Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


10.04.15

O cansaço


Das palavras tuas


Que vives dentro de mim


Acordas-me


E manipulas-me


Nas tuas mãos


Sou um boneco de sombra


Um esqueleto envelhecido


Sem tempo para amar


Amado


O sofrimento


O cansaço


Acordas-me


Nas tuas mãos


Sinto a alvorada voando em pedaços de cinza


A alma dos cigarros


Suspensa no meu peito


A vida é um espelho sem nome


Um coração de pedra


Esfomeado


Galgando as ruas desta cidade


Embriagada pelo silêncio nocturno


Dos corpos sobrepostos


Entre paredes


Os gemidos da madrugada


Sentidas


Manhãs em sargaços nevoeiros de espuma


Os teus lábios


Meu amor


Sem sílabas para conversar


Os teus olhos


Despedidos pela sonolência da paixão


Amar


Amar


Meu amor


Sem saberes


Que as cancelas da solidão


Apodrecidas


Viajam


Na morte


E mesmo assim


Dizes que amas os candeeiros de prata


Escondidos nos edifícios anónimos


Dos pássaros de papel


Da morte


As viagens


Entre rios


Mares


E marés de insónia


Apaixonadas lareiras do prazer


Quando o sémen de chocolate


Invade os textos não escritos


Secretos


Sem dedicatória


Meu amor


(O cansaço


Das palavras tuas


Que vives dentro de mim


Acordas-me


E manipulas-me


Nas tuas mãos)


O autógrafo no teu rosto


Para…


Com amizade


Abraço


Beijos


Amo-te?


Talvez sejas um cortinado melódico


Na boca do poeta


Talvez sejas uma metáfora


Entroncada na ferrugem da vertigem


Quando as articulações cedem…


E o extinto luar


Se despede do teu corpo


Ficas louca sobre a cama do saber


E nas personagens invisíveis de mim


Sobre ti


O cansaço


De estar vivo


E olhar-te


Sem saber


Que


Amanhã


Serei um pequeno parágrafo esquecido numa folha de papel…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 10 de Abril de 2015


20.11.14

Desintegro-me na desilusão das imagens adormecidas


pareço um velho palhaço gritando para a multidão


palavras


e canções


e noites perdidas,


 


Viagens enigmáticas com odor a madrugada


rios embriagados correndo nas minhas veias


dilatadas


tristes


tristes como as lágrimas da calçada,


 


Desintegro-me sem o saber


enquanto sonho nas planícies lunares


desintegro-me lentamente como o vento nas tardes de liberdade


recebo uma carta... lá dentro habita a saudade...


e desintegro-me nas palavras por escrever,


 


As rosas que disparam sorrisos encarnados


o oceano levitando nas mãos de alguém que é amado


o barco do desejo... navegando


navegando nos cortinados da mentira...


e desintegro-me nos planaltos prateados,


 


Há no teu olhar rochedos vadios comendo mendigos engravatados


das tuas pálpebras ancoradas


despem-se os seios da manhã sem despertador


maldito relógio que nunca morre...


e todas as luzes poisam nos ombros dos alegres desgovernados...


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014


17.05.14

vendem-se falsos sorrisos


conquistam-se corações de espuma


que se embrulham em impregnados livros com sabor a solidão


escrevem-se falsas palavras


no corpo da insónia


 


desenham-se círculos nos seios da madrugada


choram as meninas do amanhecer


há rosas envenenadas


há rosas com vontade de morrer...


vendem-se falsos rios e falsas caravelas


 


vendem-se cidades de vidro


com ruas de porcelana


e corpos de nada


e corpos... e corpos de néon marinheiro


nos seios da madrugada.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 17 de Maio de 2014


16.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


há silêncios nos teus olhos


existe uma mão que absorve as lágrimas dos teus olhos


tens cabelos semeados pelo vento que cerram os teus olhos


o medo que cruza os teus braços que aprisionam os teus olhos...


