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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


21.04.22

Onde poisam as andorinhas

Do meu país!

Onde brincam os poetas

Do meu País!

Onde habitam

As pedras do meu País!

 

Onde estão os sonhos do meu País!

 

E bebo deste rio

A saudade do meu País,

E alicerço no meu olhar

A revolta do meu País,

 

E sonho com as madrugadas

Do meu País…

 

Todos os dias!

A todas as horas!

 

Onde poisam as andorinhas

Do meu país,

Que no papel amarrotado

Escrevo ao meu País,

E enquanto pinto este rio,

Uma enxada,

Despede-se do meu País;

Com fome. Com sede.

 

E sonho com as madrugadas

Do meu País…

E sonho com os rios

Do meu País.

 

E esta andorinha que não voa,

Porque no meu País

Roubaram as madrugadas,

Porque no meu País,

Roubaram as palavras,

Porque no meu país já somos poucos… ou quase nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21/04/2022


30.05.13

Significo nada


como uma pomba sem pátria


significo muito pouco ou quase nada


quando das ilhargas manhãs de Primavera


oiço as vozes camufladas


por nuvens e gaivotas acorrentadas,


 


Significo apenas um número com dígitos assombrados


significo quase nada no jardim das plumas árvores vestidas em purpúrea


entre migalhas de porcelana


e beijos inseminados nas ventosas gargantas da montanha branca


significo... não o acredito depois de ver desaparecer os muros em cartão


que separavam o meu quintal dos tristes fins de tarde,


 


Contávamos os barcos com letras pintadas a oiro


e bandeiras em pano de alecrim


gritávamos como os loucos entre janelas com grande ferrosas


e pequenos arbustos de asas de algodão...


significo nada


como uma pomba tristemente abandonada num País sem Pátria.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


29.05.12




abre-se a brecha entre o sol e a lua


uma bolacha de trigo


mergulha no leite com café


sem cigarros


abre-se em ti o murmurar de gemidos


na aldeia escondida das sandálias sem primavera


 


secreta


a vagina da ditadura


 


abre-se


a brecha de uma bolacha de trigo


entre o sol e a lua


na rua


à tua


secreta


vagina


em literatura


 


à tua


na rua


secreta


a vagina de amargura


 


à tua


à tua a rua


sem nome


secreta


ditadura


 


abrem-se


entre o sol e a lua


vagas paras espiões desempregados


ex-drogados


ex-deputados


sem nome


à janela


da vagina secreta


da ditadura


 


na aldeia escondida das sandálias sem primavera


a vagina secreta


da amargura


na rua da ditadura.



12.05.12

vi o vento partir


da esplanada na tarde de Agosto


fingi sorrir


sorrir sem gosto,


 


vi barcos atracados nos muros da insónia


cabeças sem estrelas


línguas afiadas às paredes do inferno,


 


vi crianças sem pão


sem pátria sem memória


vi o vento partir,


ouvi o silêncio de uma nação


com história


a resistir,


 


a mentir,


 


(Vi o vento partir


da esplanada na tarde de Agosto


fingi sorrir


sorrir sem gosto),


 


a fugir


o povo mastigado


cansado


o povo a fingir


sossegado


a mentir


vi soldados


de punho cerrado


antes de acordar a alvorada


gargantas cortadas em pedaços


sem braços


a madrugada.


05.04.12


 


E eu cobri-o com o linho lençol das páginas de um livro, retirei todas as palavras e semeei-as nas entranhas da terra, chovia agrestemente nas mãos esbranquiçadas da fome que alimentavam a madrugada, e eu cobri-o


- De que me servem os livros, de que me serve o dia e a noite e os círculos suspensos no infinito da geometria desvairada dos olhos, de que me serve a janela virada para o mar se eu, se eu não consigo ultrapassar a janela e abraçar o mar,


E eu cobri-o com o linho lençol das páginas de um livro, ele desarrumado na tempestade longínqua da cidade, perdido dentro da montanha antes de nascer o sol, De que me servem os livros, o dia e a noite, a trigonometria em paixões avassaladoras nas flores da primavera e uma mulher tropeça numa pétala, Tão lindas as rosas, e os crisântemos tão lindos nos cravos de abril e de todos os meses do ano,


- Vendem-se corpos em fatias de pão, ouvem-se nas claraboias do silêncio os gemidos de um menino deixado estacionado num vão de escada, ele chora e procura o cão de infância,


Qual infância Pergunto-lhe antes de lhe poisar a mão sobre o linho lençol das páginas de um livro, A infância que se transformou em noite?, e tudo, Tudo estórias que ouvi da boca de um louco,


Do not cover, sabendo eu que a janela que me separa do dia nunca mais se abrirá, como as rosas depois de morrerem, ou, ou como a lua nas mãos da Cinderela, Qual infância questionava-se a boca do louco entre as grades imaginárias da enfermaria, e hoje tenho um medicamento novo e adormeço suavemente como as garças pintadas na paisagem, as grades de aço travestem os meus olhos verdes de papel de embrulho, um cachucho saltita no avental do rapazinho sem sonhos, e sei que na algibeira esconde religiosamente um cordel e um pião de madeira, e sobre o soalho transporta os pesadíssimos socos,


- É fodido ser pobre e não ter sonhos…,


Mais fodio é morrer antes de nascer Da boca do louco as palavras que semeei nas entranhas da terra, e hoje crescem poemas mortos, esqueletos sem sílabas, ruas sem saída, miséria, fome, alegria…


Somos todos felizes neste país!!!!!


