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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


21.04.22

Onde poisam as andorinhas

Do meu país!

Onde brincam os poetas

Do meu País!

Onde habitam

As pedras do meu País!

 

Onde estão os sonhos do meu País!

 

E bebo deste rio

A saudade do meu País,

E alicerço no meu olhar

A revolta do meu País,

 

E sonho com as madrugadas

Do meu País…

 

Todos os dias!

A todas as horas!

 

Onde poisam as andorinhas

Do meu país,

Que no papel amarrotado

Escrevo ao meu País,

E enquanto pinto este rio,

Uma enxada,

Despede-se do meu País;

Com fome. Com sede.

 

E sonho com as madrugadas

Do meu País…

E sonho com os rios

Do meu País.

 

E esta andorinha que não voa,

Porque no meu País

Roubaram as madrugadas,

Porque no meu País,

Roubaram as palavras,

Porque no meu país já somos poucos… ou quase nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21/04/2022


12.08.21

Sou um gajo de mau feitio, pensava eu enquanto me entretinha a olhar o espelho convexo da noite, olhava pela janela,

Em voz alta,

Ela parecia ter saído dos banhos nas Termas de S. Pedro do Sul,

Em criança,

O livro comprado no Café Tavares, em frente ao rio, lia o sorriso dos patos bravos acabado de acordar e, mal sabia o que era a paixão.

Duas coisas eu já sabia; ser filho único e com mau feitio,

A noite trazia-lhe as mentiras das montanhas adormecidas, sexo só à noite, junto aos pinheiros e, ela sempre que acordava,

Ele,

Não sabia nada à cerca do ciúme. Tinha fome. Alimentava-me de cigarros adormecidos, café envenenado por uma cidade esquecida na tempestade e, debruçava-me no parapeito da forca, estendia a cabeça, colocam-me a corda no pescoço e, voava até ao infinito.

Morreu de quê?

A saudade da mãe, os dias intermináveis junto a um rio ancorado na neblina, folheava todas as fotografias e, nada a dizer; amanhã ele estará melhor.

O avô questiona-o se já tinha terminado a tropa e, com sorrisos embrulhados em mentira

Já, avô, já estou em casa.

Não sabia o que era a geada, tinha medo da neve e, pensava que as primeiras botas calçadas pertenciam às forças especiais de qualquer ramo das forças armadas. Feridas. Dor. Das mãos regressavam as aldeias em frieiras,

Calça as luvas, Luisinho!

Podia ter nascido em Trás-os-Montes, mas não era a mesma coisa.

Olhei este vosso, meu, Rio Douro. Mais tarde mostravam-me os encantos do Tua e, nunca mais chorei por ela.

Uma cidade abandonada, musseques engasgados no capim envelhecido, ao longe, o velho Zacarias, fumava pedras da calçada,

Tão lindos os mabecos!

Numas longínquas férias da Páscoa apaixonei-me por uma trapezista de um circo sem nome, no seu enlace,

Caminhei até às proximidades do Ujo, perdi-me,

E, talvez hoje fosse Presidente do Conselho de Administração do Circo sem nome, além, as gaivotas dormem nos braços das mães que espreitam as mãos nocturnas da montanha, chovia derradeiramente e, não havia nada a fazer; pelos vidros invisíveis das janelas regressava até mim o silêncio travestido de frio, a porta de entrada sempre aberta, alguém tinha furtado a fechadura e, em dias de geada, ao descer as escadas embebidas no fino oiro geada, tombava e, rebolava até ao chafariz.

Na praça. Da praça.

Fotografaram-me junto à Gricha, sentei-me em cima do burro e, tombei.

Todas as manhãs navegava nas gavetas da paixão, escrevia palavras nas paredes do quarto, levei nos cornos da minha mãe e, pedia ajuda ao meu pai: estava salvo. Mais um livro que trazia na algibeira, quase sempre adquirido na papelaria Grifo. O hiper dos anos 40, 50…, sentado na parte mais estreita do meu corpo, sentia o baloiço dos meus ossos contra a manhã, dias seguidos enclausurado nas paredes amarelas da hepatite.

À noite, percebia que de trapezista eu nada percebia, chegar um dia a Presidente do Conselho de Administração, pior ainda.

Sou um poeta.

- Novamente atrasado, Sr. Fontinha

Sou um gajo de mau feitio, pensava eu enquanto me entretinha a olhar o espelho convexo da noite, olhava pela janela,

Em voz alta,

Ela parecia ter saído dos banhos nas Termas de S. Pedro do Sul,

Em criança,

Foi o trânsito, meu Capitão, as mulas estavam furiosas.

O avô Domingos espetava pregos nos machimbombos, nos bolsos guardava a fotografia das filhas, mulher e netos, sem que eu percebesse, que junto a eles e a elas, habitava um ascendente que tinha nascido em Lisboa e era cocheiro. O meu bisavô.

