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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.08.17

Todas as torres têm vertigens,


Nos teus olhos brincam as searas encantadas da tarde,


Ultraje, viagem desassossegada ao infinito,


No medo, no cansaço de te perder nos lençóis da dor…


Como uma serpente acorrentada, só, dentro de casa,


O feitiço obscuro das tuas mãos, além o indesejado coração de pedra…


Triste, e frio como a geada,


Suspenso em cada madrugada,


 


A fotografia prateada, esquecida em cima da secretária, os livros enervam-me, e oiço o cantar das personagens antes de nascer o dia,


A morte traz a noite, a noite constrói a dor, e o sofrimento alimenta-se das tuas pálpebras de granito,


 


Serei o teu guardião das noites mal dormidas, o esqueleto de xisto que habita no teu peito, sempre ofegante, sempre engasgado pelo sonâmbulo cacimbo,


E na sanzala há uma esfera límpida de carvão…


Como são todos os cigarros que me acompanham,


Sinto a despedida,


Sinto a partida…


 


Até que um dia nascerá o sol, e tudo são apenas más recordações, papéis velhos e alguns trapos de Inverno,


 


Tudo cessa,


Como cessam as cordas da forca antes do enforcado se despedir da mãe.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 27 de Agosto de 2017


01.08.17

Uma janela com vista para o mar,


O barco da despedida espera-me, e brevemente estarei nos teus braços,


Um livro recheado de imagens a preto-e-branco,


Renasce na tua mão. Posso manuseá-lo, mas perco os desenhos imaginados pelo louco autor das searas imaginárias,


Enquanto o trigo se despede da planície…


 


Eu brinco com o teu olhar escondido na sombra das árvores.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Agosto de 2017


28.03.15

Não entendo os teus cabelos em cerâmica doirada


Como as andorinhas desnorteadas


Entre árvores


Entre filamentos de saudade


Sobre a cidade


Dos sonhos


Acordar


O espelho da vida


Em liberdade condicional


Espera


Caminha


A pedra ensanguentada


Das ruelas em flor


O ruído ensurdecedor dos morangos


E das plásticas cabeças de alfinete


O fato prisioneiro no guarda-fatos


O meu esqueleto


Dentro do fato


Os sapatos


As meias


E todo o resto


Em chamas junto ao rio


Não entendo o perfume dos teus lábios


O sorriso que se alicerça em ti


E me sufoca


Quando acorda a noite


E a noite me transporta


Para a carta sem remetente


Oiço-te


E não percebo porque brilham os teus cabelos


Dentro do cubo de gelo


Da paixão


Em aventuras


Entre árvores


Entre filamentos de saudade


Saudade…


Dos sítios obscuros com pulseiras de vidro


Cacos


Sílabas


Na seara do cansaço


Atrevo-me a olhar a lua


E não querendo ofender ninguém…


A lua suicida-me contra os pigmentos do prazer


Não sei


Como poderia eu saber


Se as candeias se extinguiram nas marés de prata


Os sonhos


Os sonhos acorrentados ao silêncio


O medo de amar


Não amando


E comer


Todas as pétalas da rosa embalsamada


Tão triste


Eu


Neste cubículo de lata


Sem janelas


Sem… sem nada


Como uma simples folha de papel


Desesperada


Sobre a secretária


Eu mato-a com a caneta


Escrevo palavras


Palavras


Que só o mar consegue entender


E… escrever


Nos meus braços


Dentro de mim há buracos negros


E as equações da relatividade


Sós


Entranhando-se no camafeu alicerce do sofrimento


Como eu sabia


Antes de a madrugada bater-me à porta


Olá bom dia


Meu amor…


Hoje não


Volte para a semana


Não


Não quero comprar nada


Hoje


Porque sinto a solidão


Nos arrozais


E nos pássaros


Que os homens constroem


Enquanto o poeta morre…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 28 de Março de 2015


