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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.09.22

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E tanto aquele livro, e tanto aquela fotografia, nada sabem sobre o amor e sobre a paixão.

Talvez se lhes perguntasse o que são as misérias do ser humano, ele e ela me respondesse…

Porque choram as acácias, pai?

Talvez me respondessem que já nascemos miseráveis, e como miseráveis que nascemos, nunca poderemos amar, nem tão pouco respirar a neblina da manhã. E enquanto esperava pela resposta do meu pai, nasci; nasci num Janeiro recheado de sol e de muito calor, sem que ainda hoje perceba porque choram as acácias.

Como também não percebo porque choram os pássaros, porque choram as árvores, porque chora o mar e o luar, porque choram as crianças, quando estas, deveriam pincelar sorrisos em cada manhã.

Depois, abri os olhos e vi no tecto da maternidade o mar; tinha sido a minha mãe que trouxe um pedacinho do Mussulo porque já suspeitava que eu

Talvez amanhã acorde.

Que eu pertencia a uma espécie de algas e que um dia seria apenas húmus e passaria o tempo a semear palavras nas planícies do sonho.

Ora, como sonhar é proibido por decreto Real e as palavras são apenas palavras, sombras, rectas paralelas que dizem que só se encontram no infinito, posso afirmar que sou apenas um poema que ninguém lê, mais um poema em direcção ao abismo.

E depois de abrir os olhos, de ver o mar aprisionado no tecto da maternidade, pequei na mão da minha mãe e levei-a a ver o capim que nunca ninguém percebeu de onde vinha aquele cheiro inconfundível depois das chuvas; que saudades…

Das acácias?

Daquele livro que me observa, daquela fotografia que me olha, e atrevo-me a dizer que são as únicas coisas que me observam; como aquele lindíssimo olhar que me seguia enquanto eu passava transportando uns calções coloridos e as sandálias de couro que ainda hoje sonham com o cacimbo pela manhã.

Porque choram as acácias, pai?

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E deparo-me que este livro é apenas um livro, e que esta fotografia não tira os olhos de mim, desde que nasci num Janeiro recheado e sol e de muito calor.

Que lindo, mãe…

Que lindo é o mar!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/09/2022


25.09.22

Sento-me nesta ausência percebendo que pertenço a esse mar imenso das paisagens do silêncio, oiço os teus gemidos de luz, percebo que sou apenas um pedacinho de nada em direcção ao abismo,

O frio e escuro silêncio da madrugada,

Oiço as fotografias enraivecidas que desde a noite passada resolveram, todas elas, invadirem os meus pensamentos, e percebo que cada personagem que habita nelas, são apenas sombras da minha infância,

Rasuro-me no espelho do quarto.

Ergo as mãos e sinto as amargas palavras escritas numa noite de neblina, onde barcos e putas deambulavam junto ao cais; parecia fácil, mas as tempestades voltaram do nada e amanhã…

Amanhã chove, amanhã chove…

Sento-me.

Invento o sono das persianas da janela e resolvo voar em direcção ao luar, como as abelhas em flor, como todos os pedacinhos de mel que sobejam no silenciado corpo nocturno do silêncio…

Inventam-se os gemidos da alvorada,

Amanhã?

Amanhã vou. Amanhã sonho. Amanhã eu faço…

E amanhã morre o derradeiro sarcófago das Primaveras em florida paisagem, porque nela habitam os pássaros dos pequenos milagres, porque o sono transporta o desejo e pelas primeiras imagens observadas, nada a declarar; culpado.

Levanta-se o reu. Levantei-me.

Idade? Desde ontem, ao final da tarde, fugiram todas as minhas palavras,

Cansado?

Pior; morto.

Em frente.

Amanhã eu faço…

E o amanhã não existe, e amanhã pertencerá às primeiras imagens da saudade, porque amanhã…

Amanhã eu faço.

Tudo eu tudo eu tudo eu…

Morreu.

Cansou-se das cavernas e foi viver para junto do mar da saudade, onde em pequenino brincava com uma mão de veludo e havia sempre um olhar protector a observá-lo, hoje

Amanhã eu faço.

E quando me pergunto o que faz um pedacinho de mel poisado num dos meus poemas…

Ele, ela, responde-me

Nada.

Peso.

Silêncio.

E mesmo assim continuam a morrer as abelhas das tristes Primaveras, como morreram as minhas três primeiras tristes palavras,

Junto ao mar.

Nasceram as acácias, nasceram as primeiras lágrimas, nasceram as sombras e das sombras nasceram a lua e o sol; mesmo assim, ele, ela, continuam a vaguear sobre aquele rio onde mergulhavam as sílabas da insónia.

Amanhã.

E hoje?