- É fodido ser pobre e não ter sonhos…,


Quando o linho lençol de um livro desaparece na neblina da insónia, quando os olhos do rapazinho e os lábios do menino são sequestrados pela maré, quando todo o mar finge não ser mar, e a terra engole todas as palavras e todos os sonhos…


(que louco vai cobrir um radiador a óleo?)


 


(texto de ficção não revisto)


05.08.11

País de bananinhas


E amendoins


Que brincam nas carteirinhas


Atiram papeizinhos e afins,


 


Brincam com o telefone


E gozam o povo desesperado,


 


Pais de bananinhas


E amendoins


Este povo tem fome


Este povo está cansado.


28.07.11

Tentei de tudo


E não consigo


Descalcei-me no rio


E galguei socalcos


 


Subi montanhas


Desci ao inferno


Escondi-me nas sombras


E aterrei no xisto em migalhas


 


Tentei de tudo


Fiz peito ao vento


Atirei pedras às estrelas


E nas nuvens adormeci


 


Tentei de tudo


Mas o meu corpo de barco enferrujado


Teima em ancorar-se na esquina da rua


À espera que uma alma bondosa de sucateiro


 


O venha desmantelar…


Tentei de tudo


Senhores vejam só


Até rastejar pelo chão fui capaz


 


E afinal não adianta tentar


Não vale a pena lutar


Tentei de tudo


E para quê?


 


Escreves bem, dizem alguns…


És inteligente, dizem outras...


Aos primeiros que metam a escrita cu acima


E às segundas que introduzam a inteligência na vagina


 


Se não és filho de pai rico


Se não lambes botas


Ou se não tens cartão do PS ou PSD


Estás completamente fodido…


 


E acredita


A cultura é uma merda que não serve para nada


O homem quer-se inculto


A cuspir no chão e a dizer palavrão…


21.05.11

Só preciso das tuas mãos de algodão


E dos teus lábios húmidos da manhã


Não preciso de bens matérias


Não preciso de nada obrigado


 


Preciso que me deixem em paz


Sossegado


 


Não preciso de dinheiro


Para ter o que preciso


E preciso do mar


E não preciso de juízo…


 


Porque neste País à beira mar ancorado


É preciso não ser maluco


Neste País tudo doido


Começando por quem nos tem governado


 


E este País adormecido


Dependente do xanax


Submetido ao prozac…


Só preciso das tuas mãos de algodão


 


E dos teus lábios húmidos da manhã


Não preciso de nada obrigado


Obrigado senhores governantes


Por eu ser tão feliz


 


Por eu ser tão desgraçado…


 


 


Luís Fontinha


21 de Maio de 2011


Alijó


06.04.11

Achas que as livrarias físicas vão acabar? Nua sentada no divã, ela descrevia círculos na pequeníssima luz que iluminava a praia, nas ondas habitava o silêncio de uma noite sem luar, e dentro dela, dentro dela garças que se abraçam, se amam, se desejam, dentro dela a luz em finíssimos fios de seda, a pele clara e no dedo um anel não de verdade, um anel de brincadeira, junto ao soalho conchas em movimento rectilíneo e uniformemente acelerado, Newton em cuecas passeando no quintal, Einstein em contas de cabeça percorrendo cada milímetro quadrado da parede onde estava pendurado um reles crucifixo de um reles trapezista de circo, maricas, homem de bons princípios, e dos princípios, ela lembrava-se de Arquimedes enfiado na banheira a dar lustre aos colhões, e os colhões em voz alta,


- Achas que as livrarias físicas vão acabar?


Meu deus, eu morria.


Se as livrarias físicas acabassem, se deixasse de haver livros em papel eu suicidava-me, pior que isto só os pacotes do FMI, pior que isto só o circo sem trapezistas, não trapezistas, pior que isto só o circo sem palhaços, não palhaços, não crucifixos pendurados de cabeça para baixo nas paredes da sombra, pior que isto só os charlatães da banha da cobra que há anos nos andam a enganar e a enganar novamente nos querem…


- Se as livrarias físicas acabassem,


Uma tragédia que nos assola diz ela,


- nua sentada no divã, ela descrevia círculos na pequeníssima luz que iluminava a praia, nas ondas habitava o silêncio de uma noite sem luar, na maré estantes de gaivotas engasgadas de livros, às vezes um sorriso de tosse alisava a madrugada, e o divã adormecia nas carícias da pele dela, de mão poisada na almofada da dor, e da dor,


Achas que as livrarias físicas vão acabar?


Meu deus, eu morria.


Se as livrarias físicas acabassem, se deixasse de haver livros em papel eu suicidava-me, escondia-me dentro do nada, agarrava-me a uma carruagem do TGV e pimba, pimba daqui para fora, saltava a fronteira rumo a outro país não de mentira, rumo a um país de verdade…


Achas que as livrarias físicas vão acabar?


- pimba daqui para fora rumo a um país de verdade… não um país de mentira, não um país de charlatães, um país de verdade…


 


 


 


(texto de ficção)


FLRF


6 de Abril de 2011


Alijó

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