Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


11.04.19

Toquem os sinos e anunciem a minha partida.


Cada charco no pavimento é um poema sem nome,


Metáforas…


As palavras são pequenas gotículas do teu suor,


O alimento preferido da paixão,


E dos livros, e dos violinos, vomitam-se melódicos sons que abraçam socalcos.


Pareço um louco transeunte desorganizado, sem apeadeiro,


E, no entanto, atraco a minha barcaça às tuas mãos de fada.


(enquanto escrevo, oiço Doors)


Toquem, toquem todos os sinos que eu vou fugir,


Levo a minha barcaça,


E em terras longínquas vou procurar o amor…


Nada levo.


Apenas preciso de cigarros, cigarros e cachimbos.


Cada charco no pavimento é um poema sem nome,


Uma alma penada,


(como se eu acreditasse em almas, muto menos, penadas)


Palerma.


Palhaço.


O circo regressa sempre na Páscoa…


Espero-te, aqui, sentado, nesta pedra de xisto invisível.


E quando eu morrer, não quero fato e gravata e sapatos pontiagudos,


Não, não quero flores do teu jardim,


Não, não quero a presença do Senhor Abade…


Quero ir só.


Como sempre fui…


Só.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


11/04/2019


30.07.17

Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,


Um raio de luz desce e poisa-lhe na mão amachucada pela alvorada,


O silêncio frio da despedida…


Quando o Tejo se esconde na madrugada,


Os barcos da solidão, cansados de esperar pela partida,


Uma casa abandonada, recheada de flores adormecidas,


Canções de amor, palavras esquecidas…


Não mão do escritor,


Sempre tive sonhos,


Viver sobre o mar da esperança,


Levantar bem alto o levante sofrido da escuridão…


Quando criança,


Pegava num pedaço de papel…


E escrevia-te, não percebendo que não existias…


Amanhã nova caminhada,


Amanhã nova estória…


Ensanguentada,


Liberta da memória,


E dos pilares de areia da saudade,


Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,


Vive-se vivendo na tentativa de partir…


E nada deixar sobre a mesa… sobre a mesa sofrida.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Julho de 2017


24.07.17

Parto feliz.


Deixo tudo nas tuas mãos, os velhos papeis, os livros… e a minha sombra.


Para onde vou, nada disso necessito…, apenas preciso de paz.


A fuga, depois da alvorada… para além do rio,


Uma caravela com velas de sonho,


Um pedacinho de solidão…


E lá vou eu, eu, feliz…


Parto feliz.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Julho de 2017


12.06.17

Na arte de sofrer,


Quando dentro de mim arde um corpo esquelético, e sem o saber,


Ele ilumina a noite que se cansou de crescer,


 


Tenho nas raízes solares a vontade de partir…


Caminhar naquele rio absorvente


Que engole todos os corações,


Tenho nas mãos o sangue valente


Das marés e dos canhões…


Que me obrigam a sorrir,


 


Na arte de sofrer,


Deixo para ti o prazer…


O prazer de escrever,


 


No prazer de morrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12 de Junho de 2017


28.05.17

As cordas da saudade são invisíveis nos meus braços,


Oiço o apito dos barcos apedrejados pela maré quando o meu corpo envelhece no teu peito,


Sou fraco, sou fraco como uma simples folha amarrotada de papel encharcado de lágrimas,


E lá longe, os livros entranham-se no meu olhar,


Dançam nas minhas mãos as cansadas palavras da vaidade,


Oiço, oiço a pobreza das ruas em flor,


Me mato, parto em direcção ao rio subterrâneo da solidão.


Desço ao poço do sofrimento como uma gaivota envenenada…


Bebe, bebe sem a noção do tempo embriagado pelo sangue,


E escreve uma carta de despedida,


Sinto o desejo enjoado pela ondulação das nuvens prateadas,


E esqueço-me da tua ausência…


Adormeço em ti,


Adormeço como um sonâmbulo ruivo construído de barro nauseabundo do silêncio,


Ergo-me diante do espelho,


Vejo um cadáver sem nome,


Perdi-me,


Envelheci nos olhos das flores abraçadas pela noite,


Envelheci nos olhos das pedras dos alicerces da penumbra,


Os barcos nas minhas veias encostados ao coração…


Eu criança,


E brinco com as algemas de alvenaria da brincadeira,


Como um puto deambulando pelas ruas, livre como um pássaro,


Lindo como o pôr-do-sol,


Quando os amigos se despedem da minha sombra,


Sinto no meu caixão o mar da saudade invisível nos meus braços…


E caminho sobre a areia adormecida da limpidez dos beijos que um caderno quadriculado guarda na algibeira do remoto silêncio das ruinas…


E o medo envelhece a tristeza da partida,


Sempre se perde nos sonhos escoriados das palavras deitadas na fogueira,


Há na tua morte um sentimento de esquecimento,


Uma palavra estonteante que se alicerça às tuas coxas…


E no caixão dorme o meu olhar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 28 de Maio de 2017

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub