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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


07.07.20

Lua mulher,

Corpo de luz,

Palavras vadias,

Cansaço dos dias,

Luz,

Corpo de lua,

Luar,

Em desejo,

Nua…

Abraçada ao mar.

Luar de mulher,

Palavras de vento,

Sorriso de gente,

Papel quadriculado,

Lua,

Corpo abençoado,

No tempo,

Quando desce a ribeira a montanha da fome,

Em delírio,

Sem nome.

Corpo,

Olhos de pergaminho,

Pássaro cantante,

Dançando no ninho,

Socalcos nos braços,

Enxada na mão,

Mulher em poesia,

Mulher em abraços.

Soluços da madrugada,

Luar,

Mulher desejada,

Na luz,

No poema…

Na alvorada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

07/07/2020


16.06.19

Constrói o teu tumulo no silêncio da noite.


Alicerça no teu sorriso todas as palavras da tarde,


Como se fossem cadáveres…


Suspensos nas arcadas da solidão.


Grita.


Corre.


Desce os socalcos até ao rio, senta-te, e, dorme.


Constrói o poema na tua mão,


Abraça-o e foge.


Leva contigo os lábios da madrugada,


Todas as lâmpadas da cidade,


Esconde-te na face oculta da montanha,


Para que ninguém te veja,


Observe,


Absorve,


Os telegramas das ruelas sem saída…


Todas as noites.


Todos os dias.


Constrói em ti os livros não lidos,


Os lidos,


E aqueles que não tens vontade de ler,


Porque são cansativos,


Monótonos…


Ou sorrisos de sofrer.


E nunca te esqueças que o amor,


Todo o amor,


É um espelho cansado,


Perdido na cidade….


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16-06-2019


11.04.19

Toquem os sinos e anunciem a minha partida.


Cada charco no pavimento é um poema sem nome,


Metáforas…


As palavras são pequenas gotículas do teu suor,


O alimento preferido da paixão,


E dos livros, e dos violinos, vomitam-se melódicos sons que abraçam socalcos.


Pareço um louco transeunte desorganizado, sem apeadeiro,


E, no entanto, atraco a minha barcaça às tuas mãos de fada.


(enquanto escrevo, oiço Doors)


Toquem, toquem todos os sinos que eu vou fugir,


Levo a minha barcaça,


E em terras longínquas vou procurar o amor…


Nada levo.


Apenas preciso de cigarros, cigarros e cachimbos.


Cada charco no pavimento é um poema sem nome,


Uma alma penada,


(como se eu acreditasse em almas, muto menos, penadas)


Palerma.


Palhaço.


O circo regressa sempre na Páscoa…


Espero-te, aqui, sentado, nesta pedra de xisto invisível.


E quando eu morrer, não quero fato e gravata e sapatos pontiagudos,


Não, não quero flores do teu jardim,


Não, não quero a presença do Senhor Abade…


Quero ir só.


Como sempre fui…


Só.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


11/04/2019


26.08.18

O louco sou eu.


Aquele que te acolhe nas noites de Inferno, recheadas de vento e veneno…


O louco sou eu,


Agachado nos socalcos olhando o Douro encurvado,


Pego na enxada da loucura, rezo pelo teu corpo e desespero-me em frente ao espelho envergonhado,


O louco sou eu, o teu eterno louco das tardes de poesia…


E sentia,


Dentro do meu peito, os apitos dos teus lábios afastando-se das marés de Inverno,


O sol que mergulha no xisto amarrotado pelo vento,


E as cidades que se escondem no poema…


Hiberno,


E para a semana que vem, fujo do teu sorriso,


Subo as escadas da morte,


E com um pouco de sorte,


Desprovido de juízo…


Uma caravela deita-se na minha cama,


Dispo-a,


Adormeço-a na minha mão…


Até que a tempestade nos separe.


 


 


 


Alijó, 26/08/2018


Francisco Luís Fontinha


09.04.17

Vagabundos,


Sonâmbulos


Cromos


E outros cromados,


Assim avança a vida do poeta…


Sobre a janela da solidão,


Desamados,


Triângulos de prata no papel amachucado


Correndo pela paixão na juventude das pirâmides sonolentas,


Vagabundos,


Sonâmbulos


Cromos


E outros cromados,


Enigmáticos circos de terra em terra,


Palhaços,


Candidatos a palhaços…


Num empobrecido poste de iluminação,


A forca miserável do inventor


Entre círculos e cubos de sombra…


A inquietude neblina que assombra a mão


Do palhaço candidato a palhaço,


As bocas de esperma descendo a calçada


Até se sentar junto ao rio,


Ouvem-se os socalcos do amanhecer


Quando as enxadas do prazer batem no xisto esfarrapado,


O circo não tem fim,


O fogo adormece as almas dos condenados,


E sobre o papel amachucado…


A casa dos espirros,


Os vampiros telhados das cidades em chamas…


Tudo arde no teu olhar


Como arderam as minhas palavras nas náuseas do sono…


Ergo-me,


Faço-me vagabundo como eles…


E vivo apaixonadamente no cubículo da idade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 9 de Abril de 2017


