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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


24.02.20

Acordava do sono emagrecido,


O homem da nuvem embriagada,


Cansado,


Perdido,


E, reclamava,


E, gritava,


A palavra enfeitiçada.


E, hoje, nas camufladas ruas da cidade esquecida,


Embrenhado na poesia, a canção do adormecido,


O homem, cansado, denegrido,


Escreve sem ânimo,


Desiludido…


Dos alicerces envergonhados.


Rezam pela sua alma,


Coitado,


Sem nome,


Degolado pela tempestade,


O homem, o mesmo homem, o cansado,


Pegas nas palavras da reza em seu poder,


Desorganiza-se,


Veste-se de negro,


Negro, negrito, negrinho,


Como o gato do vizinho,


Dançando na eira das espigas adormecidas.


As sombras do silêncio,


A alvorada da sinfonia que jaz na ribeira,


O rio, em delírio,


O rio, desconectado da vida,


E, corre,


E, dorme,


Nas almas do mar.


O mar tudo engole, e, tudo mastiga,


Pessoas, lixo, palavras, o vento…


Uma laranja, sofre,


E, vive,


E, morre,


Dentro da laranja adormecida.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


24/02/2020


30.04.17

O desgostoso ancorado


Autómato desajeitado das tardes infelizes


O corpo fumado


Entre paredes de xisto e perdizes…


Da montanha de areia


Descendo pela veia


No braço do enforcado


O desgostoso


E desamado


Feitiço da madrugada


O corpo encostado


Aos pilares sombreados da falsa calçada…


E do rio vem a semiófora rebelião do desempregado


Malditos carneiros


Pastando na planície do amortecido emplastro desassossegado


A fotografia rima com preto-e-branco


Mais branco do que preto


Os olhos pintados de sonâmbulas bolhas de luar


O desgostoso


E desamado


Feiticeiro da noite


Volátil cansaço dos silêncios abandonados


Quando regressam os rochedos


Aos claustros fumados…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Abril de 2017


06.08.16

descem a ribeira


os olhos do teu prazer


trazem na mão a tristeza


e o mar a arder


sinto o palpitar do meu coração


numa simples gota de suor…


deitada nas sombras dos aciprestes


descem a ribeira


as montanhas desertas


cansadas de viver…


que este corpo desenhou


nas palavras de escrever


descem a ribeira


os trilhos pedestres


dos abutres desgovernados


tristes


apavorados…


pela solidão da tempestade.


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 6 de Agosto de 2016


01.12.15

Há no silêncio


Uma finíssima fresta de solidão


A forma geométrica do amor


Esquecida na ardósia de uma velha escola


Alguns beijos


Alguns sorrisos suspensos nos finais de tarde


Junto ao rio


Sem remetente,


 


O ausente complicado e perplexo corpo de espuma


Vagueando nas montanhas da paixão


Tenho dentro de mim uma ribeira


Com braços de saudade


Que nem o tempo consegue apagar


Que nem a tempestade sabe o seu verdadeiro significado


De tudo… e de amar


No silêncio a solidão.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


terça-feira, 1 de Dezembro de 2015


02.07.14

Este Oceano que me alimenta,


este cansaço que me habita, e se afugenta,


este corpo que desenha um abraço na janela que levita,


estes lábios secos, trémulos... e desorientados,


estes poemas molhados,


que a tua mão aquece,


e merece,


a minha mão sentida, a minha mão sofrida,


este Oceano que me engole,


e come como se eu fosse uma bandeira,


ai, ai este corpo que não dorme,


este corpo esquecido nos cabelos de uma ribeira...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 2 de Julho de 2014


19.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Éramos comestíveis como as ervas junto à ribeira


e tínhamos nas mãos o sabor do cansaço


e da dor oferecida pelo mendigo entardecer,


 


Éramos dois corpos voando sobre a cidade dos Deuses


ancorávamos algumas vezes


sobre as árvores em delírio que sobejavam das finas lareiras do desejo...


e sonhávamos com porcelanas beijos


que viviam na madrugada,


 


Éramos comestíveis como as ervas junto à ribeira


e tínhamos um coração de papel


onde escrevíamos as palavras em segredo,


 


Gritávamos como os pássaros


e amávamos como as ervas comestíveis...


éramos dois círculos de vidro


em osciladas rotações em cima dos barcos enferrujados


éramos e tínhamos um cais em madeira para aportarmos...


 


vivíamos construindo o amor com pequenos paus espalhados pela floresta


e quando nos sentávamos debaixo da nuvens cinzenta


sentia-te nos meus braços de sisal...


