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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


23.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Há uma rua dentro de ti, meu amor, que sente o medo da solidão,


há nos teus cabelos de folha caduca nuvens de maré adormecida,


veias em combustão,


transeuntes insignificantes com mãos de porcelana,


rios, mares, e barcos de aço apodrecido,


há uma rua dentro de ti, meu amor,


deserta, húmida... uma rua sem nome, idade, como uma criança que brinca,


como um pedestal que espera pelo meu corpo de silêncio,


há palavras de ti, meu amor, palavras com fotografia para a montanha,


o medo,


o medo que em ti se entranha,


e te absorve,


 


submerges-te nas cavernas dos prisioneiros marinheiros embriagados,


há uma rua dentro de ti, meu amor, uma rua esquecida na madrugada,


uma rua sem maldade,


como tu, como eu... duas ruas de costas voltadas para o luar,


 


há uma rua dentro de ti, meu amor, com ranhuras, com palheiros recheados de desejo,


corpos misturados em pedaços de papel,


há em ti o beijo,


uma carícia disfarçada de amanhecer,


há uma rua, meu amor, uma rua que não dorme, uma rua que tem lágrimas, uma rua nua, deserta, uma rua revestida de pedra,


há uma rua, meu amor, uma rua como os teus olhos sem cor,


como as tuas pálpebras em flor,


há em ti, meu amor, a paixão, o inferno, a tristeza... e há em ti o poema em construção,


as palavras mortas, as palavras perdidas no rio dos arbustos empalhados,


há uma rua, meu amor, uma rua com homens falhados, como eu, como eu...


um homem falhado filho da rua, como eu... como eu, um homem em forma de rua,


mas... quem, mas quem és tu, meu amor? Existes? Vives e choras? Sofres?... como eu, como eu...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 23 de Fevereiro de 2014



17.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Aqui sei que me esperas como janelas envenenadas


aqui sei que me amas


e desejas


sempre que o cortinado tomba e dele se derrama o líquido chamado de solidão...


aqui tenho-te dentro de mim


aqui sou eu


aqui... aqui somos livres de amar


desejar


possuir esqueletos com asas em papel


e és gira com vestidos de napa


derretida nos límpidos tecidos do teu insignificante corpo encurvado


ao leme o velho monstro de quatro cabeças...


 


Confessas-me que tens velas de seda


… e desejas tanto o vento como a sombra da minha mão...


vaidosa


pareces uma pomba com sandálias de porcelana


Princesa


invejosa...


 


Aqui confundo-me com as árvores envelhecidas


onde poisam pássaros recheados de reumatismo


e bicos de papagaio...


aqui sou feliz


aqui


aqui vivo percebendo que a vida é uma roldana


uma velha roda dentada


gasta


sem dentes


sem nada


aqui sei que me esperas como janelas envenenadas


e quando desce a lua sobre os teus seios... apenas oiço o suspiro das calçadas


 


Aqui já fui o Príncipe das Avenidas gastas


o velho escorpião dos bares nocturnos do prazer


aqui fui o velho marinheiro


o cachimbo de água do confuso poeta escritor aldrabão e impostor...


aqui vivo


e aqui morrerei como uma serpente enrolada no pescoço da saudade


 


Aqui


aqui... serei o teu cadáver depois de travestido em fúnebre jarra parda com flores plastificadas


cansadas e tristes e aqui...


aqui... perdi-me de ti enquanto voavam as gaivotas dos círios cabelos castanhos da montanha.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 17 de Dezembro de 2013



27.03.13



foto: A&M ART and Photos


 


Esta varanda que me alicerça o corpo às marés vazias, este ar e esta sensação de silêncio, que aprisiona os meus braços ao vento filho da rua das traseiras, este medo, esta manhã distante das estrelas complexas do nocturno céu da tua boca, uma janela, e


O espelho de ontem procurando a saliva de hoje,


Esta varanda que me aperta o coração, sabendo eu, que há muito deixei de ter coração, cabeça, prazeres, solidões de tempestades ao romper a madrugada num cenário de papel, os actores sentados na plateia, os artistas de circo que a infância semeou no capim junto aos Coqueiros, não sei, mas acredito que um dia vão voltar, também eles, sentados na plateia, ao jantar, os pratos vazios misturam-se com o público em círculos no palco, e começa o espectáculo


