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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


11.06.23

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Da minha janela,

Da minha janela deixei de ver o mar;

Não me importo…

Aos poucos comecei a odiar o mar…

E odeio a minha janela.

 

Da minha janela,

Da minha janela ouvia os pássaros,

Hoje,

Hoje nem sequer tenho uma janela…

Hoje nem sequer sei o que são pássaros.

 

E hoje,

Hoje nem sequer me tenho a mim.

Da minha janela recebia o dia,

Umas vezes vestido de poesia…

Outras vezes,

Muitas vezes…

Abraçado à madrugada,

Hoje,

Hoje nem recebo o dia,

E tão pouco… sei o que é a madrugada,

E a minha poesia é uma merda,

Tal como a minha janela…

São pedacinhos de nada,

São pedacinhos de tudo nas mãos de uma caravela.

 

Da minha janela,

Coitada da minha janela…

Tal como eu, um tolo perdido na alvorada…

E tenho pena dela,

Da minha janela,

E tenho pena de mim,

De mim…

Sem janela com vista para o mar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

11/06/2023


20.02.23

Se sonhas,

Não sonhes,

Atira pedras às árvores e aos pássaros,

Aprisiona o sol na tua mão…

 

Se sonhas,

Não o faças,

 

Dorme dentro do quadrado,

Entre o silêncio do luar

E a pasmaceira das tardes junto ao mar,

 

O mar é uma merda,

Água,

Barcos em aflitas gargalhadas,

Depois…

Depois trazem a noite,

E com a noite,

A porcaria das estrelas,

Poeira cósmica,

Lágrimas de néon,

Pó,

 

Se sonhas,

Não sonhes,

Atira pedras às árvores e aos pássaros,

Aprisiona o sol na tua mão…

Cruza os braços,

Cerra os olhos;

Depois…

Desliga o interruptor que tens dentro de ti...

 

 

 

Alijó, 20/02/2023

Francisco Luís Fontinha


11.02.23

Uma cegonha de luz poisa no teu doce olhar,
Como Cristo suspenso na cruz,
Da cruz onde pincela de lágrimas os teus lábios de mar,

 

E se o teu Deus o permitir,

Quando acordarem as manhãs ensonadas,

As tuas manhãs ensonadas,

Todos os pássaros vão fingir,

Todos os pássaros vão voar…

Voar em tuas madrugadas.

 

 

Alijó, 11/02/2023

Francisco Luís Fontinha


28.01.23

Traz o sono a esta lareira,

Traz nos teus lábios os incêndios da madrugada,

Traz as palavras para eu semear…

Semear nesta terra queimada,

 

Traz a tua mão,

A mão que o meu rosto vai acariciar,

Traz a lua

E a filha da lua

E o deslumbrante luar,

 

Traz-me os livros que escrevi,

Para escrever nos teus lábios,

Traz o sono a esta lareira

E todos os poemas,

E todas as estrelas

E todas as savanas,

 

Traz-me todos os rios,

Todos os mares…

Traz-me as árvores

E os pássaros de cantar,

Traz-me a chuva,

E faz com que as nuvens parem de chorar.

 

 

 

 

Alijó, 28/01/2023

Francisco Luís Fontinha


28.12.22

Amado menino

Que nos calções voava sobre o mar

Tinha asas em prata

E corria nas calçadas sem tino

Um dia deixou-se encantar

Com os silêncios de uma cubata,

 

Deitava-se no alegre capim

Na companhia de seu amigo chapelhudo amado

E em pequenos círculos pelo jardim

Desenhava pássaros sem passado,

 

E de amado

A menino mimado

Este filho desejado

Por um sorriso foi alvejado,

 

Amado eu menino da saudade de Luanda

Entre calções e roupas de Inverno

E palavras em demanda

Este pobre menino com olhar de Inferno…

No inferno onde ninguém manda,

 

E este amado menino

Que nos calções voava sobre o mar

Hoje é um barco de brincar

E uma gaivota sem destino,

 

E este eu menino…

Espera que o mar

O venha buscar

E lhe diga baixinho

Olha meu menino

Não tenhas medo de amar!

 

 

 

 

Alijó, 28/12/2022

Francisco Luís Fontinha


25.12.22

Um dia

Qualquer dia

Ninguém vai saber

O que é um orgasmo,

Quando dois corpos

Se fundem nas lágrimas de uma estrela

E uma pequena sombra do luar

Entra no peito

(centro de massa)

E um silêncio de prazer

Explode nas nuvens do desejo.

 

O orgasmo

Quando os dedos tocam docemente nas páginas de um livro

Quando a mão acaricia a capa de um livro

E dentro do corpo daquele que toca e acaricia

Uma tempestade de estrelas acorda

E um lençol de sémen é lançado contra a madrugada.

 

O orgasmo de quando o poeta termina o poema

E quando o escritor termina o texto

E todas as personagens do texto

Movem-se com ovelhas no prado

E do prado,

O orgasmo do poema

O desejo do poema

O beijo

O orgasmo do beijo

Sobre uma cama de amêndoas doces.

 

O orgasmo de quando uma criança pergunta à mãe

Mãe como cantavam os pássaros

Quando ligavas o interruptor da manhã

E uma melodia poética entrava pela janela

E tu afagavas-me o cabelo,

 

O orgasmo de quando um menino pergunta ao pai

Pai como brincavam as acácias da tua infância

E me levavas a ver os barcos

E dos meus olhos um infinito orgasmo de pequenos gemidos

Eram lançados ao mar.

 

E do mar

Regressavam a mim as finas lâminas que só o prazer consegue fazer acreditar

E uma janela vaginal voa sobre as esplanadas da inocência

O sol poisava sobre os corpos fundidos em aço prazer

E às vezes o laminado silêncio da noite

Pareciam pássaros envenenados

Como abelhas perdidas no mel.

 

O orgasmo quando uma mulher abre a janela

E olha o mar

Como se fosse o seu primeiro beijo.

 

O orgasmo quando o luar brinca sobre a noite

Comendo palavras contidas num pequeno cartuxo de medo

E sem aviso nem agrado;

O grito da tua boca

Quando o gemido inventa o prazer.

 

 

 

 

 

Alijó, 25/12/2022

Francisco Luís Fontinha


11.12.22

Deste jardim de flores envenenadas

Onde oiço as pequenas sílabas da insónia

E vêm a mim as envergonhadas estrelas

Deste jardim sem sono

Onde semeio as lágrimas do luar

E planto a solidão do mar.

 

Neste jardim

Abandonado

Onde habita uma ponte invisível

Que me levará ao teu olhar.

 

Neste jardim de medo

Sem janelas

Sem casas

Sem ruas para caminhar

E deste jardim onde tenho pássaros em silêncio

E tenho o vento a soprar;

Neste jardim sem barcos…

Os meus barcos de brincar.

 

 

 

 

 

Alijó, 11/12/2022

Francisco Luís Fontinha

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