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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.01.23

Traz o sono a esta lareira,

Traz nos teus lábios os incêndios da madrugada,

Traz as palavras para eu semear…

Semear nesta terra queimada,

 

Traz a tua mão,

A mão que o meu rosto vai acariciar,

Traz a lua

E a filha da lua

E o deslumbrante luar,

 

Traz-me os livros que escrevi,

Para escrever nos teus lábios,

Traz o sono a esta lareira

E todos os poemas,

E todas as estrelas

E todas as savanas,

 

Traz-me todos os rios,

Todos os mares…

Traz-me as árvores

E os pássaros de cantar,

Traz-me a chuva,

E faz com que as nuvens parem de chorar.

 

 

 

 

Alijó, 28/01/2023

Francisco Luís Fontinha


05.01.23

Roubaram-me os dias

Como os catraios ou as catraias

Roubam uma laranja

Do quintal do vizinho,

 

Depois

Depois começaram a roubar-me quase todos os pedaços da noite

Deixando-me apenas um minúsculo pedacinho de noite

Um pedacinho que aproveito para escrever

Estar vivo

E respirar as palavras que vêm do mar,

 

Também me roubaram a alegria

E as estrelas que a minha mãe desenhava no tecto da minha alcofa…

 

Roubaram-me os dias

Como quem rouba uma laranja

E depois

Quando a laranja está na mão da noite

Vem o invisível silêncio

Que com a faca da saudade

Recorta-me em pedaços

Pedacinhos

Muitos pedacinhos…

E fico tal e qual como a noite,

 

E pergunto-me

Para que serve um pedacinho igual ao pedacinho da noite

Quando do pedacinho de mim

O outro pedacinho da noite

Come os sobejantes pedacinhos do meu corpo

Deixando sobre o mar

Todos os outros meus pedacinhos,

 

E se alguém comprasse pedacinhos

Pedacinhos do meu corpo

Vendia-os

Dava-os

Alimentava todos os animais da Terra

Alimentava-os com os pedacinhos de mim,

 

Não sou ganancioso

Não

Nunca o fui…

 

Um pedacinho de qualquer coisa… está bom para mim

Não preciso de mais

E até me contento apenas com um pedacinho de saudade,

 

Um pedacinho apenas.

 

 

 

 

Alijó, 05/01/2023

Francisco Luís Fontinha


04.01.23

Encostou a mão na minha face

Deu-me um beijo

E enquanto me olhava

Escondeu-se no capim,

 

Foi assim que a melhor amiga da minha infância de Luanda

Se despediu de mim,

 

Eu e a Fátima brincávamos

E inventávamos coisas

Coisas que apenas as crianças entendem,

´

E tal como ela habita dentro do álbum fotográfico do meu pai

Também eu provavelmente ainda brinco no álbum dos pais dela,

 

Provavelmente a Fátima tem filhos

Tem netos

(ao contrário de mim)

Provavelmente ainda se recordará do menino dos calções

Tal como eu me recordo dela

E quem sabe

Um dia

Numa qualquer rua do Planeta Terra

Encontraremos as sombras e os cheiros e os sons do Mussulo,

 

Porque as pessoas morrem

Mas os cheiros e as sombras e os sons do Mussulo…

Nunca morrerão.

 

 

 

 

 

Alijó, 04/01/2023

Francisco Luís Fontinha


04.01.23

A vida

A minha vida

É uma tela

Uma tela que herdei das mãos de Deus

E que aos poucos

Fui pincelando,

 

Com cores,

Com riscos,

Com olhares

E cheiros,

Com o silêncio do mar,

 

(Deus, criador do céu e da terra, do mar e dos pássaros, das árvores e da paixão, tudo, dizem, Deus criou)

 

E a primeira paixão

De que me lembro

Foi a paixão dos barcos,

Barcos que o meu pai me levava a ver

Todos os fins-de-semana

Ao porto de Luanda,

 

Pequeno que eu era

E amedrontado com todo aquele tamanho

E esplendor

(a minha mão muito agarrada à mão dele)

Deliciava-me

Deliciava-me com os cheiros a Nafta

Deliciava-me com os olhos dos barcos

E com os braços dos barcos

Que quando regressava a casa

Sentava-me debaixo das mangueiras

E sonhava em beijar e abraçar

(todos aqueles barcos),

 

E da tela da minha vida

Que nunca consegui terminar

Porque está sempre em construção

Hoje mais parece um barco

(entre portos e marés, entre o ontem, o hoje e o amanhã)

Um barco que às vezes sorri

Outras

Outras vezes que chora

Um barco sem nome

Como a tela da vida

(porque todos os barcos têm um nome)

E corre calçada abaixo

E corre calçada acima,

 

Lembro-me muito bem

Em criança

De puxar um barco pelas ruas

E rua acima

E rua abaixo

Lá andava eu

O menino que trocou os calções

Por roupas muito pesadas

Por calçado muito pesado

E fartei-me deste mar

E fartei-me desta pobre maré…

 

E voltando à minha vida,

 

A vida

A minha vida

É uma tela

Uma tela que herdei das mãos de Deus

E que aos poucos

Fui pincelando,

 

Algumas vezes

Pincelei-a de alegria

Muitas mais vezes

Pincelei-a de tristeza

Mas como sou daltónico

Não importam as cores da tela da minha vida

(se são de cor alegria ou se são de cor tristeza),

 

(e voltando aos barcos porque a minha vida é pouco interessante)

 

E enquanto os olhava

Nunca imaginava

Nem sonhava

Um dia

Qualquer dia

Brincar dozes dias

Ou dormir doze noites

Nos braços de um barco,

 

Mas brinquei,

E dormi,

E hoje acredito se este enorme paquete tivesse naufragado

Isso sim

Hoje seria o menino dos calções mais alegre de todas as sanzalas de prata,

 

E a minha pobre mãe

Acreditava que Deus estava do nosso lado

Que era nosso aliado,

 

(como ela estava tão enganada)

 

Como ela estava enganada.

 

 

 

 

 

Alijó, 04/01/2023

Francisco Luís Fontinha


25.12.22

Éramos muitos

Éramos um exército

Hoje somos poucos

E nem um pequeno pelotão somos,

 

Hoje somos fotografias

Sobre uma secretária na casa de alguém

Ou suspensas numa parede,

 

Éramos tantos que não tínhamos medo da geada

Que não tínhamos medo de que a noite se extinguisse

Nas mãos da madrugada,

 

Éramos tantos

E muitos

Hoje somos sombras

Hoje somos saudade

E recordações

E não somos nada,

 

Éramos muitos

Éramos um exército que todas as noites

Procurávamos o luar

E do silêncio construíamos um rio

Que ainda hoje corre nas veias de alguns…

Éramos tantos

Meu Deus…

Hoje somos quase nada

À espera de que regressem as lápides

E as sepulturas

E possamos ser uma colmeia

Não de abelhas

Mas uma colmeia de palavras,

 

E de que servem as palavras

Quando éramos tantos…

E hoje somos apenas alguns

Muito poucos

Tão poucos…

 

 

 

Alijó, 25/12/2022

Francisco Luís Fontinha

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