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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.02.22

Silêncio no teu olhar

Menina das flores desenhadas,

Saudades do mar

E das palavras abraçadas.

 

Menina do meu luar,

Descendo a calçada,

Menina dos beijos de beijar,

Enquanto dorme a madrugada.

 

Silêncio no teu olhar

No poema adormecido,

Silêncio de amar,

 

Amar o verso encantado.

Menina do poema perdido,

Perdido no meu corpo envenenado.

 

 

Alijó, 27/02/2022

Francisco Luís Fontinha


24.12.20

Sem ti, das saudades de Luanda.

O menino que tropeça na sombra das mangueiras,

E, em cada fim de tarde,

O abraço imaginário do “chapelhudo”.

Caía a noite sobre ti,

E, dentro da sonolenta dor, os papagaios em papel colorido,

Que voavam em direcção ao infinito.

Guardo de ti, todas as fotografias,

Todas as palavras, escritas, não escritas,

Sobre um corpo moribundo.

O mar,

Lá longe, os braços do mar,

Corrupiando sobre a maré dilacerante do nada,

Tinha medo, da “lhá”,

Ouviam-se os gritos melancólicos dos mabecos,

Esfomeados pelo sono do desassossego,

E, no entanto, eram tão queridos, como o são todos os animais…

Sem ti, das saudades de uma Luanda assassinada por um dia de Verão,

Na algibeira, as pequeníssimas côdeas de saudade,

Descendo a calçada,

Sentava-me no chão, pedia à sombra das mangueiras, protecção para terminar mais uma aventura, descia do teu colo e, sabia que tinha regressado do ontem.

Hoje, recordo uma Luanda apodrecida numa pequena folha em papel,

Um vagabundo poema,

Que não deixa saudades.

Sem ti, de ti,

Este dia sem nome.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó – 24/12/2020


19.03.17

Imagino os teus olhos lacrimejantes nas paisagens do Congo,


Transportavas no corpo as serigrafias do sono…


Que apenas um rio te separava da inocência,


Tinhas na algibeira os cigarros e a fotografia da tua mãe…


Inventavas poemas com palavras esquecidas no capim,


Que o cacimbo apergaminhava na aventura da escuridão,


Lá longe ficava a barcaça imaginária de um dançarino obsoleto,


Sentavas-te nas montanhas da tristeza e rezavas,


Rezavas pela melancolia dos destinos transparentes do olhar de uma serpente,


E nunca percebeste que eu um dia eu te recordaria como um sonâmbulo obscuro,


Que transporta os alicerces de uma cidade em pó…


E em pó te transformaste.


 


 


Francisco Luís Fontinha


19/03/17


08.05.16

Os comboios só apitam durante a noite para assustarem as estrelas,


As rectas paralelas em aço estendem-se até ao infinito, chegando lá, o comboio desaparece, entranha-se na noite e morre.


Encurvado nos socalcos levo comigo as curvas do Douro, lanço-me à água… estou farto das palavras que escrevo, estou fartos dos meus desenhos, como a vida que gira e não se cansa de cessar, parar sobre a ponte e suicidar-se sobre os rochedos da insónia.


Oiço o grito da aranha no cansaço da madrugada,


Sei que habita um rosto no espelho do meu quarto e certamente que não é o meu, porque nunca o vi, apenas em pequenos tragos de saliva ao pôr-do-sol,


Quero expulsá-lo de lá…, mas não tenho força para tal; parto o espelho?


Quebro-o até que o rosto se transforme em mim? Ou este será o meu rosto depois da minha morte?


