Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


22.01.22

Sem Título.jpg

O teu corpo;

A sebenta onde adormeço o poema cansado,

Onde deito os beijos desejados,

Entre o espaço abraçado,

Entre os versos envenenados.

 

O teu corpo;

Engraçado,

Equação sem nome

E que brinca no caderno quadriculado,

No cansaço sem fome,

 

Do cansaço aguentado.

O teu corpo desejado

Que caminha sobre o mar,

É o teu corpo argamassado,

Argamassado nos poemas de amar.

 

 

Alijó, 22/01/2022

Francisco Luís Fontinha


19.01.22

Aos beijos versados

Argamasso as palavras envenenadas no silêncio,

Escuto, sinto a tua voz melódica de incenso

Quando voa na ressurreição do desenho,

E nas catacumbas da solidão,

Vejo os teus lábios incinerados na madrugada,

 

Como se todos os pássaros fossem filhos de Deus.

Há na palavra

Uma oração cansada,

Distante de mim,

Distante da alvorada.

Aos beijos versados

 

Lanço as flores do meu jardim,

São flores em liberdade,

São pedaços de mim.

E o poema ergue-se como se erguem as vozes

Que chamam por Deus,

Ou que se revoltam contra Deus,

 

Como se Deus fosse o culpado,

Do poema estar envenenado,

Ou…

Os teus beijos

Sejam versados,

No espelho da paixão.

 

Aqui me sento sem prazer,

Lendo, escrevendo,

Ou em nada fazer.

Mas dizem que Deus está a ver,

Que nos olha como olhava por mim

A minha mãe, em viagem sem regresso…

 

Ao pó os teus pedaços ósseos

Na garganta do tumor,

E que esta viagem sem regresso

Seja apenas uma fotografia,

Recordação;

Nos beijos versados, o poema está vivo, vivo e em dor.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/01/2022


16.01.22

Manuseia-se na cidade

Em busca das palavras perdidas,

Ouve a voz da saudade

Nas palavras esquecidas.

 

Caminha até ao mar

Vestido de petroleiro,

Perde-se na cidade amar

Nas mãos de um marinheiro.

 

Nas mãos de uma flor desencantada

Passeia-se destemido,

Corre, corre, corre até à esplanada,

 

Corre fingindo que está vivo.

Mas ele é apenas um cadáver perdido,

Perdido sem motivo.

 

 

Do silêncio, às vezes fingido, regressavam as palavras de amar, outras vezes, pensando que estava perdido, tinha na mão a luz camuflada da paixão.

Um dia, ao final da tarde, resolveu emparedar todas as janelas que davam para o mar, mesmo aquela em que ele tinha a oportunidade de fugir; mas para que queria ele fugir, se todos os dias acordava, se todos os dias vivia, vivia fingindo que acreditava, acreditando no que fazia.

Corria fingindo que estava vivo; ninguém acreditava se ele não o dissesse, pois transportava nas mãos o desejo de voar, sabendo que apenas o poderia fazer quando regressasse a noite.

Manuseava-se na cidade em busca de equações de sono e correias e engrenagens, no fundo, procurava as rodas dentadas da vida.

Acreditava, talvez já não acredite, que a vida é uma enorme roda dentada, e que os seus dentes são a saudade; a saudade de tudo e, de nada.

- Corre até ao mar!

Para quê, perguntava ele; se o mar fica tão longe e, a saudade de nada, dorme na solidão da madrugada. Ouviam-se os gemidos da feiticeira, entre rezas e sermões, desenhava nas estrelas buracos negros e, com alguns iões, sabia que amanhã choveria, pois, os iões estavam excitados e, pobre deles, porque ninguém fazia prever que estes acabariam sós, dentro de quatro paredes.

E eis que ouviu a voz da saudade. E eis que a saudade lhe segredou que regressaria todas as noites, antes de ele adormecer; mas será que ele queria mesmo ouvir a voz da saudade?

- Diz-me tu, rapazinho…

Digo que: “uma correia é um elemento mecânico flexível para transmissão de potência”. E como sempre, nada está perdido. Tudo se apanha quando o homem acorda dentro de quatro lençóis de sono, ao cair a tarde.

Rapazinho era ele, quando o sentaram numa velha esplanada e o mar o levou para um Domingo, num mês de Janeiro, precisamente às sete e trinta da manhã; até hoje, alimenta-se de pequenas aparas, algumas brocas e defeituosos parafusos.

A vida poderia ser um parafuso, alguém se dá ao trabalho de o enroscar até ao apero final: a morte.

E a morte é apenas uma equação que quando igualada a zero, obtêm-se o único resultado possível; a saudade.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16/01/2022


15.01.22

Esse corpo embalsamado

Que deslisa na minha mão

É verso cantado

É verso canção.

 

Esse corpo em mim deitado

Flor do campo em construção

É o verso cansado

Cansado de minha mão.

 

Cansado do meu verso cantado

Que sobe a montanha da poesia

Cansado na cama deitado,

 

Deitado e em revolução.

É esse corpo embalsamado que eu sentia

Quando resolvo esta equação.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15/01/2022


13.01.22

Deixei de escrever

Nos lábios da floresta.

Dos pássaros,

Regressam a mim

Os uivos apitos da saudade,

Como se eu fosse uma rocha indomável,

 

Disperso na manhã deserta das gaivotas.

Sei que há nas palavras

Verdadeiras equações de sono,

Versos invisíveis

Que durante a noite se transformam em sílabas,

No poema envenenado.

 

Deixei de escrever

Nos lábios amargos da floresta,

Os beijos nocturnos da insónia;

- Adoráveis submundos nas engrenagens da vida,

Ama-se. Mata-se.

Como se a vaidade fosse um pressuposto

 

Infinito do homem.

Ama-se e inverte-se a claridade lunar,

(e caso seja possível)

Ergue-se na humidade do silêncio,

Entre beijos

E abraços aprisionados.

 

Almoça o sono

Uma sanduiche de medo,

Na companhia dos beijos alicerçados à montanha do Adeus…

Ergue-se de mim e, deita-se na sombra tristeza da cidade,

Todos os automóveis e todas as rodas dentadas do passado,

Morrem de tédio; quantos aos pássaros,

 

Construídos em papel,

Dançam as cantigas desta triste caligrafia,

Que sublime e infinita,

Foge em direcção ao rio.

Deixei de escrever

Nos lábios da floresta,

 

E começo a guardar retractos de sombras,

Que a memória vai apagando,

Dia após dia,

Noite após noite;

E assim, vivo neste habitáculo de espuma,

Esperando que dos pássaros regressem a mim os uivos apitos da saudade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 13/01/2022


10.01.22

Somos instantes

Palavras esquecidas na lápide da vida,

Somos poema,

Somos canção,

Somos instantes

Até no acto da despedida,

 

Somos destino,

Somos equação,

Somos palavras esquecidas

No uivo do foguetão,

Somos instantes,

Somos palavras perdidas.

 

Somos instantes,

Maré em revolução,

Somos palavra,

Somos equação,

Somos instantes,

Instantes da nação.

 

Somos verso.

Somos instantes na equação da vida.

Somos escada, alvorada,

Somos instantes

Na boca da madrugada;

Somos instantes do pequeno nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10/01/2022


09.01.22

Dentro deste silêncio

Que abraça os rochedos nocturnos da insónia

Habita uma flor de sémen

Que caminha na montanha

Sem perceber que a cada luar

Há uma nuvem de medo

Para cada mão de solidão

Na espera de um abraço.

 

Na espera de um beijo.

Uma flor de sémen

Cansada da viagem

Descendo ravinas

Até poisar junto ao mar;

Em cada flor de sémen,

Uma equação de saudade

Levita sobre as sanzalas da infância.

 

O desenho da cidade

No pavimento térreo

Quando caia a chuva

E se erguia na planície

O despertar da manhã.

Em cada flor de sémen

Uma simples vibração;

Até que os pássaros se despedem da Primavera.

 

 

Alijó, 09/01/2022

Francisco Luís Fontinha


04.01.22

Trazias no corpo

Os parêntesis rectos da insónia;

Das palavras às equações do sono,

Triste esta argamassa de cansaço,

Quando o espaço é uma sombra de nada,

Quando o nada…

É cansaço.

Canso-me porquê?

 

Tenho amor,

Tenho comida,

Tenho um tecto onde me esconder;

 

Pior do que eu

Vive a formiga,

Trabalha, não tem palavras para escrever,

Não tem flores para amar.

 

Pior do que eu,

Habitam os pássaros dentro mim,

Não se cansam de cantar,

Não têm medo de escrever,

 

Trazia no corpo

O silêncio de uma noite mal dormida,

O poema em devastação,

Oiço nas tuas palavras,

O mar em suicídio,

Como qualquer homem de coragem;

Porque, acredita, para te matares tens de ter muita coragem…

E felizmente, eu sou um covarde.

 

Um covarde que acredita na vida,

Um covarde com palavras para escrever,

Um covarde quase licenciado na arte de amar…

Na arte de adormecer.

 

E da arte crescem palavras,

Números e equações de sono,

Rolamentos,

Chumaceiras,

Correias e volantes,

E tantas outras doideiras.

 

(Pior do que eu

Vive a formiga,

Trabalha, não tem palavras para escrever,

Não tem flores para amar).

 

 

 

Alijó, 04/01/2022

Francisco Luís Fontinha


03.01.22

Um grama de saudade

Que adormece em mim

Caminhando terra adentro

Caminhos sem fim

Caminhos sem liberdade,

 

Um grama de saudade

Nas profundas lâminas de fogo

Da lareia ao inferno,

 

Um grama de saudade

Triste cansada amordaçada

Na chuva sem fim.

 

Um grama de saudade

Que caminha em mim,

 

Um grama de saudade

No solstício do medo;

Escondo-me

Ergo-me

Neste grama de saudade

Ao pedaço aconchego.

 

Um grama de saudade

À triste manhã sem raiz

Um grama de saudade

Liberta,

Liberta de mim.

 

Um grama de saudade

Na terra desalinhada

Profunda

Ou quase nada,

E neste grama de saudade,

Vejo minha pátria roubada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 03/01/2022


02.01.22

Das asas às palavras

Flutua esta vida em planície

Neste circo montado

Das cidades em lágrimas.

 

Das palavras selvagens

Estes apitos sem dormir,

Cansado desta viagem,

Das palavras ao rio;

 

O silêncio teu.

Das asas às palavras

Tenho um sorriso

Tenho um cantinho no céu.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 02/01/2022

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub