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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


25.06.23

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Não preciso de mais ninguém…

Não preciso do sol.

Não preciso da luz…

Não preciso da noite,

Tão pouco das estrelas,

E dos filhos da noite…

E do desejo das estrelas…

Não preciso de mais ninguém…

Não preciso do mar…

Tão pouco…

Da palavra de alguém…

Não preciso de mais ninguém

Enquanto dentro de mim

Crescer o pôr-do-sol…

 

 

 

25/06/2023


14.01.23

Adão olha para Deus, acaricia o cabelo de Eva e responde à questão colocada por Deus; e se para Eva tinha sido maravilhoso, para Adão

Um poema mergulhado no sono, onde as palavras são facas afiadas na boca do luar, uma mão que desce da alvorada e poisa nas margens do rio.

Deus, sorriu.

Convém dizer que Deus já tinha criado a nespereira, a pedra, o homem e a mulher e a vagina, e claro, a maquineta de fotocópias e os cigarros.

Faltava criar o mar, os peixes, todas as restantes árvores e arbustos, os pássaros, a literatura e a poesia.

Adão em silêncio, pega na mão de Eva e leva-a até ao rio (o autor alerta que os rios já tinham sido criados por Deus), senta-se sobre a pedra onde tinha passado a noite anterior a fotocopiar a vagina e num pequeno sussurro diz a Eva,

Sabes meu amor, agora sei o significado do desejo e do prazer e da paixão e do amor.

Eva olha-o e responde-lhe que também ela, também ela tinha descoberto o desejo e a alegria de ser desejada; dois corpos que se desejam e se perdem na neblina de um olhar.

Enquanto Deus olhava pôr-do-sol desenhado nos olhos de Eva, dá-se conta que ambos tinha acabado de descobrir a poesia.

A poesia das pequenas gotículas que crescem nos corpos quando em desejo, estes, se transforma num só e o corpo deixa de ser corpo, o corpo veste-se de poema, grita, geme e ama.

 

 

 

Alijó, 14/01/2023

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


23.07.17

Batem à porta,


Não vou abrir…


Nada espero, ninguém me espera…


Neste fim de tarde junto à janela.


Sentado.


Não me levanto,


Olho o relógio e são dezoito horas,


Tempo necessário para ir à doca e abraçar-me ao barco dos teus braços,


Batem à porta.


O silêncio constrói-se em mim com uma cabana na montanha,


Sinto o mar dentro do meu corpo indefeso,


Quando regressa o pôr-do-sol…


Batem à porta,


Não vou abrir…


Nada espero…


A não ser ficar aqui sentado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 23 de Julho de 2017


01.03.15

Não quero ser como tu,


uma cratera de palavras,


invisíveis,


e mortas,


não,


não quero pertencer às tuas mãos,


não,


não quero poisar no teu peito envenenado pelo silêncio de pedra,


e às vezes, sem o saber, escondo-me na tua sombra,


como um rio amachucado,


dentro de uma folha em papel...


como um rio engasgado nos rochedos da melancolia,


hoje, Domingo, Março, primeiro dia...


de quê?


da tristeza?


ou... ou do inferno entardecer vestido de cidade...


ruas,


automóveis enlouquecidos correndo até ao mar,


avenidas e ruelas,


Março,


primeiro dia...


não,


não quero ser como tu...


um calendário pendurado numa das quatro paredes do abismo,


sem coração,


sem pálpebras de nada quando acendes a luz e a literatura voa nos nossos corpos,


somos dois pontos esquecidos no espaço,


um buraco negro,


corremos em direcção à estrela mais próxima...


e acordam as cinco primeiras canções das estátuas de pedra,


há no teu olhar as sete imagens da seara do sono,


e dos sonhos vejo os transeuntes procurando a sombra do pôr-do-sol,


estás triste, hoje,


primeiro dia,


Março,


e sem o saber... hoje é Domingo...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 1 de Março de 2015


23.12.14

(recordações de 1987/1988)


 


 


Deixei de te ouvir,


cessaram os lamentos dos teus lábios


que brincavam nos finais de tarde junto ao Tejo,


desenhávamos barcos no sorriso do pôr-do-sol...


e havia sempre uma bandeira poisada nos nossos ombros de granito,


deixei de te ouvir,


encostei a cabeça ao teu peito...


e juro... e juro que desde então oiço todas as manhãs o mar dentro de mim.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 23 de Dezembro de 2014


01.09.14

Pediram-me silêncios...


e eu, nas nuvens amarguradas da tempestade da insónia,


desenhei... gritos,


transformei abraços em pedaços de madeira,


escrevi beijos em bandejas com flores grisalhas,


tinham cabelos cinzentos,


os homens das esplanadas inventadas,


depois... depois sentei-me no pôr-do-sol,


chamei a mim a tristeza do fim de tarde,


peguei num cigarro quase moribundo... e vi-o morrer nos meus dedos,


sentia-lhe os últimos desejos,


sabia que pouco tempo depois morreria como um desprezado,


como tantos homens morrem,


como tantas crianças nascem...


como tantos cinzeiros esquecidos num roseiral,


pediram-me silêncios...


e pintei nas pratas enroladas do invisível desassossego,


bolhas castanhas com odor a calafrios...


o corpo emagrecido rangia,


os alicerces destruíam-se enquanto o vento se escondia numa locomotiva abandonada,


sem percebermos que nunca existiu um ponto fixo de chegada,


havia lanternas com dentes de marfim,


tínhamos no sótão um guindaste de brincar,


abríamos a janela,


e puxávamos o mar,


só para nós...


até que uma fina película de cacimbo comeu-nos as bolhas castanhas...


o corpo começou a arder,


os braços ancoravam-se aos indolentes amanheceres...


vi uma luz que vivia dentro de uma caixa de vidro,


acenou-me... e no tecto começaram a nascer gaivotas,


ouvíamos os apitos dos barcos de papel,


e nenhum marinheiro se atreveu a resgatar-nos dos gritos das bolhas castanhas...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014


14.08.14

Uma casinha habitada por pequeníssimas lâminas de papel,


um coração de cacimbo voando sobre as sanzalas com telhados de insónia,


um homem, um poeta..., e a amante do poeta,


um corpo pendurado na preia-mar,


que espera o regresso do sonâmbulo cansaço da madrugada,


o silêncio disfarçado de mendigo passeando-se pelas ruas da cidade,


uma janela que nunca, que nunca se abre,


um poema nas mãos da clarabóia com braços de luar,


uma casinha,


e lâminas de papel,


um sorriso, um desejo... e três círculos de luz nos lábios do pôr-do-sol,


o sonho...


 


As paisagens pigmentadas nas paredes da casinha,


as palavras acorrentadas no estendal poético,


uma eira deserta, uma eira de vinil girando na noite...


e o sonho,


e o lugar que me falta alcançar antes de morrer,


a escola morta, a escola um amontoado de escombros,


cadernos apodrecidos,


quadriculados momentos que ficaram sob a árvore de sisal,


um menino brincando com um velho “chapelhudo”...


e um triciclo com o assento em madeira,


o mar, o mar do Mussulo em tracejadas rotações de amar,


no sonho, no sonho de voar...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

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