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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


21.10.21

A enxada pertencia-lhe; desde o seu bisavô, avô e pai, todos eles, receberam como herança, ainda muito meninos, a enxada do destino.

Da escola, pouco ou nada se recorda, sabe ler, pouco, contar até dez e nunca aprendeu a construir um barco em papel,

Pai, parti a ardósia!

E o pai de punho cerrado, imitando seu pai, avô do agora herdeiro da enxada do destino, descerrou-lhe um murro entre os olhos, que em vez de ver as estrelas nocturnas da pobreza,

Não, não vou trabalhar hoje.

A noite regressava quase sempre embriagada, o candeeiro a petróleo, para alguns, candeia de azeite, para outros, sempre que cantava lá fora a coruja, desmaiava e adormecia, até que madrugada dento

Está a levantar.

E até os piolhos, engrunhados com o medo, se levantavam para mais um dia de trabalho árduo nos terrenos do senhor abade.

Dormiam no mesmo chiqueiro, o pai, a mãe, a avó e mais seis irmãos, sempre famintos, todos mais novos do que ele.

Dos meus seis irmãos, três deles eram meninas. Carne muito apetecida para o senhor abade, que gostava de brincar aos papás e mamãs entre as sombras de milho, junto à eira; chamava-as uma a uma, benzia-se e benzia cada uma delas.

Quanto a nós, pouco tempo passávamos na escola, caminhávamos montanha acima, montanha abaixo e, sempre que uma das ovelhas do senhor abade aparecia manca, levávamos pancada até pedirmos perdão e fazia-nos prometer pelo coração do Senhor Jesus Cristo que nunca mais voltava a acontecer; mas o azar nunca vem só e dias depois, novamente tínhamos de rezar.

Era Outono, as folhas, das árvores, lentamente se despediam como se o poema se suicidasse, aos poucos, de encontro à madrugada. As pedras pertenciam às palavras envenenadas pela neblina, quando acordava o dia e já o gado ia de encontro ao pasto.

 

(Continua)

Ficção

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20/10/2021


24.11.15

Esta jangada que me transporta


Para os teus braços de alento


Sem água


Sem vento


Esta jangada morta


Na planície do pensamento


Espera o regresso da noite


Ergue-se no limiar da pobreza


Como se a beleza do corpo ardente


Fosse uma estrela em papel


Desfeita em pedacinhos


Na solidão fogueira…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


terça-feira, 24 de Novembro de 2015


05.11.14

O vigilante nocturno olha-me e alicerça-se aos meus braços,


sinto-lhe o esqueleto enferrujado a caminhar no meu peito,


ofegante,


alimenta-se dos meus velhos ossos com odor a madrugada sem luar,


peço-lhe um desejo...


e... e nada posso desejar,


o vigilante nocturno é como uma âncora de luz sobre as minhas pálpebras envergonhadas,


que as flores seduz...


e aos jardins oferece poemas,


e... e palavras de amar,


o amor enfurece as árvores sem folhas,


nuas como as gaivotas ao entardecer...


 


Depois acorda o silêncio vestido de cidade,


e eu sem saber o que fazer,


os comboios saltitam dentro dos carris desalinhados,


os comboios parecem corpos a arder...


há cinzas laminadas de sangue no sonífero poético,


alucinações desorganizadas em grande multidão,


uns que choram,


e outros... e outros que choram por prazer,


e sem perceberem...


há uma placa de zinco onde habita uma ponte,


nunca conheci o seu nome,


nunca vi um sorriso nas suas treliças,


 


Têm fome as estrelas de papel que brincam no tecto da minha aldeia,


lêem pedaços de nada e alguns cubos de sombra,


escrevem na incandescente memória o álcool sobejante da noite passada...


ressuscitam os outros vigilantes e demais arruaceiros sem gabardina,


e o meu corpo de aço... tomba sobre o ombro de um transeunte desconhecido,


a cidade é uma seara sem espigueiros,


desalojadas enxadas em luta conta a pobreza...


têm fome as estrelas e os planetas,


mendigos travestis correndo montanha abaixo,


e suicidam-se nos rochedos da infância...


triste, triste esta vontade de escrever...


sabendo que nem às pedras pertenço!


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 5 de Novembro de 2014


05.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Tristemente invadido pelas análises clínicas dos perfumados jardins das jangadas embebidas em cianeto e outras


Escadas?


