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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


24.05.17

Os dias passados


Esqueleticamente abraçados aos dias sofridos


Quando bem lá no alto das montanhas cansadas


Os dias argamassados aos dias coloridos…


 


Safados.


 


Os dias perdidos na esplanada do adeus


Quando sobre uma pobre mesa de sombra, um livro, voa nos dias premeditados


Por uma lâmina finíssima de luz…


Os dias entre dias,


Os dias encalhados nos petroleiros da fortuna…


Os dias revoltados


Com a forma circunflexa do sangue perfumado,


O dia apaixonado,


Ou coisa nenhuma…


Os dias as mãos e as mãos dos dias,


A forca dos dias desesperados


Numa árvore dispersa na alvorada,


Há dias assim,


Como hoje,


Dias de alecrim,


Dias de clarinete…


E assim,


Os dias dos relógios moribundos,


Meu Deus! Meu Deus, tantos mundos…


Com dias,


Sem dias,


Cem dias dispersados pelas tristes avenidas dos dias desalmados,


E eu, minha querida, por aqui… brincando com os teus dias…


Os dias sem melodia.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Maio de 2017


01.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


não tínhamos nome


perdemos-nos na idade enquanto poisava no tecto do desejo a saudade


inventávamos estórias com pequenos paus de fósforo


aqueles...


que sobejavam dos cigarros perdidos na madrugada


não dormíamos


e não tínhamos nada...


cama


roupa


ou comida


lavada


não tínhamos nome


(morada


idade


sexo


não éramos nada comparados com os tristes cortinados das alvoradas sem tempestade)


percebíamos nada de poesia


tínhamos medo da literatura


e durante a noite...


dormíamos embrulhados às personagens que tínhamos lido quando ainda existia em nós a tarde junto ao candeeiro cinzento do jardim nocturno dos abismos rochedos de néon


os sexos mergulhavam na ponte metálica das treliças mãos que o desejo deixava em nós...


calculávamos o momento fletor das nádegas tuas quando lá fora uma equação de tédio


sem nome como nós


também


perdia-se nas sanzalas dos olhos verdes


o medo absorvia-nos


e a morte aos poucos


comia-nos como come os marinheiros de ombros sombreados nos petroleiros do fantasma envidraçado...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 1 de Dezembro de 2013



31.12.12

Sábado, e uma casa abandonada, escura, fria, sábia e doce, sábado, ela vem buscar-me, pegar-me-ás sem que ele perceba o que é o amor, sem que tu percebas


A fina escória neblina que o soalho de vidro provoca em nós, mulheres, esposas sem marido e filhas de um Deus esquisito, às vezes, Ateu, outras vezes, malfadado, hirto, sujo, eu, quando te encontro em frente à rua onde vive a tua mãe, e tu


E eu sem que tu percebas as fotografias a preto e branco que dormem no álbum do teu pai, fotografias antigas, dos tempos de


E tu


Luanda, as gaivotas atravessavam a Baía e deitavam-se nas mãos dos mabecos enfurecidos pela escuridão das palavras mortas, murmuradas por cadáveres estonteantes, embriagados, às vezes, outras vezes


E tu


Desgovernada sem saber o que fazer, corrias pela cidade, batias às portas, e ninguém, ninguém dobre o zinco da noite a abraçar-te, ninguém para ti


Deita-te sobre mim, meu amor, e deitavam-se as nuvens sobre as mangueiras que os pássaros deixavam ficar nos quintais abandonados, deita-te sobre mim


Meu amor...


Ninguém para ti, ninguém para mim, de candeeiro em candeeiro, uma corda de aço prendia um petroleiro, homens maus com um chicote


Não me bata por favor, gritavas quando ele acendias os cigarros nas janelas da lareira, e que a morte nos trazia todas as noites nos finos cobertores que o inverno construía, e nós


Não sabíamos o que era o Inverno,


Imaginavas a neve como sendo areia dentro de uma caixa de sapatos, pesadíssimas botas mordiam-te os pés lilases de pétala amordaçada, e não sorrias, escondias-te no sótão, e choravas, e gritavas


Não gosto desta terra maldita, maldita extinta imunda, e


Adormecias agarrada a uma boneca de trapos que nasceu e cresceu no primeiro andar com janelas e vidros envelhecidos, alguns deles em perfeita decomposição, o cheiro imundo a vidro putrefacto, em pedaços, suspensos nos peitoris de madeira apodrecida, e suja


