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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.08.23

Fui Rei por um dia

Miserável

Por muitos mais

Saltei rios

Roubei jornais

Escrevi poesia

Vesti-me de ponte

Pincelei o olhar de silêncio

Fui Rei

Fui árvore prisioneira daquele monte

E no monte

Semeei

Palavras

E vinhedos de sono

 

Fui Mordomo

Artista poeta

Fui Rei

Fui cama

Rua

Sem janela

Poema

Fui Rei Lua

E tantas vezes

Lua

Nua

Sobre o mar

 

Fui Rei por um dia

Miserável

Por muitos mais

Saltei rios

Desenhei nas tuas mãos… postais

Palavras em saudade

Palavras

Que as madrugadas

Lançam contra os muros da infância,

Fui Rei

Fui o Leão da selva

Fui insultado por um imbecil,

 

Fui Rei por um dia

Miserável

Por muitos mais

Fui poema

Sou poesia

Sou manhã vestida de Rei

Ou noite

Sem o dia

Disfarçado de mendigo

E sem-abrigo

Tão feliz

Tão contente,

Fui Rei

Fui poeta…

E fui teu amante.

 

 

 

08/08/2023


01.05.11

Cada dia uma esperança, cada segundo um minuto, um minuto de eternidade, distância, ausência do vazio, e lá longe, no fim do destino, sim, aí mesmo, a minha ilha; a ilha que me viu crescer, aos poucos, umas vezes atinadinho, outras, outras é melhor não falar…


Ao fundo da rua, fica o casebre onde se vende sexo por encomenda, pizzas e demais mercadoria. Também temos café, chã, torradinhas, pensamentos tristes…, e entregas ao domicílio.


Closed.


Amanhecer. E ela não vem há janela. Odeio esta janela. Uma vezes fechada, outras, nem aberta nem fechada, as pestanas de cetim parecem bailarinas a interpretar o bailado; o lago dos cisnes! Piotr Ilitch Tchaikovsky.


Lindo, belo, belíssimo.


Vou passar a chamar-lhe, à tua janela, o acordar do amanhecer, e tu não vens, estás ausente na constelação de Peixe voador, e das oitenta e oito constelações, tinha logo que ir para esta. Tão longe…


Na minha ilha andam a passar-se coisas muito estranhas, analfabetos são doutores e engenheiros, os sem currículo são bem-vindos, bem-vindos ao nosso estabelecimento comercial, os incompetentes são promovidos, isto há cada coisa…


Tão longe, nem à velocidade da luz chegava até ti. Impossível.


E na distância ficarás perdida eternamente, ausente entre dois segundos de nada, e eu, continuarei a caminhar, sem correr, devagar, até novamente encontrar outra constelação, das oitenta e oito, menos tu, são oitenta e sete…


E eis que da cabeça de alguns da minha ilha, como se acontecesse um milagre divino, pois também existem outros milagres, o nevoeiro deita-se cuidadosamente no jardim, e ao fundo, aparece envolto numa túnica amarrotada pelo tempo, El Rei. El Rei do burgo.


- Viva o Rei! Viva.


- Vassalagem a sua Majestade.


Que se foda o Rei. Cada dia uma esperança.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


Alijó


01.05.11

Aos poucos, os sinos e as campainhas deixaram de rosnar, o vento, esse maldito, derrubou o modesto telhado da vizinha, que nas horas vagas, e durante a noite, sempre pela noite, servia homens com cicio, adolescentes desnorteados, e ao domingo, ao domingo era a esposa do senhor, porquê só ao domingo, nunca tinha pensado nisso, podia muito bem ser à terça-feira, ou à quarta-feira, sim, porque não, mas não, tinha de ser ao domingo, é o melhor dia.


Aos poucos, o teu sorriso, como se fosse o hastear da bandeira nacional, em pequenos voos rasantes, tropeça na parede de xisto, e cai para o lado, foi bem feito, agora, agora já nem sorriso tenho, mas aos poucos vou-me levantar, voltar a sorrir, e…, e até já pareces uma viúva a falar, não desfazendo no marido que deus o levou, e que descanse em paz, e de barriga cheia, e se possível, dar umas cambalhotas, na vizinha, sim, porque não.


Aos poucos, o sol se traveste de chuva, e aos poucos, um silêncio infernal se faz sentir na rua, valha-nos deus, é o fim do mundo, uns corriam para casa, quanto a outros, abrigavam-se nas ombreiras, parecendo mais prontos-a-vestir do que refugiados da chuva vinda do sol, se houvesse quem gritasse, ele parecia mais uma ave quando se esquece do campo magnético, começou a chorar, então alguém percebeu que toda aquela chuvinha não era mais do que uma águia-real que vertia lágrimas, porquê, não sei.


E aos poucos, os sinos e as campainhas deixaram de rosnar, cada flor do meu jardim, levanta-se do sono profundo, estendem os bracinhos como se estivessem a espreguiçarem-se do nada, cansadas do nada, e cada vez mais perto, aproxima-se a tua mão que me chama, e em seguida, faz-me sinal para me afastar novamente, e fico sem perceber se me estás a chamar ou a despachar em correio azul, só de ida, sem direito a devolução, hoje não há sobras, vendeu-se tudo, também com tantos escândalos…, amanhã dou, amanhã.


Amanhã e aos poucos, a longitude perde-se da latitude, o eixo terrestre é desviado para dar passagem a vossa excelência El Rei, aldrabão, vendedor de sonhos, e contador de mentiras, e aos poucos, o povo começa a ficar farto; estamos fartos, sua majestade!


Uns, fartos do estado a que chegaram as coisas, e outros, fartos, de barriguinha cheia.


 


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


Alijó

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