Palavras, não o sei, não o consigo perceber, talvez este verso alimentado pela inveja encontre dos triângulos dos dias tristes as algas masturbadas dos rios envenenados pelo doce odor da paixão, do cinismo...


As escadas...


Nunca tive Sábados, e à Sexta-feira tínhamos Açorda de Marisco, pão, vinho e sobremesa,


A sério?


Tristemente invadido pelos machimbombos da insónia, escondia-me de ti, debaixo da mesa no quintal das bananeiras, mangueiras e outras … eiras


Carvalhais,


Sexta-feira,


Eles não sabiam que tínhamos almoçado, traziam-nos coisas estranhas, comíamos tardíssimo porque acreditávamos que havia fantasmas que roubavam a comida dos pobre, e as tuas mãos abraçavam-se à minha cintura rechuxuda, hirta... fria como a geada de hoje à noite, e dizias-me que todas as árvores são como os pássaros quando são velhos...


Não voam, não voam mas também não andam, não bebem... e também não pagam, e também,


As escadas?


Sexta-feira,


Tristemente...


Aquele beijo que ficou esquecido sobre a mesa-de-cabeceira, aquele sorriso impregnado na vidraça estilhaçada da janela com fotografia para o quelho, aquele abraço perdido dentro dos cobertores da inocência, aquele beijo, aqueles teus lábios em pétalas que o desejo sobejou das tardes perdidas, aqueles livros poeirentos abandonados na estante do corredor, aquele teu alicerçado seio sobre a minha solidão, claro... imortal na cama em tardes de neblina, imortal no jardim dos clandestinos Domingos...


Sábados à tarde,


Sexta-feira à noite,


Aquele beijo, aquela melodia adormecida sobre os abajures da melancolia, aquele dia com palavras de luar, aquela madrugada com talheres em prata, e corpos, corpos de nata...


E ouvíamos o beijo esquecido das gaivotas em cio, e ouvíamos os tristes carris da liberdade mergulharem nas montanhas de papel como lagartas e outros bichos, coitados


Procurando,


Coitados...


Caminhando..., o beijo esquecido das gaivotas em cio, procurando as cinzas do casebre abandonado depois de partirem todas as árvores do destino que acompanhavam as alegres palavras comedidas pelas mãos de giz... aquele divã onde te deitavas, e eu, eu sobre ti entranhava-me nos teus gemidos invisíveis dos xistos borboletas em voos de andorinha, coitados...


De nós...


Deles...


O beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro... imortal no jardim dos clandestinos


Domingos...


Sábados à tarde,


Sexta-feira à noite,


E não bebem, e não pagam, não dormem mas... também não sonham,


As escadas?


Tristemente tristes, tristemente... sós, sós, talvez só às vezes tristemente sós...


O beijo dilacerava-se, o beijo derretia-se como chocolate, a Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo pela módica quantia de


Os beijos pareciam migalhas de pão abandonadas sobre a mesa de ébano, cheirava a naftalina, a toalha pertencia aos objectos escondidos como as pratas que deixaram de existir desde eu criança, como as porcelanas e todo o marfim, tínhamos falido, e vivíamos como Príncipes imperfeitos vestidos de carrancudos criados sem ofensa para vossemecê meu grande amigo


As escadas?


E pela módica quantia de dois beijos e uma sexta-feira...


Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo a estrear, excepto o vinho, que esse, esse já era em quarta ou quinta mão,


Sexta-feira, amanhã, a estrear, o beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro, e eu, eu inventado Açordas de Marisco, sopa, pão... e o vinho, e o vinho parecendo água depois das tempestades de...


Sexta-feira, Sábado, e Sexta-feira temos


Açorda de Marisco... e vinho, e vinho, tristemente... só. Só.


(onde está a sobremesa, raios?)


 


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013



23.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Começávamos a alimentar, primeiro os porcos e as galinhas, depois eles, e nós, quase sempre, os últimos da ninhada, nunca chegava, parecia-nos pouco, ou nada, sentávamos-nos sobre o tanque do terreiro e olhávamos o silêncio repatriado das papoilas navegantes das caravelas em bolor, sentíamos a ondulação da tristeza a entranhar-se-nos como facas de um velho faquir no tronco da velha árvore do recreio,


Recordas-te ainda dos arvoredos infelizes que dormiam em nossa casa?


