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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.11.23

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Podíamos partir em direcção ao mar

E levar connosco todos estes livros,

Todas estas memórias.

Podíamos brincar no mar

E desenhar na areia o sorriso do silêncio,

Podíamos escrever na espuma do mar…

O quanto mar existe nos teus olhos,

Do mar Oceano das tuas mãos,

Podíamos regressar a Ítaca

E resgatar o soldado infeliz,

Conversávamos com a esposa de Zenão…

(o paradoxo de Zenão)

Podíamos voar sobre as árvores,

Podíamos cantar junto ao rio…

Podíamos aprisionar o vento

E a chuva,

Podíamos partir em direcção ao mar

E levar connosco todos estes livros,

E todas estas sombras.

 

 

04/11/2023


03.11.23

Perco-me nos teus olhos

E procuro o silêncio,

E afago o teu cabelo,

Perco-me nos teus olhos

Enquanto a noite desce sobre a tua mão,

Sabendo eu que a noite é um pedaço de tecido,

Um cortinado que não me deixa ver o mar,

 

Perco-me nos teus olhos,

Flor em papel crepe,

Luar que incendeia a insónia

E depois lança contra a montanha,

A minha solidão,

A minha triste memória,

 

Perco-me nos teus lhos,

E procuro o silêncio,

E procuro o silêncio dos teus lábios,

Nuvem de algodão-doce,

Poema da manhã…

 

Perco-me nos teus olhos,

E ignoras que também eu tenho olhos…

Mas tu, tu não te perdes nos meus olhos,

 

Perco-me nos teus olhos

E procuro o silêncio,

E afago o teu cabelo,

E o mar do teu olhar me abraça,

E o mar do teu olhar me beija…

Enquanto a noite se esconde na minha lareira.

 

 

 

03/11/2023


02.11.23

Hoje,

Vi a lágrima de alegria nos teus doces olhos de mar,

Vi o sorrir da estrela-luar

Nos teus lábios de mel,

Hoje,

Vi o beijo desenhado

No crepe papel,

Hoje,

Vi na tua mão

O silenciado

Silêncio da alvorada…

Vi a escuridão da madrugada,

Hoje,

Hoje vi a lágrima de alegria…

Nos teus doces olhos de mar,

Vi o dia…

E vi o desejo de amar.

 

 

02/11/2023


02.11.23

Chego a casa

A casa está fria

A casa não tem gente

Chego a casa e apenas fotografias

Pequenos insectos

Velharias e livros,

Nada mais dentro desta casa.

 

Chego a casa

A casa está fria

A casa não tem gente

Chego a casa e apenas sombras

Memórias de outros tempos

Esqueletos invisíveis

Ossos,

Nada mais dentro desta casa.

 

Chego a casa

A casa está fria

A casa não tem gente

Como chocolate

E conto o número de pulsações por minuto

Dos ramos desta árvore a bater na janela

Supostamente superior às cento e vinte pulsações por minuto do meu coração

Esquecido neste jardim sem estátuas,

Nada mais dentro desta casa.

 

 

02/11/2023


01.11.23

Desta janela oiço a voz do silêncio em desespero,

Desta janela, converso, desta janela converso com esta lareira,

E percebo que o meu corpo flutua,

Navega nesse mar imenso,

Deste mar sem nome,

Invisível da minha janela,

 

Desta lareira, desta lareira observo a minha janela,

Olho-a sossegadamente,

Como se olha para uma criança que acaba de brincar,

De cabelo ao vento,

No cabelo em flor,

 

Desta janela oiço a voz

Do silêncio em desespero,

Desta janela vejo a manhã a erguer-se,

Vejo a noite quando se deita junto a mim…

E tenho a certeza que o meu corpo flutua…

E desaparece quando regressa o luar.

 

 

01/11/2023


31.10.23

Podia ser muita coisa

Podia ser tudo

Prefiro ser eu,

Eu.

 

Podia ser poeta

Podia ser tantos poemas

Podia ser poeta, mas acabei por me ficar em Lanceiros dois,

Calçada da Ajuda,

Belém.

 

Podia ser o comboio,

Um popó topo de gama,

Podia ser uma bicicleta, triciclo com assento em madeira,

Podia,

Mas prefiro ser livro,

Prefiro ser lido, folheado,

Como se folheiam os livros,

Como se folheiam os poetas enforcados.

 

Podia ser muita coisa

Podia ser tudo

Prefiro ser eu,

Eu.

 

Eu, o mais ínfimo pigmento de tinta,

Eu, o mais pequenino de todos os poemas pequeninos que se escreveram até hoje…

Num livro, pequenino,

Podia ser muita coisa

Podia ser tudo,

Prefiro ser eu,

O louco travestido de Primavera,

O louco das finas tardes junto ao rio,

 

Zarpavam os barcos,

E eu, e eu podia ser marinheiro, comandante de navio,

Telefonista de um grande petroleiro,

Podia,

Eu.

 

Podia ser tanta coisa…

Tanta coisa que havia para eu ser…

E fiquei-me pelo poeta das noites embriagadas, das noites envenenadas pelo silêncio da espuma-estrela, ou da estrela-espuma…, que habitam a noite, que se vestem de noite,

Se cansam do dia, das marés, e fiquei-me pelo poeta desassossegado, em busca do mar, em busca da terra, queimada, e tanta coisa que havia para eu ser…

 

 

31/10/2023


28.10.23

Oiço a voz do silêncio

Que me traz a madrugada

Disfarçada de noite

Em noite ensonada

De nada

Amanhã um beijo nos teus lábios

Depois

Oiço a voz do meu relógio

Que me diz

Que me grita;

Amanhã são horas de sonhar.

 

Oiço a voz do silêncio

Dos teus lábios em palavras que recebo

Permitindo-me afoitar esta lareira

Nos intervalos de minha infame-glória

Viver acorrentado às primeiras lágrimas da manhã…

 

E dormir nos teus braços.

Azáfama das tuas mãos no meu rosto dorido

Às vezes triste

Às vezes sofrido

Quando oiço pela manhã

Quando recebo a noite…

A voz do silêncio,

 

Oiço a voz do silêncio

Que me traz a madrugada

Disfarçada de noite

Em noite ensonada

De nada,

Esta velha jangada

Em pedra lapidada

Durante a noite

Quando os nossos corpos se fundem

E formam a mais ínfima partícula do desejo

Da voz do silêncio

No silêncio de viver.

 

 

28/10/2023

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