Hoje, quase todos, pó.

Eu, transeunte modificado geneticamente, espero que acordem as ruas de Carvalhais.

Fui. Disse ele.

E, nunca mis regressou à cidade da saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12/08/2021


10.02.21

DSCN3224.JPG

Sabíamos que era Sábado porque estava escrito na parede da sala. Os gonzos pareciam envenenados pelo silêncio e, uma sombra ténue projectava a insónia da pilha de livros junto à janela. O rio durante a noite tinha galgado o quintal, ao menos, apenas as árvores ficaram submersas, como se fossem corpos embalsamados dentro do tumulo.

Ia à janela, puxava de um cigarro e, desenhava palavras na vertente norte da solidão, poisava a minha mão na mão dela, acariciava-lhe o sorriso com um pequeníssimo olhar e, percebi que tenho mais jeito para escrever do que ser engenheiro; às vezes sinto o peso dos retractos nos ombros, uma sensação estranha que só percebo depois de acontecer. Entre momentos, pequenos instantes, pincelava-a com o meu olhar de transeunte desnorteado à procura de um milagre. Precisava mesmo de um milagre, segredava-lhe ele ao ouvido.

Era um gajo antipático com um feitio de merda, não gostava de multidões e, sempre que era Sábado, religiosamente como quem vai à missa das dezoito horas, dava-lhe na telha de pegar nos álbuns de fotografias e, entre silêncio, manuseava cada retracto como se fossem simples flor. ,

Hoje o rio estava cansado; tal como ele se sentia todos os Sábados ao acordar.

Prisioneiro das sombras do Além.

Escrevo cartas a Deus. Envio-as para o endereço mais curto que conheço; Avenida das Almas, nº 5 – Lisboa. Nunca obtive resposta. As palavras, quando escritas para ele, adornavam-se em cima de uma secretária bolorenta, carcomida pela ferrugem dos sonhos, que durante a noite, boiavam nos socalcos do medo.

Nunca me levas a passear.

E, é hoje que vamos passear. Levamos umas laranjas, alguns poemas e, fazemos um piquenique literário.

Como assim?

A ponte, meu amor.

As coisas boas, meu amor.

Este gajo é insuportável. Pronto, disse.

Sabíamos que era Sábado porque estava escrito na parede da sala. Os gonzos pareciam envenenados pelo silêncio e, uma sombra ténue projectava a insónia da pilha de livros junto à janela. O rio tinha acordado com uma tremenda dor de costas, ora bem, a idade também não ajuda e, o caminho é tumultuoso, de pedra entre pedra, contando pontes e pontões, já tinha caminhado por baixo cerca de trinta e cinco, não esquecendo o lixo que tem de transportar até à Foz.

Tudo é lindo quando acaba bem, segredava-lhe ela ao ouvido.

Sabes, dizia ele, até parece que hoje é Sábado.

Sábado, hoje?

Sim, fui ao cemitério e vi muita gente para um normal dia. Coloquei-lhes flores, velas e, conversei com eles. Têm sempre uma palavra carinhosa para comigo, não admira, sou filho.

A ponte, meu amor.

Nunca me levas a passear.

Sábado, meu amor. Sábado.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 10/02/2021


14.06.20

Sou uma rocha,

Que dispensa o sono,

Plantam-se rosas no seu sorriso,

Gritam-se silêncios de revolta,

Entre paredes amarelas e sem juízo,

Sentado no trono,

Correndo pela seara,

Sem ninguém à volta,

Sem ninguém no terreno,

Sou uma rocha,

Aquela palavra proibida,

Suspensa no livro sereno.

Sou tudo aquilo que possam imaginar,

Desde pedra a foguetão,

Desde verso a palavra envenenada,

Desde o mar,

À triste canção.

Sou.

Muros de xisto olhando o rio,

Cansaço,

O frio,

Sou socalco maltratado,

Corpo,

Ferro,

Enxada calcinada na sombra do Senhor,

Sou. Sou pedra.

Palavra desejada.