O velho faquir tinha uma mulher que costumava aparecer junto a nós, sempre de branco, talvez porque ela apenas vivia de noite, porque ela era filha da noite, poderia eu perguntar-me se ela era a minha mãe, pois eu


Adoro viver de noite, queria ser a noite sem interrupções, lanternas mágicas ou... cortinados com estampados de verniz e cansados nos arames verticais das ruas entupidas de lixo, mendigos, nós à procura de outros mendigos


O Velho?


As facas gemiam quando entravam na fina casca da madeira e não sabíamos que o velho faquir usava uma máscara de vidro para que ninguém o reconhecesse... ao que parece, ele


Eu sou o filho da mãe noite, eu sou a faca que rompe a madrugada, eu sou a roseira que quando chora


Dela brotam as pequenas gotículas de sangue que a saudade esconde na sombra das mangueiras dos quintais longínquos das esplanadas viradas para o mar, o filho da noite, eu, eu não sabia que existiam eléctricos, não sabia o significado de eléctrico... e dizia ao meu pai que o autocarro da carreira se apelidava de


Machimbombo,


Eu sou o filho da mãe noite, eu sou a faca que rompe a madrugada, eu sou a roseira que quando chora, ouvem-se-lhe os picos em aço inoxidável infestarem a velha árvore do recreio, rompíamos as calças, e usávamos joelheiras em napa para disfarçarmos os tentáculos e húmidos buracos da Primavera,


(começávamos a alimentar, primeiro os porcos e as galinhas, depois eles, e nós, quase sempre, os últimos da ninhada, nunca chegava, parecia-nos pouco, ou nada, sentávamos-nos sobre o tanque do terreiro e olhávamos o silêncio repatriado das papoilas navegantes das caravelas em bolor, sentíamos a ondulação da tristeza a entranhar-se-nos como facas de um velho faquir no tronco da velha árvore do recreio, e não sabíamos que havia dentro de nós uma fina tábua, quase invisível, recheada de prego, e durante a noite, o velho faquir...)


Adormecíamos acreditando que tínhamos o estômago cheiro, estávamos fartos, tão fartos que até inventamos uma sanzala em papel só nossa, a nossa sanzala de papel com pequenos charcos para durante a noite


Chapinávamos nos charcos da sanzala de papel inventada por eles e acreditávamos que éramos felizes assim,


Assim,


Como?


O machimbombo,


A chuinga estremecia-me a dentadura de marfim que tinha partido do jacaré em pau-preto, havia uma imagem que nunca esquecemos, os barcos zangados rompendo pela cidade como animais ferozes e envenenados pelas castanhas ondas que o abismo desenhava em nós, e tu, e eu,


Dormíamos,


Sou teu filho, tu, a noite que me acolhe, alimenta, afaga o cabelo,


Branco?


Não negro,


As roseiras?


Não às bolinhas,


Esqueci-me da cor do meu cabelo, esqueci-me que a minha mãe dorme enquanto eu, eu sonho, e invento palavras para te recordar dentro de uma lápide sem nome, idade, como o poema escrito e deixado sobre a mesa... depois de fazermos amor... voavam os campos de centeio que zumbiam em Carvalhais, olhávamos as espigas do doirado milho...


E não sabíamos que Machimbombo era autocarro da carreira...


 


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 23 de Novembro de 2013



04.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


sentíamos as toupeiras dos milhafres romperem as lágrimas tuas


das pequenas aldeias em flor


sentíamos os rios e riachos e ribeiras e ribeiros e o mar


o mar amar vagueando no peito de quem não dorme


sentíamos os telhados vergarem ao peso da claridade


e dos relógios envergonhados


sentíamos a escuridão da escravidão


debaixo das mesas do café com esplanadas entrelaçadas


havia abraços de palha


e mãos de hortaliça


tínhamos beijos na algibeira


e fumávamos livros de poesia


 


sentíamos os carros vagabundos trilharem a cidade dos Oceanos


víamos os barcos encalhados no silêncio da paixão


sabíamos que os candeeiros eram fictícios


e invisíveis como sempre o foram as volúpias pálpebras da sanzala encarnada


sentíamos o sangue cortejar os telhados em zinco


corredores da morte transformados em lojas de luxo


roupas angustiosas em corpos apodrecidos


mortos


sem sentido


e sentíamos o cacimbo mergulhar nos ossos da madrugada


rompiam as sombras com janelas de cristais de iodo...


e uma bala tracejante vomitava ais e uis junto a um charco de alegria


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013



01.02.13

Vivia numa caixa de sapatos tamanho trinta e cinco, com seis anos vi e calcei o meu primeiro par de botas, ouvia o meu pai


Temos de compra umas botas ao rapaz,


Questionava-me, perguntava-me,


O que são botas?


