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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.05.13

Significo nada


como uma pomba sem pátria


significo muito pouco ou quase nada


quando das ilhargas manhãs de Primavera


oiço as vozes camufladas


por nuvens e gaivotas acorrentadas,


 


Significo apenas um número com dígitos assombrados


significo quase nada no jardim das plumas árvores vestidas em purpúrea


entre migalhas de porcelana


e beijos inseminados nas ventosas gargantas da montanha branca


significo... não o acredito depois de ver desaparecer os muros em cartão


que separavam o meu quintal dos tristes fins de tarde,


 


Contávamos os barcos com letras pintadas a oiro


e bandeiras em pano de alecrim


gritávamos como os loucos entre janelas com grande ferrosas


e pequenos arbustos de asas de algodão...


significo nada


como uma pomba tristemente abandonada num País sem Pátria.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


13.07.11

Francisco,


Sim pai!, promete-me que quando eu morrer colocas as minhas cinzas no mar, Sim pai!, prometo, Prometes mesmo?, sim, não se preocupe, e agora não posso deixar de cumprir a promessa, e o vento levou-me as cinzas, paciência, e ele pensava, tanto faz, cinzas com água ou cinzas com terra, deve ser tudo igual,


 


De boca aberta deixa as pombas comerem a comida, estúpido de cão, tão parvo, e tão parvo, estúpidos de pássaros semeados no meu quintal, estúpidas de pombas que comem os insetos pequeníssimos que poisam no casaco do meu cão, e estúpida esta tarde de Julho,


- Francisco, Regaste as alfaces?, e eu respondo-lhe que sim, Sim pai, reguei!, e claro que me esqueci das alfaces, Porra, eu nem sabia que tínhamos alfaces…,


Temos alfaces, Pai?, junto à bananeira, rés-do-chão direito, Exatamente pai!, desculpe, confundi as horas, Estão regadas, não se preocupe,


- O que eu pensava que eram ervas, afinal são alfaces, meditava o Francisco,


A vida, pai!, O que tem, filho?, Não faz sentido, Percebe?, não, não percebe, não, não percebo, repare, digo-lhe eu, repare, pai, nascer crescer e morrer, E depois?, Que prazer, pai, que prazer tem deus de nos dar vida e depois, e depois, pai, depois voltar a tirá-la?, Isso é muito complicado para a minha cabeça, o  que me preocupa são as alfaces,


- Malditas pombas que comem a comida toda do cão, gritava o meu pai da cama,


Francisco,


Sim pai!, Já foste ao correio hoje?, Sim, pai, E então?, nada, Nada?, sim, pai, nada, hoje não houve correio, Greve?, Não, pai!, ninguém nos escreve, sussurra o Francisco nas meditações no corredor, ninguém, pai, ninguém, só pombas esfomeadas a devorarem a comida do cão, nada mais que isso,


- Nada mais que isso a tarde estúpida de Julho, os malmequeres no jardim que me olham, a corda pendurada nas traseiras da casa, a as alfaces enforcam-se, pai, as alfaces entaladas nas frestas da tarde, E sabe, pai!,


Sim, filho!,


Hoje estou triste.


Porquê, filho?


Pai, desculpe-me!, prometi deitar as suas cinzas no mar, e veio o vento, sim filho, veio o vento e levou-as, penso, não tenho a certeza, as palavras sulfatadas do Francisco, penso que as suas cinzas caíram no chão gretado da terra,


- Deixa lá, meu filho, deixa lá,


Responde-me ele, no mar ou na terra deve ser tudo igual. São cinzas.

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