há silêncios nos teus olhos


há palavras que descrevem a cor dos teus olhos


imagens


negras


a noite


o dia


a morte... que brinca nos teus olhos


há silêncios de amor nos teus olhos


 


há silêncios de ciume nos teus olhos


searas campos montanhas árvores nuas


despidas cidades amargas ruas cansadas


que os teus olhos vêem e se calam como pedras silenciosas


há rios mares barcos e gaivotas


há desejo nos teus olhos


há corpos em cio que magoam os teus olhos


há madrugadas onde habitam os teus olhos


bares mesas de bares copos recheados de uísque em bares dos teus olhos...


jardins inclinados


tristes tristes como os teus olhos chorados


há seios que me esperam na criança dos teus olhos


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 16 de Fevereiro de 2014



21.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


O pormenor emblemático do corpo composto por luz, pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto, socalcos, montanhas... e nas veias, o rio


O Douro?


O sorriso das madames com plumas desiguais sobre os ombros sombreados pelas nuvens que a noite constrói depois de todas, ou apenas uma ou outra, luzes de néon vomitarem as palavras encravadas nas montras da cidade, oiço-te vaguear como uma gaivota ferida, doente, oiço-te mergulhar no meu Douro que odeio, confesso... que sempre odiei, vivi para ser uma cidade, com bares, ruas e ruelas, travestis, putas, e donzelas... o Douro enerva-me, desiludiu-me quando o encontrei pela primeira vez... como me desiludiram algumas das mulheres que eu tive


(como desiludiste algumas das mulheres que tiveste)


Como me desiludiram algumas das calçadas empedradas com acesso ao rio, outro rio, um rio com vida, um rio com esqueleto de marinheiro, em cio


O Douro?


A ponte iluminava-se, a ponte voava sobre os espaços exíguos da minha cabeça, acordava com pequenas grandes tonturas, acordava a fumar cigarros proibidos e deitava-me a fumar


Cigarros proibidos?


O Douro enerva-me, desculpem-me, mas amo a cidade do Tejo, amo a ponte, os charros que fumei enquanto choramingava... e depois caía num qualquer bar em Cais do Sodré, depois era madrugada, deambulava pelas ruas mais profundas, mais escuras, mais... mais amadas em mim, depois cambaleava, tropeçava no paralelepípedo e vomitava sons inaudíveis dos carris frios, tão frios como o teu corpo de menina enquanto descia Setembro sobre uma sombra em Trás-os-Montes, odeio-te sabendo que sou prisioneiro de ti, odeio-te sabendo que só serei livre quando


Pegar na tua mão, acariciar-la como se fosse a folha de um dos livros do António Lobo Antunes, ou um dos pares de luvas de lã que tive em miúdo, depois deixei de sentir frio porque as minhas mãos transformaram-se em rochas, pedaços de granito, eles também gélidos, eles também... sós, depois vieram os olhos verdes que a pouco e pouco ficaram sem cor, hoje são daltónicos e precisam de lentes para ler as tuas palavras das tuas cartas que eu te reenviei... e hoje, hoje sinto saudades


Da cidade do Tejo,


A ponte iluminada balançava quando o vento vinha para me levar e sempre que me preparava para partir, não partia, um carro de brincar iluminava a ruela dos candeeiros mortos, movimentava-se por quatro pilhas de um volt e meio, redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,


Saudades?


Do Tejo,


Dizer desejo-te é mentira, ilusão, despedida,


Saudades?


Do Tejo,


(dedico esta música a todos os meus amigos)


Amigos? Quais amigos... dás-te conta que não tens amigos, e que se vivesses na cidade do Tejo não tinhas um cão com catorze anos, caquéctico, rabugento... mas engraçado, porque só ele percebe porque choro, quando choro...


(qual é a frase?)


O pormenor emblemático do corpo composto por luz, pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto, socalcos, montanhas... e nas veias, o rio, a heroína em ebulição sentia-se e no tombar das árvores doidas, como sonâmbulos corpos emagrecidos havia sempre alguém que não regressava,


(ai a frase... a frase...)


O Douro?


A límpida água dos sonhos e da esperança voltam à panela de pressão e evaporam-se nas avenidas encantadas dos guindastes com braços em aço e lábios em pergaminho,


Hoje temos beijos,


(quer uma ajudinha... senhor Francisco?)


Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,


Saudades?


Do Tejo,


(diga comigo senhor Francisco... “Com os voos nocturnos da menina Amélia a sobremesa adormece sobre a mesa-de-cabeceira”)


Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,


Saudades?


Do Tejo,


E dizer amo-te é pura loucura, desilusão... sei lá que mais...


(à escolha)


E diziam-me que aqui existiam verdejantes barcos com asas em porcelana... pode lá ser...


E é, e é... é assim desde que partiste...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 21 de Dezembro de 2013



10.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


senti-te despregada dos sonhos em castelos de veludo


desci as escadas da solidão à tua procura


mergulhei no incenso magusto das castanhas embebidas em pétalas de amor


dormi na rua por tua causa


subi às árvores para buscar-te as asas que te prometi


e por lá fiquei


senti


e sem ti


senti-te mais tarde dentro de mim como se sente o rio quando corre nas nossas veias de onomatopeias desgovernadas


tristes


e simples espada nas cantigas das janelas em ruelas empobrecidas


senti-te despregada dos sonhos em cubos de areia vestidos com bonecos em palha seca


sabia-te perdidamente nas cidades em volta dos relvados nocturnos dos néons castrados como abelhas fundeadas no cais das aranhas e noites em dormitórios de marés rochosas ou das malignas coberturas de zinco nas cabeças sem coloridas manhãs de Outono


amar-te-ei depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita?


e por lá fiquei


senti


e sem ti


imaginava-te louca com brincos de centeio dos campos de Carvalhais


imaginava-te nua dentro do espigueiro junto à eira


e sentia-te entre as frestas do dia em delírios poemas como gotículas de suor que o teu corpo derramava sobre a minha sombra


e por lá fiquei


senti


e sem ti


às caravanas esplanadas do rio embrulhado em pontes de concreto armado


vagueavas-me na ponta dos dedos como objectos minúsculos do edifício da rua dos apaixonados mosquitos de arame


sentia-te fervilhar no meu sangue


sentia-te a desfrutares as palavras dos meus suspiros quando acordava o pôr-do-sol...


e um barco se sémen poisava sobre as tuas coxas envergonhadas


absorvendo o prazer da tarde como uma equação diferencial esquecida dentro do caderno quadriculado


e por lá fiquei


sem saber que tu eras como as espigas de milho


sem saber que tu sonhavas com clarabóias de insónia depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita


amar-te-ei?


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 10 de Novembro de 2013



08.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Não se importa se é navegável nas horas anti-expediente, não me interessa se quando vem a noite, ela, se veste de tempestade, não tenho o direito de interferir nos pensamentos das flores, não me sinto na obrigação de abraçar os candeeiros desertos da cidade dos bosques evaporáveis nas horas nocturnas, não me importa se é navegável, supérfluo ou admirável, não tenho o direito de questionar a origem dos arbustos que circundam o quintal nem tão pouco se as mesas em granito do jardim estão vivas, mortas... ou


Esquecidas?


Ou...


Esqueletos de seiva mergulhados em corpos de espuma,


Vejo-te insignificante morte vestida de dor, há lágrimas no teu olhar que travestem os olhos de qualquer beldade, há mulheres de corpo esbelto e lágrimas de papel e há papel com lágrimas em corpos de


Papel?


As nuvens,


Os holofotes que iluminam as nuvens


Papel?


Os telhados da insónia na tua desgovernada manhã de inércia, os teus braços nas minhas mãos de porcelana e no entanto


As nuvens,


E no entanto vejo-te clarear como cinzentos mergulhos de estátua nas profundezas do rio ancião quando dos antigos veleiros sem nome navegavam


O meu corpo?


Berbigão mexendo as tuas doces noites de Inverno, sabíamos que amanhã não tínhamos os alicerces das avenidas novas, que amanhã deixávamos de nos conhecer e passávamos um pelo outro e


Desculpe, conheço-a?


Claro que não,


E no entanto vejo-te clarear como cinzentos mergulhos de estátua nas profundezas do rio ancião quando dos antigos veleiros sem nome navegavam


O meu corpo?


Navegável, profundo, em rocha maciça, em pedestal poético abraçado a directrizes articuladas com beijos e orangotangos malignos, mafiosos os corredores da loucura, as injecções levavam-nos para os jardins inventados pelos homens de bata branca


Como será o Sol quando acorda?


Desculpe, conheço-a?


Claro que não,


Os telhados da insónia na tua desgovernada manhã de inércia, os teus braços nas minhas mãos de porcelana e no entanto


As nuvens,


As tristezas travestidas de alegrias, as paixões vestidas de paixões com écharpe de insónia, e quase sempre preferíamos as sandálias em tiras de couro aos sapatos de bico amarelo, cantavas para mim, desenhavas no meu corpo gaivotas com sorriso de Infante adormecido, toca o telemóvel e alguém quer impingir-me a esta hora uma doce noite de prazer


“Acaba de ganhar uma viagem ao Bairro Alto”


E eu que acreditava nas viagens interplanetárias, e eu que acreditava nas


Meninas do sexo?


Estão em GREVE, GREVE GERAL...


“Acaba de ganhar uma viagem ao Bairro Alto”


E eu que acreditava nas viagens interplanetárias, e eu que acreditava nas navegáveis noites de espuma sobre colchões de areia...


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 8 de Novembro de 2013



22.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


Mergulho na cidade perpétua, ambígua e solitária, mergulho-me como se eu pertencesse à classe dos aços carbono, um ser estranho, diletante, companheiro e amante de melodias poéticas, das flores carnívoras e das árvores em desenhos herbívoros, poisava-me no varandim com quatro cadeira de vime, uma mesa também ela de vime, e na companhia de três invisíveis cadáveres de areia, sobressaia um sorriso defunto com lágrimas de incenso, ouvíamos tocar o telefone, propositadamente, não atendíamos, tínhamos medo da cidade perpétua, tínhamos medo às sombras das sombras que subtraiam à cidade as saborosas multiplicações e divisões,


o miúdo dos calções, multiplicava beijos e dividia abraços, conclusão


Empobreci, quase tudo perdi, porque ninguém, a não ser numa outra cidade, ninguém enriquece multiplicando beijos e dividindo abraços, ninguém engorda lendo poesia, e ninguém, ninguém...,


conclusão, pertenço à classe dos aços carbono, tenho cento e setenta e cinco centímetros e vivo numa casa com silêncios em pedaços de rés-do-chão, na rua dos milagres, sem número, cidade perpétua, as pessoas apelidam-me de barra de ferro, e quando entro no café, quando tudo parece adormecido, ouvem-se os murmúrios das cadeiras vazias


Ninguém na sala, um exemplar espaço exíguo, liminarmente penumbro, vazio, ninguém se levanta à minha passagem, ninguém se recorda da minha existência, ouvíamos os candeeiros a petróleo quebrarem os vidros de gelo das janelas com inclinação a norte, um edifício de quase trinta e cinco andares, tão alto, meu deus, alto, tira-nos a visibilidade, acorda a neblina, e nem com os faróis de nevoeiro conseguimos ver o mar,


vazias?


Porquê?


vazias, e tristes, e longas manhãs de doce claridade, e


Traziam-nos os pães de leite em réstias de desassossego, e como hoje, e como agora


(um terramoto sonolento entranha-se-me)


e como agora, ontem, o nevoeiro entrava-nos porta adentro, brincava no corredor e depois de algumas horas, sentíamos-lo deitado no nosso sofá, vestido de criança, uma criança amena, simpática como todas as crianças, como todos os apitos dos petroleiros quando se fazem à costa, ao longe, ouvíamos-lhes os cigarros de enrolar perdidamente perdidos nos corações dos marinheiros com âncoras de plátano bordados com fio doirado,


e


Traziam-nos...


(um terramoto sonolento entranha-se-me)


… pequenas borboletas de papel, e ouvíamos-lhes os sonoros ruídos das montanhas ensanguentadas pelos perfumes marinhos, coisas tristes com roupa de uma cidade perdida e ausente, farta em alturas, até que quase, não nós, mas eles, quase que chegavam com as pontas dos dedos da mão ao céu,


Ao céu?


pode lá ser isso possível,


Nem que a cidade mude de nome, e de perpétua passe a chamar-se “a cidade da neblina encarnada” onde vivem barcos de porcelana, onde vivem meninas de olhar castanho com cabelos negros, meninas, e meninos, o circo, esta cidade, a cidade dos circos, palhaços, malabaristas, a minha apaixonada trapezista, e claro


pode lá ser possível, amanhã chover, amanhã acordarem as sobrancelhas e depois de levantadas, e depois do duche, voltarem para a cama, embrulharem-se nas pálpebras quebradas e numa voz húmida


Até amanhã, meu querido,


e numa voz húmida, cansada, (um terramoto sonolento entranha-se-me), e claro, o imprescindível AGENTE, o nosso querido Alberto, aquele que nos sustenta, aqueles que ainda acredita nas nossas capacidades, aquele... parvalhão, e de um até amanhã, meu querido, depois, descem os grandes rios às íngremes ruas da cidade, e claro


A tua inconfundível voz


até amanhã, meu querido,


Sem perceberes que amanhã já não vivo nesta cidade,


“mergulho na cidade perpétua, ambígua e solitária, mergulho-me como se eu pertencesse à classe dos aços carbono, um ser estranho, diletante, companheiro e amante de melodias poéticas, das flores carnívoras e das árvores em desenhos herbívoros, poisava-me no varandim com quatro cadeira de vime, uma mesa também ela de vime, e na companhia de três invisíveis cadáveres de areia, sobressaia um sorriso defunto com lágrimas de incenso, ouvíamos tocar o telefone, propositadamente, não atendíamos, tínhamos medo da cidade perpétua, tínhamos medo às sombras das sombras que subtraiam à cidade as saborosas multiplicações e divisões”,


sem perceberes que amanhã já não sou eu.


(ficção não revisto, o sono em decomposição, o cansaço sobrepõe-se ao livro que ultimamente tem vivido sobre a mesa-de-cabeceira, e em vez de folhear as páginas com sabor a “Abraço” de José Luís Peixoto, certamente folhearei os tristes lençóis com pronuncia de insónia... - Pronuncia? Sim, claro, propositada, e não Prenúncia...)


 


@Francisco Luís Fontinha



02.09.12

atravessávamos o espelho do amor


e com a tua mão entrelaçada na minha


viajávamos como crianças loucas


em direcção aos pontos de luz


 


brincávamos com os teus cabelos suspensos no topo das estrelas


e um silêncio lânguido crescia no coração de uma flor


vivíamos dentro de uma seara sem fronteiras


e éramos livres como os pássaros pintados no mural do esquecimento


 


os rios emagreciam


choravam


 


e longas filas de mel


adormeciam nas janelas da noite


os rios emagreciam


como emagrecem os meus sonhos


 


(e tenho a certeza que nunca irei abraçar-te).

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub