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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


23.04.22

Tínhamos o céu,

Tínhamos as gaivotas junto ao mar,

Tínhamos no silêncio o véu,

O véu de chorar,

Tínhamos a montanha doirada,

Tínhamos as palavras de escrever,

Tínhamos tudo ou quase nada,

Nada para comer.

Tínhamos um rio selvagem,

Que poisava, durante a noite, na nossa mão,

Tínhamos medo da viagem,

Da viagem sem coração,

Tínhamos poesia, palavras envergonhadas,

Tínhamos nos livros de amar,

Todas as madrugadas,

E… tínhamos o cansaço do mar.

Tínhamos lápis para riscar,

As paredes da solidão,

Tínhamos vontade de gritar,

Nós queremos é pão.

Tínhamos a saudade travestida de amanhecer,

Tínhamos muitos barcos de brincar,

Tínhamos vontade de correr,

De correr e gritar.

E tínhamos o silêncio no nosso peito.

Tínhamos espingardas de papel,

Tínhamos um barco sem jeito,

Que puxávamos com um cordel.

Tínhamos alegria,

Tristeza,

Tínhamos a fantasia,

No desejo em beleza,

Quando tínhamos no sonhar,

O perfume de uma flor,

Quando trazíamos do mar,

Silêncio e dor.

Tínhamos a vaidade de crescer,

Sob os pincelados beijos de arenato,

Tínhamos as nuvens a morrer

Nas lágrimas de um regato.

Tínhamos a paixão,

Tínhamos as sandálias do pescador,

Tínhamos sempre na mão,

Uma e linda pobre flor.

Tínhamos sanzalas em prata

E cinzeiros amordaçados,

Tínhamos sonhos de lata,

E tínhamos os filhos envergonhados.

E tínhamos a fogueira…

E tínhamos a canção…

E não tínhamos maneira,

Maneira de dizer não.

Hoje, não temos nada,

Hoje apenas uma fotografia junto ao mar…

Hoje, apenas a madrugada

E a vontade de voar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23/04/2022


11.04.22

E se despede de ti como se fosses uma lágrima de luz,

 

 

Desce a tempestade sobre a solidão dos dias, em poucas horas, depois do entardecer, a ribeira desparece da imensidão dos socalcos laminados do desejo; todos somos pedaços de nada, quando o nada se enforca no triste silêncio da alvorada.

Amar-te, como se fosses o oiro da manhã.

À hora da despedida, como sempre, a alvorada embainhada no perfume envenenado das sanzalas de prata, a voz das árvores corria montanha abaixo e, pequeníssimos orvalhos adormeciam na tua mão.

Tínhamos no sorriso dois Oceanos de luz e, depois da espera, víamos o cansaço dos triângulos assassinos que se despediam do luar, depois, alguém nos trazia as últimas nuvens de Março, ao fundo o rio fundia-se com as palavras não escritas.

Ouviam-se os gritos melancólicos das esplanadas de prata, o beijo alicerçava-se na tua mão depois de percorrer todas as ruas da cidade, o uivo cansaço impregnado num simples telegrama; morreu de quê, questionava ela.

Luzes clandestinas, telhas de vidro, abstractos farrapos nos teus braços, como sempre,

nas aguarentas planícies do prazer. E sabíamos que um dia tínhamos o mar encurralado como se encurralam os pássaros nas gaiolas de sombra.

Um dia, outro dia, ontem, hoje, a vaidade abraça-se nos lábios do lírio, o poema enforca-se nos lábios do poeta, enquanto o poeta desaparece no cacimbo da vergonha. Que da lareira emerja um pedaço ti, como emergiram os pássaros dos quarteis sitiados depois do toque da alvorada. Depois disso, afagávamos os loiros cabelos do poema que brincava no parque-infantil da aldeia. Escrevo-te;

Escrevo-te nas mãos envenenadas que escondes na algibeira, saltitavas de pedra em pedra, de sorriso em sorriso, escrevo-te recordando as lágrimas das mangueiras que voavam sobre as lápides da saudade, enquanto lá fora, debaixo das sílabas lunares, as palavras mergulhavam nos teus seios poéticos.

Ai a lareira, meu amor!

À hora da despedida, como sempre, sabíamos quando os pássaros adormeciam, como sempre, sabíamos que depois das árvores, os sítios se tornariam frios e escuros.

Sabíamos.

Como sabíamos quando descia a noite.

Como sempre.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11/04/2022


19.02.22

Ausento-me.

Enquanto o sono se despede de mim,

Enquanto esta fogueira me consome,

Enquanto o dia se derrete,

Enquanto a lua se deita,

Enquanto o medo me absorve.

 

Ausento-me.

Enquanto o silêncio habita neste corpo,

Enquanto estes ossos não se transformam em pó,

Ausento-me.

Enquanto o mar não entra pela janela,

Enquanto a morte não me vem buscar.

