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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


22.04.23

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Deste rio,

No Tejo onde enterrei as minhas palavras,

Deste rio onde me sentava…

E desenhava no horizonte

As janelas de um novo olhar,

 

Neste rio onde fumava

As palavras que enterrava,

As palavras que semeava,

Deste rio…

Dos cacilheiros da alvorada,

Onde me sentava,

Deste rio…

No Tejo que em mim acreditava,

Neste rio,

Deste rio…

Neste rio de nada,

 

Do meu Tejo,

Rio que ainda me corre nas veias,

Deste rio sonâmbulo,

Do rio que habita nos meus lábios,

Quando o beijo,

Deste rio,

No desejo,

No Tejo acreditava…

Enquanto procurava a minha amada.

 

 

Alijó, 22/04/2023

Francisco Luís Fontinha


09.01.23

(Os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco. São uma merda os teus poemas, são uma merda os teus textos, os teus desenhos; tu és uma merda)

 

Todas as manhãs um barco de insónia descia a Calçada da Ajuda, no porão, carregado de ossos e outras bugigangas, um pequenote saltitava de feliz e contente; às vezes, as crianças são felizes e sorridentes, mesmo calçando e vestindo o espelho da pobreza.

E ser pobre não é defeito. Este pequenote, carregando uns calções e nada mais de que isso, brincava em cima dos três caixotes que sobejaram de uma longa viagem, viagem essa que ainda hoje não chegou ao seu destino.

(os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco)

No exterior do barco, um jovem soldado, de pistola na mão e apontando-a à cabeça, dispara: contra as paredes amarelas do muro da vergonha, um amontoado de miolos deu cor e brilho, obra de arte que durante semanas, mesmo depois da dita parede ser raspada e pintada, tornava-se assim atracção mundial.

(a arte de uma cabeça estoirada e lançada contra uma tela invisível)

À noite, o pequenote saía do porão, saltava do barco e em corrida descia toda a Calçada como se fosse à procura de um qualquer Cacilheiro que tinha ficado da tarde que já se tinha finado, e andasse por ali… ou por aí.

(Os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco. São uma merda os teus poemas, são uma merda os teus textos, os teus desenhos; tu és uma merda)

Chegando ao rio, sentava-se junto à água e ficava horas a contar sombras e luzes que chegavam da outra margem, olhava o Cristo Rei e a Ponte que foi Prof. Dr. Oliveira Salazar e depois baptizada de vinte e cinco de Abril e acreditava que um dia, um dia todo aquele rio e todos aqueles barcos seriam só dele.

Horas depois e já o pequenote estando farto da Ponte, do Cristo Rei e de tantos barcos, zarpava e estacionava os calções em Cais do Sodré onde adormecia num qualquer quarto com janela para o inferno e sem casa de banho privativa.

(Os teus poemas são uma merda, meu caro Francisco)

E numa tarde de neblina o pequenote desapareceu sem deixar uma carta ou um poema…

Talvez um poema de merda, meu caro Francisco.

Um poema de merda.

 

 

 

 

 

Alijó, 09/01/2023

Francisco Luís Fontinha


12.08.21

Sou um gajo de mau feitio, pensava eu enquanto me entretinha a olhar o espelho convexo da noite, olhava pela janela,

Em voz alta,

Ela parecia ter saído dos banhos nas Termas de S. Pedro do Sul,

Em criança,

O livro comprado no Café Tavares, em frente ao rio, lia o sorriso dos patos bravos acabado de acordar e, mal sabia o que era a paixão.

Duas coisas eu já sabia; ser filho único e com mau feitio,

A noite trazia-lhe as mentiras das montanhas adormecidas, sexo só à noite, junto aos pinheiros e, ela sempre que acordava,

Ele,

Não sabia nada à cerca do ciúme. Tinha fome. Alimentava-me de cigarros adormecidos, café envenenado por uma cidade esquecida na tempestade e, debruçava-me no parapeito da forca, estendia a cabeça, colocam-me a corda no pescoço e, voava até ao infinito.

Morreu de quê?

A saudade da mãe, os dias intermináveis junto a um rio ancorado na neblina, folheava todas as fotografias e, nada a dizer; amanhã ele estará melhor.

O avô questiona-o se já tinha terminado a tropa e, com sorrisos embrulhados em mentira

Já, avô, já estou em casa.

Não sabia o que era a geada, tinha medo da neve e, pensava que as primeiras botas calçadas pertenciam às forças especiais de qualquer ramo das forças armadas. Feridas. Dor. Das mãos regressavam as aldeias em frieiras,

Calça as luvas, Luisinho!

Podia ter nascido em Trás-os-Montes, mas não era a mesma coisa.

Olhei este vosso, meu, Rio Douro. Mais tarde mostravam-me os encantos do Tua e, nunca mais chorei por ela.

Uma cidade abandonada, musseques engasgados no capim envelhecido, ao longe, o velho Zacarias, fumava pedras da calçada,

Tão lindos os mabecos!

Numas longínquas férias da Páscoa apaixonei-me por uma trapezista de um circo sem nome, no seu enlace,

Caminhei até às proximidades do Ujo, perdi-me,

E, talvez hoje fosse Presidente do Conselho de Administração do Circo sem nome, além, as gaivotas dormem nos braços das mães que espreitam as mãos nocturnas da montanha, chovia derradeiramente e, não havia nada a fazer; pelos vidros invisíveis das janelas regressava até mim o silêncio travestido de frio, a porta de entrada sempre aberta, alguém tinha furtado a fechadura e, em dias de geada, ao descer as escadas embebidas no fino oiro geada, tombava e, rebolava até ao chafariz.

Na praça. Da praça.

Fotografaram-me junto à Gricha, sentei-me em cima do burro e, tombei.

Todas as manhãs navegava nas gavetas da paixão, escrevia palavras nas paredes do quarto, levei nos cornos da minha mãe e, pedia ajuda ao meu pai: estava salvo. Mais um livro que trazia na algibeira, quase sempre adquirido na papelaria Grifo. O hiper dos anos 40, 50…, sentado na parte mais estreita do meu corpo, sentia o baloiço dos meus ossos contra a manhã, dias seguidos enclausurado nas paredes amarelas da hepatite.

À noite, percebia que de trapezista eu nada percebia, chegar um dia a Presidente do Conselho de Administração, pior ainda.

Sou um poeta.

- Novamente atrasado, Sr. Fontinha

Sou um gajo de mau feitio, pensava eu enquanto me entretinha a olhar o espelho convexo da noite, olhava pela janela,

Em voz alta,

Ela parecia ter saído dos banhos nas Termas de S. Pedro do Sul,

Em criança,

Foi o trânsito, meu Capitão, as mulas estavam furiosas.

O avô Domingos espetava pregos nos machimbombos, nos bolsos guardava a fotografia das filhas, mulher e netos, sem que eu percebesse, que junto a eles e a elas, habitava um ascendente que tinha nascido em Lisboa e era cocheiro. O meu bisavô.

Hoje, quase todos, pó.

Eu, transeunte modificado geneticamente, espero que acordem as ruas de Carvalhais.

Fui. Disse ele.

E, nunca mis regressou à cidade da saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12/08/2021


02.08.14

Lembras-me as jangadas de incenso nos braços de uma amada,


há dentro desta casa uma cancela em madeira,


uma cerca de prata,


lembras-me as sílabas com odor a madrugada,


numa cama onde habitam dois corpos embrulhados em azevinho,


há uma arca cerrada com cadeados de luz,


lá dentro, cartas... cartas vestidas de cinza,


migalhas,


seios de verniz suspensos no espelho das tuas pálpebras de alecrim...


lembras-me as jangadas com velhos bancos revestidos a amanhecer,


uma Lisboa apaixonada por transeuntes embriagados, loucos... e marinheiros de palha,


lembras-me uma cidade com vidros de papel,


 


E migalhas...


lembras-me as flores deitadas no teu peito,


um cigarro a arder..., um cigarro sem jeito nos lábios dos marinheiros de palha,


lembras-me os poemas por escrever,


quando havia no teu corpo pedaços de borboletas e canalha a brincar...


lá dentro, cartas... cartas vestidas de cinza,


e... e migalhas,


lembras-me as tardes sentado a desenhar o Tejo na minha mão,


inventava barcos de cartão,


inventava gaivotas com bolas de sabão,


lembras-me...


lembras-me o silêncio das jangadas de incenso!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 2 de Agosto de 2014


15.06.14



foto de: Stéphane Spatafora Photographe


 


O vazio,


e falsas esperanças mergulhadas no buraco da solidão,


o vazio que se traveste de dor, o silêncio que embrulha o sofrimento,


este rio que são as tuas mãos, perdidas no musseque anónimo da paixão,


as crianças saltam até agarrarem as flores que habitam o tecto da noite,


vazio, sisudo... sentido proibido de amar,


o vazio imprevisto, descontínuo... o vazio agreste dos olhos da estátua de granito,


há sombras que embriagam os teus seios de porcelana e eles, eles a construir sorrisos desde...


 


(desde o último luar)


 


O amor,


também ele, vazio,


pobre,


ângulo obtuso quando alimentado pelo púbis da madrugada,


 


(hoje não corações, hoje não beijos – a esplanada recheada de vampiros)


 


O vazio,


homem rude, homem dos sete ofícios, o homem mendigo que descobriu a falsa esperança,


o fantasma,


o vazio dos telhados que a cidade ignora, despreza, que a cidade... não quer,


 


Que cidade é esta?


 


Vazia,


sem pessoas, sem imagens, sem..., sem nuvens,


o sombreiro carnívoro que devora todas as palavras que a tua pele transpira,


gotículas de poesia descendo o teu corpo, até que a falsa esperança ilumina o teu cabelo,


e sei que deixou de viver,


hoje... nada, a cidade provocadora, a cidade dos teus suspiros,


uma porta que se encerra, e morre, e levita,


a lanterna do Adeus, sempre acesa, sempre pronta a suicidar-te com os beijos de alvenaria cansada,


 


(hoje, hoje não)


 


Que cidade é esta?


 


(desde o último luar)


 


Que deixei de amar a espuma dos espelhos de amanhecer,


e sem o perceber,


descobri que a falsa esperança... que deixei de amar, não existe mais,


o vazio, o vazio corpo da sílaba encarnada...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 15 de Junho de 2014



02.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Sinto-me ausente como os barcos da minha infância


oiço os loucos apitos das orgias nocturnas dos pássaros anónimos em mim


finjo escrever no corpo da alma


acredito voar se saltar a varanda e passear sobre os telhados de Alfama


os bares em Cais do Sodré


o rio... o rio que me chama... e eu... e eu não vou


pronto


não quero


porque não me apetece olhar o mar


sinto-me transeunte como as formigas empanturradas em açúcar e compota de abóbora...


não quero conversar com ninguém


prefiro a ausência,


 


A minha santa ignorância... sou um Réu sentado em cima das rochas de espuma


sou um corpo deitado sobre outro corpo


mórbidos nós... até que a morte nos separe... penso em ti


e nunca sei quem és


como te devo apelidar...


se


ou


sinto-me ausente como as serpentes e os barcos da minha infância,


 


Além habitam os charcos lamacentos das bibliotecas em flor


aqui... nada que preste


aqui apenas a minha sombra espetada num farrapo junto a um espigueiro...


o telhado chora


e range


as ripas fazem amor com os pregos enferrujados...


gritam


uivam


e lá dentro


pedaços de nós em pequenas espigas de milho adormecidas no cansaço da morte


não sei... ainda não sei o teu nome


como te despes... como... qual é a tua relação com o espelho do desejo?


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014



20.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Imagino-te na prensa do meu coração deambulando nas palavras que desperdiço em silêncios de gelo como o líquido da alegria que brota nos teus lábios de cereja, imagino a tua mão inconstante traçando gráficos numa ardósia suspensa no peito da cidade encurralada pelo cheiro obsoleto da ferrugem em teus pedaços de papel que transportas as sílabas mendigas dos alicates de porcelana, imagino-te deitada sobre os estranhos sons da tua pele quando pequenas gotículas de alga vivem solitariamente como versos desperdiçados nas calçadas vagabundas que olham todos as noites, varandas embriagadas, e sexos embebidos nas lanternas do ciume,


Recordo a cidade com leme de cortiça e no canto superior esquerdo uma simples inscrição com uma qualquer navalha que serviu para cortar haxixe ou brincar com sorrisos obscuros de heroína numa estrada ténue de prata, o alumínio vomitava letras sem significado físico, e um dia, a navalha caneta de tinta permanente, embrulhou-se num panfleto de cocaína..., abraçou-se a ele


(Francisco + Solidão)


Abraçaram-se e nunca mais se largaram, amaram-se até que um dia, uma noite, regressou a chuva e toda a poeira morreu contra os barcos encalhados nos poços da mendicidade, depois... a saudade, depois... a vida como nódoas em cortinados plastificados pelas palavras condenatórias dos outros,


(Francisco +)


A árvore cessou as melodias do amanhecer, o que sobejou da cortiça apenas um pedaço de madrugada existe com três ou quatro fotografias de paisagens imaginárias, invisíveis, havia uma fogueira que se extingui


(Fran)


E mesmo assim, eu, imagino-te na prensa do meu coração deambulando nas palavras que desperdiço em silêncios de gelo como o líquido que submerge o teu corpo na prateleira dos livros lidos em meados dos anos oitenta, um travesti conversava comigo sobre a possibilidade e existir no futuro um túnel que nos transportasse para o infinito, éramos duras rectas paralelas que acreditávamos encontrarmos-nos no infinito...


(Fr)


Compramos o livro de AL Berto “O medo”, e ficamos a perceber que Lisboa não era só o Tejo, a cidade tinha vida, vivia-se dentro de edifícios onde viviam ruas, e corações


(F)


E ficamos a perceber que Lisboa não era só o Tejo, a cidade tinha vida, vivia-se dentro de edifícios onde viviam ruas, a cidade não era só o esqueleto do travesti que lia os poemas de AL Berto sentado numa cadeira de vime junto ao Padrão dos Descobrimentos, a cidade era uma mulher vestida de negro, dormia com todos os dias do calendário, levantava-se tardíssimo, e quando entrava em casa, o meu primeiro cigarro era o seu último cigarro, fumávamos a meias, vivíamos como pássaros dentro de uma gaiola em vidro, alguns deles chamavam-lhe de Aquário, eu, para mim servia perfeitamente Capricórnio, mas insistiam, insistiam que o Leão era o Rei da Cidade com leme de cortiça,


(Francisco + Solidão)


E dizias-me que o vento tinha desancorado as correntes de aço que serviam para nos aprisionarem às janelas com grades de madeira, eu sorria, tu... choravas, ele... apenas queria subir e descer as ruas com nomes começados por


(F)


(Fr)


Compramos o livro de AL Berto “O medo”, e ficamos a perceber que Lisboa não era só o Tejo, a cidade tinha vida, vivia-se dentro de edifícios onde viviam ruas, e corações


(F)


E de lixados com (F) grande... passamos a ser portas e janelas com visibilidade reduzida, pensávamos ver o mar, pensávamos escrever as paixões húmidas dos jardins floridos em lágrimas de despedida, e ele


(Fr)


Compramos o livro de AL Berto “O medo”, e ficamos a perceber que Lisboa não era só o Tejo, a cidade tinha vida, vivia-se dentro de edifícios onde viviam ruas, e corações


(F)


Trocou “O medo” por um caderno quadriculado onde antes de adormecer...


(Francisco + Solidão)


Escrevia


(Francisco + Solidão).


 


(Ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013


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