Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


14.01.23

No silêncio da noite

Abraço-me às cinzas do teu olhar

Derradeiro desejo que toca a tua pele incandescente

Que no lençol do prazer

Deixa ficar as palavras murmuradas,

 

Na lareira

Os meus ossos desistem da madrugada

E a terra arável das minhas mãos

Evapora-se nos teus seios,

 

Como são transparentes as tuas mãos que me tocam

Num infinito gesto de protecção

Como são belos os teus olhos que me excitam

E desenham em mim as estrelas sem nome

E me oferecem os gemidos nocturnos da paixão,

 

Do silêncio da tua pele

Pedacinhos de mar escondem-se nas tuas coxas de insónia

E da lareira onde os meus ossos desistem da madrugada

Vem a mim o teu orgasmo disfarçado de sono,

E a manhã acorda numa fotografia

E traz a prisão das Pirâmides

E os dedos que te excitam nas noites envergonhadas…

 

 

 

 

Alijó, 14/01/2023

Francisco Luís Fontinha


28.11.22

Nunca vi o mar.

Se eu pudesse, desenhava o mar nos teus olhos, se eu pudesse, escrevia o poema nos teus lábios quando nasce o Sol, depois, subia à montanha mais alta do planeta terra e conversava com Deus; se eu pudesse conversar com ele, não lhe diria nada, como nada digo com quem converso.

Mas reconheço que tenho uma certa inquietação e digamos que…

Um desejo?

Não, minha querida, não.

Mas se eu pudesse, perguntava-lhe onde estão todos os papagaios em papel que lancei, e hoje, brincam juntamente com ele, no céu.

Mas reconheço que tenho uma certa inquietação e digamos que…

Medo?

Não, minha querida, não,

Sabes, nunca tive medo.

Pela manhã pedíamos uísque, torradas e cigarros, depois, levantávamos voo sobre a cidade e só voltávamos quando sabíamos que todos os barcos que dormiam no Tejo já tinham zarpado em direcção ao terceiro esquerdo da rua nas floreiras adormecidas; subíamos as escadas, cambaleando no sono invisível da madrugada, abríamos a porta de entrada, com acesso a uma pequena divisão onde adormeciam livros, discos e sombras e fotografias, depois abríamos a janela e da rua chegavam a nós todos os nomes que tinham passado pelos corpos que às vezes deixávamos junto à esplanada, o Tejo, cansado da noite, deitava a cabeça nas minhas pernas, declamava-lhe um poema e ficávamos assim, invisíveis, até que a noite descia sobre nós – na algibeira, cinco cêntimos de euro.

As palavras que lançávamos contra a parede que dava acesso à varanda, e sempre que acreditávamos que tínhamos o Sol escondido no peito, depois de bateram contra a janela, acabavam por regressar a nós.

E se podíamos deitar fora todas as coisas possíveis e imaginárias, às palavras, nunca o conseguimos, até que um dia, eu e o mar, começamos a lançar da varanda, papeis escritos e rasurados, desenhos, riscos, diversa mobília e um par de calças; e não sabíamos que a paixão tinha tomado conta das nossas mãos, e uma noite, percebi que tinha a minha mão entrelaçada com a mão do mar.

Medo?

Não, minha querida, não,

Sabes, nunca tive medo.

Fiquei tão feliz, olhei-o e pela primeira vez, beijei o mar.

Um desejo? E o Tejo?

Não, minha querida, não.

A alvorada trazia a nós todas as canções que a noite semeava num qualquer bar, numa qualquer rua, junto ao rio. Do meu mar, aquele que nunca tive a oportunidade de olhar, escrever ou pintar, chegavam a mim todos os silêncios que um poeta medíocre como eu, poderia ter.

E mesmo assim, quando me faltavam as palavras, tocava-lhe nos seios, e já com as minhas mãos nas suas coxas poéticas que apenas a noite consegue descrever (eu nunca serei capaz de o fazer), deixava sobre a sua pele o mais belo poema de amor.

Acusaram de homem louco. Acusaram o poeta de medíocre, e hoje vende versos ao domicílio com a promoção de leve dois e pague um. E não é preciso adivinhar o resultado, quando ninguém consome poesia nos dias de hoje; a fome.