01.04.17

Os mares envergonhados da solidão


Que caminham durante a noite nos meus braços cansados,


Sinto no corpo as cancelas imaginárias da saudade


Como um sonâmbulo tresloucado,


Inferioridade minha das terras envenenadas


Da terra queimada,


Hoje, nada tenho para te oferecer,


Nem palavras,


Nem… nem amanhecer,


Os mares envergonhados…


Que as canibais laranjas deixam ficar nos teus lábios


E do sumo apedrejado pela loucura


Regressam as sonolências viagens sem destino…


Tenho no corpo o peso doirado da lua


Que alimentam as minhas mãos


Do silêncio vergado pelas pedras da paixão,


Não preciso da tua boca,


Dos teus beijos,


Das… das tuas palavras vãs…


Queria ter no peito o sol amargurado das ribeiras clandestinas


Que descem os socalcos do sono,


Envergar na lapela as sombras tumultuosas que poisam na minha janela,


Os pássaros destinos das árvores enganadas por mim,


Os papéis secretos do voo frenético e engasgado das gaivotas libertinas,


Às vezes tenho medo,


Às vezes pareço um menino aprisionado no cais da esperança,


Abraço-te imaginariamente como um louco veleiro encalhado na sombra inocente do esplendor amigo da rua sem nome…


Os vidros em cacos escorregam pelo meu corpo de pedra lascada


E suicido-me quando cai a noite em ti,


Meu amor, em ti…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Abril de 2017


16.03.17

Saboreei a paixão convexa do desejo
Percorri os caminhos esconderijos do sofrimento
Como os livros que escrevi
E os que não quero escrever…
Saltei a ponte do esquecimento
Num voo frenético nunca antes alcançado
Em direcção ao mar
Em direcção ao abismo
Senti no corpo o peso do amanhecer
Senti nas mãos a enxada da vergonha
Descendo socalcos
Saltando montanhas desenhadas…
E as palavras
As palavras do sono inventando pálpebras de xisto
Como se inventam os rios
Quando cai a noite sobre a escuridão.


Francisco Luís Fontinha
16/03/17


10.09.16

Tenho medo dos teus olhos


Quando a noite inventa tempestades nos teus lábios,


Tenho medo do silêncio,


Medo do luar…


Tenho medo de amar…


Quando próximo do teu rio


Um tubarão espera por ti,


Tenho medo das tuas mãos


Quando os socalcos sobem à aldeia


E o teu corpo se transforma em perfume…


Tenho medo do teu cabelo


Entrelaçado no xisto da manhã


E um fino fio de oiro…


Vive na tua boca,


O beijo acorda do sonâmbulo relógio de prata,


Temos um horário moribundo,


Caquéctico


E sujo…


No pulso da solidão,


Tenho medo da cidade


Que habita nos teus seios


E expulsa todos os corações apaixonados…


Tenho medo dos bichos de papel


Que invadem os teus braços


E lançam sobre o oceano o medo…


O medo de ter medo


Dos teus olhos


Das tuas lágrimas,


Tenho medo da tua sombra


Incandescente


E triste


Nos jardins imaginários…


Tenho medo dos teus olhos


Que me alimentam a insónia…


Tenho medo dos amigos


Que inventam amigos e de amigos nada têm…


Tenho medo das pedras


Dos triciclos em pedra


E das madrugadas sem dormir…


Tenho medo da partida…


E de não regressar mais a mim


O medo dos teus olhos.


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 10 de Setembro de 2016


24.07.16

menino rabelo


galgado o rio até ao mar,


traz nos lábios a saudade


e nas mãos palavras de amar,


desembarca na cidade


com dois caixotes em madeira…


menino rabelo


que se deita junto à ribeira…


descalço e sem vaidade


o menino abraça-se à madrugada


como uma barcaça assombrando a alvorada,


menino rabelo


galgando socalcos de papel


e rochedos de cartão…


menino sem destino


que transporta no coração


um livro de mel,


menino rabelo


menino sem medo


das falanges de poeira…


menino que acorda cedo


o menino rabelo


menino que brinca na eira.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 24 de Julho de 2016


02.10.15

Meu amor,


Quando os teus seios dormem suspensos nos socalcos do Douro


E o Rio se perde na última curva do anoitecer,


Invento-te,


Escrevo-te…


Faço-o sem o saber,


Ou querer…


Sentir em mim as tuas mãos de xisto lacrimejante,


Sentir em mim os teus lábios de uva mendigando os meus lábios de luar…


Meu amor,


Quando o teu olhar se esconde no Pôr-do-sol,


E uma gaivota alicerça-se ao meu peito,


Sinto o teu perfume vaiado sobrevoando todos os cadeados do teu corpo…


Ai… ai meu amor,


Este sol,


Este Rio…


E estes barcos em papel,


Inventando sorrisos nas lâminas da paixão.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 2 de Outubro de 2015

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