São tristes

São feias

São sós,

 

Juntamente com as paredes de uma sala

Habitam outras paredes

Com cor

Sem cor

Mas todas elas

Tal como as paredes de uma sala

São tristes

São feias

E são sós,

 

Depois suspendem na parede de uma sala

Que é triste

Parede de uma sala que está só

E é extremamente feia

Um quadro

Um quadro sem nome

Um pedaço de tela

Aprisionado entre quatro ripas em madeira

Um caixão?

Não

Um caixilho

O caixão serve para transportar corpos

Ossos

Chagas invisíveis

O caixilho aprisiona um pedaço de tela

Um pedaço de tela sem nome

Feio

Muito feio

E triste

Muito triste,

 

E de que serve dar um nome a um pedaço de tela

Aprisionado dentro de quatro ripas?

Caixilho?

Sim

O caixilho

E qualquer que seja o nome do quadro

Que está suspenso na parede da sala

Parede da sala que é feia

Que é fria

E triste

Será sempre um pedaço de tela

Dentro de quatro ripas

Também tristes

Também sós,

 

A casa que tem paredes frias

E tristes

E sós

Que nas paredes da sala

Frias

E tristes

E sós

Têm no peito um pedaço de tela

Também ela triste

Também ela só

Também ela fria

E uma janela

E triste

E fria,

 

Em frente à janela

Uma árvore

Triste

Uma árvore fria

Durante o dia

Poisam sobre a árvore

Pássaros tristes

Frios

E sós

Durante a noite

Sem que ninguém consiga ver

Poisa a lua

E as estrelas,

 

A casa triste

Feia

E só

Tem lágrimas

Tristes

Feias

E sós

E tal como o pedaço de tela

Aprisionado dentro de quatro ripas

Não tem nome

Nem fome

Mas tem lágrimas

Tem um pedaço de tela

Tela muito fria

Muito triste

E só,

 

E quando a luz se extingue na mão das estrelas

Este pedaço de tela

Aprisionado dentro de quatro ripas

Tristes

E sós

Também se extingue

E este pedaço de tela

Não fala

Não come

Não bebe

Ou fuma

E este pedaço de tela é apenas um pedaço de tela

Sem nome

Triste

Muito triste

E muito só,

 

E este caixão

(perdão, este caixilho)

É o único abraço que este pedaço de tela

Muito só

Muito fria

E triste

Tem,

 

Quem mias de que um triste e só caixilho

Para abraçar um pedaço de tela

Tela muito fria

Tela muito feia

Tela muto triste…

 

E tal como o caixilho que abraça uma tela

Uma tela fria

E triste

Uma tela só

Apenas uma mãe

Abraça o seu filho

Seu filho muito triste

Seu filho só

Muito só

E às vezes

Uma mãe

Pega em todos os pedacinhos do seu filho

Aqueles pedacinhos que jazem no pavimento da loucura

Coloca-os sobre a mesinha-de-cabeceira

E aos poucos

Aos poucos devolve-o à vida,

 

Não sou um pedacinho de tela

Deram-me um nome

Não tenho um caixilho que me abrace

Mas tive uma mãe

Mãe que pegou em todos os meus pedacinhos

Os colocou sobre a mesinha-de-cabeceira

E devolveu-me à vida

Tal como o fez pela primeira vez.

 

 

 

 

 

Alijó, 02/01/2023

Francisco Luís Fontinha


03.12.22

O pai

E a mãe

E as árvores sombreadas da manhã,

 

As mãos

Que pegam a minha mão

A mão que segura a faca nocturna do desejo

E durante a noite

Espeta a faca no meu peito,

 

O tecto da aldeia

Em lágrimas

E do sol

As primeiras horas da solidão,

 

Os livros

Todos os meus livros

Escritos por mim

Lidos por mim

Todos eles

Morrem sobre a minha secretária vaiada pela insónia,

 

E o sobretudo que visto

Em fina madeira prensada

Despede-se,

 

E percebo que sou apenas um cadáver de sono,

 

Como são tristes as noites de Dezembro,

 

O pai

E a mãe

E as árvores sombreadas da manhã,

 

Quando a manhã é um pincelado beijo na boca da solidão.

 

 

 

 

Alijó, 03/12/2022

Francisco Luís Fontinha

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