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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.06.16

Ninguém morre sem primeiro experimentar o veneno da saudade,


O cintilante cansaço dos dias


Nas veias do condenado transeunte,


A cidade…


Ausente,


Meticulosamente só como os poetas da madrugada…


Sem nada na mão


Sem palavras escritas ou cantadas…


A caneta da solidão


Cravada no peito,


A espada do silêncio


Voando sobre as aldeias insignificantes


Do poema,


Como eu


Esperando o regresso do deserto


Sobre esta cama em chamas.


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 8 de Junho de 2016


01.05.16

(à minha mãe)


 


Sou um marinheiro sem barco nem porto onde aportar.


Trago comigo a âncora da solidão cravada no coração,


Trago comigo a ausência do destino abandonado,


Sinto-me um velho encravado nas estrelas,


Pegando num livro de um poeta morto; todos os meus poetas morreram…


E pertencem agora aos meus sonhos.


Sou um verdadeiro falso,


Um falso feliz caminhando junto ao Douro,


Descendo os socalcos do teu corpo,


Encurvados na paisagem abstracta do silêncio,


Sou um privilegiado,


Tenho o dia e a noite,


Doce paixão dos mares amargurados,


Dos barcos apaixonados,


Como eu,


Apaixonado pelas tuas palavras,


Não vás.


Tenho nas veias o rio da morte,


A insónia saboreando o suspiro da noite,


Sofro tanto… meu querido,


Os apitos junto ao mar,


Eu menino agachado nas saias da minha mãe,


Via a cidade escurecer,


Desaparecer,


E morrer,


Apenas caixotes de recordações,


E o beijo da minha mãe,


Sou um marinheiro da madrugada,


Um sifilítico cadáver do desejo,


Nos teus braços,


Mãe,


As fotografias dos negros rostos da nossa infância,


As palmeiras que incendiavam o teu amor,


Junto à baía,


Os gritos das serpentes que deixamos nos quintais das outras brincadeiras,


Os pássaros, mãe, os pássaros,


Junto à janela!


 


 


Francisco Luís Fontinha


1 de Maio de 2016


17.05.15

Vejo-te partir,


Sem o sentir,


Vejo-te partir…


E faltam-me as palavras para te acompanhar,


Para te fazerem sorrir,


E voares como os pássaros da minha infância,


Vejo-te partir,


Na ausência,


De nunca,


De nunca regressares,


Ao meu livro,


Ao meu poema,


 


Vejo-te partir da minha poesia…


Como uma fera,


Ou uma pena,


 


Enquanto desce a noite sobre os teus ombros de pó.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 17 de Maio de 2015


13.05.15

Há-de nascer nos teus lábios


A madrugada em papel


Com desenhos em lágrimas de silêncio


Depois


Descerá a Lua


E todas as estrelas de sorriso monótono…


Sobre ti


Com o perfume do desejo


Suspenso na tarde húmida do teu corpo


Há-de nascer


Um dia


Uma noite,


 


Qualquer


Indivisa


Sem fim


Nos parêntesis da paixão,


 


Há-de nascer


Sobre ti


E em ti


O poema abandonado


E esquecido


Que o poeta escreveu


Antes


De acordar


Em ti


E sobre ti


Há-de…


Crescer na tua mão,


 


E só com a morte irá partir!


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 13 de Maio de 2015


01.05.15

“Mãe, as pedras falam?


Um dia, um dia… meu filho!”


 


O silêncio adormecia em ti


Como adormecem todas as tristezas


Dos dias insignificantes


Entre poesia


E viagens ao desconhecido


Tínhamos todas as imagens do sono


Habitava em nós o cansaço


E a solidão da noite


Ouvíamos o ranger da janela


Em pérfidos orgasmos de prata


O silêncio das coisas inacessíveis


O sexo desacreditado


Numa cama de um qualquer hospital


As lágrimas


Nas janelas


Para…


O mar, mãe?


Um dia, um dia… meu filho!


No poço da penumbra


Os teus braços engasgados no medo


O amor


Quando inventado na madrugada de papel


E deixamos perder o luar


Amanhã, mãe, amanhã as pedras falam?