A vida de uma mulher de veludo, encenação de mim, e direcção de actores, também de mim, a tenda levita de quando em quando, saltita como seios roxos com pintinhas brancas e flores amarelas, e dizem que o mar entra pela porta da varanda, ela submissa na chávena de café olhando pensativamente a rua em ruínas como gaivotas órfãs pedindo esmola no cais das camélias abandonadas,


(solidões de tempestades ao romper a madrugada num cenário de papel, os actores sentados na plateia, os artistas de circo que a infância semeou no capim junto aos Coqueiros, não sei, mas acredito que um dia vão voltar, também eles, sentados na plateia, ao jantar, os pratos vazios misturam-se com o público em círculos no palco, e começa o espectáculo)


E começa


O


Circo,


E começa


O


Teatro,


E começa o espectáculo dos pratos vazios sobre uma mesa de vidro, ela, a mulher de veludo, refugia-se na varanda da vergonha, bebe café e aquece as mãos com o medo da fome, inventam-lhe alcunhas, e obriga-se a submergir-se nos oceanos dos pilares de madeira depois de o vento abandonar as crianças e os idosos..., na esplanada dos olivais encalhados na serra do desassossego, há um rio doente, rio que sobe as escadas, e leva a mulher de veludo, e leva o corpo de uma mulher fingindo alegria


Viva a alegria, Alegria, Alegria, Hoje é dia de festa,


Meninos e meninas,


Senhoras e senhores,


Respeitável público..., A senhora de Veludo!


E os cortinados mergulhavam na solidão, e havia a tristeza disfarçada de fome, quando os pratos vazios, e os talheres, e os guardanapos..., voavam entre paredes da cozinha,


O espelho de ontem procurando a saliva de hoje,


Na varanda,


E não regresses, eu a ouvi-los, os pássaros nas plataformas sobre as ruas em obras, telefona-me tá, e claro que não tá, nunca esteve, nunca estará, vestida, forte, de pé como uma estátua de bronze, pensava eu, na varanda, nua, uma janela em gemidos quando alguém tentava encerrá-la..., e claro, quem, digam-me, quem gosta de ser encerrado? Digam-me, quem gosta de ser aprisionado? Ninguém, ninguém, ninguém havia quando a terra começou a tremer, ela aos poucos, como pedaços de papel, desmoronou-se, de


Pedaço em pedaço,


De


Letra em letra,


Até chegar a palavra, chega, basta...


Fim.


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



01.07.11

Sobram-me as pedrinhas da rua


Porque essas são de toda a gente


Sobram-me os silêncios da lua


Quando em mim eu ausente,


 


Viver na escuridão dos dias passados


Ou esconder-me na neblina junto ao mar


Ter os braços amarrados


E na noite me afundar,


 


Em sacudidelas amargas deixo cair


A pelugem das minhas asas


E cerro os olhos para fugir…


 


E poderei eu esconder


O sorriso das minhas brasas


Na fogueira que não cessa de arder?


30.05.11

A rua em movimento


Nas pessoas silêncios pendurados nos lábios


Tosse convulsa emerge da boca de uma árvore


E parvo eu


 


Que ainda acredito que o mar vem até mim


Acredito que da maré vão crescer desejos


Abraços no fim de tarde


E parvo eu


 


Tão parvo


Junto ao cais à espera de embarque


E parvo eu


Pedindo às gaivotas que os ponteiros do relógio cessem


 


Diminuam na claridade dos lençóis amarrotados


Quando a minha cama se recusa a adormecer o meu corpo


Quando no meu quarto as gaivotas


Poisam no meu peito


 


E do meu corpo acorda o cheiro a cadáver


A pó que o mar quer engolir


E parvo eu


Tão parvo


 


Indiferente à rua em movimento


Nas pessoas silêncios pendurados nos lábios


Das pessoas passos de monstro


Nas pessoas… sorrisos devastados.


 


 


Luís Fontinha


30 de Maio de 2011


Alijó

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