éramos o mar com a areia branca


e de ondas navegantes... e de lábios cor de amêndoa.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 19 de Agosto de 2013



08.01.13

Subiam a montanha em direcção ao sítio onde viviam as nuvens de prata, rastejavam dentro do silêncio com a ajuda de uma mão envelhecida, moribunda, recheada com algerozes e janelas com cortinados de papel, subiam, docemente, subiam a montanha conhecida como a velha montanha dos sonhos impossíveis de realizar, percebia-se no ar pesado a respiração dos cadáveres adormecidos pelos versos do poeta marreco, louco, porco, que habitava numa cabana junto a uma ribeira com braços de luz e pernas de vidro, à lareira, sentindo as imagens furiosas das pessoas enlatadas que deambulavam nas esquinas do orvalho, estava frio, muito, e os cães vadios procuravam em pequenos cardumes de prata as coisas boas da vida, tínhamos medo, não dormíamos porque das árvores, às vezes, desciam esqueletos com canetas de tinta permanente espetadas nos olhos, e na boca


Pequenos segredos de saliva com finos olhares que as ardósia escreviam nas planícies da insónia, não, não sabíamos que a montanha era invisível, não, não sabíamos que a ribeira e os esqueletos com canetas de tinta permanente espetadas


Nos olhos,


Eram fantasmas desenhados pelo poeta marreco, louco,


Nos olhos,


Subiam a montanha em direcção ao sítio, uma pequena fogueira de vaidade emergia sobre as rochas prateadas onde dormiam os cães vadios


Nos olhos


O louco poeta marreco,


Duas assoalhadas, um varanda com vista para os sonhos impossíveis de realizar, diziam-nos que para o anos as coisas iam melhorar, passavam os anos, passavam


E as coisas


Nos olhos,


Sempre iguais, sempre iguais, os cães procuravam as coisas boas da vida


E alguém gritava,


Nós gritávamos


Quais coisas?


Subiam a montanha em direcção ao sítio, uma pequena fogueira de vaidade emergia sobre as rochas prateadas onde dormiam os cães vadios


Nos olhos


O louco poeta marreco deitado de barriga para o céu, e descobriu, que


E as coisas,


O céu não existe, acreditávamos, subiam a montanha em direcção ao sítio onde viviam as nuvens de prata, rastejavam dentro do silêncio com a ajuda de uma mão envelhecida, moribunda, recheada com algerozes e janelas com cortinados de papel, subiam, docemente, subiam a montanha conhecida como a velha montanha dos sonhos impossíveis de realizar, percebia-se no ar pesado a respiração dos cadáveres adormecidos pelos versos do poeta marreco, louco, porco, que habitava numa cabana junto a uma ribeira com braços de luz e pernas de vidro, e no entanto


Tínhamos sonhos que acreditávamos serem possíveis de realizar, mas depois de subirmos a montanha invisível, depois de assistirmos as suicídio do poeta marreco e louco, depois de percebermos que os cães vadios, éramos nós,


A montanha desmoronou-se, desfez-se em pedaços de açúcar, e voou em direcção ao mar.





(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


02.08.12

Ao som inconstante das estrelas poisadas no céu inexistente e falso


em papel de tristeza


com cores de insónia


 


o som da tua voz


 


os teus livros e papeis e momentos junto à ribeira


o som da tua voz


escrita na sombra que alimenta as gargantas da neblina


com cores de insónia


a memória


da escrita sem palavras no desejo do teu corpo em delírio


demito-me de teu amante ausente


eu abaixo assinado juro solenemente pela minha honra acariciar o teu corpo de alface


com olhos de morango


e mamas de chocolate


o som da tua voz


em delírio


 


o teu corpo voa nos píncaros emagrecidos da loucura


ao desejo impugnado pelas mãos calejadas da lua


 


sirvo-me da sombra que serve para esconder Marroquinos


prostitutas vestidas de marinheiro


e capitães de areia


sem estandarte nem coragem de suicídio


e dou-me conta de o meu corpo são duzentos e seis ossos com óculos de sol


e ao peito


o crucifixo de infância que mais tarde deixei numa loja de penhores


para


para comprar heroína e papel de alumínio


para fumar quando passavam os barcos


regressados de ontem


com partida para amanhã


 


puxo de um cigarro


e sirvo-me da sombra que serve para esconder Marroquinos


prostitutas vestidas de marinheiro


e capitães de areia


para alimentar o meu vício de contar pássaros durante a noite.


02.05.11

Que algas são estas que se enrolam no meu corpo


Prendem-me os braços ao cansaço da noite


E na minha mão em desespero


Desenham silêncios ao amanhecer


 


Serei eu um rio


Ribeira perdida na montanha?


Que algas são estas que se enrolam no meu corpo


E não me deixam voar


 


Eu uma gaivota em morte lenta


Cortada em pedacinhos de tristeza


Que algas são estas


Que não me deixam caminhar


 


Que me proíbem de sonhar…


 


 


Luís Fontinha


2 de Maio de 2011


Alijó


29.04.11

Os teus seios suspensos na montanha


Quando olham a ribeira


Entre o xisto pregado ao amanhecer


Em sorrisos feiticeira


 


E dos segundos emerge a manhã


Que se apoderam do teu corpo adormecido


Das tuas mãos o desejo de princesa


Nas tuas mãos o silêncio prometido


 


Os teus seios suspensos na montanha


Que os meus olhos acariciam alegremente


Correm as gaivotas junto ao mar


E junto ao mar dormem como gente…


 


 


Luís Fontinha


29 de Abril de 2011


Alijó

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