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 1 de Maio de 2015


30.04.15

O significado da paixão


De todas as noites



Encerrado entre cinco paredes


Um pavimento


E tecto


Aluga-se


Meu amor


Barato


Farto das palavras


E do sindicato


Todos os Domingos


Feriados…


E… Domingos


Lembro-me de ti


Meu amor


Da carroça de bois


Penhorada ao silêncio


Das ervas


E


Dos cheiros


A morte alimenta-me


Sinto-a perto de mim


Como sentia o cheiro a “puta”


Quando…


Lisboa


Cais do Sodré


Fome


Não fome


E literatura


Farto-me


De ti


De mim


E deles


O significado da paixão


Pintado na parede da solidão


As palavras reduzias ao pó da insónia


Cresce


A


Noite


Em ti


Meu amor


Das palavras


E palavras


Limitada


Angola à vista


Apenas no mapa da infância


Meu amor


As sílabas apaixonadas do teu corpo


No meu corpo


O inferno


A chuva


Outra vez…


A paixão


O ódio das tristes tardes no jardim


Outra vez o jardim


E o beijo


Outra vez a vida


E o desejo


Em ti


Das minhas tristes palavras…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 30 de Abril de 2015


19.04.15

A casa amarela


Dos segredos invisíveis


A impossibilidade de amar


Quando o vulcão da esperança


Em línguas de fogo


A aventura de cessar


Todos os prazeres da vida


Deixar de viver


Meu amor


Estando vivo


Deixarei de pertencer aos sábados melancólicos


Se me abraçares no espelho da paixão


 


Deixei de perceber o amor


E perdi-me no tempo


Não sei o que é amar


Quando amado fui


E amado não serei mais


As mãos


As tuas mãos pinceladas no meu corpo


A atmosfera embriagada das cancelas do amanhecer


O amor imperfeito


Ingénuo


Ambíguo…


Amanhã


 


Meu amor


Domingo


Sem sentido


Perdido


Eu


Nas tuas sombras de incenso


Pego nas tuas asas de papel


Escrevo uma mensagem


E voas


Como corpos em cinza


Levados pelo vento


Das tristes insígnias


 


Tenho medo


Meu amor


De amar-te


Quando percebi


Que não sei amar


Sou um imbecil


Um… um vulto de nada


À janela


Olhando a tua alegre beleza


Na escondida esplanada


Sentados


Brincamos às escondidas


 


Eu escondo-me


Tu escondes-te


… e ele


Eu


Escondido no teu peito


A masturbada cintilação


Das palavras em flor


Os livros comprados


Meu amor


As palavras penhoradas


Por ti


Quando a minha vida


 


Valia quase nada


Não tenho preço


Nem idade


Nem fotografia


Sou um triângulo apaixonado


Pelas janelas das equações diferenciais


O caderno


Em quadrados


O teu corpo


O meu corpo


Em pedaços de rectas


Sem destino


 


Tu


Ao acordar


A carta de despedida


Envidada


Do cansaço


Atravessava a eira


Sentava-me


Meu amor


Ouvia o sino de Carvalhais


Meu amor


Oito horas da noite


Vejo-a


 


Sinto-a


Quando a janela em liberdade


Me trazia o som das cigarras


Pensava em ti


Pensava na Teoria da Relatividade


Ai…


Meu amor


A saudade


Caminhava sobre o teu corpo de gesso


A iluminação da alegria


Hoje


Não


 


Meu amor


Hoje eu não te mereço…


Tenho em mim a tua morte


Sílaba apaixonada


Das pedreiras abandonadas


Vou


Não regresso


Meu amor


Aos teus braços


Sei que a noite me mantém vivo


Porque cerro os olhos


Pego numa tela vazia


 


E desenho o teu sorriso de granito…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 19 de Abril de 2015


11.04.15

Não sei


Meu amor


Porque poisam em mim as estória de luz


Às vezes amo-te


Não desconheço se tu


És


Um livro, um poema, uma imagem ou um triciclo em madeira


Poderias ser o regressar ao ponto de partida


Luanda


Mil novecentos e sessenta e seis


Número três


Vila Alice


 


Os berros e os espirros dos automóveis pôr-do-sol


A naftalina do olhar


Na gaveta do sexo


Imagino o teu corpo


Meu amor


Um odor de palavras


Inseminadas por uma caneta de tinta permanente


Permanente


Eu


Aqui


Nesta


Vida de “merda”


 


Nunca


Meu amor


Quis


Nunca meu amor


Quis ser poeta


Sei que não o sou


Nem serei


E nem quero


A paixão da alma


Na fala desenhada


Pela mão do murmúrio


A aldeia em chamas


 


E os transeuntes


Entre estradas de gelo


E bermas de cansaço


Não


Meu amor


Não existem noites coloridas


Em sapatos em verniz


Bicudos


As calças embrulhadas nos tornozelos


E os ossos embalsamados


Alimentava-me dos teus lábios


Meu amor


 


Perdi


Tudo


A imagem da tridimensional alegria


Hoje


Sou


Um


Gajo


Triste


E tímido


Como as andorinhas da tua casa


Os torrões de açúcar dos melancólicos teus seios


Sou


 