O desejo invadia-nos naquele apartamento e no terceiro esquerdo da rua nas floreiras adormecidas, eu e o mar, escrevíamos no pôr-do-sol as lágrimas das manhãs que teimavam em regressar sempre ao teu púbis, como se este, ao contrário das ruas e de todos os esconderijos da cidade, fosse o único lugar do planeta terra onde poderia encontrar Deus; e ele, nunca me quis ouvir.

Um desejo?

Não, minha querida, não.

E a paixão habita neles como habitam em mim os papagaios que fazem companhia a Deus, nos céus de Luanda.

 

 

 

 

 

Alijó, 28/11/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


09.12.21

Quando acorda a madrugada

E poisa docemente no chão

A triste geada;

Levanta a mão

Sobre o amanhecer,

 

Como se fossem silêncios de escrever,

Como se fossem palavras a arder,

No corpo algemado

Ao sombreado

Erguer.

 

Quando acorda a madrugada,

Acreditando,

Tal como eu, na noite encantada,

Da noite amedrontada,

Levantando

 

A mão sobre o amanhecer.

E que me sento sem o saber,

Puxo uma cadeira invisível, depois de puxar um leviano

Cigarro sem asas; oiço a voz rouca do piano

Saltitando na sala procurando o prazer.

 

Talvez o prazer

De ler.

Talvez o medo de viver,

Esta vida das palavras amarguradas,

Esta vida dos livros poeirentos,

 

Talvez das tristes madrugadas,

Acordem todos os sentimentos,

Talvez o prazer

De ler,

Talvez o prazer de nada fazer.

 

Quando acorda a madrugada

E poisa docemente no chão

A triste geada;

E este alegre coração,

Voa sobre o mar agachado na areia…

 

Talvez o prazer

De ler.

Talvez o prazer

De escrever.

Talvez seja tudo isto que me chateia.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 09/12/2021


23.09.21

Vivia no púbis desejado

Do silêncio amanhecer,

Cresceu em mim e, partiu

Da vida que sempre quis ter.

Certo dia, recebeu um telegrama envergonhado,

Não trazia remetente,

E assim,

O eterno enforcado,

Desconhecia

Que o seu amante

Pretendia,

Um dia,

Lhe escrever.

Como alguém dizia;

- Cuidado, eterno enforcado,

Viver no púbis desejado,

Não é a mesma coisa

Que pertencer ao beijo amado.

E o pobre do eterno enforcado,

Cioso da vergonha alheia,

Sentou-se numa pedra de espuma

Pensando que ao longe, na aldeia,

Habitavam as coxas moribundas

Das janelas em cio;

Que vergonha, eterno enforcado,

Que vergonha!

Púbis e coxas há muitas na saliva do prazer,

Palavras de merda, como as minhas, acordam ao entardecer,

E sabendo que o vagabundo

Do eterno enforcado,

Viajou,

Correu mundo…

E não passa de um triste amado.

Deixou-se penhorar

Pelo prazer

Num dia de Verão,

Sentado, não sabendo ler,

Percebeu que as árvores em flor,

São coxas,

São púbis,

São canção

De embalar,

São versos de amor,

São sílabas de foder.

Dois mais dois

São quatro braços abraçados,

Duas pernas,

Alguns enforcados,

E vinte e cinco sombras a voar;

Sabes, eterno enforcado?

A vagina é uma fotografia para o mar,

É a raiz quadrada do prazer,

É cateto amanhecer,

É hipotenusa maldisposta,

E mais dois são seis,

Seis versos de embalar…

Seis versos sem resposta.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23/09/2021


04.05.19

De todas as paisagens que visitei com prazer,


São os teus olhos a arder,


No meu rosto de sofrer.


 


São flores,


De todas as cores,


No meu jardim imaginário,


São flores,


São rumores…


Na cabeça do lampadário.


 


De todas as paisagens que visitei com prazer,


São palavras minhas no teu corpo de escrever,


São rosas a sorrir, são rosas a sofrer.


 


São gladíolos de papel,


Barcaça, batel…


De todas as paisagens que visitei,


São telas em pastel,


São o grito que pintei.


 


De todas as paisagens que visitei com prazer,


São livros para ler,


São amigos para conviver…


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


04/05/2019

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub