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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.09.22

O frio gélido do Inverno entranhava-se nos ossos famintos que tínhamos transportado de além-mar, as escadas, graníticas e autênticas, durante a noite, vestiam-se de uma fina película de gelo e pela manhã, quando queríamos sair do cubículo, dançávamos como se fossemos bailarinos duma qualquer companhia de bailado em digressão pela província.

Ele, chorava.

As janelas, com vista directa para o chafariz, embrulhavam-se no vento, os farrapos a que a minha mãe apelidava de cortinados, voavam e, em pequenos círculos, como se as tempestades percebessem de geometria, quase que desciam ao rés-do-chão e acabavam por se deitar no pavimento constipado em frente à farmácia; nunca entendi o que pensavam os cortinados, nunca entendi porque estavam tristes os cortinados do nosso cubículo, apenas sabia que as janelas tinham mais aberturas do que vidros.

Ela, chorava.

No final da tarde, sentado na velha varanda que ainda hoje existe e de boa saúde, contentava-me em contar o número de carros que rua acima, rua abaixo, passeavam em pequenas sombras e tirando a rouquidão de um ou de outro, o silêncio era absoluto.

Comecei a inventar sonhos.

Comecei a inventar sonhos e pequenas marés de mar.

Nós, chorávamos.

Mas eramos muito felizes… e foi nessa altura que comi o melhor peixe do rio assado no forno até hoje, na tasca junto á fonte da Gricha.

E se eu pudesse, voava…

Voava como voam os pássaros dos sonhos.

 

 

 

 

Alijó, 27/09/2022

Francisco Luís Fontinha


27.09.22

Há um pedacinho de mar

Que a minha mãe pincelou no tecto da minha alcofa,

Depois, desenhou as estrelas tricolor,

E abraçado às estrelas, o infinito luar…

 

Há um mar de saudade

Que transporto nas mãos,

Há um mar de lágrimas

Que correm nas ruas desta cidade,

 

Há um mar de ninguém, um mar apátrida e sem coração

Que só existe no tecto da minha alcofa,

Um imenso mar onde habitam palavras…

Palavras e uma velha canção,

 

Um mar em chama ardente,

Um mar invisível…

Um mar que não vê,

Mas que tudo sente,

 

Há um pedacinho de mar,

O meu velho mar…

O mar da minha infância

Que estou sempre a recordar…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/09/2022


27.09.22

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E tanto aquele livro, e tanto aquela fotografia, nada sabem sobre o amor e sobre a paixão.

Talvez se lhes perguntasse o que são as misérias do ser humano, ele e ela me respondesse…

Porque choram as acácias, pai?

Talvez me respondessem que já nascemos miseráveis, e como miseráveis que nascemos, nunca poderemos amar, nem tão pouco respirar a neblina da manhã. E enquanto esperava pela resposta do meu pai, nasci; nasci num Janeiro recheado de sol e de muito calor, sem que ainda hoje perceba porque choram as acácias.

Como também não percebo porque choram os pássaros, porque choram as árvores, porque chora o mar e o luar, porque choram as crianças, quando estas, deveriam pincelar sorrisos em cada manhã.

Depois, abri os olhos e vi no tecto da maternidade o mar; tinha sido a minha mãe que trouxe um pedacinho do Mussulo porque já suspeitava que eu

Talvez amanhã acorde.

Que eu pertencia a uma espécie de algas e que um dia seria apenas húmus e passaria o tempo a semear palavras nas planícies do sonho.

Ora, como sonhar é proibido por decreto Real e as palavras são apenas palavras, sombras, rectas paralelas que dizem que só se encontram no infinito, posso afirmar que sou apenas um poema que ninguém lê, mais um poema em direcção ao abismo.

E depois de abrir os olhos, de ver o mar aprisionado no tecto da maternidade, pequei na mão da minha mãe e levei-a a ver o capim que nunca ninguém percebeu de onde vinha aquele cheiro inconfundível depois das chuvas; que saudades…

Das acácias?

Daquele livro que me observa, daquela fotografia que me olha, e atrevo-me a dizer que são as únicas coisas que me observam; como aquele lindíssimo olhar que me seguia enquanto eu passava transportando uns calções coloridos e as sandálias de couro que ainda hoje sonham com o cacimbo pela manhã.

Porque choram as acácias, pai?

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E deparo-me que este livro é apenas um livro, e que esta fotografia não tira os olhos de mim, desde que nasci num Janeiro recheado e sol e de muito calor.

Que lindo, mãe…

Que lindo é o mar!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/09/2022


26.09.22

Talvez deste espelho que me observa,

Oiça as tuas palavras da despedida,

Escreva nas minhas mãos o sorriso da tempestade…

Talvez um dia eu seja a saudade,

Talvez ao outro dia,

 

Eu seja apenas um rio sem destino.

Talvez deste espelho que me observa,

Eu perceba porque a noite é uma lágrima

Que se despede do luar,

Talvez um dia

 

Eu seja o triste mar.