Amanhã todos os pedacinhos de mel serão crucifixos suspensos nas fendas do triste gesso que circundam o sótão do medo.

Medo. Medo. Medo.

Porque morrem as acácias, mãe?

Porque se apaixonam pelo triste silêncio, porque descem sobre a cidade as lágrimas dos grandes rochedos e o mar é apenas uma imagem…

Percebes agora porque morrem as acácias?

Não mãe…

E mesmo assim continuam a morrer as abelhas das tristes Primaveras, como morreram as minhas três primeiras tristes palavras,

Junto ao mar.

E junto ao mar ficarei à espera.

 

 

 

 

Alijó, 25/09/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


24.09.22

Vive-se,

Enquanto este pequeno instante voa sobre o mar,

Enquanto esta velha flor

Brinca nos jardins da solidão,

 

E no meu peito

Oiço os longínquos apitos dos petroleiros em sofrimento,

Vive-se,

Enquanto se respiram as palavras que a madrugada vomita

 

Contra o silêncio dos pássaros,

Vive-se acreditando no Outono,

Nas fotografias suspensas sobre a mesa-de-cabeceira,

Vive-se,

 

Como pedras alicerçadas às marés do inferno,

Enquanto um banco de jardim, dorme,

Sonha com as amendoeiras em flor…

Também ele vivendo

 

No sonho da serpente,

Vive-se neste labirinto de mágoas

Transversais ao desejo,

Depois…

 

Acordam em mim,

Pela manhã….

As canções em revolta,

E um grito se dissipa no luar.

 

 

Alijó, 24/09/2022

Francisco Luís Fontinha


17.09.22

Nesta mão granítica

Escondo o feto prometido,

Escrevo ao feto prometido

As palavras que um dia o meu pai me escreveu…

E que eu nunca tive a coragem de ler,

 

Com esta mão granítica

Pinto as tardes de Luanda,

Quando um paquete esfomeado

Poisava no meu peito,

Como se a criança que eu era

 

Deixasse de o ser…

Porque a criança que fui,

Hoje… é um pequeno verme de Inverno.

Nesta mão granítica

Escondo o feto prometido,

 

E aproveito para encerrar as janelas da solidão.

Com esta mão granítica

Disparo as balas da saudade,

Que acabam por adormecer no mar…

E sempre que uma criança chora

 

Esta mão granítica

Revolta-se contra a madrugada.

Com esta mão granítica

Escrevo ao feto prometido

Os poemas das tardes junto à baía de Luanda…

 

 

Alijó, 17/09/2022

Francisco Luís Fontinha


01.09.22

Não sei o que dizem as palavras da madrugada,

Não sei porque dança sobre o mar a insónia,

Não sei porque morrem as flores na Primavera,

Não sei porque brinca no poema a saudade,

 

Não sei porque o teu cabelo se escondeu no pôr-do-sol,

Não sei porque os pássaros se suicidam na minha sombra,

Não sei porque morreste…

Não sei porque voaste como uma gaivota,

 

Não sei porque escrevo o meu nome,

Não sei porque durmo acordado,

Não sei porque dizem que não valho nada…

Não sei porque brinca no poema a saudade,

 

Não sei porque desenho estas merdas sem nexo,

Não sei porque vagueio entre os parêntesis da alvorada,

Não sei porque sei que esta cidade é uma jangada,

Não sei porque vivem as árvores,

 

Não sei porque sorri esta criança,

Não sei porque há nuvens em papel

E pequenos silêncios de nada,

Não sei porque semeio palavras,

 

Não sei porque as sombras da noite

São pequenas sílabas soltas no vento,

Não sei porque são os sonhos alimento,

Não sei porque são as estrelas negros pontos de medo…

 

Não sei.

 

 

Alijó, 1/09/2022

Francisco Luís Fontinha


29.08.22

Se estas mãos acantonadas

Escrevessem nas páginas sonâmbulas

Do meu pedacinho de mel,

Se estes olhos em lágrimas luar

Poisassem nas tuas pétalas encantadas,

O poema voava sobre o mar…

E as minhas palavras amarguradas

Morriam nos lábios de uma abelha,

 

E da noite acordaria a paixão.

E se o meu pedacinho de mel

Voasse nos meus braços,

A tela fantasma da solidão

Transformar-se-ia em luz…

Depois de adormecer a alvorada.

Se estas mãos acantonadas

Escrevessem nas páginas sonâmbulas

 

Do meu pedacinho de mel,

A noite pincelava-se de dia,

Como as flores tristes dos finais de tarde.