29.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


O homem de negro aparece-lhe no sonho de papel,


apalpa-lhe o seio, acaricia-lhe as coxas diurnas da paixão,


ouvem-se os estilhaços de um corpo de porcelana,


um tiro de desejo, e “PUM”... a madrugada morre, e o homem de negro transforma-se em mão,


clandestina,


cinzenta,


o homem de negro é a escuridão,


e do espelho inseminado do prazer vêm os cintilantes corações de prata,


lá fora um letreiro grita “Hoje há moelas”, e a rua veste-se de transeunte mendigo,


e hoje, e hoje a mulher apalpada pelo homem de negro, dorme... tranquila, dorme docemente como as curvas esverdeadas dos olhos das searas em construção,


o homem..., o homem de negro, triste, desaparece quando alguém liga o interruptor do amor,


e um pedaço de aço incandescente poisa no seu ventre...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 29 de Março de 2014



23.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


A noite não regressa, a noite é uma prostituta convicta, fã da escuridão,


eu, eu pertenço à noite, os teus lábios são filhos da noite, e as estrelas convencem-te que existe vida nas pedras, que existe vida nas árvores e gaivotas, que existe vida nos velhos cacilheiros...


atiro-me ao rio e procuro as tuas mãos que pertenceram ao meu rosto,


vivo, respiro pigmentos coloridos de saudade, e... e como fã da noite, sofro como sofrem os veleiros quando cessa o vento,


 


A noite entranha-se em mim, oleia-me os tentáculos sonoros do meu peito,


finjo viver quando lá fora, quando do outro lado da rua... não vivem, não existem...


nem noite, nem estrelas... e apenas uma corda de nylon me aprisiona a este cais poético derramando palavras nas searas de Carvalhais,


e escondia-me dentro do canastro... e sonhava que um dia, eu, eu pertenceria à noite.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 23 de Março de 2014



28.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro


aquele que deambula pela cidade


de pêndulo suspenso na alvorada


dá-lhe corda


fá-lo correr quando se ouve a maré dos silvados xistosos nas encostas íngremes do Douro...


há um leve apito de um novo marinheiro


o cachimbo geosmina como serpentinas voando sobre os candeeiros da saudade


o velho relojoeiro engata uma nova carvoeira


decidem os dois romperem os lençóis do desejo quando os segundos ficam suspensos nas ardósias tardes de literatura


há uma cama estonteante com tonturas e pequenos enjoos...


coisa de loucos


 


drogas dizem logo os transeuntes da rua dos abismos...


cansaço... sussurra o Psiquiatra Manel...


 


o homem do homem esconde-se nas ventosas térreas das searas negras


o velho relojoeiro dá a sua mão milagrosa à menina acabada de engatar


ouvem-se as sílabas castanhas borbulhando sobre uma prata de alumínio


chovem as lágrimas da menina engatada


se é a carvoeira ou a mendiga empregada da livraria... eu não o sei...


o homem chove


desculpem... os homens não chovem


choram


não choram


se fodem ou não fodem...


o silêncio sabe-o como sabe o cinzento eléctrico das noites que ejaculam migalhas de pão


sobre uma mesa... uma mesa sem vaidade


 


uma mesa sem...


sentido


pratos


húmidas abstractas colectâneas


toalhas bordadas...


comida pouca


serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro


aquele que deambula pela cidade?


 


uma mesa vestida de eléctrico palmilhando medos


voando sobre a cidade das searas negras


parte de Cais do Sodré e adormece sobre a lápide encarnada do cemitério da Ajuda


não...


não AJUDA nada


pertenceres aos mosquitos de prata que brincam nos relógios de cacimbo


procurando a menina engatada pelo velho relojoeiro


carvoeiro... ejaculam


toalhas bordadas...


comida pouca


serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro


aquele que deambula pela cidade?


 


- que horas tens meu querido?


 


uma mesa sem...


sentido


pratos


húmidas abstractas colectâneas


toalhas bordadas...


 


… fá-lo correr quando se ouve a maré dos silvados xistosos nas encostas íngremes do Douro...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 28 de Novembro de 2013


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