Um


Gajo


Triste


E tímido


Hoje


As equações dormindo debaixo da cama


(o gajo está apaixonado)


Os palermas acreditando que


Amanhã


Um


Gajo


Tímido


 


Tão cinzento


Como a própria noite


Sem vaidade


Número de polícia


Ou


Ou cidade


As máquinas assassinam


O dormitório do prazer


A cama


Meu amor


Desfeita


Em aventuras de algodão


 


E


Não


Não pertenço aos teus símbolos de sombra


Deixei de ter janelas


E portas


A minha casa


Sem


Telhado


Sem


Meu amor


Não


Não esta triste cidade


 


Sem shots de tristeza


Ou


Sexo


Barato


Sabes


Meu amor?


A inveja é uma chávena de café-com-leite


E torradas


A neblina invade


Os


Teus olhos


A neblina invade os teus olhos


 


Entre cartas e telegramas


Mãe?


Sim


Meu amor


Fui


Assaltado


Stop


Envia


Dinheiro


Ok


Beijo


Não meu amor


 


Não sei a cor dos teus olhos


Nem da tua pele


Não


Não meu amor


Amanhã é sábado


E não sei se te amo…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 11 de Abril de 2015


10.04.15

O cansaço


Das palavras tuas


Que vives dentro de mim


Acordas-me


E manipulas-me


Nas tuas mãos


Sou um boneco de sombra


Um esqueleto envelhecido


Sem tempo para amar


Amado


O sofrimento


O cansaço


Acordas-me


Nas tuas mãos


Sinto a alvorada voando em pedaços de cinza


A alma dos cigarros


Suspensa no meu peito


A vida é um espelho sem nome


Um coração de pedra


Esfomeado


Galgando as ruas desta cidade


Embriagada pelo silêncio nocturno


Dos corpos sobrepostos


Entre paredes


Os gemidos da madrugada


Sentidas


Manhãs em sargaços nevoeiros de espuma


Os teus lábios


Meu amor


Sem sílabas para conversar


Os teus olhos


Despedidos pela sonolência da paixão


Amar


Amar


Meu amor


Sem saberes


Que as cancelas da solidão


Apodrecidas


Viajam


Na morte


E mesmo assim


Dizes que amas os candeeiros de prata


Escondidos nos edifícios anónimos


Dos pássaros de papel


Da morte


As viagens


Entre rios


Mares


E marés de insónia


Apaixonadas lareiras do prazer


Quando o sémen de chocolate


Invade os textos não escritos


Secretos


Sem dedicatória


Meu amor


(O cansaço


Das palavras tuas


Que vives dentro de mim


Acordas-me


E manipulas-me


Nas tuas mãos)


O autógrafo no teu rosto


Para…


Com amizade


Abraço


Beijos


Amo-te?


Talvez sejas um cortinado melódico


Na boca do poeta


Talvez sejas uma metáfora


Entroncada na ferrugem da vertigem


Quando as articulações cedem…


E o extinto luar


Se despede do teu corpo


Ficas louca sobre a cama do saber


E nas personagens invisíveis de mim


Sobre ti


O cansaço


De estar vivo


E olhar-te


Sem saber


Que


Amanhã


Serei um pequeno parágrafo esquecido numa folha de papel…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 10 de Abril de 2015


31.03.15

O fim


Duas rectas paralelas…


… Abraçadas


No infinito cansaço


A sinfonia das pálpebras em veludo


Na sombra do amor


Gaivotas tontas


Tontas… tontas flores de papel


Sobre o teu ventre


Envenenado


O fim


Duas


 


Rectas


Longas


Infinito…


Abraçadas


Triste


A distância


Triste


A solidão nos dias em companhia


Os livros


Me alimentam


Abro a janela


O Douro à espreita


 


Nos barcos azuis da madrugada


O comboio pára


Os homens e as mulheres


Nos livros


Triste


Infinito…


E longas


As tardes sem ti


Adormecia no teu colo


E inventava aviões de musgo prensado


Olhava as lâmpadas dos teu olhar


O tecto dos teus seios


 


No mar


O comboio se esconde no teu púbis


E entre apitos


Uma nova paragem


As mão


Escalam o teu corpo de cera


Em chamas


Não sei o teu nome


Meu amor


Sei o dia em que nasci


Sei o dia em que vi o mar pela primeira vez…


Mas o teu nome


 


Meu amor


As mãos


Nos livros


Triste


Infinito…


E longas (pernas)


Ruelas sem saída


Mulheres de ébano


Semeadas no passeio da ilusão


O esqueleto meu amor


Dançando sobre a praia


Nua (ela ou ela?).


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 31 de Março de 2015

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