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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


09.12.21

Quando acorda a madrugada

E poisa docemente no chão

A triste geada;

Levanta a mão

Sobre o amanhecer,

 

Como se fossem silêncios de escrever,

Como se fossem palavras a arder,

No corpo algemado

Ao sombreado

Erguer.

 

Quando acorda a madrugada,

Acreditando,

Tal como eu, na noite encantada,

Da noite amedrontada,

Levantando

 

A mão sobre o amanhecer.

E que me sento sem o saber,

Puxo uma cadeira invisível, depois de puxar um leviano

Cigarro sem asas; oiço a voz rouca do piano

Saltitando na sala procurando o prazer.

 

Talvez o prazer

De ler.

Talvez o medo de viver,

Esta vida das palavras amarguradas,

Esta vida dos livros poeirentos,

 

Talvez das tristes madrugadas,

Acordem todos os sentimentos,

Talvez o prazer

De ler,

Talvez o prazer de nada fazer.

 

Quando acorda a madrugada

E poisa docemente no chão

A triste geada;

E este alegre coração,

Voa sobre o mar agachado na areia…

 

Talvez o prazer

De ler.

Talvez o prazer

De escrever.

Talvez seja tudo isto que me chateia.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 09/12/2021


23.09.21

Vivia no púbis desejado

Do silêncio amanhecer,

Cresceu em mim e, partiu

Da vida que sempre quis ter.

Certo dia, recebeu um telegrama envergonhado,

Não trazia remetente,

E assim,

O eterno enforcado,

Desconhecia

Que o seu amante

Pretendia,

Um dia,

Lhe escrever.

Como alguém dizia;

- Cuidado, eterno enforcado,

Viver no púbis desejado,

Não é a mesma coisa

Que pertencer ao beijo amado.

E o pobre do eterno enforcado,

Cioso da vergonha alheia,

Sentou-se numa pedra de espuma

Pensando que ao longe, na aldeia,

Habitavam as coxas moribundas

Das janelas em cio;

Que vergonha, eterno enforcado,

Que vergonha!

Púbis e coxas há muitas na saliva do prazer,

Palavras de merda, como as minhas, acordam ao entardecer,

E sabendo que o vagabundo

Do eterno enforcado,

Viajou,

Correu mundo…

E não passa de um triste amado.

Deixou-se penhorar

Pelo prazer

Num dia de Verão,

Sentado, não sabendo ler,

Percebeu que as árvores em flor,

São coxas,

São púbis,

São canção

De embalar,

São versos de amor,

São sílabas de foder.

Dois mais dois

São quatro braços abraçados,

Duas pernas,

Alguns enforcados,

E vinte e cinco sombras a voar;

Sabes, eterno enforcado?

A vagina é uma fotografia para o mar,

É a raiz quadrada do prazer,

É cateto amanhecer,

É hipotenusa maldisposta,

E mais dois são seis,

Seis versos de embalar…

Seis versos sem resposta.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23/09/2021


04.05.19

De todas as paisagens que visitei com prazer,


São os teus olhos a arder,


No meu rosto de sofrer.


 


São flores,


De todas as cores,


No meu jardim imaginário,


São flores,


São rumores…


Na cabeça do lampadário.


 


De todas as paisagens que visitei com prazer,


São palavras minhas no teu corpo de escrever,


São rosas a sorrir, são rosas a sofrer.


 


São gladíolos de papel,


Barcaça, batel…


De todas as paisagens que visitei,


São telas em pastel,


São o grito que pintei.


 


De todas as paisagens que visitei com prazer,


São livros para ler,


São amigos para conviver…


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


04/05/2019


24.03.18

Esta melancolia, aprisionada na tua mão, meu amor,


Esta triste despedida,


Na calçada sofrida,


Quando o beijo esvoaça na fogueira prometida.


O sangue frio do massacre, lá longe, na sanzala, os perdidos cabelos de Primavera,


Quando a fala,


Quando o silêncio do teu sorriso,


Perde o juízo,


Sonâmbulo das cavernas, no limiar da pobreza,


A bela,


A bala na cabeça de um canhão,


E tu, meu amor,


E tu meu amor procurando a sombra do coração,


Desisto.


Insisto,


Desisto da tua fotografia esbranquiçada,


Na sala malvada,


Insisto no pôr-do-sol ao final da tarde,


Saio de casa,


Procuro-te no arrozal,


E finjo ser um poeta, e finjo ser a fogueira que arde…


Sobre ti, meu amor, sobre ti.


O miúdo com a fralda de fora,


Da praia regressa o secreto amor,


Aqui mora,


Habita a mais bela flor,


Que o meu quintal acolhe,


A sede,


O molhe,


As rochas envenenadas pela madrugada,


Sofre, descansa, abraço-te minha amada,


Que toda a vida teve.