Enxada,

Veneno da madrugada,

Sou rocha,

Sou tudo,

Não sou nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

14/06/2020


09.04.17

Vagabundos,


Sonâmbulos


Cromos


E outros cromados,


Assim avança a vida do poeta…


Sobre a janela da solidão,


Desamados,


Triângulos de prata no papel amachucado


Correndo pela paixão na juventude das pirâmides sonolentas,


Vagabundos,


Sonâmbulos


Cromos


E outros cromados,


Enigmáticos circos de terra em terra,


Palhaços,


Candidatos a palhaços…


Num empobrecido poste de iluminação,


A forca miserável do inventor


Entre círculos e cubos de sombra…


A inquietude neblina que assombra a mão


Do palhaço candidato a palhaço,


As bocas de esperma descendo a calçada


Até se sentar junto ao rio,


Ouvem-se os socalcos do amanhecer


Quando as enxadas do prazer batem no xisto esfarrapado,


O circo não tem fim,


O fogo adormece as almas dos condenados,


E sobre o papel amachucado…


A casa dos espirros,


Os vampiros telhados das cidades em chamas…


Tudo arde no teu olhar


Como arderam as minhas palavras nas náuseas do sono…


Ergo-me,


Faço-me vagabundo como eles…


E vivo apaixonadamente no cubículo da idade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 9 de Abril de 2017


07.01.16

O só menino


Comtemplando o rio,


Desenha socalcos na palma da mão,


Escreve poemas no coração,


O só menino


Não sabe chorar,


Dorme quando cai a noite e deixa-se absorver pelo ténue luar


E não conhece a escuridão,


O só menino


Sempre abraçado à fome da solidão,


Inventa gaivotas e tem no olhar


A penumbra madrugada,


E tem no peito,


O beijo


Do amanhecer,


Sem o saber


(Escreve poemas no coração),


Grita. Eu quero o mar.


E o mar vem a ele,


E leva-o,


E leva-o para outro lugar…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quinta-feira, 7 de Janeiro de 2016


19.05.15

Os teus braços aqui ao lado,


Parecem serpentes esfomeadas


Esperando as palavras da noite,


Ambos sabemos que as palavras não regressarão nunca,


Como nós,


Impossível regressarmos de onde partimos,


Complicada


Esta vida de marinheiro sem embarcação,


Complicada


Esta vida de transeunte sem cidade,


Ou livro, ou cais…


Para aportarmos,


 


Falta-nos tudo


E tudo temos,


 


As crateras e os peixes,


O silêncio e a madrugada,


Embriagados destinos


Com sabor a nada,


 


E os teus braços


Mesmo aqui ao lado,


Serenos,


Deitados…


Ouvindo os apitos dos comboios encurvados no Douro,


O rio


Sofre,


O rio


Sente


Os teus braços…


Nos meus braços


Afogados.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 19 de Maio de 2015


03.12.14

Inventei-te numa noite de solidão,


escrevi o teu nome fictício numa muralha de xisto


que a tempestade tombou,


havia no teu olhar socalcos cansados


e vinhedos sombreados


de... paixão...


 


Havia na tua mão


uma carta por escrever,


e lá dentro...


um beijo,


um beijo desenhado no meu sorriso


com lágrimas de sofrer,


 


Inventei-te numa noite de solidão,


abri os cortinados e olhámos as estrelas de papel crepe...


havia luar nos teus cabelos


e neblina cinzenta nas tuas pálpebras de adormecidos rochedos,


e quando me abraçaste... a cidade morreu,


como morreram todas as cidades onde habitámos,


 


hoje, somos dois esqueletos vadios...


vagueando pela embriagada poesia de um louco,


dois pássaros sem árvores para poisar...


hoje, somos dois esqueletos vadios... sem Oceano para navegar,


e esperamos,


impacientemente que acorde a madrugada.


 


(e hoje... nada me apetece escrever...)


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014


27.09.14

Liberta-me


desassossega-me esta insónia fervilhante


que atormenta as minhas mãos


e me proíbe de escrever


liberta-me quando começar a madrugada


e lá fora


ninguém


ninguém para me ver


ninguém para me observar


quero ser a noite vestida de luar


quero ser o socalco que nunca se cansar de olhar...


o rio


e as pessoas que o rio engole e mata


liberta-me


liberta-me deste cansaço desengraçado


que habita nesta sanzala de lata.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 27 de Setembro de 2014


28.08.14

Este xisto onde me deito


E confesso os meus sonhos invisíveis,


Esta caverna sideral com clarabóias sombreadas,


Este medo de me perder na floresta dos bichos…


E este rio…!


Este rio com sabor a saudade,


Esta vida mergulhada numa cidade


Inventada,


Este xisto,


Esta montanha recheada de vaidades,


Estes pássaros que se alimentam dos meus ossos…


E me transformam em cadáver,


 


 


Este xisto e este cansaço


Que me suspendem nos rochedos do amanhecer,


As ondas que não cessam de brincar


No meu peito de sofrer,


 


 


E este abraço,


E este xisto rosado nas pálpebras da madrugada,


Esta estrada sem saída,


Esta rua deserta com palhaços,


Este xisto onde me deito


E um trapezista louco se abraça aos meus cabelos,


Este circo,


Este circo sofrido voando nos lábios dos socalcos envenenados…


Estes homens enforcados,


Este xisto,


Este xisto derretido em bocados,


Que se alicerçam aos meus segredos…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

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