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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


16.02.21

Via-te dançar

Na sanzala dos beijos,

Via-te brincar

Na sombra dos desejos,

Via-te abraçar

As palmeiras distantes da baía,

Via.

Via-te encostada à planície da solidão,

Depois da tarde se recolher,

Via-te a correr,

Quando apressadamente te encostavas ao corrimão

Da escada de acesso ao mar.

Via-te caminhar

Sob a ténue escuridão,

Via-te escrever e,

Pegares na minha mão.

Via-te perdida

Na cidade.

Via-te quando te escondias na idade

Depois da partida.

Via-te na esplanada da fotografia,

Via.

Via-te nos lábios a saudade

Do frio que ontem fazia,

Via.

Via-te em mim depois do acordar

Sabendo que dançavas na sanzala dos beijos;

Via-te sentar,

Via.

Via-te desejar

Todas as sílabas entre parêntesis e ensejos,

Via-te sabendo que ver-te me causa saudade,

Via-te na areia fina de uma página aberta,

Via-te quando olhavas sem vaidade

A rua deserta.

Via-te saltitando as pedras da calçada,

Via-te quando me batias à porta do silêncio matinal,

Com a paixão de um livro agasalhado,

Via-te embrulhada ao jornal,

O mesmo, de sempre, que eu tinha comprado.

Via-te sem saber que te via,

Na sanzala dos beijos.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 16/02/2021


29.08.20

Quando era pequenino

Sonhava com o sorriso dos peixes.

Desenhava palavras de menino

Na mão tracejada pela escuridão dos pássaros,

E, um dia, das palavras de menino,

Ao amanhecer,

Vi os teus olhos semeados na areia;

Sabia que um dia, qualquer dia,

Sem perceber que tinha em mim, aos poucos, um jardim de papel,

Alicerçado à minha triste veia,

Acordaria o teu sorriso.

Demorou anos, eternidades,

Passei por tempestades,

Oceanos recheados de medo,

E, esse dia, um dia, talvez aquele dia…

Regressou à minha mão,

E, fiquei com os teus lábios de amêndoa.

Quando era pequenino

Sonhava com o sorriso dos peixes,

Alimentava-me de sombras,

Triciclos em madeira,

Menino traquina,

Trapezista em construção,

E, procurava, na sanzala da saudade,

Os olhos do teu coração;

Amanhã, depois de amanhã, o dia, a noite,

E todos os pássaros,

Dormirão na tua boca.

Poço infinito dos beijos prometidos,

Canções, palavras… sonhos perdidos,

Que só a manhã sabe construir.

Hoje, sou o dia,

Hoje, sou aquele menino,

Que na tua mão,

Escreve a palavra Amo-te;

Eis o sorriso dos peixes.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, 29/08/2020


22.05.20

Os poemas da morte,

Palavras tristes no nevoeiro da manhã,

Cancelas à sorte,

Abertas, campestres sentimentos de partir,

Regressar sem regresso,

Fugir,

Cansaço premeditado que apenas os livros vivem,

Palavras,

Ditados,

Nos poisos sonolentos das montanhas.

As flores negras que a tarde come,

Que alimenta o silêncio da sombra,

Tem nos olhos uma lágrima de vidro,

Quando se levanta sobre o capim,

A sanzala do adeus.

Uma finíssima porta de luz,

Uma janela pincelada pelo desejo,

Um nome escrito na sombra,

Que incendeia a noite.

A melancolia,

Com fome de matar,

Uma enxada carregada sobre os ombros,

A terra, húmida vaidade,

Nas flores dos rochedos cinzentos.

Vive na sanzala do adeus,

O menino dos calções invisíveis,

Livros, papel cansado de sonhar,

Nos lábios de uma laranja.

Salto, grito, deito-me na água do rio,

Morro e, levo comigo a mensagem,

Trazem-me a toalha da poesia,

Porque neste caminhar,

Não caminho,

Apenas durmo,

Ou sonho que dormia.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22-05-2020


01.12.19

Habito neste labirinto de lata.


Desta pobre sanzala abandonada.


Habito neste corpo de ossos,


Alicerçado às muralhas dessa pobre calçada.


Habito neste corpo de chapa,


Cansado da tristeza.


Vejo-me no espelho da beleza…


E apenas observo sombras, linhas rectas envergonhadas.


Habito neste poeirento cansaço,


Nas tardes infinitas,


Que os meus lábios vomitam…


Palavras malvadas.


Palavras bonitas.


Habito no teu cabelo desgovernado pela doença,


Entre gemidos e demência,


Habito na tua boca engasgada na madrugada,


Quando o silêncio não é nada,


Quando a vergonha,


Envenenada,


Dorme na tua mão calcinada.


Habito, meu amor, neste palácio assombrado,


Dentro de livros com personagens moribundas,


Entre xisto e calçado,


Nas montanhas fundas.


Habito.


Habito nos duzentos e seis ossos Outono,


Quando as árvores se despem, e o teu corpo, longe do mar,


Enaltece a maré de chorar.


Habito sem parar,


Neste labirinto do sono.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


01/12/2019


24.03.19

O ponto final da vida.


A morte prometida,


Sobre uma mesa empobrecida,


Quando os livros revoltados,


Descem a avenida,


Como soldados.


 


Pum. Fim da vida.


 


O silêncio.


Amo o silêncio dos pássaros, poisados nos teus lábios,


Doirados,


Doces,


Dos eternos namorados.


 


Grandes sábios.


