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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.12.20

Às cinco menos um quarto

O teu corpo coberto de poeira

Nos teus lábios, a doce madrugada quer acordar,

Na tua boca, as palavras de luz

Que habitam nos meus olhos.

Às cinco menos um quarto

Um relógio de sono

Quase a desmaiar,

Será fome? Ou apenas manha do dono…

E, dos pássaros às árvores

Enquanto flor nocturna,

Desce sobre ti a triste madrugada,

Em Dezembro estás,

Em Janeiro ficarás nesta aldeia das quatro esquinas de luz,

E contra os rochedos,

As lâmpadas do poema em cio.

Às cinco menos um quarto

A minha mão nos teus seios,

As ditas palavras de ontem,

Tristes,

Vergadas pelo peso do sono,

Em Janeiro acordarás,

Deste azarado Dezembro.

O jantar está óptimo,

Como sempre,

Como todas as palavras,

E, bebo todas as equações do desejo.

Sou eu, não te recordas da minha mão?

Quando ontem

Às cinco menos um quarto

Na tua boca

A minha boca

Adormeceu

Cansada

Viva

Mais feliz pelas palavras comidas

E, de todas as equações sofridas,

Toca o telefone,

Era ela

E, às cinco menos um quarto

Um quarto

Uma janela

E, um sorriso de mar.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó/03/12/2020


23.03.16

o relógio nunca cessa de chorar


as lágrimas do mar parecem pálpebras envenenadas


nos socalcos da saudade


o rio esconde-se nas umbreiras do silêncio


como se fosse a fera amestrada do vento


sem sorrisos de vida


nas espalmadas marés do sono


o relógio vive


escuta os meus lamentos


enquanto lá fora alguém sofre


levemente andando pela cidade de algodão


e inventa sonhos


e pede-me pão


nunca se cansa de chorar


este triste relógio de corda


não sente a dor


não sente a morte


daqueles que partem e deixam de ouvir a Primavera…


e levam no coração uma pedra


do infinito abismo de habitar uma calçada


um corpo estranho


imbecil


e velho


o relógio nunca cessa de chorar


alegre


nas noites sem dormir


abre a janela amar


toca no cortinado amor


e envelhece esperando que o tempo o venha buscar


até que uma qualquer tempestade o obriga a parar…


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 23 de Março de 2016


13.06.11

É que não se cala este pássaro pendurado na cerejeira e canta que começa a enjoar-me, família completa, ele a mulher e três filhos, habitantes do meu quintal em forma de rectângulo, um paraíso fiscal, juntinho ao mar, canta, canta e ainda não acordou a manhã e já ele dá à goela, e tenho dias que me irritam os pássaros, e tenho dias que me irritam as árvores, e tenho dias que a minha própria sombra me irrita,


 


- O relógio de parede com a boca aberta e na sala de quinze em quinze minutos a conversa do costume, as ave marias, o silêncio do meu avô Domingos em farda de gala, novo e com o machimbombo colado no peito, do outro lado, do outro lado o meu avô Francisco, novo e morreu novo, e eu, e eu no meio deles pergunto-me o que faço sentado no sofá a olhar para uma parede nua, onde um ponto invisível me olha, onde um ponto invisível me quer devorar, e nas minhas costas eu sentado sobre um blindado e ao longe, ao longe a ponte, o cheiro das gaivotas acabadas de acordar, e enjoa-me,


 


O cantar dos pássaros no fim de tarde, a vodka em pequeníssimos goles saltitando na boca, curva à direita, desce a rabina e estômago, e a cabeça a rodar noventa graus no sentido inverso dos ponteiros do relógio, na parede dezanove horas, sete pancadas e nova rotação, mudança de rumo, trinta graus a estibordo, e afundo-me sobre a alcatifa,


 


- O avô Francisco pega-me num braço, o avô Domingos distraído a passear machimbombos nas ruas de Luanda, e o que está sobre o blindado entretêm-se a contar os carros que caminham na ponte, o avô Francisco é forte, o avô Francisco quase dois metros, mas o meu corpo começa a encolher e desaparece, esconde-se debaixo do sofá e mistura-se com as formigas,


 


Quem diabo tem formigas em casa? Eu.


A milu, o cacá e a tv, e a tv grávida de dois meses, a tv nos enjoos matinais, a vodka evapora-se da garrafa, o terreno íngreme com vista para o rio, nos olhos começam a passar imagens em duplicado, dois Franciscos, dois Domingos, uma ponte e dois blindados enferrujados à porta de entrada, estou bêbado,


 


- E tenho dias que me irritam os pássaros, e tenho dias que me irritam as árvores, e tenho dias que a minha própria sombra me irrita…


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


13 de Junho de 2011


Alijó


20.05.11

No muro dos silêncios


A minha mão à procura de um buraco


Uma fenda uma nuvem


Pendurada na janela


 


No muro dos silêncios


Poiso durante a noite


A minha cabeça sem olhos…


E nos meus olhos a chuva da manhã


 


A tempestade das oito horas


Que procura na areia


O muro dos silêncios


Junto ao mar


 


Junto a uma sepultura de dor


Que me vai cobrir de sorrisos


Quando me olham


E me dizem que a manhã não existe


 


Amanhã uma mentira


Para me entreter


Para que nos meus olhos


A chuva não chuva…


 


Grãos de areia que se suspendem


Nas cordas que me prendem ao cais


Que me seguram quando na parede da sala


Um relógio tal como a manhã em mentira


 


E não oito horas


E não relógio…


E não manhã


Ou chuva


 


Andam a mentir-me desde que nasci.


 


 


 


Luís Fontinha


20 de Maio de 2011


Alijó


11.05.11

Vagueio pelas ruas


E sou uma sombra em pequena dimensão,


Mínima,


Onde o tempo se esgota nos segundos


 


Num relógio sem comida


Pendurado nas minhas costas,


Parou… deixou de caminhar


Junto ao mar.


 


Vagueio pelas ruas


E percebo que quando à minha passagem


Os rostos que me olham


Têm medo


 


Escondem-se de mim,


Fingem não me ver,


E eu vagueio pelas ruas


À procura de um bom dia,


 


À procura de uma palavra


Nem que seja escrita no pavimento…


Que depois da chuva


Caminhou para o mar…


 


Vagueio pelas ruas


E sou uma sombra em pequena dimensão,


Mínima,


Mas por dentro da sombra existe um ser humano


 


Com coração


Estômago


Fígado


E todos os órgãos necessários para eu estar vivo…


 


 


Luís Fontinha


11 de Maio de 2011


Alijó

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