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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.01.23

Somos servomotores

Em dentadas rodas,

Temos nas mãos rotores,

Em passo motores,

Correias,

Correntes,

Vidas passadas

E vidas presentes,

 

Díodos de zener,

Amplificadores,

Montes e ventoinhas

E grandes amores,

 

Somos motores,

Suspensão,

Vielas e supositórios…

 

Tudo o que o senhor doutor queira…

 

Em todo o caso,

Pega-se num circuito integrado,

Uma pobre espingarda apaixonada,

Depois…

Lá vem a merda do silêncio

E da madrugada

E mais nada,

 

Controladores,

Drivers,

Cabelo cortado,

E quando damos conta,

Uma pobre chapa em zinco,

Foge,

Corre,

Desce do telhado,

E senta-se junto ao rio,

 

Porra – que frio,

 

E para quê tudo isto,

Se amar uma mulher é mais fácil de que construir uma ponte,

Uma cabeça zangada,

Um triste monte,

Aquele monte das árvores alegres,

 

O motor roda,

A roda fode a cabeça ao mecânico

Que coloca o motor no caixão,

(o caixão da pedrada)

O caixão fecha-se,

Deita-se,

E morre,

 

E o mecânico,

Num ápice,

À dentada,

 

Corta os fios eléctricos da alvorada,

A cachopa geme de desejo,

E do desejo,

Uma volta completa,

Deste e daquele servomotor,

 

E fodidos estão,

Todos aqueles que pensam que o díodo de zener

Não serve de apelido ao menino;

A senhora professor grita

- Menino zener,

E quando a professora gritava,

Eu, o coitado dos calções,

Apanhava mais porrada,

Do meu pai não, porque era um bacano…

Mas ficava com os cornos a arder

Com as chapadas da minha mãe,

 

E quando a minha querida mãe me perguntava

- Menino dos calções, correu bem a escola?

Eu respondia que sim,

Pois claro,

Porque mentir para mim

Significava o perdão de uma carga de porrada,

 

E assim eu me librava.

 

 

 

 

Alijó, 30/01/2023

Francisco Luís Fontinha


22.01.23

Nos teus olhos,

Madrugada sem nome,

Quando me tocas

E sinto o rio da paixão que brinca no meu peito,

 

Quando me tocas

E poisas sobre mim,

As estrelas dos teus lábios,

E deixas ficar no meu corpo

A alvorada nas mãos de uma criança,

 

E nos teus olhos,

Quão luar das noites de insónia,

O primeiro beijo…

No beijo dos teus olhos de mel.

 

 

 

 

Alijó, 22/01/2023

Francisco Luís Fontinha


17.01.23

Há-de regressar a metástase do silêncio

Ao teu corpo desengonçado

Enquanto este rio de sangue

Corre para as umbreiras do amanhecer,

 

Há-de regressar deste rio sangrento

A fome e a peste

A solidão

E as amendoeiras em flor,

 

Há-de regressar a metástase do silêncio

Da fina flor desenhada

Deste pobre corpo

O corpo dependurado na manhã,

 

Há-de regressar

Regressar às sonâmbulas madrugadas

O sorriso suspenso nos teus olhos

Quando das metástases do silêncio

 

Este corpo

Corpo que dizem que me pertence

Que não acredito

Porque já nada me pertence

Se alegra na noite de mim.

 

 

 

 

Alijó, 17/01/2023

Francisco Luís Fontinha


14.01.23

Descobri agora que sou o espermatozóide número trezentos milhões, ao meu lado, já algo cansado, tinha o espermatozóide número duzentos milhões; e quase ao mesmo tempo, quando chegados ao óvulo, pimba.

Éramos dois à entrada, depois, passado algum tempo, e devido a uma qualquer avaria na linha de montagem (parece que o engenheiro responsável tinha saído e o operador da DEX34CD, máquina de grandiosa importância, tinha ido cagar às traseiras), ficamos apenas um.

Isto tudo para o autor demonstrar que dentro dele vivem dois gajos; o mesmo corpo, os mesmos lábios, o mesmo pénis e de feitios diferentes.

O meu pai, homem de muita sorte, porque tendo dois rapazes habitando ambos apenas um corpo, só teria de fazer uma única despesa. Só teria no futuro de comprar um par de calças em vez de dois, um par de sapatos em vez de dois e assim por diante…

Crescemos, um gostava do mar, o outro, pelo contrário, não gostava do mar. Um gostava do dia, quanto ao outro, odiava o dia e amava a noite, enquanto o outro que amava o dia, e de vez em quando, amava a noite, fugiu um dia do dia e abraçou-se também ele à noite.

Enquanto um fode o outro olha e enquanto o outro olha o outro fode.

E assim temos vivido e assim vamos morrer; um a foder o outro.

 

 

 

 

 

Alijó, 14/01/2023

Francisco Luís Fontinha


14.01.23

Adão olha para Deus, acaricia o cabelo de Eva e responde à questão colocada por Deus; e se para Eva tinha sido maravilhoso, para Adão

Um poema mergulhado no sono, onde as palavras são facas afiadas na boca do luar, uma mão que desce da alvorada e poisa nas margens do rio.

Deus, sorriu.

Convém dizer que Deus já tinha criado a nespereira, a pedra, o homem e a mulher e a vagina, e claro, a maquineta de fotocópias e os cigarros.

Faltava criar o mar, os peixes, todas as restantes árvores e arbustos, os pássaros, a literatura e a poesia.

Adão em silêncio, pega na mão de Eva e leva-a até ao rio (o autor alerta que os rios já tinham sido criados por Deus), senta-se sobre a pedra onde tinha passado a noite anterior a fotocopiar a vagina e num pequeno sussurro diz a Eva,

Sabes meu amor, agora sei o significado do desejo e do prazer e da paixão e do amor.

Eva olha-o e responde-lhe que também ela, também ela tinha descoberto o desejo e a alegria de ser desejada; dois corpos que se desejam e se perdem na neblina de um olhar.

Enquanto Deus olhava pôr-do-sol desenhado nos olhos de Eva, dá-se conta que ambos tinha acabado de descobrir a poesia.

A poesia das pequenas gotículas que crescem nos corpos quando em desejo, estes, se transforma num só e o corpo deixa de ser corpo, o corpo veste-se de poema, grita, geme e ama.

 

 

 

Alijó, 14/01/2023

Francisco Luís Fontinha

(ficção)

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