 


Descem, sobem,


Sobem e descem,


 


Avenidas, ruas e ruelas,


Coitados,


Dos pássaros enamorados,


 


Entre lágrimas e velas.


 


Morre o poema na minha mão,


Sinto-lhe o esqueleto de dor, junto à noite,


Morrem todas as palavras do poema que morre na minha mão…


E coitadas…


Das janelas empoeiradas,


Velhinhas,


E, cansadas,


Como sexos apaixonados,


Nas sanzalas de prata,


A chuva miudinha,


Dos marinheiros em flor,


O cansaço, a desgraça do cio da madrugada,


Do meu primeiro amor.


 


Como eu quero escrever no teu corpo de sombra,


Na rua, uma montra,


Um par de calças esperando-me…


Sem saber que no final do dia,


Eu sentia,


A fórmula mágica das árvores apaixonadas,


As areias,


Os insectos envenenados pela fúria,


Não o sei, meu amor,


Nunca soube, meu amor,


Que o amor é uma merda,


Uma canção de revolta,


À volta,


Da fogueira.


 


Pum. fim da vida.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


24/03/2019


11.06.17

O delírio fantasma que a paixão oferece nas noites de melancolia,


Vivo nesta cabana encerrada e sem alegria,


Entre livros e papelada,


Entre copos e corpos sofridos na madrugada,


Tenho nas veias o teu nome,


E na algibeira as réstias da fome…


Do mendigo ancorado às esplanadas de lata,


O Domingo termina na sanzala…


No capim brincam as minhas mãos de fada…


Que um papagaio de papel inventou na alvorada,


Sinto neste meu corpo desajustado da realidade


O vício sintético da falsidade…


O orvalho clandestino,


O sorriso do menino…


Na praia do Mussulo,


Só e abandonado,


Só e amedrontado,


Só nos rochedos pincelados de palavras mortas


Pela caneta do poeta,


Fracassado,


Pateta…


O delírio fantasma


Dos arraiais da felicidade,


Foguetes, e pó de enxofre na claridade nocturna do sentimento,


Sofro, sofro e guardo no sorriso a tua despedida…


Sangrando as avenidas


Desta cidade perdida,


Um diário disperso, um livro desassossegado,


O vazio buraco negro do desgraçado…


Mendigo da multidão,


Haja alegria e pão na eira,


Que no corpo da feiticeira


Argamassam os lábios da solidão,


Não durmo, meu amor, deixei de dormir, meu amor…


E passo a horas a desenhar,


No teu corpo, meu amor,


O delírio fantasma da paixão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Junho de 2017


08.06.15

Não sabias que a noite dormia no teu colo,


Sorrias pincelados lugares


Enquanto as estrelas desapareciam da tua boca,


A madrugada suspensa na tua mão,


A luz do teu olhar…


Silenciando-se,


O teu coração irá cessar de caminhar junto ao mar,


Os pássaros poisarão nos teus ombros,


Acordará o dia


E a madrugada entre parêntesis…


Extingue-se como se extinguiram todas as sanzalas da tua vida,


E todos os abraços da tua noite.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 8 de Junho de 2015


27.03.15

Tenho no corpo


o sentido proibido do silêncio


os ossos choram todas as madrugadas


das lágrimas


as palavras


e nas mãos o feitiço do amanhecer


querer


não quero


ser


sem o saber


a leveza insignificante dos meus braços


suspensos no sorriso do luar


não acredito


acreditar


nas nefastas sentinelas da noite


o amor camuflado


caminhando no capim


as pálpebras cinzentas


misturadas nos cigarros embriagados


que só o fumo consegue desenhar


no triste pavimento da sanzala


oiço a sombra da paixão


voando sobre os coqueiros


o papel colorido


inventando poemas


nas nuvens cortinas do meu aposento


os livros


os livros são como homens em cio


cansados


cansados das sílabas em flor


e do rio


onde adormece a ponte do desejo


não desejando


desejar


não desejando


desejar o perfume do mar…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 27 de Março de 2015


03.01.15



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


estas mãos se cruzam no Oceano tua pele


mergulhando nas tuas pálpebras de madrugada


estas mãos te amam


e acariciam


nas tardes envenenadas pelo desejo


estas mãos de ninguém


com todos os cheiros da sanzala


estas mãos de ninguém


com todos os sons do amanhecer


que só o perfume de uma rosa consegue desenhar


e... e escrever


nas sombras do mar


estas mãos se cruzam no Oceano tua pele


que o barco do meu amor suavemente desliza...


como todas as palavras soltas


como todos os vinhedos suspensos no sorriso de uma enxada


estas mãos te amam


e acariciam


estas mãos de ninguém


que o tempo come


e despoja as suas cinzas no cemitério nocturno das gaivotas sem nome...


estas mãos


estas mãos se cruzam


quando todas as luzes se apagam e todos os corpos morrem...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 3 de Janeiro de 2015



26.10.14

Habito este túnel íngreme dos ossos argamassados


pareço um sonâmbulo diplomado


sem braços


sem pernas...


sem... sem sonhos


habito esse teu corpo desgraçado


sobrevoando a minha sanzala


sombreando o pecado,


habito este túnel desgovernado


galgando as montanhas da solidão


gritando


gritando... “o amor é uma roda dentada com dentes enferrujados”,


ai estes sons que se entranham nas minhas asas de plátano envelhecido


este túnel sem luz


ou... saída para o infinito


habito


em ti


como se fosses uma gaivota poisado junto ao Tejo


me olhando


me dizendo... “o amor é uma roda dentada com dentes enferrujados”.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 26 de Outubro de 2014

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