 

Ausento-me.

Enquanto ainda tenho beijos,

Enquanto ainda existem abraços,

Enquanto este relógio não pára de caminhar…

Ausento-te.

Enquanto este poema não morre.

 

Ausento-me.

Enquanto esta cidade não dorme,

Enquanto este rio não deixa de correr para o mar.

Ausento-me.

Ausento-me,

Enquanto escrevo e a tua mão não deixar de me tocar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/02/2022


17.02.22

Seis pedras na mão,

Quando acorda a alvorada,

Seis poemas enganados,

Seis poemas adormecidos,

Seis pedras na mão,

Seis estrelas cansadas,

Seis livros de nada,

Nos seis dias sem descanso,

 

Seis vozes que escuto,

Nas primeiras seis horas do dia,

Seis rios entroncados,

Nas traseiras da montanha,

Seis pedras,

Seis navios,

Seis pedras na mão,

Às seis horas da tarde,

 

Seis destinos.

Seis pedras,

Seis meninos,

Nas seis flores,

Seis pedras,

Seis manhãs…

Seis palavras,

Nas seis mortes do poeta.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 17/02/2022


27.12.21

O desejo é uma equação de sono, é um silêncio esquecido na almofada, é poema vandalizado pela solidão, o desejo costuma viajar em primeira classe, é pertença do Universo; desejar e, ser desejado.

O desejo sente-se, apalpa-se como um seio seminu dançando sobre o mar, o desejo escreve-se, ergue-se cedo, o desejo suicida-se, por vezes, num leito adormecido, o desejo percebe as sombras nocturnas de um outro desejo, o desejo é desejar, é correr, é amar, o desejo espelha-se na madrugada, vai à janela e, fuma o seu primeiro cigarro.

O desejo é livro de poesia, é mulher sentada, de perna cruzada, o desejo pinta-se, o desejo afoga-se, às vezes, na boca de um beijo. O desejo é maldito, o desejo é sacerdote, é religião, é engenheiro, é poeta, o desejo vê-se quando chove, porque os pássaros também são o desejo; o desejo de voar.

O desejo sobe a montanha, procura o primeiro abrigo e, deita-se. Fuma o primeiro charro, escreve no chão o poema envenenado que ficou em cima da mesinha-de-cabeceira, era ontem, hoje, hoje não desejo

Desejar que ele ou ela o deseje.

Ouvem-se as manhãs embalsamadas junto ao rio, os barcos veleiros procuram o desejo, o vento que os leve para a cama do desejo, há canções de revolta, há silêncios presidiários nas mãos do desejado e, as coxas fluem como brasas suspensas na fogueira, há um pequeno gemido, um pequeno latido e,

O mar entra dentro dela, absorve-a, come-a.

E de tantos desejados, há um poema livre, revoltado, há um poema em cada milímetro de espuma do teu corpo, sabendo que o teu corpo desejado, apenas pertence ao teu desejo. Desejas que te desejem; antes de adormecer, três pequenas drageias de sono, dois gramas de uivos, três pilhas e um cobertor,

Há mais desejo, amanhã, porque hoje a noite é de tempestade.

O desejo é uma equação de sono, é um silêncio esquecido na almofada, é poema vandalizado pela solidão, o desejo costuma viajar em primeira classe, é pertença do Universo; desejar e, ser desejado, o desejo é uma pobre canção, melodia da madrugada, o desejo é opção, é palavra cansada, o desejo, às vezes, perde-se no leito da alvorada.

O desejo, sempre que desejado, é uma equação de sono, é pássaro, é flor que voa sobre o chão; sobre o chão desejado.

 

 

 

 

Alijó, 27/12/2021

Francisco Luís Fontinha


19.12.21

Desço o teu corpo

Até encontrar a fina madrugada.

Na tua pele de amanhecer,

Habita a fogueira enamorada,

Das palavras de escrever,

Nas palavras de brincar,

 

Desço o teu corpo

Maré de mar,

Rocha incandescente a arder,

Rocha amorfa que não sabe falar,

Falar sem querer,

Querer que lá longe, lá longe zarpar

 

Para a lua a crescer.

Desço o teu corpo ancorado

Na minha mão desleixada,

Que pertence a este corpo envenenado,

Envenenado pela madrugada,

Desço o teu copo,

 

Até às profundezas do amanhecer,

Cidade assassina,

Cidade a arder;

Onde brinca um menino traquina,

Desço o teu corpo,

Teu corpo de sofrer…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/12/2021


31.10.21

Descia a calçada de cigarro na mão.

Empunhava a espingarda

Como se ela fosse uma canção,

Ou apenas o nascer da alvorada.

 

Sentava-se no chão. Desenhava na algibeira

Lágrimas com a enxada da vida adormecida,

Subia aos montes e às montanhas e à ribeira…

A ribeira da vida.

