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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.05.22

Dos beijos ensonados

Às sílabas envergonhadas,

Dos pássaros cansados

Às tristes madrugadas,

Dos montes mimados

Às tardes revoltadas…

Da triste saudade

À misera esperança sem nome;

Do vinho martelado

Às poucas cartas que enviei,

 

À verdade,

À fome,

Ao poema que assassinei…

Do meu corpo enforcado

Às lágrimas que chorei,

Do vento,

Da solidão

E de todo o sofrimento…

E de todo o pão.

À chuva miudinha de Luanda,

 

Aos cheiros do amanhecer,

À fogueira…

Às espingardas sem coração.

Ao samba,

Ao prazer,

Ao uísque a bebedeira

Quando a noite parece esquecer,

Quando a noite parece morrer…

E o poeta dos beijos ensonados

Acredita em versos de dizer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 03/05/2022


30.11.21

Trago no peito

A equação do silêncio.

Às palavras que escrevo,

Peço perdão à madrugada,

Sentado nesta pobre esplanada,

Sentindo o vento na face oculta da solidão;

Trago no peito

A equação do silêncio,

Um pedacinho de saudade,

Trago no peito a sílaba envenenada,

E um pedaço de pão.

 

Trago no peito

O feitiço da alvorada,

Quando cansado me deito,

Me deito sem saber nada.

 

Trago no peito

A equação do silêncio,

Um pedaço de pano,

Onde me abraço,

Sem perceber que amo,

Amo este pobre cansaço.

 

Trago no peito

Os cigarros fumados,

Os pedacinhos em papel onde escrevi,

Trago no peito

Marinheiros abraçados,

Marinheiros que nunca vi,

Marinheiros desgraçados.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30/11/2021


06.08.21

Do oiro imaginário às sete drageias do destino, sobe a montanha em direcção ao céu, senta-se à sua direita e, adormece. O vento arranca-lhe os rochedos aprisionados ao olhar magnético que a divina montanha desenho quando nasceu. A casa, dorme.

Sinto-lhe a mão suspensa numa imagem a preto e branco

Assim morreu depois do sono.

O mar entra-lhe pela janela da paixão, a imagem a preto e branco alicerça-se ao cansaço matinal, acordava sempre maldisposto, noites de insónia ventiladas pelo sexo das flores, cinco imagens dormem sobre o velho cabelo e, sempre que imaginava o mar

O mar dança na sua mão.

Dizem que o mar é um velho preguiçoso, mulherengo durante a noite, insatisfeito ao pôr-do-sol; tínhamos desenhado as estrelas sobra a areia fina do Mussulo, ela, dançava em cima da sombra cansada das palmeiras, e ele, vestido de marinheiro, fazia-se ao mar, todas as sextas-feiras, o barco voava nas montanhas pinceladas de carvão.

Tenho fome, mãe.

Come pão.

Quero uma sandes.

Só tenho pão.

O pai, zangado, oferecia-lhe sandes de pão com pão, dizem aqueles que experimentaram ser sem dúvida o melhor manjar da ilha dos amores.

A ilha tinha uma janela voltada para os lábios da solidão, quando acordava travestido nos calções de porcelana, dos braços saiam-lhe palavras que mais tarde, depois da caminhada improvável sobre a areia, deitava sobre os seios da madrugada; tirava fotografias aos barcos acabados de morrer.

Um dia, depois de sepultar a tarde numa jarra com água-benta, foi de encontro aos retractos deixados numa caixa em papelão, pelo pai, quando este fugiu para Ambriz, numa bela tarde de finados. Ontem tudo parecia uma folha em papel envenenada pelo desejo,

Comeu-as todas,

E, não só de desejo vivia ele, também acariciava as palavras embriagadas pelo mordomo, que de enxada não mão, fazia dirigir as cabras para o areal; todos os dias, o medo de que alguém estivesse abraçado à tristeza.

Os desenhos queriam sair das paredes velhas de um café em ruínas, lia o jornal, vaticinava sobre o fim da guerra e, quando se deitava, sempre à procura do medo de não acordar ao outro dia, dizia-se Ateu, apenas para enganar a solidão,

Hoje, não.