Os comboios só apitam durante a noite, fiz muitas viagens, muitas noites sem dormir, entre apitos e soluços, entre estações e apeadeiros desconhecidos, entre gritos e gemidos, até desaguar em Santa Apolónia pelas sete horas da manhã, as ruas acabavam de acordar, os sem-abrigo levantavam-se para o invisível pequeno-almoço, e eu, e eu fumando cigarros para não adormecer,


Mas acabava sempre por cerrar os olhos e passar o dia entre os cortinados da escuridão e os sons melódicos do trânsito, a loucura, cruzava os braços e punha-me a contar os automóveis que passavam por mim, depois separava os que eram homens e os que eram mulheres, as crianças à parte… e assim passava o dia.


Regressava a noite e eu tinha vendido o sono ao Diabo, saía na companhia de desconhecidos, entrava em todos os bares até adormecer sobre qualquer banco de jardim, e enquanto dormia, sentia, sentia os apitos do comboio…


Tudo isto está escrito e sepultado em três caixotes de cartão,


Confesso que nunca mais os abri, não tenho coragem para os abrir…


Papeis, fotografias, poemas, e fantasias…, mas para quê remexer o passado e este está morto, e enterrado no meu peito.


Os perfumes intactos, uma velha rosa dentro de um livro, intacta, e a minha vida pedaços de farrapos em construção, hoje uma pequena vitória, amanhã uma grande derrota…


 


Amanhã faz vinte e dois anos que deixei a heroína…


Uma grande vitória.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 8 de Maio de 2016


25.11.14

Marinheiro


cansado das palavras sem título


que se acomoda com as tempestades


marinheiro... invisível


come saudades


e... e alguns versos


não dorme


não consegue sonhar


e não acredita no futuro...


marinheiro infernal


que veste um esqueleto de algas


e cobre o cabelo com o jornal


marinheiro ensanguentado


que finge olhar as estrelas


e o luar


marinheiro


cansado das palavras...


dos barcos de papel


e dos Oceanos de prata


marinheiro embalsamado que se esconde na praia


imagina corpos enlatados


e pássaros em silêncio...


ouve os sons melódicos da noite


como se a noite fosse música


ou... ou um poema em ascensão


ou... ou um poema com odor a morte


marinheiro


marinheiro das palavras


marinheiro sem sorte


e ele não sabe que junto ao Tejo


habitam as lágrimas do espelho da solidão...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 25 de Novembro de 2014


16.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Tínhamos inventado o sono,


a tristeza,


desenhávamos o sofrimento nas pedras cansadas da calçada,


tínhamos nas mãos a madrugada,


o vento que nos empurrava,


um livro teu... um livro que nos amava,


tínhamos estrelas vadias nas pálpebras do céu,


palavras, palavras significando tempestades, palavras começadas por saudades,


tínhamos inventado o sono,


a alegre maré parecendo o ensanguentado milagre da beleza...


tínhamos o mar e os corpos dos marinheiros sem farda,


e mesmo assim... sonhava, e mesmo assim... amava-te como se amam os xistos muros dos nocturnos eléctricos da cidade do nada.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 16 de Fevereiro de 2014



11.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Diluímos-nos com os velhos vapores que a solidão alicerça nos rochedos da saudade


habitávamos num fino e escuro cubículo de paixão com telhado de vidro


tínhamos na mão a varanda do suicídio construída com as raízes do medo


e voávamos como serpentes de papel nos cortinados das lareiras sem nome...


éramos o ébano lençol de seda com desenhos bordados a fogo


descíamos das nuvens embebidas em frestas de gesso e pedaços de madeira envelhecida...


fugíamos... fugíamos como loucas pedras em granito esquecidas na espuma do Pôr-do-Sol


inventávamos o mar dentro das nossas veias onde corriam insectos e outros objectos da noite


luzes


néons como venenos que iluminavam a madrugada das livrarias empoeiradas


diluímos-nos com os velhos vapores...


… rochedos da saudade,


 


Há uma saudade invisível nos socalcos da cidade das marés lunares


um barco de sémen navega sobre a tua pele doirada quando pintada com pincéis de aço


o teu corpo se transforma em fome


os teus braços desassossegam todos os transeuntes mendigos da dita cidade das marés lunares...


uma criança procura chocolates de areia nas algibeiras do segredo


corre como uma lebre talude abaixo


e do sol chegam até nós os prometidos apitos dos vapores que a solidão... alicerça... a saudade...


submerges nos êmbolos loucos dos relógios de parede


saberás abraçar-me?


desejo-te em cachimbos de madeira voando como gaivotas em silêncios de tabaco


o perfume entranha-se nas grades do soalho das pequenas sílabas que dormem no quarto do grito


e uma outra criança chega a ti e pergunta-te... porquê pai?


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 11 de Janeiro de 2014



05.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Tristemente invadido pelas análises clínicas dos perfumados jardins das jangadas embebidas em cianeto e outras


Escadas?


Palavras, não o sei, não o consigo perceber, talvez este verso alimentado pela inveja encontre dos triângulos dos dias tristes as algas masturbadas dos rios envenenados pelo doce odor da paixão, do cinismo...


As escadas...


Nunca tive Sábados, e à Sexta-feira tínhamos Açorda de Marisco, pão, vinho e sobremesa,


A sério?


Tristemente invadido pelos machimbombos da insónia, escondia-me de ti, debaixo da mesa no quintal das bananeiras, mangueiras e outras … eiras


Carvalhais,


Sexta-feira,


Eles não sabiam que tínhamos almoçado, traziam-nos coisas estranhas, comíamos tardíssimo porque acreditávamos que havia fantasmas que roubavam a comida dos pobre, e as tuas mãos abraçavam-se à minha cintura rechuxuda, hirta... fria como a geada de hoje à noite, e dizias-me que todas as árvores são como os pássaros quando são velhos...


Não voam, não voam mas também não andam, não bebem... e também não pagam, e também,


As escadas?


Sexta-feira,


Tristemente...


Aquele beijo que ficou esquecido sobre a mesa-de-cabeceira, aquele sorriso impregnado na vidraça estilhaçada da janela com fotografia para o quelho, aquele abraço perdido dentro dos cobertores da inocência, aquele beijo, aqueles teus lábios em pétalas que o desejo sobejou das tardes perdidas, aqueles livros poeirentos abandonados na estante do corredor, aquele teu alicerçado seio sobre a minha solidão, claro... imortal na cama em tardes de neblina, imortal no jardim dos clandestinos Domingos...


Sábados à tarde,


Sexta-feira à noite,


Aquele beijo, aquela melodia adormecida sobre os abajures da melancolia, aquele dia com palavras de luar, aquela madrugada com talheres em prata, e corpos, corpos de nata...


E ouvíamos o beijo esquecido das gaivotas em cio, e ouvíamos os tristes carris da liberdade mergulharem nas montanhas de papel como lagartas e outros bichos, coitados


Procurando,


Coitados...


Caminhando..., o beijo esquecido das gaivotas em cio, procurando as cinzas do casebre abandonado depois de partirem todas as árvores do destino que acompanhavam as alegres palavras comedidas pelas mãos de giz... aquele divã onde te deitavas, e eu, eu sobre ti entranhava-me nos teus gemidos invisíveis dos xistos borboletas em voos de andorinha, coitados...


De nós...


Deles...


O beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro... imortal no jardim dos clandestinos


Domingos...


Sábados à tarde,


Sexta-feira à noite,


E não bebem, e não pagam, não dormem mas... também não sonham,


As escadas?


Tristemente tristes, tristemente... sós, sós, talvez só às vezes tristemente sós...


O beijo dilacerava-se, o beijo derretia-se como chocolate, a Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo pela módica quantia de


Os beijos pareciam migalhas de pão abandonadas sobre a mesa de ébano, cheirava a naftalina, a toalha pertencia aos objectos escondidos como as pratas que deixaram de existir desde eu criança, como as porcelanas e todo o marfim, tínhamos falido, e vivíamos como Príncipes imperfeitos vestidos de carrancudos criados sem ofensa para vossemecê meu grande amigo


As escadas?


