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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.03.22

As palavras envenenadas

Dançam sobre a floresta

Dos olhos cansados.

O poema nasce

Depois da noite se abraçar à ribeira,

O poema cresce,

Enforca-se nas páginas de um livro.

Os poemas são os olhos,

As palavras são a espingarda da madrugada,

As palavras envenenadas,

Que dançam sobre a floresta,

Nos olhos assassinados,

 

Nos olhos da madrugada.

As palavras morrem,

As palavras crescem,

A espingarda que dispara palavras,

Dentro da alvorada.

Estas palavras assassinas,

Nestas tardes de canseira,

As palavras disparadas,

Contra a lua desgovernada.

As palavras de mim,

Nas rochas amorfas da solidão…

Quando as palavras se enforcam.

 

 

Alijó, 04/03/2022

Francisco Luís Fontinha


29.01.22

Voávamos dentro de uma colmeia de vidro

Acorrentada ao silêncio;

Chovia torrencialmente e, todas as abelhas

Com medo da morte,

Liam poemas floridos.

Dançavam as palavras

Nas mãos da noite quase a acordar,

Como se fossem almas penadas,

Como se fossem almas de amar.

Voávamos do olhar menino,

Triste e, sem sorte.

Algum dia tinham que ler “os poemas perdidos”

Como quem lê a oração de mais um dia,

Ao deitar.

Tínhamos nos braços, a solidão,

Tínhamos o pão em migalhas,

 

Como um cadáver sem nome,

Que grita,

Que chora,

Que tem fome.

 

Tínhamos uma Nação,

Tínhamos um cão,

Um pássaro em combustão,

E tínhamos na mão,

 

Uma velha colmeia de vidro.

Voávamos e tínhamos…

As pedras de matar,

E tínhamos as árvores de morrer,

Ou de brincar.

Tínhamos vontade de avançar,

 

Correr, correr atá ao mar.

 

(Voávamos dentro de uma colmeia de vidro

Acorrentada ao silêncio;

Chovia torrencialmente e, todas as abelhas

Com medo da morte,

Liam poemas floridos.)

 

Poemas de matar,

Espingardas de escrever,

Poemas de amar,

Palavras de morrer.

 

Tínhamos na algibeira

As telhas de luz Luar,

Quando dançavam dentro de uma bandeira,

Tínhamos fome, tínhamos bombas e muitas palavras para disparar.

 

Morávamos numa velha aldeia,

Poemas cansados,

Poemas em suicídio,

Poemas de nada,

Poemas viciados,

Ou poemas de uma Nação,

 

Que grita.

Que tem fome.

Que não tem pão.

Dentro de uma colmeia de vidro,

Dois braços,

Dois corpos mutilados pela inflação…

 

E escrevíamos

Cartas à Nação.

 

Dentro desta colmeia de vidro,

Temos um corpo envenenado

Pelas canseiras da madrugada,

Tínhamos vinho,

Tínhamos uma enxada;

Tínhamos tudo e, não tínhamos nada.

 

Dentro desta colmeia de vidro,

O Natal é em Julho destino,

A Páscoa? A Páscoa celebra-se em Setembro,

Quando as flores dormem,

 

Quando as flores vivem,

Dentro desta colmeia de vidro…

 

Acreditando que amanhã,

Pela manhã,

Do teu corpo nasçam palavras a sério,

Palavras com lábios de abelha,

 

Palavras maradas,

Palavras desgovernadas sem perceberem,

Sem entenderem,

Que dentro de uma colmeia de vidro,

O silêncio é tudo;

E o poema é de borla; como todas as flores do teu jardim.

 

 

 

Alijó, 29/01/2022

Francisco Luís Fontinha


22.05.20

Os poemas da morte,

Palavras tristes no nevoeiro da manhã,

Cancelas à sorte,

Abertas, campestres sentimentos de partir,

Regressar sem regresso,

Fugir,

Cansaço premeditado que apenas os livros vivem,

Palavras,

Ditados,

Nos poisos sonolentos das montanhas.

As flores negras que a tarde come,

Que alimenta o silêncio da sombra,

Tem nos olhos uma lágrima de vidro,

Quando se levanta sobre o capim,

A sanzala do adeus.

