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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.11.22

Hei-de regressar deste mar revolto

Onde choram as minhas acácias

Hei-de regressar desta sombra

À terra camuflada dos dias sem madrugada

Depois, morrerei nos teus braços.

 

Morrerei nos teus braços invisíveis

Em pedaços de papel envergonhado

Quando a noite se entranha nos teus ossos

E sei que choras

Sobre a cadeira onde me sento.

 

E desta caneta

Onde a minha mão esconde a saudade

Encosto-me à tua lápide de sono

Como um navio em busca da montanha

Onde um rio curvilíneo morre de paixão.

 

Hei-de regressar aos teus ossos

Do pó que mergulha sobre as sanzalas de prata

Com um fio de nylon suspenso ao pescoço

Onde a luz se esconde

E o sol tem vergonha de mim.

 

O meu caixão será uma simples caixa de sapatos

Cartão reciclado das árvores em ruína

Dos mistérios da minha fé

E nas minhas lágrimas

O meu corpo; deste mar revolto.

 

 

 

 

Alijó, 19/11/2022

Francisco Luís Fontinha


04.10.22

Poisam sobre mim

As tristes ardósias da tarde,

Nos braços, transporto o silêncio envenenado

Dos poemas desencantados,

E no olhar,

Um pedacinho de mel dorme docemente…

 

Procuro na algibeira as palavras que te escrevo,

Pego no isqueiro… e acendo-as, como se fossem o meu último cigarro.

Olho-o, aquele mar que deixei ainda menino,

Olho-os,

Todos os barcos que fui coleccionando ao longo dos anos…

E percebo que há muito deixaram de ser barcos,

 

Hoje, são apenas sucata; vómitos de aço

Acorrentados aos fins de tarde,

Sopros,

Pedacinhos de tristeza,

Enquanto uma criança inventa o sono e olha o mar na alcofa;

Tão lindo, o mar…

 

Tão lindo!

E sinto o cheiro da terra queimada,

E lanço sobre as velhas sanzalas…

Todos os meus sonhos,

Todas as minhas imagens.

Poisam sobre mim

 

As tristes ardósias da tarde,

E não; não estou triste, não, não me falta nada.

Porque um sem-abrigo pode ter tudo

Quando os outros acreditam que não têm nada,

Porque se o sem-abrigo conseguir sorrir…

É um homem feliz. Tem tudo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 04/10/2022


09.11.15

sentir que aos poucos o teu corpo se despe de mim


e se despede em frente à mórbida madrugada


sentir que perdi as estrelas e as palavras


o sorriso


e a alvorada


dentro de um pequeno livro


tão fino como a tua pele desnuda


em pergaminhos desejos


o sorriso


e os beijos


e a alvorada


sentir que aos poucos


eu


não sou nada


como os outros


os que habitam as prateleiras dos sonhos


que vão procurar na insónia


a solidão


e o esquecimento


desse corpo


meu


despedido


despido


arrependido e suspenso no céu…


as cordas do inferno acreditando na misera gratidão


sentir que sim


sentir que não


sou


capaz


sentir que não sou capaz de despedir-me desse corpo camuflado numa qualquer sanzala


entre zinco e sombreadas flores


entre cigarros e pontes de luz


e belos amores


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


segunda-feira, 9 de Novembro de 2015


01.11.15

A morte das palavras num qualquer musseque da insónia, as cinzas dos poemas disfarçadas de sanzala sem dono, destino ou incómodo de sobreviver à pobreza, o exilado texto além-fronteiras, os gritos, os gemidos da noite entre siderais e abstractos retractos e o espelho do quarto, depois vem o amor, depois vem a paixão, e nada mais do que isso


Ou morte, de ti, às primeiras horas da madrugada,


Odeio a noite, e nada mais do que isso nos nossos corpos, a distância das palavras, mortas, numa lápide de saudade e o eterno amor, depois, ele, partiu para as incandescentes ruelas do inferno, embrulhou-se nos lábios do sofrimento, tombou no pavimento


O espelho, cansado desta imagem prateada,


Tombou no pavimento como se fosse uma abelha a ancorar à colmeia do sexo, o orgasmo poético, a ejaculação da prosa em pequeníssimas lâminas de esperma, e eu… sofrendo com a tua ausência programada, hoje, acordei acreditando que estavas vivo, entre mim e em mim, olhei-te, perguntei por ti


E o espelho fantasiado de vergonha, a alvorada não nasce, o dia promete ser uma abstracta palavra, mota,


Perguntei por ti, ouvia-te longinquamente sobre as árvores do nosso jardim, e os pássaros poisados na nossa sanzala, o álbum de fotografias dos teus ossos, e percebi que brincavas entre mabecos e gaivotas embalsamadas pela tristeza,


Palavra, morta, ninguém à nossa porta,


Pela tristeza e pelo silêncio… marchar, marchar…


Fui, desisti…


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 1 de Novembro de 2015


27.01.15

Porto, 27 de Janeiro de 2015


 


 


Não te oiço


olho os pássaros suspensos nas árvores


e imagino-te um poema em construção


não te oiço


mas sinto o ranger do teu corpo


como um comboio descontrolado


triste...


tão triste que não sabe o significado da dor


tão triste... que se aprisiona no silêncio de um longínquo corredor


tens nos olhos a noite estampada


e não existem estrelas nas tuas mãos...


nem luar no teu sorriso


não te oiço


invento horas num relógio imaginário


os dias


as manhãs


tudo não passa de um sonho


e não te oiço


meu querido


porque imagino-me nos teus braços


passeando as ruas de Luanda


víamos os barcos


e as sanzalas...


sem que eu percebesse o que era a morte.


 


 


Francisco Luís Fontinha


19.12.14

Vadios soníferos da vaidade


que deambulam nas clandestinas ruas da saudade,


olhares prisioneiros da escuridão,


pincelados tentáculos de gelo descendo o teu corpo pérfido...


e às minhas mãos


o teu cabelo incendiado pelo desejo,


e às minhas mãos o odor censurado do teu coração,


voando sem rumo,


voando... voando embrulhado em lápis de cera que o tempo engole,


e não sabe que em mim habitam os cinzeiros de chita,


os cigarros de papel aromático desenhando lábios de medo na alvorada,


vadios soníferos da vaidade... vadios monstros da madrugada,


vadios meninos de Luanda,


sanzalas encalhadas no cacimbo zincado,


capim em luta pelo sexo,


sem horários como os calendários nocturnos dos mabecos em cio...


o rio se abraça ao barco náufrago que transporta a felicidade,


e a ponte se alicerça aos seios do amanhecer,


vadios os meus poemas


em meninos de Luanda,


a infância lapidada numa avenida sem estória,


como uma fotografia inseminada num estúdio negro,


assombrado,


sem número de polícia... ou paragem de machimbombo.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014


19.10.14

Há uma bala disfarçada de palavra


alojada no meu peito,


há uma jangada de geada voando sobre os teus seios,


Há um muro impossível de galgar,


Há no teu olhar a tristeza dos montes inanimados,


palavras,


balas de prata...


cachimbos despedaçados descendo a montanha,


Há uma bala amiga que me alimenta e adormece,


há uma cama clandestina prisioneira nas sanzalas com miúdos brincando,


cachimbos, e balas de prata...


me dizendo...


que há um jardim desenhado nas amoreiras da manhã,


enquanto eu fumando... me esqueço das teus lábios me beijando!


 


 


Francisco Luís Fontinha


Domingo, 19 de Outubro de 2014

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