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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


09.02.22

Avança mar adentro

Vestido de Dragão,

Não o mereço,

A tempestade e o vento,

Não o mereço,

Cada pedacinho do teu coração,

Cada momento.

Avança mar adentro

Vestido de gaivota,

Não o mereço,

Palavras e tempo,

Não o mereço,

Tantos círculos à minha volta,

Tantos círculos em lamento.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 09/02/2022


30.10.21

Tínhamos na mão

O silêncio dos pássaros adormecidos,

Sentiam a fome no coração,

O coração dos poemas perdidos.

 

Eram palavras que se semeavam na tempestade,

Enquanto no mar,

Havia barcos com saudade,

Na saudade de abraçar.

 

Tínhamos beijos em pedacinho adormecer,

Tínhamos barcos em revolta,

Tínhamos palavras para escrever,

 

Palavras sem nome.

Palavras que andavam à volta,

À volta da fome.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30/10/2021


10.12.15

Este apeadeiro sem telhado


Sofrido nas frestas e nas ripas e nos pregos


A farsa de um comboio vomitando na noite escura


Palavras


Apitos


E homens de chapéu negro


Inventam uma revolução


Eles gritam


“queremos pão”


Não é crime pedir pão


Não é crime ler com um pão na mão


Crime é sentir a liberdade


Sentada


Numa jaula com grandes de cartão…


Crime é não ter a liberdade desejada.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015


29.11.14

A astronomia loucura do profeta


as paredes encarceradas do guerreiro desconhecido


à força e pela força


o cansaço espaço de luz nos confins rochedos da melancolia


a astronomia


embriagada pelos momentos sem pressa


numa carta de despedida


sem palavras


ou... ou remetente


uma aventura na escuridão da cama do sonambulismo


os cigarros absorvidos pela morte do fumo colorido...


e um caixão de espuma poisado nos alicerces da canção de revolta


 


cessem este destino


e o silêncio


da atmosfera encarnada em comestíveis soluços de desejo


a astronomia loucura do profeta


sentado em frente ao espelho da agonia


sem sentido


sem... sem melodia


antes de acordar o dia


 


o vento sofrido


o corpo mordido pelos meus dedos


o odor embalsamado do prazer


em finíssimos gemidos


e uivos...


e no entanto


não existem ruas na minha mão


casas


flores


nada


apenas... um rio adormecido numa fotografia


e um Domingo desorganizado e despido...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 29 de Novembro de 2014


05.12.12

As veias que não tenho


porque vendi-as para comer


as mãos que me tremem


porque também as vendi


não para comer


apenas porque senti


vontade


desejo


de deixar de escrever


morrer caminhando suavemente sobre a neve invisível


que desce a montanha


as veias que não tenho


e que ninguém amanha


estas palavras poucas


ou loucas


bocas em revolta


que este povo apanha


porrada


desemprego


fome


medo


medo de quê?


revolta-te se ainda tens veias


revolta-te se ainda não vendeste as tuas veias


para comer


para escrever


ou simplesmente para amar


mas revolta-te por favor


revolta-te homem do mar...


medo de quê?


porrada


desemprego


fome


medo


medo de quê?


não há medo que adormeça um homem


não há palavras que acorrentem os braços do homem


que não se deixa adormecer


pelo medo


pela fome


medo de quê?


revolta-te homem.


 


(não revisto)


05.08.11

Vai o mar


E não volta


Em teus lábios de beijar


O sorriso da gaivota,


 


Em tua mão eu poisar


O meu silêncio neblina


Regressa o mar


Ao teu corpo de menina,


 


Vai o mar


E não volta


E se evapora ao acordar,


 


E do vento amanhecer


Grita no areal a revolta


A criança a sofrer…


28.07.11

Tentei de tudo


E não consigo


Descalcei-me no rio


E galguei socalcos


 


Subi montanhas


Desci ao inferno


Escondi-me nas sombras


E aterrei no xisto em migalhas


 


Tentei de tudo


Fiz peito ao vento


Atirei pedras às estrelas


E nas nuvens adormeci


 


Tentei de tudo


Mas o meu corpo de barco enferrujado


Teima em ancorar-se na esquina da rua


À espera que uma alma bondosa de sucateiro


 


O venha desmantelar…


Tentei de tudo


Senhores vejam só


Até rastejar pelo chão fui capaz


 


E afinal não adianta tentar


Não vale a pena lutar


Tentei de tudo


E para quê?


 


Escreves bem, dizem alguns…


És inteligente, dizem outras...


Aos primeiros que metam a escrita cu acima


E às segundas que introduzam a inteligência na vagina


 


Se não és filho de pai rico


Se não lambes botas


Ou se não tens cartão do PS ou PSD


Estás completamente fodido…


 


E acredita


A cultura é uma merda que não serve para nada


O homem quer-se inculto


A cuspir no chão e a dizer palavrão…


23.07.11

Tenho livros para ler, tenho livros para olhar, e dentro de mim nascem palavras que se cansam numa folha de papel impressa na impressora da tarde, tenho comida (pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar), e cama para dormir, e quanto a doenças as pequenas enxaquecas de um tipo de quarenta e cinco anos, depressão alguma e quase nada, e pouca coisa, e quanto dinheiro na algibeira as migalhas do costume,


 


De que me queixo?


Absolutamente de nada.


 


Tenho tudo comparado com os que não têm nada. Há quem não tenha comida, há quem lute desesperadamente pela vida, há quem não tenha casa nem cama para dormir, e há quem não tenha família, e eu, e eu orgulho-me de ter uma, há quem não tenha mulher para amar, e eu tenho uma e sou amado, e há quem não seja amado.


 


E há aqueles que não tendo comida, casa para viver, cama para dormir, família para abraçar, livros para ler e olhar, e que dentro deles não nascem palavras para escrever, e a doença come-os em pedacinhos a cada vinte e quatro horas do dia, e mesmo assim, mesmo assim lutam para viver.


 


E eu revolto-me porque não tenho um trabalho. E eles caralho? E eles que não têm nada?


 


E eu, estupidamente me queixo e me lamento.


11.07.11

Reduzam,


As freguesias


Autarquias


E o número de Tias,


Os hospitais


Escolas que estão a mais


E os Generais,


 


Reduzam,


Todos os jardins


E afins


E as pedras nos rins,


E não esquecer nunca a literatura


A gordura


E os buracos de fechadura,


 


Reduzam,


As pilas murchas da cidade


A felicidade


E a saudade,


Os candeeiros


Os paneleiros


E os petroleiros,


 


Reduzam,


Os feriados


Namorados


E os morgados,


A noite quando adormece


As mamas que fogueiam e aquece


O sémen dilatado da manhã quando desaparece,


 


Reduzam,


A puta que os pariu


O menino que sorriu


E fugiu,


Os barcos no mar


Deus que deixou de sonhar…


Mas nunca reduzir a palavra GRITAR…

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