Uma finíssima porta de luz,

Uma janela pincelada pelo desejo,

Um nome escrito na sombra,

Que incendeia a noite.

A melancolia,

Com fome de matar,

Uma enxada carregada sobre os ombros,

A terra, húmida vaidade,

Nas flores dos rochedos cinzentos.

Vive na sanzala do adeus,

O menino dos calções invisíveis,

Livros, papel cansado de sonhar,

Nos lábios de uma laranja.

Salto, grito, deito-me na água do rio,

Morro e, levo comigo a mensagem,

Trazem-me a toalha da poesia,

Porque neste caminhar,

Não caminho,

Apenas durmo,

Ou sonho que dormia.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22-05-2020


15.05.20

Sem ti, sou um pequeno ponto de luz nos braços da solidão.

Uma simples folha em papel,

Sem ti, sou um pedaço de terra, calcada pela desilusão,

Uma labareda de nada, entre sorrisos e abraços.

Sem ti, sou a cidade em combustão,

Crianças que guerreiam por um pedaço de chão.

Sem ti, os peixes cintilam dentro do aquário,

No leito cansado do pensamento.

Sem ti, sou um pequeno achado,

Palavra emagrecida, esplanada só, sem ninguém,

Sem ti,

Sou,

Aquele abraço aborrecido,

Dormindo na tarde.

Dormindo na esperança,

De um dia, sem ti,

Escrever nos teus lábios.

Sem ti, sou a personagem secreta da noite,

Sou lua enganada,

Sou luar das plantas inanimadas,

Sem ti, sou o jardim junto à calçada.

Sem ti, não sou nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15/05/2020


02.02.20

E, agora? O que será de nós depois da saudade;


Pertenciam-lhe as palavras invisíveis das marés de prata.


A boca mergulhava na ínfima madrugada do silêncio,


Descia à cidade, quando acordava a noite,


Pegava num pedaço de sombra,


Agachava-se no pavimento húmido da solidão…


E, gritava palavras de amor.


E, agora? Que a tempestade regressou de ontem,


Traz consigo os dois cansados cadáveres da única memória que lhe restava,


Os homens entre guerras e coisas simples, banais,


Percorriam as ruelas sem saída, suspendiam pinturas nas janelas do horror,


Para que as crianças conseguissem adormecer,


Nesta cidade de “merda”, sem dormitórios, sem palavras abstractas,


Que pertencem aos livros de poesia.


O corpo arrefece sobre a lápide fria da manhã,


O silêncio vem em direcção ao peito,


Como uma flecha, e, o sangue corre para os canaviais…


Tinha medo da saudade,


E, agora?


O que será de nós, depois da saudade, quando alguém procura o corpo amachucado pela violência dos gritos do homem de chapéu negro,


Seu nome Chapelhudo, vestido de pássaro nocturno,


Quando as palavras emergem e, tudo à volta morre, extingue-se em finíssimos pedaços de carvão,


O desenho acorda,


Mergulha na tela da saudade,


Sempre ela, a saudade dos dias, da noite, dos candeeiros a petróleo…


E, agora? Nada.


Apenas um sorriso,


Flácido,


Triste,


Porque sim;


Cansado da vida.


Chapelhudo, morre. E todas as palavras do menino branco.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


02/02/2020


03.01.20

Gosto,


Do teu perfume impregnado nas palavras do poema,


Quando o mar me chama,


Quando a maré me leva.


Gosto,


Do silêncio teu corpo,


Em delírio,


Dentro de uma cabana.


Gosto,


Dos livros que leio,


Das mãos que me acariciam,


E a madrugada ainda vem longe.


Gosto,


Do apito do petroleiro,


Fundeado nos teus seios,


Derramando gotículas de saliva…


Gosto,


E adoro,


Do significado transparente da tua sombra,


Quando o mar está bravo,


Quando o mar se veste de tempestade…


E morre com a saudade.


Gosto,


Da solidão das tuas mãos,


Porque, meu amor,


Gostar,


Pertence aos poetas,


Escritores,


Pintores…


Gosto,


De todos aqueles que amam,


Sofrem…


E sorriem,


Em frente ao espelho do cansaço.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


3/01/2020


03.04.19

Enquanto ela dormia,


Sob as nuvens de iodo,


O poeta desenhava palavras nos seios da serpente.