Repetição


Não gosto desta terra maldita, maldita extinta imunda, e


E suja


Minha amordaçada menina de porcelana,


Sábado,


E tu


Luanda, as gaivotas atravessavam a Baía e deitavam-se nas mãos dos mabecos enfurecidos pela escuridão das palavras mortas, murmuradas por cadáveres estonteantes, embriagados, às vezes, outras vezes, vezes a mais, aparecias em casa numa lástima, perdias as calças, perdias as mãos, perdias os braços, regressavas, entravas, não falavas, e deitavam-se elas sobre os muitos lençóis que o cacimbo deixava ficar pelas ruas, outras vezes, às vezes, um carro zumbia, rosnava entre cães e mabecos e cavalos que tinham fugido de um carrossel estacionado junto aos Coqueiros, mostravas-me os treinos de hóquei em patins, inserias a moeda na ranhura


E os barcos começam em círculos longos voos sobre os telhados poeirentos que pertenciam às nádegas húmidas do ciume, e as fotografias do teu pai


A Preto e branco, mortas, esquecidas no fundo de um caixote de madeira, em viés um seta pintada apressadamente e letras que mal se percebia


CUIDADO PARA CIMA,


E um tipo com os dentes virados para o céu, e esperava, CUIDADO PARA CIMA


A Preto e branco, mortas, esquecidas no fundo de um caixote de madeira, em viés um seta pintada apressadamente e letras que mal se percebia que sábado, e uma casa abandonada, escura, fria, sábia e doce, sábado, ela vem buscar-me, pegar-me-ás sem que ele perceba o que é o amor, sem que tu percebas, a fina escória neblina que o soalho de vidro provoca em nós, mulheres, esposas sem marido e filhas de um Deus esquisito, às vezes, Ateu, outras vezes, malfadado, hirto, sujo, eu, quando te encontro em frente à rua onde vive a tua mãe, e tu, e eu sem que tu percebas as fotografias a preto e branco que dormem no álbum do teu pai, fotografias antigas, dos tempos de


CUIDADO PARA CIMA,


Repetição


Não gosto desta terra maldita, maldita extinta imunda, e


E suja


Minha amordaçada menina de porcelana,


Sábado,


E tu


Luanda,


E eu


Não Luanda.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


03.06.11

Uma simples côdea de pão, um cordel suspenso no pescoço, três cigarros na algibeira, e Tony carrancudo percorria as feiras do povoado, pegado à sua sombra um rafeiro embrulhava-se com os silêncios do caminho para o rio, e das giestas acabadas de acordar sorriam palavras que se ouviam nas encostas dos seios dela, íngremes, bofetadas na face do peito, as coxas presas no cais, e o corpo flutuava como se fosse uma gotinha de algodão,


 


- Foi bom


 


Maravilhoso. Foi bom, maravilhoso, foi bom mas a tarde aos poucos extingue-se na algibeira, e dos três cigarros nada, por entre as paredes encardidas, sumiram-se nas fendas de um sorriso, e talvez tenham passado a parede, e do outro lado, do outro lado o Zé a convencer-me que fixando um ponto na parede, fixando, fixando… passava a parede,


 


- E os meus cigarros do outro lado à espera das loucuras do Zé, e o Zé em finíssimos fios de seda emagrecia, tornava-se invisível, e quando chamava por ele, Zé, onde anda o Zé, o Zé no compartimento contíguo a olhar o rio e a contar os petroleiros rumo ao infinito, e o infinito encalhado entre duas rectas paralelas, os comboios deitados de barriga para o ar,


 


E os seios dela estacionados no meu peito pesavam e agarravam-se a mim como o musgo de pinheiros ranhosos no recreio da escola, fazia-me comichão no corpo, e a cada pontapé numa bola um vidro que se finava, quando é o funeral, logo pelas seis junto ao quiosque, e o quiosque durante a noite mudava de dormitório, uma simples côdea de pão, um cordel suspenso no pescoço, três cigarros na algibeira,


 


- Foi bom


 


Maravilhoso. Em cada gemido uma pétala que se espetava junto ao pescoço, dois dentes marcados, e uma rosa entranhava-se no umbigo, e no púbis um plátano agarrava-se às gaivotas que no final do dia se confundiam com serpentes abraçadas ao mastro de um veleiro pasmado à espera da maré,


 


Maravilhoso.


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


3 de Junho de 2011


Alijó

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