Talvez um dia eu seja o Inverno,

A geada pela manhã…

E deste espelho que me observa,

Oiço as cantigas da paixão,

 

Que corre,

Morre,

Talvez um dia o meu corpo seja apenas poeira,

Um fantasma travestido de sono,

Talvez um dia eu seja uma pequena lágrima

 

No teu rosto de feiticeira…

Talvez um dia sejamos o nada

Enquanto o tudo habita no altar da vaidade,

Talvez um dia o pobre seja a liberdade

Que brinca no poema da saudade.

 

 

Alijó, 26/09/2022

Francisco Luís Fontinha


26.09.22

Sento-me sobre esta triste pedra cinzenta,

Abraço-me ao silêncio escuro e frio…

Perco-me neste sonho que alimenta

A beleza deste rio,

 

Deste rio em revolta,

Enquanto morrem as palavras de escrever,

Da saudade que não volta,

Da saudade que te viu morrer,

 

Sento-me e espero o seu acordar,

Maldito poema de viver,

Sento-me junto a este mar…

 

Este mar de solidão;

Sento-me sobre esta triste pedra de ser,

Enquanto oiço os versos do coração.

 

 

Alijó, 26/09/2022

Francisco Luís Fontinha


24.09.22

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

Lamento informar vossa excelência,

Mas esta madrugada é de graça,

 

Puxo de um velho cigarro,

Não me lembro de nada,

Lamento,

Parece que acordaram agora as acácias,

E do outro lado da rua,

 

Nem um pequeno sorriso…

Lamento informar vossa excelência,

Mas o rio deixou de correr para o mar,

À janela, a menina das serpentes,

Chora,

 

Acreditava nos sonhos,

E dou-me conta que os sonhos são cadáveres de sono

Descendo a Calçada da Ajuda,

E se ajuda ou não ajuda,

Ela, dorme sobre a erva laminada da manhã,

 

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

E de um pequeno sorriso…

Observo-o… lamento informar vossa excelência.

 

 

Alijó, 24/09/2022

Francisco Luís Fontinha


17.09.22

Nesta mão granítica

Escondo o feto prometido,

Escrevo ao feto prometido

As palavras que um dia o meu pai me escreveu…

E que eu nunca tive a coragem de ler,

 

Com esta mão granítica

Pinto as tardes de Luanda,

Quando um paquete esfomeado

Poisava no meu peito,

Como se a criança que eu era

 

Deixasse de o ser…

Porque a criança que fui,

Hoje… é um pequeno verme de Inverno.

Nesta mão granítica

Escondo o feto prometido,

 

E aproveito para encerrar as janelas da solidão.

Com esta mão granítica

Disparo as balas da saudade,

Que acabam por adormecer no mar…

E sempre que uma criança chora

 

Esta mão granítica

Revolta-se contra a madrugada.

Com esta mão granítica

Escrevo ao feto prometido

Os poemas das tardes junto à baía de Luanda…

 

 

Alijó, 17/09/2022

Francisco Luís Fontinha


06.09.22

Percebo que nas cores dos meus desenhos

Habitam os teus lábios madrugar,

Que em cada palavra que escrevo

Há um barco sem marinheiro,

Há um marujo sem destino,

 

Percebo que neste mar

Onde habito,

Suicidam-se algas

E erguem-se as sonâmbulas sombras da insónia…

Percebo que nas cores dos meus desenhos

 

Escondem-se as paisagens da minha infância,

Com gaivotas, com papagaios em papel…

Percebo que estes desenhos

São as cores da morte,

São esqueletos em movimento,

 

São a manhã em despedida.

Percebo que estas cores

Transportam a montanha aprisionada

Na mão de uma criança,

Percebo que nos teus lábios madrugar

 

Há desenhos sem nome,

Há rios que não correm para o mar,

Percebo que nas cores dos meus desenhos

Há um Deus cruel,

Um Deus…

 

 

 

Alijó, 06/09/2022

Francisco Luís Fontinha


05.09.22

Setembro é um mês triste.

Julho é um mês triste.

As pétalas das minhas flores

Caíram como caem os beijos

Depois da tempestade,

 

Como caem as palavras

Quando morre o poema e acorda a saudade;

Setembro é triste,

Julho é triste…

Mas a vida não é feita de meses,

 

De anos ou horários.

Depois, dou graças porque estou vivo,

Porque escrevo,

Porque desenho,

Enquanto as pétalas das minhas flores… caíram,

 

Restaram-me as fotografias,

Lugares imaginários,

O mar.

Setembro é triste.

Julho é triste.

 

Setembro é triste,

Como poderia ser Janeiro,

No entanto,

Continuo a semear as palavras

Nas sombras da tua mão.

 

 

Alijó, 05/09/2022

Francisco Luís Fontinha


28.08.22

Quando o corpo incendeia

As tristes marés da madrugada,

E sobre a ponte invisível do luar,

À meia-noite, uma flor de espuma,

Dorme na mão que semeia

O beijo de mar;

E peço à Virgem bruma

Que desenhe na alvorada,

 

Esta pequena canção de saudade.

Quando o corpo se enfeita de amanhecer

Nas sonâmbulas estrelas que habitam na cidade,

E o corpo é desejado,

E por vaidade,

O poeta enforcado,

Sem o saber,

Dorme junto ao mar…

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28/08/2022

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