 

Sentado no chão.

Cruzava as pernas em direcção ao mar,

Mas o mar era apenas uma canção,

Uma canção de embalar.

 

Descia a calçada de cigarro na mão.

Sentia na garganta a lampejou-lha dos pássaros envenenados,

Alguém lhe gritava; Alto. No ar a sua mão.

A sua mão dos dias envergonhados.

 

Descia.

A calçada em demanda.

E, escrevia

Com a mão que não anda.

 

Descia a calçada em construção.

Puxava de um cigarro que se alimentava do desejo,

Descia a calçada de cigarro na mão,

E com a mão se constrói o beijo…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 31/10/2021


21.10.21

A enxada pertencia-lhe; desde o seu bisavô, avô e pai, todos eles, receberam como herança, ainda muito meninos, a enxada do destino.

Da escola, pouco ou nada se recorda, sabe ler, pouco, contar até dez e nunca aprendeu a construir um barco em papel,

Pai, parti a ardósia!

E o pai de punho cerrado, imitando seu pai, avô do agora herdeiro da enxada do destino, descerrou-lhe um murro entre os olhos, que em vez de ver as estrelas nocturnas da pobreza,

Não, não vou trabalhar hoje.

A noite regressava quase sempre embriagada, o candeeiro a petróleo, para alguns, candeia de azeite, para outros, sempre que cantava lá fora a coruja, desmaiava e adormecia, até que madrugada dento

Está a levantar.

E até os piolhos, engrunhados com o medo, se levantavam para mais um dia de trabalho árduo nos terrenos do senhor abade.

Dormiam no mesmo chiqueiro, o pai, a mãe, a avó e mais seis irmãos, sempre famintos, todos mais novos do que ele.

Dos meus seis irmãos, três deles eram meninas. Carne muito apetecida para o senhor abade, que gostava de brincar aos papás e mamãs entre as sombras de milho, junto à eira; chamava-as uma a uma, benzia-se e benzia cada uma delas.

Quanto a nós, pouco tempo passávamos na escola, caminhávamos montanha acima, montanha abaixo e, sempre que uma das ovelhas do senhor abade aparecia manca, levávamos pancada até pedirmos perdão e fazia-nos prometer pelo coração do Senhor Jesus Cristo que nunca mais voltava a acontecer; mas o azar nunca vem só e dias depois, novamente tínhamos de rezar.

Era Outono, as folhas, das árvores, lentamente se despediam como se o poema se suicidasse, aos poucos, de encontro à madrugada. As pedras pertenciam às palavras envenenadas pela neblina, quando acordava o dia e já o gado ia de encontro ao pasto.

 

(Continua)

Ficção

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20/10/2021


16.10.21

Duzentos e seis ossos

Sentados na esplanada do sono,

Sob a álgebra da insónia,

Mesmo junto ao rio,

Um fio de sémen desenha a tempestade;

Rodas dentadas entrelaçam-se

E amam-se no espelho do luar.

Regressa, pela noite, o cansaço,

Traz com ele a ínfima equação do desejo

Que percorre as ruas da cidade,

Que acaricia com a sua mão

Os seios tempestuosos do silêncio.

Escreve-se o poema

Na tela argamassada do abraço,

Quando uma fina névoa de suor

Lhe percorre as coxas de aço.

O poeta solda uma pequena chapa de saliva

À boca do púbis,

E, todos os pássaros da aldeia

Dormem abraçados aos parafusos do gemido;

E o poeta cansado,

Desenha no corpo da amada sombra,

Uma língua de solidão,

Com janela para o abismo.

Transcreve para o jardim das pilas mortas

Todos os sonhos da infância,

E todos os brinquedos,

E todas as palavras,

Suicidam-se no hotel do sofrimento.

Eles morrem.

Elas, não morrem.

O luar deita-se nas coxas do poema

Como se fosse uma corda em nylon

Suspensa nos lábios da manhã;

Batem à porta e,

Trazem-lhe um punhado de fome,

E, trazem-lhe uma equação de cansaço.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16/10/2021


24.09.21

Poisa na minha mão adormecida

Uma abelha de luz envenenada,

Sinto-a escrever nesta dor

As derramadas palavras de adormecer,

Sinto-a, sinto-a crescer

Neste tranquilo jardim em flor.

Da abelha, da abelha apaixonada

À eterna partida,

As sílabas do amor.

Poisa neste verso alicerçado

Do triste caderno quadriculado,

As amêndoas pequeninas,

São tuas, são minhas,

São palavras são rainhas.

E então, ao acordar,

Sinto-as nos beijos pergaminho,

São equações de sangue,

São presépios e vinho,

São palavras, palavras do meu vizinho.

As fórmulas que tenho de saber,

São elas também palavras de aprender,

São o mar a arder,

São desejos de prazer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/09/2021

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