Começava o frio e eu estava habituado aos calções e às sandálias de couro, não tínhamos nada, ou pior, tínhamos tudo aquilo que muitos não tinham, mas como diz o OUTRO


AGUENTAMOS, ENTÃO NÃO AGUENTAMOS? Claro que aguentamos e felizmente estamos os três vivos e de boa saúde, eu sabia-o como sabia que seria difícil andar com umas botas pesadíssimas e depois de as descalçar os meus pequeninos pés pareciam pedaços de tecido, escuro, com bolinhas escuras, e eu pensava


Deve ser das noites de Inverno, pensava eu e hoje digo-o


E pensava muito bem, pois o Inverno realmente enrija-nos os ossos e alguns de nós ficamos mais despertos, outros, como eu, mais aparvalhado, e ainda outros, coitados dos outros


Moribundos como as geadas de Janeiro, passamos o Natal no interior da penumbra branca, esguia, solidamente como a neve suspensa na grade enferrujada da varanda com vista para a Praça, acordei cedo, corri desassossegadamente para a inventada chaminé e dava-me conta que nada existia dentro da bota que tinha deixado ficar sobre o fogão como sempre o tinha feito em Luanda (não como uma bota mas com um sapato), pensei


De certeza a causa mais provável é a pesadíssima bota, depois imaginei um senhor vestido de vermelho com barbas brancas, um pouco barrigudo, olhei para a inventada chaminé e nenhuma dificuldade encontrei para o dito senhor não me ter deixado alguma coisa, enfureci-me e mentalmente insultei-o, e chamei-lhe todos os nomes possíveis e imaginários, comecei e, Boi e terminei em filho da puta, até que um dos meus irmãos mais velhos me explicou


Não vês rapaz que ele ainda não tem a tua nova direcção, e confesso que não percebi, Direcção, que direcção? O que é uma direcção? E ele explicava-me pacientemente que era a minha nova morada e eu a chorar perguntava-lhe Porquê, Porque viemos, e se fosse hoje ele talvez me dissesse que o meu nome não constava da base de dados, mas eu estava ontem, e ontem eu só tinha uma folha de papel selado com vinte e cinco linhas, mas


Vou entregá-la a quem? Ontem não se podia reclamar de nada, como ia eu queixar-me do homem vestido de vermelho com barbas brancas e algo de barrigudo? Não podia,


Mas como diz o OUTRO


AGUENTAMOS, ENTÃO NÃO AGUENTAMOS?


Eu e os meus pais e os meus irmãos mais velhos e os nossos vizinhos e os vizinhos dos vizinhos,


Todos


Aguentamos e estamos vivos e de boa saúde.


 


(texto de ficção)


@Francisco Luís Fontinha


27.12.12

O cabelo minguava a cada fotografia a preto e branco no espelho do guarda-fato, os tios uns forretas de doutoramento abstracto e risíveis amargas glândulas das palavras ensonadas pela espuma do mar e de punhos cerrados, e as tias, beatas convictas nas calçadas embriagadas dos milagres impossíveis da ilha dos desejos, pensa


 


E não me adiantava pensar, porque com eles não ia longe e com elas, coitado de mim, queixa-se ele quando nos contava as anedóticas peripécias de uma infância desenhada a esquadro e régua, e às vezes, e às vezes,


 


Pensa, pensa nas coisas boas que a pobreza proporciona aos homens e às mulheres, e às crianças, e a deus, porque digamos que


 


Deus também será pobre?


 


Não sei, não sei, e às vezes


 


E eu pensava, nas clarabóias da crosta em bosta que os animais derramavam no alpendre com ventilação mecânica, iluminação natural, em néon com chapinhas de zinco suspensas nos cromados que diariamente a Marília acariciava, e nova vida, e uma placa de madeira prensada à porta de entrada


 


Vendem-se cromados acabadinhos de fritar, doida, ela subia à copa das árvores, e sem perceber que a gravidade, às vezes muito grave, gravíssimo


 


E no entanto fazia-o por prazer, não por loucura, segredava-me ela Eu não estou louca! Claro que não Marília, Claro que não, loucos


 


Deus também será pobre?


 


Não sei, não sei, e às vezes


 


Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim


 


Loucos e Loucas,


 


E eu?