E pela módica quantia de dois beijos e uma sexta-feira...


Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo a estrear, excepto o vinho, que esse, esse já era em quarta ou quinta mão,


Sexta-feira, amanhã, a estrear, o beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro, e eu, eu inventado Açordas de Marisco, sopa, pão... e o vinho, e o vinho parecendo água depois das tempestades de...


Sexta-feira, Sábado, e Sexta-feira temos


Açorda de Marisco... e vinho, e vinho, tristemente... só. Só.


(onde está a sobremesa, raios?)


 


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013



20.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Dir-me-ás que a vida é um número de magia, conheci um ilusionista (confesso que não é ficção, conheci e conheço e tenho amizade por ele – Didier Ferreira – e quanto mais olhava os seus números de magia, confesso, confesso que mais dúvidas ficavam em mim, e menos percebia do que se passava à minha volta), e a vida não é mais do que um lindo e belo número de ilusionismo, um espelho gigante, olho-a e percebo que é tudo uma mentira, a imagens é ma mentira, os olhos, os olhos... são uma pegada mentira vestida com tecidos verdes, e os braços, e os braços também eles, eles


Mentiras,


Caixotes vindo de lá, trazíamos o muito que tínhamos, que era nada,


Mentiras,


(muitas das vezes servi de cobaia dele na preparação de alguns dos seus números, e parecendo aos olhos que quem nos via, eu, eu um parvalhão nas mãos de um verdadeiro artista, confesso que nunca me senti como tal, mas que me irritava o facto de eu não perceber como aconteciam as coisas... lá isso era verdade)


Os caixotes magoados, desdentados, meio adoentados, e vertendo um líquido esquisito, que mais tarde fomos informados que era o líquido da saudade


E coisa eu nunca tinha ouvido na minha curta vida,


“Líquido da saudade?”


És parvalhão, ouvia-o. E hoje percebo que ele tinha razão,


Eu era mesmo um verdadeiro parvalhão aos olhos do meu pai, porque como era possível existir um líquido chamado... “Líquido da Saudade”...


Eu, negro, nasci e cresci negro, eu uma árvore a que chamavam de mangueira, que às vezes sentia-a chorar, que às vezes... também eu chorava, quando da sua sombra renasciam os palhaços do circo, o ilusionista fazia com que as cartas de um baralho aparecessem na


“Líquido da saudade?”


Os palhaços do circo, o ilusionista fazia com que as cartas de um baralho aparecessem na minha algibeira, ela sempre, ou quase sempre, vazia, e lá estava ela, assinada por mim


Pode lá isso ser possível, menino?


Verdade verdadinha... Senhor Anacleto, verdade....


Acredito mesmo, menino Francisco, “Líquido da Saudade”..., e ainda por cima aparecer na sua algibeira e assinada por si, consegue prová-lo?


Claro que sim, claro que sim Senhor Anacleto... ainda a guardo na prateleira juntamente com os meus livros, os caixotes babavam-se como se fossem caracóis acabados de confeccionar, e afinal não eram caracóis, e afinal


Quitetas,


E o molho, Senhor Anacleto, Ai nem me fale no molho... menino Francisco, que saudades..., e um líquido estranho pingava dos três tristes caixotes que trouxemos, pouca coisa, coisa nenhuma, e afinal, afinal era mesmo o “Líquido da Saudade”,


Em finas fatias sobre o pão quente de Favaios, e que coisa, que coisa... Senhor Anacleto, um Líquido verde com sabor a manga..., talvez pedaços de sombra, talvez... as chuvas quando adormeciam a terra queimada e ressequida pelo abrasador Sol... e sabe, sabe Senhor Anacleto?


Não, não o sei menino Francisco, não o sei,


As cartas, as cartas voavam durante a noite e de manhã apareciam na minha algibeira, vazia, ou... quase vazia, como sempre, ou com quase nada,


Quitetas.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Terça-feira, 20 de Agosto de 2013



03.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Fervíamos como líquidos amargos na imensidão dos botões de rosa, alguns bravios, outros, outros mórbidos, outras..., outros, outros caminhando sobre as gaivotas floridas das noites embriagadas, havíamos combinado não falarmos mais nesta horrível despedida, levantarmos âncoras, recolhendo corrente, motores a diesel a trabalhar, e aos poucos, outros, o rebocador deslizava suavemente sobre a tua pele de seda, começávamos a perder de vista os edifícios alicerçados às tuas coxas rochosas, e aos poucos, os teus mamilos começavam a entrar no esconderijo junto à sanzala da saudade, entrávamos, e no pavimento térreo uma colcha de palha onde nos deitávamos, onde dormíamos, comecei a deixar de ver-te, comecei a escrever no zinco teus cabelos, porque o vento tinha zarpado, outras, outros


Fervíamos,


Outros espiavam-nos juntos às bananeiras com quatro cadeiras e um círculo de sombra, fervíamos um no outro, e outros, e outras, aos poucos apenas o silêncio do teu corpo fervilhando entre os meus dedos, outros, e outras, aos poucos o teu púbis vulcânico descia a montanha do Adeus, e cada vez mais longe


Fervilhando,


Fervíamos,


Deixávamos os meninos em volta de pequenas poças de água, tinha chovido, a terra cheirava a fogo, e o céu começava a clarear como acontecia com as janelas da velha barcaça que nos levava até ao paradisíaco Mussulo, eu, eu amava-o, e tu, tu apenas encolhias as pernas, e sobre ti um lenço de desejo te absorvia, flutuavas como uma abelha dentro da cubata, rodavas em pequenos círculos trigonométricos, e dos teus lábios um líquido amargo com sorriso de cosseno desenhava-te na face esquerda uma parábola, a equação descia-te até enrolar-se nos teus tornozelos de areia branca, palmeiras e outros, e outras


Fervilhando,


Fervíamos,


E outras melodias esperavam no cais pelo desejado embarque, deixei-te para nunca mais poisar-me sobre ti, voando, eu, eu ainda tentei..., mas caí sobre o Oceano, mergulhei acreditando encontrar-te lá muito no fundo, mas


Fervilhando,


Pedras e nada mais,


O pôr-do-sol era triste, fervilhavas nos meus longos dedos, e os teus gemidos alimentavam todo o espaço vazio da cubata, não tínhamos sequer onde poisar uma gotícula de sémen, não tínhamos sequer onde deixar suspenso na madeira misturada com zinco o crucifixo que tínhamos trazido do outro lado da cidade, antes de partirmos, antes de te deixar sobre o cais..., e quando percebi


Fervilhando,


Pedras e nada mais,


Percebi que tinhas desaparecido entre o cacimbo e a saudade, percebi que tinhas zarpado como a nossa velha barcaça, procurei por ti, inventei desculpas, cheguei a descer às profundezas do Tejo, entrei em Cais do Sodré, bebi, embriaguei-me, dancei sobre mesas e cadeiras, cambaleei até Belém, atravessei os carris e sentei-me junto ao rio..., fervíamos como líquidos amargos na imensidão dos botões de rosa, alguns bravios, outros, outros mórbidos, outras..., outros sem vida, e nada, e ninguém, nem sequer um simples peixe... para me informar do teu paradeiro, percebi que a nossa cubata tinha ardido, anos mais tarde, percebi que o teu corpo tinha crescido, mudado de forma, percebi que estávamos velhos, como o espelho da casa de banho, quando hoje me olha e diz-me


Fervilhando,


Fervíamos,


E eu, eu... no cais pelo desejado embarque...


 


(Ficção – Não Revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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