Era noite,


Tinha sobre a secretária, todas as cartas recebidas e não respondidas…


O espelho pertencia-lhe, e, via o seu corpo embrulhado nos meus braços.


Naquele momento, nada queria ver,


Nem o mar,


Nem o carteiro que todos os dias me trazias as cartas…


Apenas queria acariciar-lhe os lábios,


Desenhar-lhe nas coxas a cidade efervescente dos dias de loucura,


E mesmo assim,


Quando abria os olhos,


Dizia-me que eu era o mar.


Talvez,


Porque hoje percebo as dores nas costas,


O peso dos petroleiros,


Veleiros,


E outros…


Começava a tremer de frio,


Era Verão,


Mas tinha sempre frio…


Tremiam-me as mãos de cerâmica que o meu pai comprou em Luanda,


Às vezes, poucas, transportava no meu peito o sofrimento,


A dor,


Os vómitos,


A ressaca das noites sem dormir,


E, ela, deitada nos meus cabelos.


Enquanto ela dormia,


Eu, eu sentia,


Não vivia…


E sabia…


Que um dia queimaria todas as cartas.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


03/04/2019


15.03.19

A navalha com que assassinaste os meus límpidos lábios,


É a mesma com que acaricio as veias das palavras,


Um narciso, chora,


E, cresce a tarde na tua boca.


O peso do corpo na balança da solidão,


Regressa a morte,


E, levantam-se do chão calcinado, as andorinhas em flor.


Um narciso, chora.


O meu jardim está de luto,


Morreram todos os meus livros, todos.


Meu grande amigo, amanhã, Sábado, a navalha da solidão vai alicerçar-se no meu peito,


Sinto os cigarros que me assombram ao cair da noite,


E vou morrer…


 


A água da paixão, no tanque da saudade.


 


Deixa as árvores voarem sobre a aldeia,


Como pássaros em cio,


Vadios,


Em liberdade.


 


Nunca me ouves.


Nunca me abraçaste como abraças o meu silêncio,


Uma carta fica suspensa na mão do carteiro; Amas-me?


Não.


Claro que não.


 


O amor é uma merda.


 


Como eu,


E, as palavras minhas,


Poucas e apaixonadas,


Procuram, embriagadas,


As noites cansadas…


 


Como eu,


 


No amor teu.


 


Só.


Só.


 


E sinto o mar dentro de mim.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 15/03/2019


14.03.19

Tem uma caneta na mão,


Desenha na sombra da tarde o cansaço da solidão,


Como na despedida,


Ouvindo a canção…


Que o silêncio alimenta,


E tece,


Sobre o chão.


Hoje, não me apetece,


Escrever,


Comer,


Ler.


E senta,


E deita-se na cama sem colchão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 14/03/2019

...


10.03.19

As volúpias palavras descendo a calçada, junto ao rio, o mendigo assassina o último cigarro do dia, senta-se junto às escadas do prédio esquelético e com fome, uma brisa sobe até ele, e a vida parece-lhe contente com o aproximar da madrugada,


Todas as pedras à sua volta, choram,


Adormecem as acácias.


Choram com lágrimas de papel amarrotado que o merceeiro deitou no lixo, cobre-se, inventa o calor com lâmpadas de néon…


E dorme.


O néon embriagado pelo silêncio, os dias parecem-lhe horas tardias, doentes, com a mentira debaixo da língua,


E dorme,


As palavras dilaceradas, os livros incendiados pelo teu perfume, e tens no olhar a solidão das flores envenenadas,


E dorme, e dorme, o coração abandonado, por ti, por eles, pela melancolia do dia, e vê em todas as rochas, mesmo as mais pequenas, o sorriso do lobo.


Não estará o mendigo, louco?


E o poeta?


E se a loucura for a sanidade melódicas das palavras ditas?!


Dorme.


O sorriso do lobo, a alegria do mendigo por conversar com o lobo, pois, só este, e mais ninguém, consegue conversar com o mendigo…


É Domingo, dizem eles. Não o sei…


Não o sei, como desenhador de palavras, e, poucas, apenas sei que amanhã nos teus lábios vão acordar as amendoeiras em flores, todas, lindas, belas, elas,


E dorme.


Cansado da viagem.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 10/03/2019

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