Se o meu pedacinho de mel

Dançasse na madrugada,

Desenhar-se-ia nas nuvens

A enxada desgovernada do silêncio

Em pequenas gotículas de desejo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29/08/2022


17.08.22

Tínhamos nos lábios

Os doces beijos da manhã

Que abraçados aos sorrisos lunares

Inventavam o sono em desejo,

Depois, víamos sobre o rio

O lençol doirado do silêncio,

Como se fosse a alvorada em despedida,

Sem percebermos que dentro de nós,

Habitavam todos os poemas da Primavera;

Palavras que vínhamos semeando

Nas planícies invisíveis do cansaço,

E que apenas os beijos da manhã conseguiam iluminar.

 

Era noite, meu amor!

Sentíamos o mar dentro do peito

Sem que o salgado desejo

Fosse apenas o reflexo da maré

Nos teus olhos de pôr-do-sol.

E após acordarem nos teus lábios

Os doces beijos da manhã,

Abríamos a janela e ouvíamos a voz silenciosa do amanhecer

Descendo a rua onde desenhávamos os mesmos beijos

Que hoje nos teus lábios

Se abraçam aos sorrisos lunares;

E assim, nasceu paixão dos pássaros.

 

 

Alijó, 17/08/2022

Francisco Luís Fontinha


07.08.22

Ergue-te do silêncio de voar,

Ergue-te das palavras que semeias

No corpo da tua amada;

Ergue-te das sombras da madrugada

E das marés onde vagueias…

Ergue-te, ergue-te do sorriso mar.

 

Ergue-te das planícies de adormecer,

Ergue-te da noite e do luar

E das estrelas cansadas,

Ergue-te das tristes madrugadas

Onde escreves as palavras de amar…

Ergue-te enquanto o amor viver.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 07/08/2022


03.08.22

Finíssimas lâminas de luz atravessavam o teu corpo habitado pelas gotículas incineradas que a madrugada poisava e num ápice silencioso, à velocidade do desejo, voavam depois sobre as marés lindas de Inverno; um barco apaixonado rodopiava nos teus seios que da tela acabada de acordar, pincelada pela noite anterior, escrevia na fina areia da saudade…

Amo-te.

Amo-te, não percebendo o infame desejo que nas mãos do artista vive a insónia construída de luz e fogo. Não sabíamos que nos candeeiros a petróleo que brincavam no atelier, alguns deles, perfeitos anormais, existiam as cansadas estrelas da alvorada, quando lá longe, alguém pestanejava ao silêncio teu corpo quando ainda menino, inventava corridas á volta da lareira.

Tínhamos a fome do desejo e a dor do prazer; as palavras desciam pela tua pele como se fossem pedacinhos de chuva sobre o zincado medo das sanzalas de prata, e mesmo assim, amavas-me, e mesmo assim, tínhamos entre mãos todos os poemas da cidade.

Pincelada pela noite anterior, escrevia na fina areia da saudade os gemidos magnânimos dos pássaros em cio, quando sabíamos que um dia a saudade seria apenas algumas folhas em papel, cansadas pelas tempestades dos tristes sorrisos de Primavera, distantes dos infelizes abraços que a noite transportava para o rio.

Amanhã, a sanzala grita

Das lágrimas invisíveis dos tons de oiro que poisavam no teu cabelo, percebia-se que a cidade fervilhava como fervilham os sexos junto ao mar, assim que acordávamos, ouvíamos os belos socalcos do Doiro, entre rabelos e sombras de enxada nas mãos calejadas da madrugada.

Amanhã, a sanzala grita como gritam os teus braços quando se alicerçam aos distantes luares que uma infância aprisionou antes do nascer do sol. A vontade de correr ficou estacionada perto da ponte metálica que servia de esconderijo quando eramos atacados pelos famintos pássaros que transportavam os desejados poemas em pequenas quadriculas num qualquer papel de parede; morríamos.

Hoje, somos pedaços de nada.

Que da tela acabada de acordar, pincelada pela noite anterior, escrevia na fina areia da saudade…

Amo-te, sabendo que ontem tinham morrido todos os riscos deixados sobre a areia da infância.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 03/08/2022


29.07.22

Trazias no olhar

A espada cansada da guerra

Que os meninos em brincadeira

Desenhavam na sonâmbula alma

As tristes palavras da alvorada,

 

E tu, em gritos pedaços de neblina

Dançavas sobre a água calma do rio

Sem perceberes que em cada luar

O uivo grito se alicerçava aos teus ossos

De poeira esbranquiçada.

 

Trazias no olhar

As lágrimas da mentira envenenada

Que não sabia voar…

Que não sabia nada.

Trazias no olhar

 

A saudade,

A dor triste oiro

Nos braços da madrugada;

Trazias no olhar

A espada cansada da alvorada,

 

Enquanto os meninos em brincadeira

Escreviam na tua mão

As palavras em despedida;

Trazias no olhar

A dor fingida da partida.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29/07/2022

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