A cabeça pesada, os vómitos das curvas endiabradas e, sempre que questionava se faltava muito,

Dizia-lhe, estamos quase, estamos quase.

As laranjas sabiam a saudade, de todos os livros que tinha, um deles era sobre o mar

Abraça-a todas as noites.

Havia um louco que não sabia andar de bicicleta, transportava-se num velho triciclo que tinha pertencido a uma família de gaivotas, acabadas de partir devido à guerra, hoje

Nada sei de o doce olhar do amanhecer.

Hoje, sinto uma fina angústia de sono junto aos tornozelos, os cigarros são sombras inventadas pelo velho cozinheiro da aldeia e, em todas as ruas, uma estátua de luz dorme.

“O sexo entre duas pedras de gelo e uma doze de uísque”

- Do oiro imaginário às sete drageias do destino, sobe a montanha em direcção ao céu, senta-se à sua direita e, adormece. O vento arranca-lhe os rochedos aprisionados ao olhar magnético que a divina montanha desenho quando nasceu. A casa, dorme.

Sinto-lhe a mão suspensa numa imagem a preto e branco

Não sei, talvez,

E, sempre que pode, senta-se numa pedra junto ao mar.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 06-08-2021


28.12.19

Alimento-me de sombras ensonadas.


Sou um sem-abrigo,


Esquecido na sanzala,


Perdido nas madrugadas.


Sou um livro,


Cansado das palavras,


Sou poesia,


Nas mãos da alegria,


Que vem travestida de tristeza,


Entre rochedos


E beleza.


Sou uma perda de sonhar,


Uma lápide por pintar,


Sou o mar.


Sou a flor dos sorrisos abandonados,


Sou sem-abrigo,


Dos socalcos cansados.


E além-mar,


A triste nuvem de abraçar.


Canso-me da noite,


Vivo ferozmente a noite…


E não tenho medo da morte,


Porque sem sorte,


Não conseguem me assassinar…


Porque o meu corpo é ferrugem,


Viagem,


Cansaço de embalar,


Não,


Não vou morrer,


Antes de te beijar.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


28/12/2019


08.12.19

Trago em mim a fome da saudade.


Não sei quem sou, nesta cidade deserta,


Cansada da verdade.


Trago em mim a fome da tristeza,


Quando o vento se alicerça nos teus lábios.


Trago em mim o silêncio da noite,


Quando um livro perdido, se levanta, e avança contra a escuridão.


Trago em mim o sofrimento do desejo,


Como uma cancela escondida pela geada,


E na montanha, tenho escondidas as lágrimas da calçada.


Trago em mim a morte,


A dor,


E o sonho de adormecer no teu colo.


Trago em mim a saudade,


A fome,


A vaidade.


Trago em mim a felicidade,


De um dia, voar,


Nas tuas mãos,


No teu sonhar.


Trago em mim a fome de sofrer,


Dentro de um relógio indignado com o tempo.


Trago em mim a fome de escrever…


Escrever palavras de alento.


Trago em mim a fome de ser,


Ser quem não sou,


Que sou ser,


Invisível,


Nesta Galáxia complexa da noite.


Trago em mim o prazer,


O sonho,


A vontade de viver.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


08/12/2019


02.12.19

Sinto-te nesta casa fria e escura.


Neste casebre abandonado,


Sinto-te nas paredes cansadas desta espelunca,


Na sombra de um qualquer coitado; eu.


Sinto-te em perfeita brancura,


Das palavras que escrevo e pronuncio…


Que nunca,


Vou desenhar uma gaivota em cio.


 


Sinto-te como se fosses uma pomba.


Sinto-te como se fosses uma bomba,


Esquecida no mar,


Esquecida de rebentar.


 


Sinto-te e não te vejo.


Pareces invisível neste labirinto.


Pareço o Tejo.


Voando baixinho, quando não minto.


 


Sinto.


Sinto tudo isto enquanto não consigo adormecer.


Sinto a calçada chorar.


Sinto o meu corpo sofrer…


Com medo de morrer.


Com medo de acordar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


02/12/2019


29.11.19

A fome de pensar.


O sorriso loucamente apaixonado pelo silêncio.


Os cigarros embriagados,


Loucos,


Descendo as escadas da doença.


A liberdade.


Quando se apaga a madrugada em ti.


Canso-me das palavras de escrever,


Dos sonhos,


E dos livros de morrer.


A insónia deitada na cadeira da preguiça.


As camufladas lâmpadas de néon suspensas nos teus seios de alumínio…


Quando lá fora, a tempestade de desejos, dorme nos meus braços.


A fome de correr.


Saltar.


Brincar…


Na tua boca de sofrer.


A fome de vencer.


O medo de morrer…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/11/2019


06.04.19

Vou assassinar todos os meus livros,


Dar-me como culpado,


E durante a noite, enquanto as estrelas dormem, ser incinerado.


Vou assassinar o teu corpo, apenas o teu corpo,


E fugir para a Lua,


Vou beijar os teus lábios,


Antes de assassinar todos os meus livros,


Dar-me como culpado,


E deitar-me nas tuas cinzas,


Eu, cremado,


Como os meus livros,


Como o meu corpo…


Incinerado.


Vou queimar os teus seios,


Antes de escrever neles, amo-te,


Vou assassinar todos os meus livros,


Quando começar a madrugada.


Quando eu morrer,


E, os meus livros,


E, o teu corpo,


Vou,


Talvez,


Ser feliz.


Como os meus livros,


Como o teu corpo,


Como o meu corpo.


Vou assassinar todos os meus livros,


Dar-me como culpado,


E durante a noite, enquanto as estrelas dormem, ser incinerado…


Como a vida é complexa…


 


Como o teu corpo, suspenso no teu olhar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


06/04/2019


02.04.19

Borboletas no meu velório,


Apenas borboletas,


Ninguém,


Ninguém à minha espera,


Comigo, morreram as palavras,


Todos os livros, machos e fêmeas,


Segunda-feira ou Terça-feira?


O xisto amarfanhado pelo silêncio da poesia,


As frases afundaram-se nas tuas mãos,


Como gaivotas em cio.


O poço,


O cheiro nauseabundo dos velhos livros,


Abraçados a mim,


Tenho um corpo de merda,


E uma rua dentro de mim, sem nome, sem casa, sem nada…


Dormir,


Não durmo,


Comer…


Não como nada.


Peço aos amigos, a todos, paciência,


Nada mais do que isso,


Nem flores,


Odeio flores e odeio o teu sorriso,


Odeio o mar e o todos os rios…


São recheados de falsidade,


Como tu, pobre pomba poisada no meu ombro,


Dormir,


Não durmo,


Comer…


Quase nada.


Borboletas em papel,


Sombras em pastel,


Telas esbranquiçadas com lábios de suor…


É esta a minha vida,


Embrulhado em palavras,


Dormindo,


Não dormindo,


Dentro das sílabas assassinadas.


Despeço-me, e do cimo do monte…


Enterro o teu nome,


Escrevo na terra…


Amo-te, não te amo, amo-te… só quando nascer a noite.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


02/04/2019


01.05.18

O fogo, sem ti, não é fogo.


É cansaço que se apodera dos braços,


É flor que morre na tua mão,


É avenida deserta, nesta cidade, sem pão.


O fogo, dos beijos baços,


É jardim de árvores caquécticas,


Adormecidas,


Tortas.


O fogo, sem ti, não é fogo.


É noite mal dormida,


Sorriso na parada do sofrimento,


De olhar distante,


É sirene da alvorada,


Muro em xisto,


Que atormenta minha amada…


Ai, meu amor, o fogo, sem ti…


Atormenta tanta gente.


O fogo, sem ti, meu amor,


É a luz das esplanadas de Verão,


São ruas,


Casas…


São barcos encostados ao portão,


Quando o meu quintal dança nos teus lábios de algodão,


O fogo, sem ti, meu amor,


Não é nada, nem pão, nem pedras poisadas no coração.


Amanhã, se o fogo, sem ti, não for fogo,


A minha vida é um pequeno conto,


Palavras…


Palavras, meu amor, sem ti!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Maio de 2018

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