 


Claro que não, Claro que não,


 


Piratas, tentáculos que desciam do alpendre, a fome vestida de tarde de verão, deitava-me junto à seara de trigo, pegava numa palhinha e metia-a na boca, imitava cigarros, e sonhava com aviões com olhos azuis, e sonhava com aviões com cabelos de alecrim, jasmim, cravos de sofrer que as rodas dentadas atropelavam pelos corredores da enfermaria


 


Não estou louca


 


Claro que não, Claro que não


 


Marília abre a mão está na hora das drageias, não sei, não sei, e às vezes


 


Não resistia ao chamamento dos pássaros quando poisados no peitoril guerreavam entre eles por minha causa, e percebia, e eu sabia que cada um deles


 


Eu


 


Eu levo-a a passear,


 


Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim


 


Loucos e Loucas,


 


E eu?


 


Claro que não, Claro que não,


 


E eles,


 


Loucos e Loucas,


 


Pegavam em mim, aos poucos começavam em batimentos fictícios de asas, e eu sentia


 


Sim diz, O que sentias Marília?


 


Sentia-me levitar, devagarinho, de milímetro em milímetro, e quando acordava estava sentada no telhado, cruzava as pernas e esperava


 


Sim diz, O que esperavas Marília?


 


Que alguém me resgatasse das garras loucas dos pássaros do jardim, e perguntava-me


 


Deus também será pobre?


 


Claro que não, Claro que não.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


29.11.12

a velha máquina de escrever sussurrava sílabas contra os vidros indefesos da janela com vista para o jardim, nua, a candeia zarolha e com um dos bracinhos engessados devido à estrondosa queda sobre o soalho sem tempo para escrever os ais e os uis no tecto da cozinha, nua, a candeia zarolha que comia as sílabas vomitadas pela velha máquina de escrever, comunista, ela, a máquina, fabricada na ex-URSS com a impressão a quente das inicias CCCP, das poucas caricias ouviam-se na lareira os estilhaços doentios do meu pai


 


- tem cuidado que as gajas


 


embriagado, sempre dentro do taparuer metálico onde escondia os cigarros e o álcool e em pequenas porções de saliva misturava na mão trémula pedacinhos de areia branca, snifava o açúcar desperdiçado nas chávenas do café e do chá e dizia que o excesso de açúcar


 


- tem cuidado com as gajas porque o excesso de açúcar provoca a diabetes e tem de ser snifado, se o engoles juntamente com o café ou com o leite, tem cuidado, com as gajas em voos sobre as oliveiras entre sombras e prostitutas do passeio com ardósias encarnadas e bâton labial, estavas linda,


 


hoje ouvi dizer que ia ser proibido ser louco, e que os loucos semeados nas jangadas de deus, iam deixar de serem loucos, por Decreto-Lei termine-se a loucura e a pobreza, felizmente pertenço aos dois e passarei a ser livre, Ouvia-o murmurar no quarto agarrado à porta do guarda-fato,


 


- está bem pai?


respondia-me que sim Na boa, mais feliz não posso, mas olha, tem cuidado com as gajas nascidas em Janeiro, as pessoas olham-te como se fosses um monstro porque és meu filho, pertences-me, tal como eu pertenço-lhes, nasci louco, irei morrer louco, e é tão lindo o mar quando desce do tecto, quando juntamente com a candeia zarolha me vêm visitar, dou-lhes um simplificado beijo cambaleado em palavras de merda, hoje não me apetece ver-te, hoje não me apetece falar-te, e no entanto, e no entanto gosto muito de ti,


 


e claro nada bem, não estava e nunca esteve bem, via-se quando se pegava na fotografia tirada momentos antes de começar a envelhecer, o cabelo fervilhava no cacimbo em camisola de alças e das barbas pergaminhos suores da chuva miudinha quando se ausentavam as gaivotas dos mastros moribundos, aos poucos começou a tropeçar na sombra das mangueiras, raramente sonhava, gritava pelo meu nome sem perceber que eu já não vivia ali, eu uma múmia enrolada nas páginas de uma lista telefónica, aproveitava para telefonar à Arminda, folheava a lista, nada, perdia-me completamente nas sombras das malditas mangueiras, tal como ele, desisti


 


- tem cuidado com as gajas porque o excesso de açúcar provoca a diabetes,


 


desisti de deambular pela cidade embrulhado em paginas de uma lista telefónica, folheava, folheava, e quando chegava ao ARM saltava para o BR, faltavam-me páginas, sempre, nunca percebi a ausências de algumas páginas que durante a minha vida desapareceram, umas em Angola, outras, outras em Lisboa, e outras..., entre parêntesis do vento loiro que às vezes beijava loucamente a candeia zarolha,


