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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.12.22

Se Deus quisesse

Hoje era sábado

Amanhã seria domingo

Ontem

Ontem seria quinta-feira

Porque às sextas eu não posso

Porque à sexta estou muito ocupado

 

Se Deus quisesse

Não havia guerra no Mundo

E oiço-os em coro (ó palerma, Deus não tem culpa da guerra)

Pois

Pois

Se Deus quisesse não fazia homens estúpidos

Imbecis

Gananciosos…

Os que fazem a guerra

 

Se Deus quisesse

Os pássaros usavam óculos

E motores a jacto

Viam melhor nas curvas

E nunca se cansavam

E já agora…

Rodinhas para deslizarem no pavimento

 

Se Deus quisesse

Havia todas as quintas-feiras

Pelas dezassete horas e trinta minutos

Sessões de Poesia no Jardim Doutor Matos Cordeiro

Mas…

Mas como este Deus é muito estúpido

Nem há poesia no Jardim

Nem há Jardim da Poesia

Nem há poemas

Nem há nada

(há bombos e que mais querias tu?)

 

Se Deus quisesse

Se Deus quisesse só chovia às terças e às quintas e aos sábados

Às Segundas e às sextas

Tínhamos sol aos quadradinhos

E ao domingo

Ao domingo temos moelas e churros

E descanso semanal do pessoal

(e oiço… é uma dose de quitetas para a mesa junto à televisão)

 

Se Deus quisesse

Todas as crianças eram felizes

Nenhuma criança tinha fome

Não é que Deus não queira

O problema é que Deus fez pais e mãe imbecis e estúpidos e tudo o mais

Como os que fazem as guerras

Como os que matam as crianças que querem ser felizes

(as calças que me deram hão-de ajusta-se ao corpo… AL Berto)

 

Se Deus quisesse

Ninguém morria

Não é que Deus tenha mão na morte

Mas em todo o caso…

Podia dar um jeitinho a uns

E um empurrãozinho a outros (aos filhos da puta, filhos da puta para os filhos, filhos da puta para os pais, filhos da puta para a mulher, filhos da puta para o Universo, esses podiam morrer todos)

(eu morrerei, ele morrerá, depois morrerá a placa onde está escrito Tabacaria… ai meu grande senhor Álvaro de Campos)

 

Seu Deus quisesse

Ai se Deus quisesse

Quisesse ele ser

Que ele seria

Não

Às sextas não posso

Se Deus quisesse

À noite podia haver sol

E de dia

E de dia haver luar

(grande estúpido este, então não era só trocar o dia pela noite?)

Às sextas estou muito ocupado.

 

 

 

 

Alijó, 30/12/2022

Francisco Luís Fontinha


02.12.22

Encurralado entre vírgulas e parêntesis

Este corpo encostado à marginal

Sou espiado por um barco

Que pincela os olhos de encarnado

E nas unhas

O invisível verniz da paixão

 

O vento me leva

O vento nunca mais me vai trazer

 

E no entanto

Bebo

Fumo

Escrevo

 

O que importa se vou e não regresso?

 

Se tantos barcos da minha vida

Partiram

Fundearam

E hoje

São sucata no fundo do mar

 

Depois

Gosto da noite

Amo os meus poetas

Ouvi-los

Lê-los

 

E às vezes

Converso com eles

 

Adoro conversar com o AL BERTO

Com Cesariny

Cruzeiro Seixas

Alexandre O'neill

 

Sentar-me lado a lado com o Pacheco…

Depois ele pede-me vinte paus

Mas como ando sempre teso

Ficamos apenas pela conversa

 

E quando dou conta

A noite já não é noite

A noite acordou

Eu não dormi

A noite deixou de me pertencer

Mas como eu amo a noite

Fico como se tive morrido

E se me perguntarem (morreu de quê?)

Alguém dirá

Morreu

 

O vento me leva

O vento nunca mais me vai trazer

 

E eu acordo

E eu adormeço

E eu caio

E eu me levanto

 

E o vento me leva

E o vento nunca mais me vai trazer

 

Escrevo-lhes

Oiço-os

 

E habito neste pequeno silêncio de asas.

 

 

 

 

 

Alijó, 02/12/202

Francisco Luís Fontinha


08.06.16

Ninguém morre sem primeiro experimentar o veneno da saudade,


O cintilante cansaço dos dias


Nas veias do condenado transeunte,


A cidade…


Ausente,


Meticulosamente só como os poetas da madrugada…


Sem nada na mão


Sem palavras escritas ou cantadas…


A caneta da solidão


Cravada no peito,


A espada do silêncio


Voando sobre as aldeias insignificantes


Do poema,


Como eu


Esperando o regresso do deserto


Sobre esta cama em chamas.


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 8 de Junho de 2016


01.05.16

(à minha mãe)


 


Sou um marinheiro sem barco nem porto onde aportar.


Trago comigo a âncora da solidão cravada no coração,


Trago comigo a ausência do destino abandonado,


Sinto-me um velho encravado nas estrelas,


Pegando num livro de um poeta morto; todos os meus poetas morreram…


E pertencem agora aos meus sonhos.


Sou um verdadeiro falso,


Um falso feliz caminhando junto ao Douro,


Descendo os socalcos do teu corpo,


Encurvados na paisagem abstracta do silêncio,


Sou um privilegiado,


Tenho o dia e a noite,


Doce paixão dos mares amargurados,


Dos barcos apaixonados,


Como eu,


Apaixonado pelas tuas palavras,


Não vás.


Tenho nas veias o rio da morte,


A insónia saboreando o suspiro da noite,


Sofro tanto… meu querido,


Os apitos junto ao mar,


Eu menino agachado nas saias da minha mãe,


Via a cidade escurecer,


Desaparecer,


E morrer,


Apenas caixotes de recordações,


E o beijo da minha mãe,


Sou um marinheiro da madrugada,


Um sifilítico cadáver do desejo,


Nos teus braços,


Mãe,


As fotografias dos negros rostos da nossa infância,


As palmeiras que incendiavam o teu amor,


Junto à baía,


Os gritos das serpentes que deixamos nos quintais das outras brincadeiras,


Os pássaros, mãe, os pássaros,


Junto à janela!


 


 


Francisco Luís Fontinha


1 de Maio de 2016


17.05.15

Vejo-te partir,


Sem o sentir,


Vejo-te partir…


E faltam-me as palavras para te acompanhar,


Para te fazerem sorrir,


E voares como os pássaros da minha infância,


Vejo-te partir,


Na ausência,


De nunca,


De nunca regressares,


Ao meu livro,


Ao meu poema,


 


Vejo-te partir da minha poesia…


Como uma fera,


Ou uma pena,


 


Enquanto desce a noite sobre os teus ombros de pó.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 17 de Maio de 2015

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