Eu vi, quando acordei,


A esplanada do amanhecer,


Sabes, meu amor,


Chorei,


Cansei da vida sem prazer,


Respirar,


E morrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Março de 2018


12.06.17

Na arte de sofrer,


Quando dentro de mim arde um corpo esquelético, e sem o saber,


Ele ilumina a noite que se cansou de crescer,


 


Tenho nas raízes solares a vontade de partir…


Caminhar naquele rio absorvente


Que engole todos os corações,


Tenho nas mãos o sangue valente


Das marés e dos canhões…


Que me obrigam a sorrir,


 


Na arte de sofrer,


Deixo para ti o prazer…


O prazer de escrever,


 


No prazer de morrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12 de Junho de 2017


06.12.16

Todas as palavras voam sobre o mar,


Há-de haver uma gaivota em desejo


Nos vulcões suspensos do prazer,


O fingimento da madrugada


Quando a pobreza habita um corpo cansado de viver…


Há-de haver uma calçada


Nos meandros do beijo,


Uma palavra para escrever


Em cada olhar viciado na cobardia,


Em cada olhar disfarçado de lágrimas solares,


Em cada ensejo


Todas as palavras voam…


Todos os mares correm


E morrem,


Nos corredores em silêncio azulejo,


A cada dia,


Todas as palavras,


Morrem,


Morrem depois do amanhecer,


E na escuridão do ser,


E na mão do ter…


Resta esta árvore de sofrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


06/12/16


06.06.16

Amanhã não estarei nos teus braços


Amanhã vou ser um sonâmbulo invisível


Passeando no jardim dos pecados


O meu corpo transformar-se-á em gaivota


Coisa pouca para os tempos que correm


Poderia ser um avião


Sem motor


Ou um barco sem quilha…


Com uma bandeira colorida


Amanhã não estarei nas tuas palavras


Que incendeias antes de eu acordar


O dia terminará com a minha ausência


E o destino adormecerá nas clarabóias do sofrimento


Levante-se o Réu…


E eu


Eu levanto-me dos teus braços


Escrevo o meu nome na parede da saudade…


E vou esperar pela sentença


Como um condenado ao prazer


Antes de adormecer…


 


Francisco Luís Fontinha


segunda-feira, 6 de Junho de 2016


11.11.15

sofrer


morrer na vaidade da vida


quando a vida é uma vaidade desmedida


sofrer


sonhar e sofrer


mergulhar o corpo na clandestinidade da saudade


vivida


sonhada


sofrida


sofrer e morrer


na vaidade da vida


quando o sonho pertence à saudade


ser


não sendo o ser perfeito


aquele que todos querem que eu seja


um tonto


um desnorteado


sem o saber


absorto


mergulhado no sofrer


sofrendo


não ser


a abelha amestrada do silêncio


a gaivota da solidão sobrevoando a montanha


não o tenho


o amor


e a paixão


de amar


e ser amado


pelos pássaros da madrugada


ao amanhecer


o prazer


de fundir o meu corpo no teu


um só


um corpo


dois destinos


e três maços de cigarros


amanhã


não sendo


sendo o dia da despedida


a carta sem remetente


à deriva


a diva


mulher do meu saber


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 11 de Novembro de 2015


11.04.15

Não sei


Meu amor


Porque poisam em mim as estória de luz


Às vezes amo-te


Não desconheço se tu


És


Um livro, um poema, uma imagem ou um triciclo em madeira


Poderias ser o regressar ao ponto de partida


Luanda


Mil novecentos e sessenta e seis


Número três


Vila Alice


 


Os berros e os espirros dos automóveis pôr-do-sol


A naftalina do olhar


Na gaveta do sexo


Imagino o teu corpo


Meu amor


Um odor de palavras


Inseminadas por uma caneta de tinta permanente


Permanente


Eu


Aqui


Nesta


Vida de “merda”


 


Nunca


Meu amor


Quis


Nunca meu amor


Quis ser poeta


Sei que não o sou


Nem serei


E nem quero


A paixão da alma


Na fala desenhada


Pela mão do murmúrio


A aldeia em chamas


 


E os transeuntes


Entre estradas de gelo


E bermas de cansaço


Não


Meu amor


Não existem noites coloridas


Em sapatos em verniz


Bicudos


As calças embrulhadas nos tornozelos


E os ossos embalsamados


Alimentava-me dos teus lábios


Meu amor


 


Perdi


Tudo


A imagem da tridimensional alegria


Hoje


Sou


Um


Gajo


Triste


E tímido


Como as andorinhas da tua casa


Os torrões de açúcar dos melancólicos teus seios


Sou


 


Um


Gajo


Triste


E tímido


Hoje


As equações dormindo debaixo da cama


(o gajo está apaixonado)


Os palermas acreditando que


Amanhã


Um


Gajo


Tímido


 


Tão cinzento


Como a própria noite


Sem vaidade


Número de polícia


Ou


Ou cidade


As máquinas assassinam


O dormitório do prazer


A cama


Meu amor


Desfeita


Em aventuras de algodão


 


E


Não


Não pertenço aos teus símbolos de sombra


Deixei de ter janelas


E portas


A minha casa


Sem


Telhado


Sem


Meu amor


Não


Não esta triste cidade


 


Sem shots de tristeza


Ou


Sexo


Barato


Sabes


Meu amor?


A inveja é uma chávena de café-com-leite


E torradas


A neblina invade


Os


Teus olhos


A neblina invade os teus olhos


 


Entre cartas e telegramas


Mãe?


Sim


Meu amor


Fui


Assaltado


Stop


Envia


Dinheiro


Ok


Beijo


Não meu amor


 


Não sei a cor dos teus olhos


Nem da tua pele


Não


Não meu amor


Amanhã é sábado


E não sei se te amo…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 11 de Abril de 2015

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