 


- nascidas em Janeiro, os destroços do mármores que alguns constroem sobre a sepultura da alegria, cuidado com elas, as gajas nascidas em Janeiro e com flores esdrúxulas na lapela, cuidado com as gajas com o coração de xisto e pedaços de socalco nos seios, Está bem pai?, e não estava, e nunca esteve desde que ouvia-o murmurar no quarto agarrado à porta do guarda-fato, olhava-se no espelho e do outro lado um palhaço com uma cabeça de xisto, e cuidado com as gajas, com elas, e pedaços de socalco nos seios, amanhece, é dia, a candeia transparente habita sobriamente no soalho da casa louca habitada por loucos, e por Decreto-Lei acabe-se com a loucura e com a pobreza, e serei livre como os pássaros que brincam nos plátanos das traseiras, as janelas sem grades, o almoço despido de drágeas, menino Francisco a mãozinha, coitado de mim, ausente, perdido entre páginas de uma lista telefónica, abro a mãozinha e o velho com a barba mergulhada no suor do capim grita-me FRANCISCO POR DESCRETO-LEI FOI BANIDA A LOUCURA E A PROBREZA, não acredito, é impossível, é verdade rapaz, e claro que não era verdade porque à minha volta existiam grades de finíssimos fios de luz, cambaleados os medos desenhados pela tua mão enquanto beijavas a candeia zarolha,


 


tão longe a tua mão de velho marinheiro sentado no cais imaginário dos barcos de esferovite, éramos novos, crianças, e era a primeira vez que víamos um barco com motor, e às voltas no tanque onde as mulheres passavam as tardes a pentear a roupa suja da semana, metias a mão na algibeira, tiravas duas pilhas, colocavas-as na parte traseira e ele desaparecia na neblina do sabão esbranquiçado que a pobreza construía nas tardes de Inverno, e ele


 


- tem cuidado que as gajas,


 


em círculos de revolta em revolta até pegares nele, retirares-lhe as duas pilhas e ele adormecia enquanto tu ias docemente encontrares-te com a candeia zarolha com os bracinhos engessados, nos lábios o bâton silábico das manhãs de ausência, cambaleados todos os desejos da infância, ao teu lado, o meu pai


 


- tem cuidado com as gajas nascidas em Janeiro,


 


porquê pai pergaminho rasurado embebido em fotografias completamente abandonadas no alpendre de madeira mutilada pelas balas transparentes da húmida vila transmontana, e sabia que a minha mãe


 


- a brincar às escondidas com uma criança que eu nunca conheci,


 


endoideceram as acácias e as amoreiras e todas as mangueiras que os meus olhos viram durante as tardes, porquê pai?


 


- FRANCISCO POR DESCRETO-LEI FOI BANIDA A LOUCURA E A PROBREZA,


 


e nunca mais voltamos a brincar com os barcos de esferovite.


 


(texto de ficção não revisto)


26.07.12

Entre os parêntesis da miserável vida que tenho


cultivo no livro das memórias palavras de incenso


e rosas vermelhas cansadas de que as olhem e desejem


cansadas como algumas mulheres


rosas para serem olhadas


e ficarem esquecidas numa jarra de vidro


ou de cristal


e a mulher é para ser manuseada e amada


como as tardes de primavera junto ao mar dos pontos de interrogação


dizem que sou louco


pobre


muito pobre


 


mas tenho um barco


e o mar é só meu


dizem


 


dizem que as rosas são lindas


dizem que sou louco


pobre


muito pobre


 


deixem as mulheres serem amadas


e manuseadas como as rosas vermelhas


 


e dizem


e têm medo de me mostrarem


e dizem


dizem que as rosas são lindas


dizem que sou louco


pobre


muito pobre


e por essa razão tenho de viver na clandestinidade...


 


e dizem


dizem que o texto termina no ponto final


(nos meus texto não coloco ponto final)


e dizem


dizem que nunca terminam


como as rosas que vivem dentro dos livros


e que roubei num jardim de Agosto


com os olhos de amêndoa


e os lábios de maré salgada


gostavas do mar


e das árvores


e dos pássaros do inverno


 


e dizias


e dizias que eu era pobre


muito pobre


tal como hoje


como ontem


e como amanhã o serei


sempre


sempre eternamente pobre


(fala baixinho para ninguém te ouvir... XIU...).

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