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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.04.15

Vivíamos como dois círculos


Descendo a madrugada


Tínhamos no olhar


Todas as palavras do Universo


O corpo


Teu


Fervilhava entre duas rectas transversais


As paralelas sombras dos teus seios


Em cubos de medo


Quando a mão te acariciava


E da mão


A húmida esfera de sémen


As gaivotas pinceladas no teu ombro esquerdo


Voávamos nas montanhas do abismo


O exílio da luz


Que as tuas coxas absorviam


Nas imagens prateadas


Encarceradas num cinzeiro de vidro


Escrevia-te uma carta


Esquecia-me das palavras


Respondias-me


Nada


Como poderias responder-me


Se a cidade se tinha transformado em morte


Camuflada nas ruas e avenidas dos teus gemidos


O carteiro dizia-me…


Respondias-me


Nada


O carteiro respondia-me que hoje


Nada


Como poderias responder-me


Se deixaste de ter alvorada


Secretária onde escrever


E papel


Ardeu


Na tua boca em baloiços beijos


A loucura atravessava a cidade


Vivíamos entre cartas


E


E desenhos de chocolate


Em finas películas


Dormindo na tua pele


Domingo


A cancela do desejo


Encerrada


Reabrimos amanhã


Hoje


Nada


Papel


De parede


Com olhos de centeio


O vento abraçava-te e tu


E tu Domingo


Sem fala


Escondida nos barcos clandestinos da saudade


A água nas pétalas do teu sorriso


Tínhamos


A vida na vida


E a vida em papel


Hoje


De parede


Enferrujados poemas no púbis da maré


A casa inanimada


Dói-lhe?


Sem resposta


Nada


Sem fala


E tu Domingo


Suspensa no calendário da solidão…


Uma criança de luz


Nos teus braços


Fim.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 3 de Abril de 2015


17.01.15

Absorvo o tesão intelectual,


tenho nas palavras o orgasmo da insignificância,


os momentos perdidos nos teus braços...


não me esperes hoje, meu amor,


sinto a maré do teu sémen voando entre personagens invisíveis...


e equações matemáticas,


apaixonadas,


pois claro,


e ainda,


o prometido automóvel do sorteio da TV,


e no entanto, sofres,


com a minha ausência.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Sábado, 17 de Janeiro de 2015


19.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Eu deixo a conversa fluir... como a água da chuva a cair sobre o teu nu corpo, saboreando as partículas de desejo que descem das nuvens..., ouvem-se as bolhas de sabão a cair nas tuas costas, ouvem-se as sílabas mergulhadas nos teus lábios coloridos, e aos poucos desces pelas minhas mãos como sandálias envenenadas por uma calçada íngreme, e ao fundo, o rio, o Tejo, ele que te espera, e te acaricia entre as medusas de olhos castanhos, sinto-te dentro de mim, e sei, sei que amanhã não estarás na minha cama...


Vamos juntos... enrolados como duas serpentes envenenadas pelo sémen do amanhecer... e lá fora uma maçã acaba de tombar sobre os teus seios, afago-os e mordo-os com os meus finos dedos, e sabes que penetrarei em ti como se fosses um livro de poemas dentro da algibeira do espelho encarnado que acorda antes de acordar o teu orgasmo, é tarde, o relógio da sala cansou-se de ouvir-nos em latidos estranhos que atravessam as paredes de gesso e ripa, o tecto olha-nos, e inveja-te, porque permanecerás eternamente nas suas mãos, como um candeeiro suspenso e que ilumina a noite derretida em pura seda como lençóis sobre o teu corpo de areia, é tarde, lá fora dormem os homens e as mulheres, nós, nós permanecemos eternamente acordados, e procuramos entre os estilhaços dos líquidos sobejantes e adormecidos sobre a cama a saudade, e os beijos,


É tarde, para ti, quase que dormes, olho-te como se fosse o tecto, e vista de cima, tu, pareces um jardim com flores em papel... que voam quando tocas no meu peito, e fincas os lábios ficando entre eles... uma pétala de orvalho,


Estás loucos, oiço-te,


Louco porque a poesia derrete-se como a manteiga sobre os teus seios, louco porque mergulhas na chuva diluída em pequenas lâminas de fogo, tu, tu ardes como um livro depois de lido, folheado, manuseado cuidadosamente, e o papel da tua pele cola-se-me como uma borboleta desesperada depois da tempestade, oiço-te


Estás louco,


Louco porque inventaram o amor, louco porque inventaram o desejo e os jardins junto ao Tejo, e louco, louco porque oiço os uivos teus beijos de encontro à prateleira onde moram os livros de António Lobo Antunes, e louco


Estás louco,


E loucos, loucos barcos em gaivotas saciando o cio nas noites que atravessam o Tejo, e do outro lado, os edifícios em esqueletos vadios, que correm e comem,


Meninos, meninas,


Debaixo da tenda do circo que aportou por aquelas bandas, o vento dá-lhes força nas velas e começam em corridas vagarosas como palhaços velhos, e de bengala, e sorrisos nos seus rostos


Meninos, meninas,


Procurando a fome nos vultos zumbis da avenida adormecida, debaixo da tenda do circo, e todos os sonhos realizáveis... O encontro – A chuva e o nu corpo dela.


 


(não revisto - Ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 18 de Agosto de 2013 / Segunda-feira, 19 de Agosto de 2013


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